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Discriminação pode prejudicar o desenvolvimento da criança

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Por Fernando Hawad 

olivia-tijubasque-texto_464Se você perguntar para qualquer fã de basquete quem é o ex-jogador Carlos Henrique, que disputou os Jogos Olímpicos de Atlanta 1996 pela seleção brasileira, a resposta provavelmente será: “não faço a menor ideia.” Agora, experimente falar de Olívia. Aí, sim! Todo mundo conhece. Com 2,11m de altura, o ala-pivô fez sucesso no basquete nacional, conquistando títulos e chegando ao ápice da carreira, que foi defender as cores do Brasil em uma Olimpíada. 

Mas o que poucos sabem é que o apelido que marcou a sua trajetória no esporte incomodava o atleta. Desde criança, ele se destacava pela altura. Sempre muito maior que os colegas da mesma idade, Carlos Henrique passou a ser discriminado, vítima de bullying. Começaram as piadinhas, até que um dia, por conta de seu físico esguio, alguém o chamou de Olívia Palito, a mulher do Popeye no clássico desenho animado que marcou época. 

“A pior coisa é você falar para a pessoa: não quero isso! Aí que pegou mesmo. Porque eu falava que não gostava desse apelido, pedia para parar, mas não teve jeito. O meu treinador naquela época, aos 13 anos, falou que não ia mais me chamar assim, mas quando chegava no jogo, ele me chamava de Carlos, Henrique, Carlos Henrique e nada. Quando chamava justamente de Olívia, aí eu olhava. Então, acabou ficando”, conta o simpático ex-jogador, que se aposentou no início de 2013.

Hoje, Olívia fala sobre o assunto sem qualquer tipo de constrangimento. Mas o bullying acabou prejudicando a sua infância. Ele custou a superar a adversidade. “Até meus 17, 18 anos, eu evitava muito sair. Só que um belo dia, comecei a tirar sarro também. O pessoal vinha implicar comigo por causa da altura e eu falava: não sou grande, sou do tamanho normal, vocês que não cresceram (risos). Mas eu sofri muito com isso. Me prejudicou bastante”, afirma.

Em 2012, quando ainda atuava profissionalmente, Olívia foi o convidado da primeira ação do Memória Olímpica Social, em uma escola municipal na zona oeste do Rio de Janeiro. Ele contou seu caso para as crianças, que depois se divertiram batendo uma bola com o gigante. 

Após encerrar sua carreira de atleta, o ex-jogador da seleção começou um trabalho social em Joinville (SC), dando aulas de basquete para crianças de 8 a 14 anos. Mais importante do que ensinar a modalidade aos garotos é prepará-los para a vida. Olívia compartilha a sua experiência com os alunos e sempre que observa algum caso de bullying, interfere para que a situação não se repita. 

 

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Olívia fala sobre bullying com as crianças Escola Municipal Marechal Pedro Cavalcanti, em Paciência, no Rio

 

“Dentro das minhas turmas tem aquele que é gordinho, aquele que não tem muita técnica, tem aquele que acha que é bom e pode tirar sarro com o outro. Aí, acontecem casos de discriminação. Quando você faz o joguinho de cinco contra cinco, sempre os bons são escolhidos primeiro e os que não têm muita técnica ficam para o final. Tem que saber lidar com isso. O que eu faço é pegar quem não tem muita técnica para escolher o time. Já tive dois alunos que falaram que não viriam mais porque estavam sendo chamados de ruim pelos colegas. Então, tem que saber trabalhar com esse lado psicológico para a criança não desestimular,” explica o agora professor Olívia, empolgado com a nova função. 

“Sempre no meu primeiro contato com os alunos, eu sento com a turma e falo que não vai ter aula de basquete, vai ser um dia para conhecer o professor. Então, eu conto a minha história, o que eu passei na infância, para eles se soltarem. Muitos chegam ali acanhados, não querem falar nada. Mas a partir do momento que eu conto a história, eles falam: ‘sério, professor, aconteceu isso mesmo?’ Eu falo que sim, aconteceu, e hoje eu estou aqui, feliz da vida com vocês”, completa o ex-jogador.

 

 

Após casos recorrentes, colégio resolve agir de forma educativa contra o bullying

 

Quem já sofreu bullying, como Olívia, sabe que esquecer as agressões psicológicas não é fácil. A palavra, que vem da língua inglesa, é adotada para definir ameaças, assédios e intimidações proferidas normalmente por um grupo contra uma determinada pessoa. Infelizmente é muito comum em escolas. Por isso, a educadora Cláudia Sonco, professora do Colégio de Aplicação da Uerj (CAP), no Rio de Janeiro, resolveu fazer algo para conscientizar os alunos a respeito deste grave problema.

Após realizar um estudo sobre as ocorrências dos casos de bullying, ela constatou que a situação do CAP não era muito diferente em relação aos demais colégios. “Toda vez que a gente tinha um caso, trabalhava aquela situação. Chamava os envolvidos e a família. Quando parecia que tinha resolvido, rolava outro caso, ainda pior”, conta. 

Por isso, Cláudia criou o projeto Bullying no CAP Uerj. “Então, a gente percebeu que não tinha pernas para cuidar de um por um, porque não ia solucionar o problema como um todo. Foi aí que criamos o projeto para trabalhar a conscientização da comunidade a respeito do bullying. Criamos também a Semana de Combate ao Bullying, que é um momento em que a temática aparece na escola toda”, explica a professora.

04_11_2014_webdoor_texto2_450_01De acordo com Cláudia Sonco, o bullying tem a particularidade de ser uma forma de preconceito entre pessoas de uma mesma condição. “Diferente do pai que violenta o filho, do professor que persegue o aluno, no bullying são todos alunos e geralmente de faixas etárias próximas. A prática é que vai fazer com que a hierarquia se crie entre eles. São todos igualmente alunos, todos no mesmo patamar. Mas quando um grupo começa a discriminar alguém, eles ganham poder, autoridade. Ou seja, é construída uma hierarquia”, salienta a educadora.

Segundo a professora, a maioria dos alunos já consegue identificar o problema. O trabalho de Cláudia é tentar entender porque alguém é alvo, porque alguém pratica e porque alguém dá corda. “Já teve situação que os alunos foram fazendo todos os links. ‘Ah, então eu posso ajudar a acabar com o bullying. É só eu não rir e não incentivar.’ É o que a gente chama de trabalho no atacado, que consiste em pegar esse aluno, que não é nem praticante e nem alvo, mas que sendo a platéia, faz o praticante achar que vale a pena continuar fazendo.”

As oficinas promovidas no CAP-Uerj são fundamentais para os dois lados. Através da troca de ideias, os professores entendem o surgimento de muitos casos e os alunos passam a repensar algumas atitudes. “Teve um caso em que um menino pediu a palavra e disse que quando entrou para a escola era muito amigo de um colega de classe, mas quando percebeu que o amigo tinha virado alvo, achou que se continuasse ao lado dele, também seria alvo, então virou praticante. É importante a gente mexer com isso para mostrar que eles podem mudar o comportamento. Muitas vezes eles falam como se fosse inevitável. O fulano fez isso com o beltrano. É inevitável rir, achar graça. Mas será que é inevitável mesmo?”, questiona a professora Cláudia, que compreende a importância de saber diferenciar bullying de uma simples brincadeira. 

“Se todos os indivíduos gostam, estão topando as regras do jogo, se trata de uma brincadeira. Mas se tem alguém está sendo sujeitado, aí deixa de ser. A gente estabelece alguns critérios com os alunos, porque senão fica parecendo que todo mundo que trabalha com bullying é chato, não deixa brincar. Claro que pode brincar, mas tem que ter cuidado para não magoar e nem ferir ninguém”, completa.

Desde cedo é preciso saber respeitar as diferenças. Por isso, o Esporte Essencial endossa a campanha de combate a qualquer tipo de discriminação. Bullying? Tô fora!


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