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Uma solução para a crise da água

09/04/2015

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Para combater a crise hídrica, que tal transformar água de esgoto em água potável?

O Esporte Essencial conversou com um dos maiores especialistas do Brasil na área. Projeto para isso já existe. Falta apenas ser colocado em prática.

 

Por Fernando Hawad

O que seria do mundo sem água? Bom, dá para dizer que simplesmente não haveria vida. Nestes primeiros meses de 2015, o Brasil vem enfrentando uma grande crise hídrica, especialmente no estado mais populoso do país, São Paulo. Nesse momento difícil, é importante que o povo tenha conscientização. Economizar é a palavra chave para diminuir os efeitos da escassez. Mas apenas reduzir o gasto de água em casa não é garantia de um futuro tranquilo. A reutilização ou reuso da água de esgoto pode ser o caminho para que o problema não se agrave nos próximos anos.

 

Brasil, o país do desperdício

 

A falta de chuva foi colocada como um dos principais motivos para a crise hídrica chegar de forma assustadora neste começo de ano. De fato, São Pedro não colaborou muito nos últimos meses, especialmente em janeiro. Mas não dá para botar toda a culpa na água que não caiu do céu. Há um sério entrave que vai muito além: a água que não é aproveitada. 

agua-sp-690x377_430Para se ter uma ideia, o desperdício de água tratada no Brasil chegou a quase 40% em 2014. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera aceitável o índice de 15%. Ou seja, para chegar ao número estabelecido pela OMS, o Brasil precisa reduzir em mais da metade o volume de água jogada fora. Países como o Reino Unido e os Estados Unidos, por exemplo, conseguem manter o índice em 15%, enquanto o Japão faz melhor ainda, ficando abaixo dos 10%.

A Organização das Nações Unidas (ONU) criticou os governos brasileiros pela falta de planejamento diante da questão da água. Relatora da entidade, a portuguesa Catarina de Albuquerque falou à Folha de S. Paulo: "Temos de nos planejar em tempos de abundância para os tempos de escassez. [São Paulo] tinha que ter combatido as perdas de água".

Agora, em tempos de crise, a solução imediata pode ser o racionamento. Alguns governos estudam adotar essa medida, casos de Minas Gerais e São Paulo. No Rio de Janeiro, a principal fonte do Estado, o Rio Paraíba do Sul, vem sofrendo duros golpes. Dois reservatórios que abastecem o Rio chegaram ao volume morto e o Governo ainda não encontrou um plano eficaz de combate à escassez. 

 

 

Reuso de água: o caminho para a solução

 

“O problema é o seguinte: aqui se faz a gestão da crise, não tem planejamento. Eles esperam a crise para correr atrás da solução. Eu tenho uma proposta para, além do abastecimento de água, fazer também o saneamento”, afirma Ivanildo Hespanhol, diretor do Centro Internacional de Referência em Reúso de Água, o CIRRA.

ivanildo-hespanhol-arq-pessoal_325O projeto de Hespanhol, que é professor de hidrologia da USP, pode representar a grande saída para a crise hídrica nos próximos anos: o reuso da água que vem do esgoto. De acordo com os especialistas, depender apenas da chuva não vai ser suficiente para solucionar o problema. Já no esgoto, há uma quantidade de água que daria para abastecer milhões de famílias. 

Segundo Hespanhol, o modelo de trazer água por meio de aquedutos está ultrapassado, além de representar um grande custo, que seria suficiente para viabilizar o reaproveitamento. “Tem duas adutoras com custo de 3,4 milhões de reais para trazer dez metros cúbicos por segundo, cinco cada uma. Com esse dinheiro, poderíamos fazer reuso aqui em São Paulo. Quando você traz água nova, de fora, dez metros cúbicos por segundo de adutora, gera oito metros cúbicos por segundo de esgoto que não tem onde tratar. Ou seja, esse esgoto gerado vai aumentar a poluição aqui em São Paulo. Vai cair no Rio Tietê, no Pinheiros...”, explica o professor, que acredita que a prática de trazer água de longe se encaminha para o fim, muito por causa do aquecimento global. “Dentro de pouco tempo, nós não vamos conseguir transferir água de uma bacia para outra”, completa.

“Londres limpou o Tâmisa e Paris limpou o Sena no final do século XVIII, início século XIX. Nós estamos em pleno século XXI com essa sujeira na cidade.”

Na região de São Paulo, existem cinco estações que tratam 16 metros cúbicos por segundo de água residual. A cidade produz 68 metros cúbicos por segundo, ou seja, não são aproveitados 52 metros cúbicos, que acabam indo para os rios e aumentando a poluição. No plano elaborado pelo professor Hespanhol, nos primeiros cinco anos, uma melhoria nas estações de tratamento seria realizada, com sistema de membrana de ultrafiltração. “Só instalando o sistema de membrana, sem construção civil, sem concreto, sem nada, poderia mais do que dobrar a vazão de operação. Passando de 16 metros cúbicos por segundo, para 35”, esclarece o diretor do CIRRA, que explica ainda que, por meio de membrana de ultrafiltração, a água tratada ganha mais qualidade, podendo ser levada para os reservatórios. O professor salienta que o custo para colocar este método em prática é inferior ao que é gasto com as adutoras. O Governo de São Paulo fez um orçamento de 3,5 bilhões de reais em um conjunto de oito obras para enfrentar a crise, incluindo a construção de novos reservatórios. De acordo com Hespanhol, por um valor muito menor é possível colocar em prática este projeto de reuso.

Após os cinco anos previstos para reaproveitar a água residual, tirando dos esgotos e levando até os reservatórios, os cinco anos seguintes seriam destinados ao que o professor chama de reuso potável direto. “Complementar o sistema das estações que já foram modificadas com métodos avançados de tratamento, para produzir, na própria estação, água potável. Esta água seria coletada diretamente na rede de distribuição. Isso também é logístico. Não precisaria fazer outra rede para distribuir a água”, afirma Hespanhol.

O projeto visa ao longo prazo. Ao todo, o planejamento é de 20 anos. Nos dez primeiros, como vimos, o objetivo é transformar água de esgoto em água potável. Depois, nos dez anos seguintes, a ideia é limpar os rios da cidade de São Paulo. Segundo Ivanildo Hespanhol, já há tecnologia para isso. “Londres limpou o Tâmisa e Paris limpou o Sena no final do século XVIII, início século XIX. Nós estamos em pleno século XXI com essa sujeira na cidade.” 

 

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Hoje, o Rio Sena é um dos locais mais procurados por turistas e residentes de Paris durante o verão

 

De acordo com o próprio professor, ele aborda a questão do reuso há 40 anos. Mas parece, finalmente, estar otimista em mudanças, porque a possibilidade tem sido considerada para contornar a crise hídrica. Acadêmico da USP, com larga experiência na área de hidrologia, ele acredita que o único ponto desfavorável ao reaproveitamento da água de esgoto é a percepção popular negativa. “A população pode pensar: ‘nós estamos tomando água que era esgoto’. Os países que adotaram esse método conseguiram contornar isso com educação ambiental, palestras comunitárias, propagandas pelo rádio, pela televisão. Assim, conseguiram mudar a opinião e foi algo que teve receptividade”, completa.


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