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Memória Olímpica

Maria Lenk

marialenk_360MARIA LENK, A PRIMEIRA HEROÍNA OLÍMPICA BRASILEIRA

 

Em 1932, ano dos Jogos da 10ª Olimpíada, em Los Angeles, nos Estados Unidos, o Brasil passava por duas revoluções importantes que se destacaram em sua história. A primeira acontecia em sua região mais rica, o estado de São Paulo. Foi o ano do maior confronto militar do século XX em todo o território nacional: a Revolução de 1932 ou Revolução Constituinte. 

A outra revolução tinha as mulheres no papel principal, reivindicando seus direitos de cidadãs com direito ao voto, dentro de uma revolução de costumes que havia se iniciado na década de 1920, tendo a Europa e os Estados Unidos como modelos. Havia também muito preconceito quanto à participação das mulheres em atividades esportivas, principalmente na natação, que exigia trajes que não eram recomendáveis às moças ditas “de família” da época, educadas para o casamento e para cumprirem obrigações sociais. Foi exatamente dentro deste contexto de turbulências sociais, desafiando o ‘status-quo’ que o Brasil incluiu uma nadadora adolescente de 17 anos como a primeira atleta brasileira numa edição dos Jogos Olímpicos. Maria Lenk foi representar o Brasil nos Jogos de Los Angeles e se tornou também a primeira sul-americana a participar de Jogos Olímpicos.

Nascida em Sant’Anna, São Paulo, a 15 de janeiro de 1915, Maria Emma Hulda Lenk, era filha dos alemães Rosa e Paul Lenk, que imigraram da pequena cidade de Glauchau, na Saxônia, para o Brasil em 1912. Ela teve uma irmã gêmea, Hertha, que faleceu pouco depois de completar o primeiro ano de vida. Depois nasceram Ernesto, campeão brasileiro de basquete, e Sieglinde, também campeã e recordista de natação.

Maria Lenk se deu tão bem na natação que aos 15 anos disputou sua primeira competição no Clube Esperia (2 de fevereiro de 1930). A partir daí não mais parou. Seus resultados excepcionais em competições permitiram avaliar por que ela foi escolhida por unanimidade para representar o Brasil nos Jogos Olímpicos de 1932 em Los Angeles. Maria Lenk despontou para a natação e para a fama como uma das maiores nadadoras do Brasil de todos os tempos e se transformou na primeira heroína olímpica brasileira.

Maria Lenk não conquistou medalhas olímpicas nos Jogos de 1932. Em 1936, chegou às semifinais dos 200m nado de peito. A não conquista da tão sonhada medalha de ouro não ocorreu nessas duas edições dos Jogos das quais ela participou, especialmente, de acordo com ela própria, devido à falta dos equipamentos e instalações necessárias que permitiriam treinamento dos atletas a bordo dos navios que os transportaram, além do cansaço da longa viagem e da nutrição inadequada. 

Maria Lenk é considerada, no entanto, a pioneira da natação feminina moderna, sendo responsável pela introdução do nado borboleta ou butterfly, quando nadou nos Jogos de Berlim em 1936, na prova de nado de peito. Foi então retratada pela imprensa alemã como sendo a primeira mulher a nadar este estilo numa competição olímpica. 

Na preparação para os Jogos Olímpicos de Tóquio, que ocorreriam em 1940, Maria Lenk quebrou dois recordes mundiais individuais nos 200m e 400m de peito: o de 200m teve o tempo de 2min56s90 na piscina do Fluminense em novembro de 1939 e o de 400m ocorreu em outubro, com o tempo de 6min15s80 na piscina do Botafogo. Maria Lenk foi a primeira e única brasileira a quebrar dois recordes mundiais. 

Os Jogos Olímpicos de Tóquio não se realizaram por causa da 2ª Guerra Mundial (1939-1945), o que lhe causou grande frustração, especialmente porque estava em sua melhor forma, sendo a grande favorita a conquistar a primeira medalha de ouro olímpica para mulheres brasileiras em esportes individuais. Isso somente foi conseguido 68 anos depois, nos Jogos Olímpicos de Pequim, com Maurren Maggi, no salto em distância. 

Entretanto, após 1940, apesar de não mais competir em Jogos Olímpicos, Maria Lenk nunca parou de nadar. Continuou competindo gloriosamente ao redor do planeta numa cruzada, segundo ela, contra a velhice e servindo de exemplo para todos nós. Conquistou diversos recordes mundiais de masters, e entrou para o Hall da Fama da Federação Internacional de Natação (FINA) em 1988, quando foi homenageada com o Top Ten da entidade máxima do esporte por ser uma dos dez melhores nadadores master do mundo entre homens e mulheres. 

Maria Lenk veio a participar ao final da década de 1970 de um movimento de nadadores acima de 25 anos de idade, que acarretou na criação da categoria máster, para nadadores mais velhos. O primeiro torneio aconteceu na Nova Zelândia em 1982, e, mais uma vez, Maria Lenk foi a única representante do Brasil. 

No campeonato mundial da categoria 85-90 anos, realizado em agosto de 2000, ela trouxe de Munique cinco medalhas de ouro nas modalidades de 100m peito, 200m livre, 200m costas, 200m medley e 400m livre. Foi nesse campeonato que ela recebeu o apelido de “Mark Spitz da terceira idade”. Este era o nome do nadador americano que também havia conquistado sete medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Munique, na Alemanha, em 1972.

Além desses, no final de 2005, na categoria de 90 a 94 anos, nossa valente nadadora foi dona de três recordes mundiais do nado de peito: 50 metros (1m25s91), 100m (3m12s88) e 200m (6m57s76). 

Fora das piscinas, Maria Lenk formou-se na primeira turma feminina da Escola Superior de Educação Física, em São Paulo, em 1938, sendo convidada a ingressar no corpo docente da Escola Nacional de Educação Física e Esportes da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro), que ela ajudou a fundar em 1942. Trabalhou como professora e chegou a diretora. Depois de 32 anos de serviços ao país e ao esporte brasileiro, Maria Lenk recebeu o título de Professora Emérita e se aposentou. 

Tornou-se a primeira mulher a fazer parte do Conselho Nacional de Desportos-CND, e foi responsável por diversas modificações na legislação da Educação Física em âmbito escolar. O casamento com um cidadão americano e a constituição da família (dois filhos) nunca a afastaram do trabalho. 

Maria Lenk sempre ressaltou a necessidade que havia de equacionar os treinos, os estudos e o trabalho; as leis do amadorismo, que a obrigaram a abandonar o esporte competitivo ao optar pelo magistério da Educação Física; os preconceitos da sociedade em relação às mulheres atletas, provenientes de fora do ambiente esportivo; e o incentivo de alguns jornalistas ao ingresso das mulheres no esporte.

Em 2001, Maria Lenk e Ademar Ferreira da Silva receberam uma comenda do Comitê Olímpico Internacional.

Em 2003, após três anos de pesquisas, lançou o livro “Longevidade e Esporte”, que mostra os benefícios trazidos pela prática de esportes. Antes deste, ela já havia publicado vários livros, entre eles, “Braçadas e Abraços” (1986), “Natação Olímpica” (1966), “Organização de Educação Física e Desportos” (1943),  “Natação” (1942). 

Em 13 de janeiro de 2007, a prefeitura do Rio de Janeiro publicou decreto do executivo municipal dando o nome de Maria Lenk ao Parque Aquático do Jogos Pan-americanos de 2007, mas ela não chegou a inaugurá-lo, pois veio a falecer  aos 92 anos de idade, vítima de um aneurisma cerebral, que a surpreendeu na piscina do Flamengo em 16 de abril de 2007.

Foto: Divulgação


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