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Yane Marques (Pentatlo Moderno)

27/11/2012
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yane-podio-londres-divulgao_575Superando obstáculos, Yane Marques fez história em um esporte de pouca visibilidade


Por Katryn Dias e Fernando Hawad

No último dia de competições dos Jogos Olímpicos de Londres, enquanto os olhos de todos os brasileiros estavam voltados para as finais do vôlei, uma pernambucana determinada, nascida em Afogados de Ingazeiras, uma cidade do sertão do estado, a 377 km e 5h de carro da capital, surpreendeu o Brasil e o mundo com a conquista de uma bela, especial e inédita medalha olímpica de bronze no pentatlo moderno. 

Sargento do Exército, Yane Marques é o grande nome deste esporte que envolve esgrima, natação, hipismo, tiro esportivo e corrida (estes dois últimos combinados em uma única prova). Bronze na Olimpíada, ouro nos Jogos Pan-americanos de 2007, ouro por equipes e prata individual nos Jogos Mundiais Militares em 2011, ouro individual e por equipes no Campeonato Pan-americano de Pentatlo Moderno e prata nos Jogos Pan-americanos de Guadalajara, em 2011, Yane ainda luta contra a falta de apoio financeiro e a pouca estrutura encontrada no Brasil para a prática do pentatlo.  

Esporte Essencial: Você começou na natação. Como surgiu o interesse pelo pentatlo e como foi a transição de um esporte para o outro?

"Eu fui para Londres com um objetivo: queria muito fazer o que eu vinha apresentando nos treinos. Sabia que estava muito forte, muito preparada, física e psicologicamente. Eu queria fazer o melhor que eu pudesse, o resultado seria consequência"

Yane Marques: O meu interesse pelo pentatlo aconteceu por acaso. Em 2003, foi fundada a Federação aqui em Recife e eu fui convidada a conhecer. Nessa época, eu já tinha feito uma prova de biatlo, que era natação e corrida, e depois fui conhecer o esporte e gostei muito do pentatlo. Uma das características que me atraiu é a diversidade das provas. Até para treinar é melhor. É um esporte menos cansativo psicologicamente, porque você intercala concentrações muito diferentes ao decorrer da semana. Não é como, por exemplo, a natação, que era piscina de manhã e piscina de tarde.

EE: E como você divide o seu treinamento?

YM: Normalmente, eu treino três provas por dia. Às vezes quatro, mas quase nunca cinco. Durante a semana, eu nado de três a quatro vezes, monto duas vezes, corro todos os dias, às vezes junto com o tiro... E além disso, eu faço musculação, tenho um acompanhamento fisioterapêutico e um psicólogo. 

EE: Até pouco tempo o pentatlo era um esporte quase desconhecido no Brasil. Com as suas conquistas, especialmente a medalha de bronze em Londres, muita gente passou a se interessar pela modalidade. Como um jovem, que queira praticar pentatlo, pode começar? Existem escolinhas e clubes que ensinam a modalidade? 

YM: Esse é um problema. O esporte precisa ser difundido, nós precisamos buscar o interesse por parte das crianças e dos jovens, mas infelizmente a gente ainda não oferece uma oportunidade bacana para que isso aconteça. Existe, sim, aqui em Recife uma escolinha que as crianças podem fazer, que é o Salesiano. No Rio, também tem um projeto de iniciação, mas é só isso. Então, o pentatlo hoje existe de fato em três estados: Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Em São Paulo são alguns poucos atletas que treinam por conta própria, já no Rio e no Recife o número é maior e a estrutura é um pouco melhor. Apesar disso, as três melhores atletas aqui de Recife, que sou eu, a Priscila [Oliveira] e a Larissa [Lellys], somos militares e utilizamos as instalações do Exército. Nosso técnico também é militar, então o nosso treinamento é um pouco a parte do treino da criançada e do pessoal que está começando.

yanemarques_divulgao_cbpm-texto_450_01EE: Para você, qual é a maior dificuldade enfrentada para difundir o pentatlo?

YM: Olha, o pentatlo, infelizmente, é um esporte um pouco dispendioso. E outra dificuldade que a gente está vencendo é a questão do conhecimento mesmo. Por não ser um esporte muito tradicional no Brasil, as pessoas muitas vezes desconhecem. As pessoas que praticam o pentatlo hoje são atletas que vivem do esporte, que treinam e sobrevivem disso. Então, não tem hoje uma pessoa que faça por hobby ou por lazer. Não é como falar jogar uma bola à noite ou um vôleizinho depois do trabalho. E eu acho que está numa ascendência nesse sentido, mas ainda tem muito por fazer. Uma das coisas que falta é a estrutura para quem quiser poder treinar.

EE: Você acha que o seu bronze em Londres pode mudar a história do pentatlo brasileiro, trazendo mais retorno de mídia para o esporte, mais visibilidade, mais patrocínios e formando mais atletas de ponta?

YM: Na verdade isso já está acontecendo. Essa maior visibilidade é fato. E seria extremamente gratificante se depois dessa medalha o número de crianças e jovens que buscam o pentatlo aumentasse. Eu acho que material humano tem, e muito.

EE: Para muitos, seu resultado em Londres foi surpreendente, mas quem estava acompanhando seu desempenho nas competições importantes durante o ano sabia que a chance de medalha era real. Quando acabou o hipismo você liderava a competição, empatada com a lituana Laura Asadauskaite, que acabou levando o ouro. Naquele momento, indo para a última prova (corrida e tiro), você chegou a pensar fortemente no ouro ou a preocupação maior era assegurar qualquer medalha?

YM: Isso mesmo, quem me acompanhava sabia que eu estava ali entre as 15 atletas com chances reais de subir no pódio. Mas quem acompanha também sabe que a lituana Laura Asadauskaite é uma atleta com um histórico de corrida surpreendente. Ela larga em 15º e chega em segundo, ela corre muito. Então era quase uma certeza que nós tínhamos ali na largada que, apesar de estar largando junto, ela seria a campeã olímpica. Claro que tudo podia acontecer, mas diante do que vinha sendo apresentado, era quase impossível ela não ganhar.

E atrás de mim, até 12ª colocada, a diferença era de apenas 17 segundos, uma diferença muito pequena. E eram todas excelentes corredoras. A corrida não é a minha melhor prova, mas em Londres eu apresentei uma corrida muito boa. Na realidade, nas três ou quatro competições anteriores eu já vinha apresentando uma corrida muito boa, porque a gente fez um trabalho direcionado. E foi uma corrida que eu consegui me defender. Eu fiquei a dois, três segundos da prata, mas também fiquei a dois, três segundos do quarto lugar. Então, ter conseguido segurar aquela medalha, aquela colocação foi muito bom. Acho que foi uma prova taticamente bem dividida, mas eu estava preparada fisicamente.

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EE: Houve algum momento em Londres que você sentiu que estava muito perto de fazer história? A ficha demorou para cair?

YM: Não. A ficha só cai quando acaba mesmo, porque nós estamos tão acostumados a lidar com as incógnitas do pentatlo. Até a equitação você nem cria esperança, vai fazendo o seu trabalho. A gente sabe que na equitação acabamos lidando um pouco com o fator sorte, né. Depende muito do cavalo que você pega, e acontecem imprevistos. Em Londres, muitos atletas caíram, muitos atletas foram muito mal, outros foram muito bem. Então não dá para prever. De fato, o pentatlo é bronca, só acaba mesmo quando termina. (risos) Um pequeno erro pode comprometer todo o resultado, não dá para contar com nada.

Eu fui para Londres com um objetivo: queria muito fazer o que eu vinha apresentando nos treinos. E eu consegui, o planejamento foi muito bem executado, então eu sabia que estava muito forte, muito preparada, física e psicologicamente. Eu queria fazer o melhor que eu pudesse, o resultado seria consequência.

EE: Em 2016, você vai estar com 32 anos. Sabendo que o pentatlo moderno exige muito da parte física dos atletas, é possível competir em alto nível com essa idade? 

"Essa maior visibilidade é fato. E seria extremamente gratificante se depois dessa medalha olímpica o número de crianças e jovens que buscam o pentatlo aumentasse"

YM: Apesar de exigir muito fisicamente, principalmente nas provas de corrida e natação, o pentatlo também exige muito do amadurecimento do atleta, nas provas de esgrima, tiro e equitação. Como uma característica do esporte, os atletas tem uma longevidade bem razoável. Por exemplo, a atleta que foi prata em Atenas, competiu em Pequim e agora em Londres ficou em 8º lugar, com 38 anos. Então, como dizer que uma atleta de 32 anos não vai estar em condições de brigar por medalhas? Eu acho que o auge da minha forma física é agora, com 28, 29 anos, e aí eu vou lutar para manter isso até 2016. Essa é a minha meta. Mas também pretendo chegar a 2020 e me classificar.

EE: Além de você, há outros brasileiros que podem ser esperança para 2016, brigando de igual para igual com os grandes pentatletas do mundo?

YM: Eu não queria pontuar nomes, mas eu digo que sim. Nós temos bons atletas, principalmente no feminino. Eu acredito que em 2016 nós vamos ter duas mulheres e dois homens representando o Brasil nas Olimpíadas em casa. E eu vou fazer de tudo para me classificar também, quero ser uma dessas duas.

yane-marques_hipismo_divulgao-texto_379EE: Que futuro você projeta para a modalidade no Brasil?

YM: O pentatlo é um esporte muito difícil de treinar. Além de querer que os atletas que estão hoje continuem, a gente quer que outros atletas integrem a equipe. Eu acho que daqui para frente o pentatlo só tem a crescer, ser mais reconhecido. Não dá para comparar com esportes mais conhecidos, mas a gente sonha que o pentatlo possa ser mais praticado, para que nós possamos ter cada vez mais atletas de ponta.

EE: Das quatro provas que compõem o pentatlo (lembrando que corrida e tiro são disputados na mesma prova) qual a sua preferida e em qual você considera que tem mais dificuldade?

YM: A minha preferida é o hipismo e a prova que eu tenho mais dificuldade é a corrida, que me exige um pouco mais de atenção. Mas eu acredito que sou uma atleta bem equilibrada, consigo pontuar em todas as provas.

EE: Como você avalia o patrocínio no pentatlo? Ainda é muito difícil conseguir apoio num esporte de pouca visibilidade?

YM: Olha, é muito difícil, muito difícil mesmo. Talvez pelo pentatlo ainda lidar com essa questão de ser um esporte pouco difundido, que está começando a ser divulgado agora. Mas eu tenho esperança que até o final do ano vou conseguir fechar alguma coisa. Tem algumas empresas que já entraram em contato comigo, então eu rezo para conseguir esse patrocínio para começar a próxima temporada.

EE: Recentemente, você recebeu o Prêmio Brasil Olímpico de melhor atleta do pentatlo e ainda foi indicada ao Troféu de Melhor Atleta do Ano. Como você vê esse reconhecimento depois de tanta dedicação ao esporte?

YM: Esse reconhecimento é muito rico. Eu fico super satisfeita. Já é o sétimo ano consecutivo que eu vou receber o Prêmio Brasil Olímpico no pentatlo, mas é a primeira vez que eu sou indicada ao Troféu. Acho que o que contribuiu para essa minha indicação foi o meu desempenho em Londres e eu conto com esse fator para que as pessoas possam votar em mim. Porque, dentro de um esporte pouquíssimo praticado, pouquíssimo difundido e difícil de ser treinado, chegar a uma medalha olímpica é uma grande vitória. Mas eu acho que qualquer uma que ganhar vai ser um resultado justo.

yane-marques-divulgacao-cbpm-texto_450EE: Como você avalia a questão do doping no esporte?

YM: Bem, vou responder pelo que eu vejo acontecer no pentatlo. O controle é extremamente rigoroso. Eles fazem muitas coletas fora de temporada, durante os treinos, e em todas as competições internacionais. Além dos três primeiros colocados, eles fazem sorteio e ainda analisam outros atletas. Então o controle está muito presente. E eu sou a favor, porque acredito que a gente precisa competir em igualdade de condições. O atleta que se dopa não assume esse princípio e a competição acaba ficando desleal.

EE: O esporte é essencial para você? Por que?

YM: Hoje eu vivo do esporte e para o esporte, então não tem nem como dizer que ele não é essencial. As coisas foram acontecendo naturalmente, eu comecei na escolinha de natação, depois passei a competir, fui para a equipe e quando eu vi, já estava competindo no pentatlo, em alto rendimento, e brigando por medalha sul-americana e pan-americana. Eu amo muito isso que eu faço e sou viciada. É fundamental para mim. Eu acordo para treinar e treino para dormir. (risos)

Fotos: Divulgação


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