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Wilians Araújo (Judô Paralímpico)

08/09/2015
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Por Fernando Hawad

Um acidente tirou a visão de Wilians Araújo na infância. Mas naquele momento difícil, começava também uma história de superação. O paraibano, radicado no Rio de Janeiro, encontrou no esporte um caminho para vencer na vida. Chegou a praticar algumas modalidades, até conhecer o judô quando já era adolescente. 

Wilians colocou o quimono e não tirou mais. Rapidamente chegou à seleção brasileira de judô paralímpico. Pensou em desistir da carreira no começo, por falta de apoio. Mas seguiu em frente e foi recompensado. Hoje é um dos melhores do mundo em sua categoria. Bronze no último Mundial e prata no Parapan de Toronto, ele é movido por um sonho: conquistar uma medalha nos Jogos Paralímpicos do Rio. 

 

wilians-3-texto_450EE: Wilians, conta um pouco da sua história para gente.

WA: Nasci na Paraíba, em Riachão do Poço. Foi lá que perdi a minha visão em um acidente. Meu pai tinha uma espingarda de matar passarinho. Como todo nordestino, a gente tinha esse costume de ter essas espingardas de chumbinho. Eu, curioso, fui mexer numa arma dessas que o meu pai tinha. Ela disparou, pegou no meu rosto e, a partir daí, fiquei em tratamento no Nordeste durante mais ou menos um ano. Depois, vim para o Rio e foi quando descobri o judô. Comecei a treinar e hoje estou na seleção. 


EE: Como foi o primeiro contato com o judô?

olho1_200_03WA: Estudei no Instituto Benjamin Constant, na Urca. Lá, tive a oportunidade de conhecer alguns esportes. Tentei praticar algumas modalidades como natação e futebol, mas não deu muito certo. Por último, em 2008, tentei o judô. Era o meu último ano de Ensino Fundamental. Comecei a treinar e quando eu estudava no Colégio Pedro II, em 2010, tinha que correr atrás de algumas matérias porque, infelizmente, não há muita coisa adaptada para deficiente visual. Naquele momento quase desisti do judô, até porque na época eu não tinha nenhum tipo de investimento, não tinha patrocínio. Cheguei a passar mais ou menos uns 40 dias afastado do judô. Falei que ia trabalhar, procurar outra coisa para fazer. Foi quando os meus professores entraram em contato comigo e falaram que eu tinha que voltar a treinar. Voltei e logo em seguida recebi o meu primeiro patrocínio. Foi a partir dali que comecei a me dedicar mais e mais ao judô. Hoje, estou classificado para os Jogos Paralímpicos do Rio.

 

O judô paralímpico no Brasil

 

EE: Como está a questão do patrocínio para os atletas paralímpicos? Você consegue viver bem com o judô?

olho2_200_02WA: Tem melhorado. Devido à Paralimpíada ser no Rio, o governo tem feito bastante investimento. Mas, infelizmente, a procura de empresas privadas para patrocinar atletas paralímpicos ainda é muito pequena. Eu tenho dois patrocínios: a Bolsa Pódio, do Governo Federal, através do Ministério do Esporte, e o patrocínio do Time Rio, que é um convênio da Prefeitura do Rio com a Secretária Municipal da Pessoa com Deficiência. A Prefeitura do Rio disponibiliza um salário para os atletas, paga fisioterapeuta, técnicos, materiais esportivos. São esses dois patrocínios que permitem que eu me dedique exclusivamente ao judô.

EE: Os judocas paralímpicos têm alguma relação com a Confederação Brasileira de Judô (CBJ) ou a única entidade que toma conta da modalidade é a Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV)?

WA: A CBJ rege o judô em todo o Brasil. No caso, eu, como faixa preta, sou vinculado à Confederação. Eu pago anuidade para ter o diploma como faixa preta. Mas a CBJ não tem nenhum envolvimento com a CBDV. É a CBDV que olho3_200_03rege todo esporte para cegos no Brasil.

EE: A seleção brasileira de judô convencional conta com uma estrutura muito boa. E no judô paralímpico? As coisas estão melhorando nos últimos anos?

WA: O esporte paralímpico cresceu muito nos últimos anos. Foi-se o tempo em que as pessoas olhavam para os deficientes e enxergavam o esporte paralímpico como algo de superação. “Caramba, legal, ele é deficiente e está treinando judô. Não enxerga e faz atletismo.” Foi-se o tempo dessa mentalidade. O esporte paralímpico hoje é visto como alto rendimento, assim como qualquer esporte olímpico. Ser atleta é uma superação. Você convive com a dor, está sempre levando o seu corpo aos limites. E ser atleta olho4_200_02paralímpico é uma superação fora do normal. Hoje em dia, o esporte paralímpico é de alto rendimento. Nós somos cobrados, são feitos investimentos para que os resultados aconteçam. A CBDV tem o patrocínio da Infraero, no qual ela investe em fases de treinamentos para nos aperfeiçoarmos. Ficamos uma semana treinando em São Paulo, uma vez por mês, às vezes até mais. Há intercâmbio também. Participamos de campeonatos internacionais. Nesse ano, nós competimos nos Jogos Mundiais, no Parapan de Toronto e no Grand Prix. A CBDV está sempre investindo. 

 

 

 

Seleção e competições

 

EE: Sobre as competições, como é o calendário de vocês? Existem eventos regulares?

olho5_200_02WA: Nós participamos de várias competições durante o ano. De 2013 para cá, eu tive a oportunidade de participar duas vezes do Open da Alemanha e fui campeão. Em 2013, lutei dois campeonatos nos Estados Unidos. Ano passado estivemos nos Estados Unidos de novo, para o Campeonato Mundial. Nesse ano, fui para a Coreia e depois para Toronto (Parapan). Fora o Grand Prix da Infraero, para deficientes visuais, que ocorre duas vezes por ano. Estamos competindo bastante visando aos Jogos Paralímpicos do Rio. Até mesmo lutando contra atletas do judô convencional. Um dos critérios do coordenador da seleção paralímpica de judô é que a equipe participe de competições com os atletas sem deficiência, como campeonatos estaduais, por exemplo. É importante para estarmos sempre pegando no quimono dos caras, fazer dessa competição um treino.

EE: Você está na seleção desde quando?

WA: Na minha vida foi tudo muito rápido. Comecei a treinar judô em 2008. Em 2010, no fim do ano, ganhei o Grand Prix, etapa nacional, e esse resultado me levou para a seleção em 2011. 

EE: Você chegou à seleção em 2011 e no ano seguinte já foi aos Jogos Paralímpicos, ficando em quinto lugar. Como foi participar de Londres 2012 e chegar tão perto da medalha?

olho6_200_02WA: Foi uma competição em que me doei bastante. Queria muito a medalha. Mas não podemos mudar o passado. Aquilo foi no dia 1º de setembro de 2012. Desde aquele dia para cá, durmo, acordo e ando pensando em chegar ao pódio no Rio, em ser campeão paralímpico no ano que vem. Esse sonho envolve muitas pessoas que sempre me apoiam. Meus patrocinadores, meus amigos, meus senseis e a minha família. Desde 2012 sonho ter uma medalha paralímpica no peito. Londres foi um evento maravilhoso, valeu muito como experiência. Cheguei lá como franco atirador, até porque ninguém me conhecia no cenário internacional. Em 2011, fui para a Turquia disputar o Campeonato Mundial e perdi na primeira luta. No fim do ano, disputei os Jogos Parapan-Americanos de Guadalajara e fui vice-campeão. De lá para cá, estou em uma crescente. Hoje, sou o segundo colocado do ranking mundial e quero estar no pódio no ano que vem. Esse é objetivo maior, trazer uma medalha para o Brasil.

EE: O bronze que você conquistou no Mundial do ano passado é um bom parâmetro para os Jogos Paralímpicos do ano que vem?

WA: São esses campeonatos que contam pontos para o ranking que nos classifica para os Jogos Paralímpicos. Lembrando que no judô, nos Jogos Paralímpicos, apenas os 12 melhores do mundo participam. Na verdade, os 11 melhores do mundo, porque uma vaga é reservada ao país anfitrião. 

 

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Wilians comemora com a medalha de bronze do Mundial no pescoço

 

 

EE: No Parapan de Toronto você ficou com a prata perdendo a final para o cubano Yangaliny Jimenez. Ele é o grande adversário a ser batido na categoria?

WA: Ele é muito bom, muito forte. Já tive oportunidade de lutar com ele cinco vezes e, infelizmente, perdi todas. É o grande nome a ser batido, pelo menos para mim. Tenho muita dificuldade de lutar com ele. No começo, ele me ganhava com muita facilidade, mas do ano passado para cá nos enfrentamos duas vezes e foram lutas duríssimas. Infelizmente ele ainda tem levado a melhor. Mas vamos trabalhar e corrigir o que precisa ser corrigido. Nesse ano, estava ganhando dele, com uma punição de vantagem. Mas meu ombro estava machucado e ele aproveitou a oportunidade para me vencer.

EE: Você tem algum ídolo, alguma referência dentro do esporte?

WA: Os meus ídolos são meus três senseis: Jucilei Costa, Antônio Luiz e Marcos Albuquerque. Eles fizeram com que eu acreditasse no meu sonho e fosse buscá-lo. Eles acreditam em mim tanto quanto eu. Quando eu desanimo, eles estão sempre comigo. Então, são os meus ídolos no judô. 

 

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O judoca ao lado de seus senseis

 

 

EE: Na equipe brasileira de judô há um dos grandes nomes da história da modalidade que é o Antônio Tenório, tetracampeão paralímpico e ainda em atividade aos 45 anos. Como é o contato com ele? Vocês conversam bastante? 

WA: Eu treino com ele frequentemente desde 2011. É uma ótima pessoa. Sempre me ajudou também. Torcemos um pelo outro.

 

Rio 2016

 

EE: O que vem à sua cabeça quando você pensa em Rio 2016?

WA: Eu já sonhei com isso algumas vezes. Vai ser um momento único. Eu vou estar com a minha família, com todos os meus amigos. Todas as pessoas que acreditam em mim estarão lá torcendo, vão entrar no tatame junto comigo. Eu espero tirar forças disso tudo para fazer uma competição ótima no ano que vem.

EE: Existe alguma meta traçada pela CBDV para os Jogos do Rio, em termos de medalhas?

WA: Existe, sim. Eles sempre traçam essas metas. Na verdade, agora eu não tenho noção de quantas medalhas eles traçaram para o ano que vem, mas são metas desafiadoras. Nós vamos ter 13 atletas competindo: sete no masculino e seis no feminino. É bastante gente. 

olho7_200_04EE: Você acredita que a realização dos Jogos Paralímpicos no Rio pode deixar um legado para a melhoria da vida das pessoas com deficiência no Brasil?

WA: Acredito que a população brasileira tem muito que melhorar quando se trata de pessoas com deficiência. Espero que a população olhe para os deficientes, não como coitados, mas como pessoas capazes. Infelizmente existem preconceitos. Não só a nível de deficiência, mas também de raça. É basicamente a mesma coisa. Que a gente não olhe para o outro pela cor da pele ou pela deficiência. “Ah, coitadinho, ele é negro, ele é branco, ele é cadeirante, ele é cego.” Que a gente aprenda a conviver com as diferenças. O Brasil seria muito melhor assim. A nível de empregos (para os deficientes), hoje tem melhorado e vai melhorar ainda mais. Que nós possamos mudar a cabeça de muitos empresários e de muitas empresas que ainda têm o mercado fechado quando se fala na contratação de pessoas com olho8_200_01necessidades especiais. Que eles mudem essa mentalidade porque nós sempre somos capazes. Basta uma oportunidade, uma chance.

EE: Sobre doping no esporte, o que você tem a dizer?

WA: Sou totalmente contra qualquer substância que leve um atleta a ter vantagem sobre o outro. Perde a essência do esporte. 

EE: Para você, o esporte é essencial?

WA: Para mim o esporte é essencial porque eu tenho um sonho e é esse sonho que me move todos os dias. Quero ganhar uma medalha no ano que vem. Então, o esporte é essencial na minha vida. Tudo que tenho, tudo que conquistei, tudo que sou, é graças ao judô. Conquistei muita coisa através do judô.

 

Foto: Arquivo pessoal de Wilians Araújo


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