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Verônica Hipólito (Atletismo Paralímpico)

26/02/2016
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26_02_vernica_hiplito_capa_interna_1_680Arte: Amanda Parmegiani

Por Fernando Hawad

“Só eu digo o que é impossível para mim.” A frase de Verônica Hipólito fez parte da campanha “Mude o Impossível”, promovida pelo Comitê Paralímpico Brasileiro em 2015. Com apenas 19 anos de idade, a velocista já enfrentou inúmeros percalços na vida. De um tumor na cabeça, passando por um AVC que paralisou o lado direito de seu corpo, até uma doença rara, que a deixou fora do Campeonato Mundial de Doha, no ano passado.

Seria até compreensível se em algum momento Verônica não encontrasse mais forças para reagir. Mas a garota que não tira o sorriso do rosto sempre encara as dificuldades de forma exemplar. Campeã mundial em 2013, dona de quatro medalhas no Parapan de Toronto, Verônica se prepara para disputar pela primeira vez os Jogos Paralímpicos. Sua história já é digna de um roteiro de cinema, mas ela quer fazer muito mais. 

EE: Sua história de vida é muito bonita. Conte um pouco para a gente.

VH: Sempre tive o esporte presente na minha vida. Mas eu tive vários empecilhos no meio disso. Em 2009, quando eu tinha 13 anos, fiz uma cirurgia na cabeça para a retirada de um tumor. Em 2011, um AVC paralisou o lado direito do meu corpo. Em 2013, o tumor voltou à minha cabeça e eu comecei a tratar com remédio. Trato até hoje. Em 2015, descobriram que eu tinha uma síndrome rara, chamada Polipose Adenomatosa Familiar, e tive que retirar 90% do meu intestino grosso. Fiquei sabendo disso a uma semana do Parapan e a menos de um mês do Mundial de Doha. Não pude participar do Mundial e ainda estou tratando. 

EE: Você praticava judô até a descoberta do tumor, não é?

olho1_1_200VH: Isso. Fazia judô antes da minha primeira cirurgia na cabeça. Era o esporte que eu gostava. Mas, depois da cirurgia, falaram que eu não podia mais sofrer impacto do quadril para cima. Ou seja, eu não poderia fazer quase nada de luta. Fiquei chateada por um tempo porque pensava: “no que eu vou me encontrar agora?” E aí, numa brincadeira, em 2010, meu pai me colocou em um festival de atletismo que eu não queria ir, porque era num domingo de manhã. Ele e minha mãe me acordaram no dia e me levaram. Eu sempre pensava no porquê de alguém gostar de correr. Isso era muito absurdo para mim. Mas quando eu corri, eu entendi. Gostei muito e como sou bastante competitiva, uniu as duas coisas. Eu olhava para as outras meninas e pensava: “não sei o que elas fizeram para ganhar de mim, mas eu vou fazer melhor da próxima vez. Foi assim que eu me descobri no atletismo. Só que em 2011, quando eu tive o AVC, existia a possibilidade de não poder voltar a praticar. Depois de um tempo parada, voltei e descobri que podia competir entre os paralímpicos. Mas tinha entrado para tentar competir com os olímpicos. Até hoje eu participo de competições entre olímpicos.

EE: Alguém te direcionou para o esporte paralímpico?

VH: Foi o meu treinador, Daniel Biscola, que cuida do atletismo do Sesi de São Paulo, tanto da equipe olímpica, comoolho2_1_200_01 da paralímpica. Ele foi assistir aos Jogos Paralímpicos de Londres e voltou falando que tinha visto meninas com padrão de movimento muito melhor que o meu. Então, descobri que podia competir entre os paralímpicos e em 2013 me classifiquei para o Campeonato Mundial de Lyon, que foi a minha primeira competição oficial. Mas essa entrada no movimento paralímpico foi meio difícil para a minha família. Todo mundo sabia que eu mancava, eu sempre usava roupas largas para esconder a minha perna e o meu braço. Mas de repente ficou constado que o que eu tinha não era uma mania, era uma deficiência física. Mudou muito positivamente a vida da minha família por entender isso. Hoje, somos muito ligados ao movimento paralímpico e ao movimento pelo direito das pessoas com deficiência. Inclusive, acho errado esse termo. Mas foi muito bom ter entrado no movimento. 

olho4_200_06EE: Você já conhecia o esporte paralímpico antes da sua entrada?

VH: Pouquíssimo. E é uma coisa pela qual eu luto muito hoje. Quero que haja uma maior valorização do esporte paralímpico. Do esporte mesmo! Infelizmente os grandes veículos de comunicação têm uma noção de que no movimento paralímpico estão pessoas com deficiência fazendo esporte. Na minha opinião, essa ordem está errada. São atletas com algum tipo de deficiência. O atleta vem antes de qualquer coisa. 

foto_4_680Verônica exibe com orgulho uma das duas medalhas conquistadas no Mundial de Lyon, em 2013

EE: Isso que você falou é muito interessante. Os atletas paralímpicos estão nesta luta para que não sejam vistos como coitadinhos, mas sim como atletas que buscam as suas metas, seus resultados. Você acredita que a própria abordagem da mídia já tem mudado um pouco recentemente? Acha que a realização dos Jogos Paralímpicos aqui no Rio pode contribuir para essa mudança de mentalidade?

VH: Com certeza já mudou um pouco. Mas a questão que eu sempre coloco é se essa mudança já é uma coisa boa para gente. Nós já podemos falar que é bom? Eu acho que não. Ainda temos muito que mudar. A visão que muitos têm do movimento paralímpico ainda é só pela superação da deficiência. Acho que primeiro tem que ser a superação do atleta, que está todo dia treinando para fazer a sua melhor marca dentro da competição, ser o melhor do mundo. Se você quer ver a deficiência, veja depois. Nós queremos ser vistos como atletas. Eu vejo muitos atletas que não conseguem expressar isso justamente porque eles foram, a vida toda, taxados somente como deficientes físicos, olho5_1_200intelectuais, visuais. Sobre os Jogos do Rio, eu levo muito o exemplo de Londres, que conseguiu mudar a percepção da população após os Jogos. A Paralimpíada de Londres só conseguiu vender todos os ingressos no meio dos Jogos Olímpicos. Ou seja, foi aos 45 do segundo tempo mesmo. No Brasil, eu espero que a gente também consiga vender. Acho que a gente tem muito que ensinar, educar, mostrar, e as pessoas podem aprender muita coisa com a gente. O movimento paralímpico é muito bom em todas as esferas. Mas a nossa cultura ainda precisa mudar bastante. Agora a gente tem visto várias campanhas sobre direitos dos deficientes, mas me incomoda um pouco que fiquem batendo nessa tecla de que é deficiente, deficiente, deficiente... Acho que tem que bater na tecla de que é uma pessoa com limitação. A cultura brasileira ainda é voltada para o deficiente no sentido de ser incapaz. Se a gente conseguir mudar isso antes dos Jogos, dá para conseguir vender a maioria dos ingressos. Se a gente conseguir vender todos os ingressos, tenho certeza que a cultura de boa parte das pessoas vai mudar. E a visibilidade na mídia também.

foto_1_690Na comemoração após uma das conquistas no Parapan de Toronto, em 2015

O Brasil Paralímpico


EE: O Brasil vem em uma crescente em diversas modalidades paralímpicas. Mas, especialmente no atletismo, que é o seu esporte, há inúmeros atletas brasileiros entre os melhores do mundo. O que faz o atletismo paralímpico brasileiro ser tão forte?

VH: Eu sou suspeita para falar da minha modalidade (risos). É uma soma de fatores. Existe um trabalho muito bomolho6_200_07 feito pelo Comitê Paralímpico Brasileiro. Mesmo com a nossa verba não chegando nem perto da verba do Time Brasil (atletas olímpicos), a gente se organiza muito bem. O CPB organizou as modalidades que são o “carro-chefe”, como o atletismo e a natação, esportes individuais que distribuem mais medalhas. Começa com uma caça de talentos. Não coloco talento como uma pessoa que não treina, chega lá e corre, mas como uma pessoa que pode ser lapidada. O Brasil tem um material humano muito bom. Principalmente para o atletismo. A gente tem o material humano, a busca do Comitê por novos talentos e a lapidação do Comitê, que fica de olho nesses talentos, acompanha a crescente deles. Acompanha até os atletas que de repente não estão apresentando um resultado tão bom, mas mostram crescimento. Porque se você vai melhorando de um em um segundo, ou de dez em dez, se for uma prova de longa distância, dependendo da estrutura que você tiver, significa que você pode melhorar ainda mais. Não adianta começar a pensar um ano antes de uma edição de Jogos Paralímpicos. Não é assim. A gente, com certeza, já pode dizer que tem uma base para a equipe de 2024 e 2028. É um trabalho muito bem feito. E eu acredito que se houvesse mais verba o trabalho poderia ser muito maior, muito mais completo. 

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EE: A sua evolução no atletismo foi meteórica. Logo na primeira competição, no Mundial de 2013, uma medalha de ouro (200m) e uma de prata (100m). Você esperava esse resultado?

VH: Não. Quando eu comecei a reabilitação através do atletismo em 2011, eu imaginava: “já pensou se eu consigo ganhar um campeonato regional, um municipal?” Por incrível que pareça, os meus tempos eram muito ruins. Mas no final de 2012 e início de 2013, quando eu comecei a treinar um pouco mais, passei a entender mais o meu corpo, a minha dificuldade e a minha deficiência. Ali eu aprendi a correr um pouquinho mais. E eu sou muito competitiva. Acho que no Mundial de 2013 eu tirei uma marca da cartola. Eu falava para mim que tinha chance de conseguir uma medalha. Acreditava que podia ganhar um bronze. Mas como eu sou super competitiva, cheguei lá e já ganhei o ouro. Aí começou a me dar mais confiança. Então, eu estourei. É uma coisa que pode até parecer meio insana, porque, hoje, todos os meus treinos chegam perto dos recordes mundiais. Espero que a minha carreira dure tanto quanto a da Terezinha Guilhermina (risos). Se foi meteórico no começo, que seja assim para sempre. 

Além das Pistas


EE: Você começou a cursar faculdade de Economia. Isso indica que apesar de nova, com muito futuro ainda pela frente no esporte, você já está pensando na vida pós-atleta?

olho7_200_11VH: Eu sou filha de professores de História. Então, minha mãe sempre teve o sonho de que eu e meu irmão nos formássemos na faculdade. Economia, a princípio, não era o que eu queria. Só que quando eu entrei no movimento paralímpico, eu decidi que queria trabalhar com economia esportiva. Eu quero trabalhar com o esporte para sempre. E quero ajudar o esporte de alto rendimento. Aí eu entrei no curso de Economia. Agora está trancado, justamente por causa dos Jogos. Não quero que minha carreira acabe cedo. Assim como qualquer atleta, eu quero continuar o máximo possível, quero ser a “Highlander” do atletismo. Mas você tem que estar preparado. Se o esporte te faz bem, faça bem para o esporte de volta. Existem pouquíssimas pessoas no meio de economia esportiva. Eu tranquei a faculdade, mas continuei estudando um pouquinho. Meu coordenador também é professor de faculdade. Então, sempre que eu tenho uma dúvida, eu pergunto para ele. Além disso, eu voltei a estudar inglês. Também quero fazer alemão e francês. Infelizmente a gente não tem uma estrutura que possibilite o atleta de fazer faculdade e treinar ao mesmo tempo. Eu quero brigar para que futuramente a gente consiga ter isso. Existem muitas pessoas super inteligentes no movimento paralímpico. Eu sempre incentivo os meus amigos, até pego no pé mesmo, para que eles fiquem de olho em faculdade, em curso de idiomas, para que a gente consiga fazer o bem para o esporte de volta. A gente já tem uma bagagem prática, só falta aperfeiçoar um pouquinho com a teórica. 

olho8_200_06EE: Você é uma pessoa extremamente positiva. Sempre foi assim? Esse último problema, no ano passado, foi um baque ou você conseguiu superar bem?

VH: Olha, eu vou começar pelo ano passado. Quando eu soube que ia ter fazer a cirurgia, eu pensei: “Poxa, de novo. Eu me cuido tanto, eu faço as coisas tão certinhas para acontecer isso de novo.” Mas pensei que se eu tinha um problema raro, o lado bom é que esse problema tinha uma solução, que era a cirurgia. Se existia a possibilidade de solucionar o problema antes de virar um câncer e isso daria tempo para eu voltar e me preparar para os Jogos, então não tinha porque eu me desesperar. Até porque quanto mais você se desespera, mais você se apega ao problema e não a solução, a coisa fica pior. Isso foi algo que eu aprendi ao longo da vida. Antes eu era uma pessoa muito negativa. Eu comecei a conseguir interagir com as pessoas, eu comecei a ser mais positiva, após o AVC, quando eu entrei no movimento paralímpico. Eu era absurdamente tímida. Cheguei a trocar cinco vezes de psicóloga em menos de um ano. Quem me conhecia antes fala que eu não pareço a mesma pessoa hoje. Sobre os problemas, acho que tem muita gente que pensa que eu passo por eles numa boa. Não passo numa boa, gente. Não é fácil para mim. Não está sendo fácil, do mesmo jeito, para o Mateus (Evangelista) que fraturou o fêmur. Mas eu sempre evito pensar no problema. Tento pensar que tenho que dar o melhor na minha recuperação. Se for para ficar deitada, eu vou ficar, apesar de ser muito impaciente, mas vou ficar. Depois vou fazer o melhor na fisioterapia. Depois, o melhor na pista. Aí,olho9_200_05 de passinho em passinho eu vou melhorando. Se tudo der certo no Rio, que eu quero tentar dois ouros pelo menos, excelente. Mas eu sempre falo que não estou prometendo medalha para ninguém. Estou prometendo que vou entrar naquela pista e dar o meu melhor. 

EE: Como tem sido esse período de recuperação? Está tudo conforme o esperado? O CPB te dá um auxílio importante?

VH: Teve uma junção do Comitê com o meu clube (Sesi). O CPB dá um convênio para os atletas da seleção principal. Por isso eu consegui fazer a cirurgia, que é muito cara. O que o convênio não conseguiu cobrir, o CPB e o clube se dispuseram a pagar. Acabou que o meu clube pagou porque eu escolhi isso. Se eu puder economizar dez reais do Comitê para ajudar outro atleta, eu vou tentar ajudar. Foi um processo que já sabia que seria doloroso, lento. E quando eu melhorei no final de novembro, descobriram que o tumor na minha cabeça tinha crescido um pouco mais. Então, os médicos falaram que eu precisava ficar parada em dezembro. Acabei perdendo muito por conta disso. Depois de uma troca de médicos, descobriram que eu podia voltar a treinar. Aumentei minha dose de remédios, voltei a treinar. A evolução está sendo de pouquinho em pouquinho. É algo que pessoas impacientes e competitivas, como eu, não suportam. Eu odeio quando algo não dá certo, não anda rápido. Mas eu tenho amigos muito bons. Além disso, o Comitê dá toda a estrutura. O Mauro e o Gustavo, que são os fisioterapeutas do CPB, me tratam com todo o carinho do mundo, me explicam tudo. Quando você acha que não vai aguentar, eles te incentivam mais. Houve uma época em que eu fiquei meio chateada, chorei, fiquei mal. Mas meu namorado está sempre me ajudando, meu pai, minha mãe. O Yohanson Nascimento, o Daniel Mendes e o Mateus Evangelista (todos atletas da seleção brasileira) falaram para mim que tudo ia dar certo. Falaram que a gente vai dar o nosso melhor até os Jogos e durante os Jogos, também. E quando tudo isso acabar, que a gente esteja comemorando muito, isso que importa. Então, recuperei a positividade muito por causa deles.  

foto_5_640Chuva de medalhas! Só no Parapan de Toronto, em 2015, Verônica conquistou três ouros e uma prata

EE: Em uma comparação com o seu melhor momento, você diria que está como hoje?

VH: Devo estar uns 65, 70%. Porém, acredito muito que caso eu conserte a técnica, que é uma coisa em que eu não sou muito boa, vou conseguir chegar ao meu melhor sem tanta força como eu tinha antes.

EE: O salto em distância sempre fez parte do seu repertório?

VH: É uma história engraçada. Na minha primeira competição, me inscreveram nos 100m, nos 200m, que era a minha prova preferida, e me colocaram no salto em distância para tentar conseguir pontos para a minha equipe. Como eu sou muito competitiva, acabei fazendo uma boa marca, mesmo sem tanto treino. Mas o salto em distância não é a minha prioridade para os Jogos do Rio. Primeiro eu vou pensar em correr muito bem. O salto é a outra parte. Não está nem no “carro-chefe”.

Rio 2016: Em busca do sonho!


EE: Você pretende participar do salto nos Jogos do Rio?

VH: Pretendo. Eu sei que é uma prova muito técnica e se eu consertar a parte técnica, vou conseguir pelo menos chegar ao pódio. É uma prova muito técnica e muito de cabeça. Se você fizer um bom salto, logo nas duas primeiras tentativas, você desestabiliza as suas principais adversárias. Estou tendo uma grande ajuda com o Mateus, que está voltando agora também. Há umas duas semanas a gente começou a conversar. A especialidade dele é o salto e a minha é a corrida. Então, eu comecei a falar algumas coisas da corrida dele e ele começou a falar do meu salto.  

EE: Você vai participar de quatro provas no Rio: 100, 200, 400 e o salto?

VH: Vai ter o revezamento 4x100m também, mas não vai ter a prova de 200m, infelizmente.

olho10_200_05EE: Poxa, logo a sua prova preferida, que você foi campeã mundial em 2013...

VH: Pois é. Mas no movimento paralímpico você descobre um monte de coisas. Eu falava, por exemplo, que nunca ia correr uma prova de 400m. Nas minhas primeiras provas eu entrei quase chorando na pista. Mas fui aprendendo e hoje a única marca acima da minha é o recorde mundial. Vou entrar no 400 para, desculpe o termo, querer “arregaçar” as outras meninas, assim como nos 100.

EE: Vai ser uma competição bem desgastante. Como é a preparação para ir à pista tantas vezes em um período tão curto?

VH: Eu estou colocando na minha cabeça que se em um treino eu posso dar quatro tiros de 200m, ou quatro de 250, dar um tiro de 100 num dia, um tiro de 100 no outro, um de 400 no outro, é menos. Vai ser um volume um pouco menor que nos treinamentos. Você entra lá, vai com fé e dá o seu melhor.

foto_7_320EE: Tem alguma prova que você trate com carinho especial ou todas são iguais?

VH: Quando eu entrar na pista, vou sempre tentar dar o meu melhor. Mas os 100 e os 400m são provas que eu estou tratando com um carinho muito especial. Por mais incrível que pareça o meu carinho pelos 400 está aumentando. Se eu conseguir ser a melhor dos Jogos nessas duas provas, principalmente nos 400, vou sentir que renasci mais uma vez. Porque eu falava que não ia conseguir. Agora eu digo que quero conseguir. 

EE: É possível alcançar a meta estabelecida pelo CPB, de chegar em quinto lugar no quadro de medalhas?

VH: É muito difícil. Não vou mentir sobre isso. Eu acredito que dá. Mas sempre fico pensando, por exemplo, que no ano passado a gente tinha uma chance enorme de chegar novamente em terceiro lugar no Campeonato Mundial. Só que aí eu tive que operar, o Mateus se machucou, o Petrúcio (Ferreira) se machucou, o Odair (Santos) desmaiou no meio. Então, eu prefiro fazer o meu trabalho quieta e deixar para o momento da competição. O que a gente pode prometer é essa coisa de dar o melhor. Se a gente conseguir o quinto lugar, excelente, maravilhoso. Mas se for um sexto, um sétimo, que todos saibam que o Brasil, que não tem a estrutura das grandes potências paralímpicas, está entre os melhores do mundo. Tem uma coisa muitoolho11_200_05 importante. O CPB não deixa, de forma alguma, os atletas ficarem em uma zona de conforto. Porque se quisesse deixar, diria que a gente podia chegar entre os dez primeiros. Mas estipulou uma meta de ser quinto lugar. Então, a gente vai tentar ser quinto, quarto, terceiro, segundo ou primeiro. 

EE: Você tem algum ídolo no esporte?

VH: Tenho, na verdade, três grandes ídolos. O primeiro é o meu pai. Porque ele é o típico exemplo de quem corre por amor. Ele participa de corridas de longa distância e nunca ganhou uma prova, mas está correndo por amor, que é o motivo principal do esporte. Ídolo dentro do esporte mesmo, de alto rendimento, eu tenho dois: O Yohanson Nascimento e o Daniel Mendes. O Yohansson é fenomenal. É o meu melhor amigo também. O cara é tricampeão mundial. Sempre que está machucado, consegue dar a volta por cima, que foi o que aconteceu no Mundial do ano passado. É absurdamente humilde, absurdamente competente. Além disso, sempre trata os outros atletas com muito carinho. Cuida como se tivesse vários irmãos. Ele é um exemplo de atleta para mim. E o Daniel Mendes é o único cego do mundo a ter corrido abaixo da casa dos 50 segundos nos 400m rasos. Ele teve tudo para entrar em depressão depois do acidente que o deixou cego, mas sempre disse que não teve tempo de entrar em depressão porque tinha que ajudar a família. Terminou a faculdade de Direito e dá o melhor em tudo possível. Chega a ser até insano, às vezes, o que ele faz. Ah, também tem a Terezinha Guilhermina. Eu nem preciso explicar muito porque ela é uma “Highlander”. Nossa! Que pessoa, beirando os 40 anos, tem a capacidade de fazer os tempos que ela faz, a motivação de treinar como ela treina e ainda estar em alto rendimento? Ninguém! Ela é única. Não conheço nenhuma atleta olímpica que com 35 anos consiga correr abaixo de 12s50. 

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Ouro em Londres 2012, Yohansson Nascimento é um grande ídolo para Verônica

EE: O que você tem a dizer sobre casos de doping no esporte?

olho13_200_02VH: Vamos lá. Primeiro, acho a lista de doping muito confusa. Neosaldina, por exemplo, é considerado doping, e não vai te fazer correr melhor, nadar melhor. Às vezes, o atleta pode ser pego no doping por uma bobeira como essa. Mas os atletas que usam substâncias ilícitas de forma proposital estão errados. Acredito que você não vai conseguir treinar bem só com arroz, feijão, macarrão. Acho que tem que haver uma suplementação, um acompanhamento nutricional, mas você não precisa ficar se dopando para isso. Eu sempre falo isso em palestras quando surge esse tema. A sua carreira de atleta vai acabar um dia e os efeitos colaterais que você vai ter certamente não valem a pena. Aqui a gente tem a ABCD (Autoridade Brasileira Controle de Dopagem) que é uma das mais rigorosas do mundo. O motivo de não ter atletas paralímpicos de alto rendimento em casos de doping começa porque o CPB é muito presente na vida dos atletas. A gente sempre tem palestras em todas as semanas de treinamento. Todos os nossos medicamentos são passados para o Comitê, inclusive a suplementação alimentar. E eles passam tudo para a ABCD que faz exames surpresas, o que é muito raro em qualquer outro país. 

EE: Para você, o esporte é essencial?

VH: O esporte sempre foi muito essencial para mim. Começou por um motivo e hoje é por outro. O esporte que não me deixou entrar em depressão. O esporte que me ajudou a ser mais extrovertida. Foi o esporte que formou a Verônica positiva. E o esporte que deu uma vida muito melhor, uma auto-estima muito melhor à minha família. Hoje, eu acredito, sinceramente, que eu posso ajudar outras vidas, direcionar pessoas para o esporte por causa dos meus títulos, porolho14_200_02 causa da minha experiência dentro das pistas. Eu quero fazer o esporte ser essencial para muita gente. 

EE: Deixe uma mensagem para a torcida brasileira que está ansiosa para vibrar com vocês nos Jogos Paralímpicos do Rio.

VH: Essa é a parte que eu mais gosto (risos). Os Jogos Paralímpicos têm muito o que ensinar. Os Jogos Paralímpicos
 têm muito o que mostrar. Vamos mostrar que não é só a deficiência. Não é nisso que vocês vão se apegar. Vocês vão se apegar aos atletas, às histórias. Vocês vão ver coisas incríveis acontecendo. A gente vai mostrar para todo mundo que não existe o impossível, que você pode fazer o que quiser. E é aqui no Brasil, gente! Venham ver, torcer, se orgulhar. A gente vai fazer de tudo para orgulhar vocês.  

Fotos: Divulgação/CPB


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