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Tadeu San Martino (Kickboxing)

26/11/2013
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tadeu_san_martino_wgp_2013-texto_600Uma luta diária para sobreviver do kickboxing no Brasil


Por Katryn Dias

Tadeu San Martino é dono de um dos mais completos currículos do kickboxing nacional. Mas mesmo sendo um dos maiores destaques do país, o paulista não sobrevive do esporte e apenas treina entre os intervalos das aulas que ministra. Assim como muitos atletas, Tadeu reclama da falta de patrocínio e visibilidade do esporte.

"Os atletas estão todos migrando para o MMA. Os lutadores de artes marciais não têm mais eventos profissionais para poder participar."

O kickboxing está em crescimento, com cerca de 200 mil praticantes em todo o país, segundo estimativa da Confederação (CBKB). Com o sucesso atual dos lutadores brasileiros no MMA, os praticantes de kickboxing esperam mais oportunidades.

 

EE: Como foi seu primeiro contato com os esportes? Você praticou outras modalidades?

TSM: Eu comecei nessa área da luta com a capoeira, depois parti para o kung fu, boxe chinês, muay thai e finalmente o kickboxing. Conheci o kickboxing através do meu antigo mestre, que já é falecido. Ele me mandou para treinar na equipe da Confederação (CBKB), isso já tem uns sete anos mais ou menos. De lá para cá, venho sempre participando de eventos. Já fui campeão paulista, brasileiro, pan-americano e sul-americano.

EE: O que mais te atraiu no kickboxing?

TSM: O que me atraiu, primeiramente, foi a boa organização dos eventos pela Confederação. Além disso, o kickboxing é uma luta mais dinâmica, mais efetiva.

tadeu-miniatura-cbkb_303EE: No que o kickboxing se diferencia de outras modalidades de luta?

TSM: O kickboxing é arte marcial que dá um excelente condicionamento físico, tonifica bem a musculatura e proporciona um gasto calórico alto, além de ser simples e fácil de aprender. Por isso, é bastante procurada nas academias, principalmente por mulheres. É também uma luta de ringue, de contato. Dentro do kickboxing ainda existem várias regras de luta diferentes. Para nós que trabalhamos com artes marciais, é bom porque conseguimos atingir um leque muito maior de pessoas.

EE: Você pode dar uma pequena explicação da diferença das categorias?

TSM: Dentro do kickboxing nós temos o Semi Contact, que é uma luta feita no tatame no chão em que cada vez que você toca o seu adversário, ganha um ponto. No tatame, também tem o Point Fight, que é uma luta um pouco mais solta, que preza pelo volume de golpes. Nessa categoria é proibido nocautear o adversário. Agora, as lutas de ringue são: Full Contact (chute da cintura para cima e boxe), Low Kicks (chute do joelho para cima e boxe) e K1 (socos, chutes e joelhadas).

EE: Este ano você foi vice-campeão do World Combat Games, na Rússia. Como foi a competição para você?

TSM: Essa foi a maior e melhor competição que eu já participei. É como se fosse uma Olimpíada das artes marciais, que reúne 15 tipos de lutas diferentes. Essa foi a terceira edição do Combat Games, mas foi a primeira vez que eu participei. Para chegar até lá, tiveram seletivas e só o campeão de cada continente conseguia classificação. Nós brasileiros participamos da seletiva das Américas, no Pan-Americano. Eu disputei com um norte-americano, um paraguaio e um argentino. Ganhei dos três e consegui a vaga para ir para a Rússia. 

Nossa, em termos de organização e nível técnico, foi tudo perfeito. Como tinham campeões de todos os continentes, era só fera. Graças a Deus eu consegui a medalha de prata. Por pouco não consegui a de ouro, mas fiquei muito feliz com o resultado.

EE: No Mundial deste ano, você conquistou o bronze. Você saiu satisfeito com o resultado?

TSM: É, a gente fica com aquela sensação de que podia mais, foi por muito pouco... Esse também foi o meu primeiro Mundial, que foi realizado aqui no Brasil, então ficou um pouco mais fácil. O Combat Games nós só conseguimos ir porque o Comitê Olímpico (COB) pagou tudo. Infelizmente nós não conseguimos participar de mais eventos como esses lá fora por falta de apoio e patrocínio. Nós temos muitos atletas bons aqui, mas sem experiência internacional exatamente por isso. Não temos condições de viajar, sai caro tendo que arcar com passagem, hospedagem, alimentação... É muito complicado.

tadeu_2_325EE: Um atleta de kickboxing não consegue patrocínio individual?

TSM: É muito difícil. Nós não temos muitos eventos em que a televisão aberta vá cobrir, para dar mais visibilidade. Essa seria uma ferramenta a mais para poder apresentar para o patrocinador. Mas como não tem divulgação, fica difícil. E nós já vivemos num país em que só se fala de futebol, pelo menos para a grande maioria. Está melhorando um pouco agora com o sucesso do MMA, mas ainda não é fácil conseguir patrocínio.

EE: Como foi a experiência de lutar em um Mundial pela primeira vez no Brasil?

TSM: Foi muito bom. Teve um bom público e a organização foi impecável. O único ponto negativo é que não tinham árbitros brasileiros, então algumas lutas deixaram a desejar na arbitragem. Deu para perceber que teve um certo protecionismo dos gringos, algumas lutas eles meteram a mão bonito (risos). Mas infelizmente isso acontece... Em termos de organização, foi perfeito. Vieram mais de 40 países, com atletas muito bons que renderam lutas excelentes. E o Brasil foi bem, nós estávamos com a equipe quase completa e conseguimos chegar bem. Os gringos viram que o Brasil tem força no kickboxing. O problema é que infelizmente os brasileiros não conseguem participar dos torneios com frequência. Só dois ou três brasileiros já tinham experiência em Mundiais. Mas como foi aqui, então deu para incomodar bastante os europeus, que são os mais fortes na modalidade. Foi muito bom estar lutando entre os melhores.

EE: Em sua opinião, a realização do Mundial ajudou a divulgar mais a modalidade dentro do país? O que poderia ser feito para avançar mais nesse sentido?

TSM: Com certeza. O Mundial teve um resultado muito bom. Infelizmente, não passou na TV aberta e foi o que faltou. Se de repente passasse na TV aberta seria um incentivo maior. Mas de qualquer jeito foi bacana, passou em outros canais. O retorno foi bom, tanto que o tempo dos programas de kickboxing está aumentando nos canais esportivos. Antes o tempo era bem reduzido, agora já estão passando ao vivo até as lutas preliminares. Isso é sinal de que está dando audiência e o esporte está crescendo. Aproveito o espaço para parabenizar a CBKB pelo trabalho que tem feito para divulgar cada vez mais o esporte.

tadeu3-texto_470EE: Hoje você está com 38 anos, uma idade um pouco avança para um atleta. Você já pensa na aposentadoria? O que pensa em fazer quando parar de lutar?

TSM: Eu já trabalho com o kickboxing o dia todo e vivo das aulas. Eu só treino nos intervalos, o que é muito complicado para mim porque não tenho um horário fixo para treinar. Como não tenho patrocínio, eu dependo das aulas. É isso o que mais dificulta para mim. A idade não é exatamente um problema, daria para competir até um pouco mais velho. Nós temos atletas com 42, 43 anos lutando. O que importa mesmo é você ter um treino legal, com tempo de descanso. O complicado é ficar nessa rotina de dar aula, treinar, dar aula de 6h30 até 22h. Às vezes, aparece uma luta que vá me dar uma condição financeira legal e eu aceito mesmo não estando na melhor condição física.

Mas no futuro, parando de lutar, sonho em abrir a minha própria academia. Porque hoje eu não tenho minha própria equipe, vivo dos treinos recreativos e de condicionamento físico que eu dou em três academias. 

EE: Qual você destacaria como o momento mais marcante da sua carreira?

TSM: Foram dois momentos, na verdade. O primeiro foi no Combat Games, que foi uma experiência muito marcante. Estar num pódio numa Olimpíada, mesmo em segundo lugar, vendo a bandeira do país subindo... 

O segundo aconteceu há dez dias, quando ganhei o título profissional, que eu ainda não tinha. Foi muito emocionante lutar em São Paulo, perto de casa e com a torcida toda a favor. Foi uma luta difícil e depois de cinco rounds duros eu consegui me consagrar campeão brasileiro.

EE: Você acha que esse ano atingiu o auge da sua carreira?

TSM: É, foi um ano muito bom. Teve a medalha de bronze no Mundial, a medalha de prata do World Combat Games, o título brasileiro profissional... E tudo isso com 38 anos! Com certeza esse foi o melhor momento da minha carreira até hoje. E eu já estava pensando em parar, com a idade um pouco avançada e sem condições de treinar direito... Mas tudo deu certo.

tadeusanmartino-kickboxing-texto_607EE: Atualmente, um dos esportes de maior popularidade no mundo é o MMA. Você acredita que o MMA auxilia na divulgação das artes marciais?

TSM: Com o MMA, o pessoal está conhecendo mais os atletas. Mas o lado ruim é que não temos mais eventos das lutas separadas, como boxe, muay thai, kickboxing, são só eventos de MMA. Então, o que está acontecendo é que os atletas estão todos migrando para o MMA e as lutas perdem um pouco com isso. Os lutadores de artes marciais não têm mais eventos profissionais para poder participar e ganhar uma grana. Não temos um calendário de eventos, enquanto as lutas de MMA acontecem todo final de semana. Se nós tivéssemos mais eventos, talvez nós conseguíssemos viver do esporte. Como ainda não é possível, nós temos que trabalhar. Eu, por exemplo, dou aula manhã, tarde e noite em academias e sobra muito pouco tempo para treinar.

EE: Você diria que o esporte é essencial?

TSM: Com certeza. A arte marcial é a minha vida. Comecei a praticar ainda criança, com 12 anos, e fez toda a diferença na minha formação. Eu fui criado na favela e moro até hoje em um prédio da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano). Então, cresci vendo muitos dos meus amigos indo para outros caminhos, alguns até já morreram. Graças ao esporte, tive uma vida e uma educação diferente. O esporte dá um caminho e hoje eu consigo viver dele.

Além disso, praticar esportes também dá condicionamento físico e estrutura psicológica. Ou seja, te prepara para a vida, de uma maneira geral.

EE: Qual sua posição sobre o doping no esporte?

TSM: Uma coisa que achei interessante no World Combat Games é que lá teve exame antidoping, coisa que eu nunca vi nas competições aqui no Brasil. Eu acho que tem que ter sempre, porque o doping é uma coisa desleal. Um cara que tem um acompanhamento desse tipo, às vezes consegue dobrar força e resistência. Então não é justo colocar um cara desses para lutar com outro que não usa nada disso. Em uma competição, com o corpo no limite, alguns atletas acabam perdendo a noção, querem ganhar de qualquer forma, querem manter o condicionamento físico acima da média de qualquer forma e aí acabam apelando para o doping.

Sem contar os riscos. A molecada mais nova que não tem uma estrutura legal, não tem acompanhamento médico, procura na internet o que usar e começa a ingerir anabolizante e outras drogas. Com isso, acaba encurtando a carreira. Tenho muitos amigos que, por uso exagerado de anabolizantes, tiveram problemas de fígado, de rim e até câncer. 

Nós vemos direto na mídia que casos desse tipo são comuns. Como um que aconteceu há pouco tempo no Nordeste, em que adolescentes acabaram morrendo após injetarem anabolizante de cavalo em uma dose muito superior do que o animal poderia usar. 

Fotos: Divulgação/CBKB


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