Últimas Notícias

Homem é preso após ameaça de bomba e tenta levar avião a Soshi...
Esporte que constrói o Brasil.

ENTREVISTAS

Susana Schnarndorf (Natação Paralímpica)

08/10/2014
Esportes relacionados:

susana-capa_680

 

Por Katryn Dias

Para uma “mulher de ferro” – que participava de provas com 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42,195 km de corrida –, descobrir que seus músculos estavam paralisando foi um choque. Diagnosticada com uma síndrome degenerativa chamada Shy-Drager, Susana Schnarndorf teve que abandonar o triatlo e passou por momentos difíceis. A vida só melhorou quando a gaúcha voltou a nadar.

Hoje Susana fala de suas dificuldades físicas com bom humor e segue driblando a doença para conquistar títulos e bater recordes. A campeã mundial nos 100m peito da classe S6 agora sonha em conquistar o ouro olímpico em 2016, com o apoio dos três filhos na arquibancada.

 

EE: Como foi o início da sua carreira como atleta?

SS: Eu comecei a minha carreira com a natação quando era pequena, ainda lá em Porto Alegre. Depois conheci o triatlo por volta de 1992 e passei a me dedicar completamente. Participei de 13 edições do Ironman, fui campeã brasileira e conquistei outros títulos. Aí em 2005 comecei a ficar doente. Tive que ficar muito tempo parada, mas depois entrei para o paradesporto.

EE: Olhando para trás, qual você diria que foi o auge da sua carreira no triatlo?

SS: Ah, com certeza foi em 1995 quando participei pela primeira vez o Ironman do Havaí. Para o triatleta, essa prova era como se fosse uma Olimpíada*. Então, acho que foi meu ápice ali.

*Na época, o triatlo não fazia parte do programa olímpico. A modalidade só foi incluída nos Jogos de Sidney, em 2000.

01_200_05EE: Você já acumulava vitórias no triatlo internacional quando foi diagnosticada com um tipo raro de Mal de Parkinson, a síndrome Shy Drager. Quanto tempo você levou para superar a notícia? 

SS: Olha, foi bastante tempo, viu? Primeiro porque não diagnosticaram direito o que eu tinha, e cada vez fui piorando mais, me deram pouco tempo de vida... Então, o início foi bem difícil. Mas depois a gente vai vendo que não adiantar ficar se lamentando... Acho que não acreditei no meu diagnóstico, na verdade. Eu tive que praticar esporte para não me entregar. Daí voltei para a piscina para nadar do jeito que conseguia nada mesmo. E essa piscina em que fui treinar no Rio de Janeiro era onde a seleção brasileira paralímpica treinava. Eu fiquei amiga deles e o pessoal começou a me chamar para treinar. A partir daí a minha vida mudou. 

 

O recomeço

 

EE: Como foi o seu recomeço na natação paralímpica?

SS: Eu fui bem desde o momento em que participei da minha primeira prova no paradesporto. Nessa competição, eu já bati três recordes brasileiros. A partir daí, a minha vida mudou da água para o vinho. Em 2011, fui para os Jogos Parapan-Americanos de Guadalajara e, em 2012, participei da Paralimpíada. Agora estou treinando para um sonho maior, que é a medalha de ouro nas Paralimpíadas do Rio, em 2016.

susana_ribeiro_366EE: No que a doença mais te afeta hoje?

SS: Eu tenho rigidez muscular, falta de coordenação motora, baixa capacidade respiratória, tenho movimento involuntário, um monte de coisa ruim (risos)...

EE: A natação tem te ajudado a superar os problemas?

SS: Eu continuo piorando, porque a doença é degenerativa. Mas como treino todo dia, agora está mais devagar. Se eu não treinasse, minha condição já estaria bem pior, com certeza.

EE: Mas a sua qualidade de vida melhorou, então?

SS: Com certeza!

EE: Em 2016, o triatlo vai entrar para o programa dos Jogos Paralímpicos. Você chegou a pensar em voltar para a modalidade que te iniciou?

SS: Não, não (risos)... Vou continuar só na natação mesmo.

 

Conquistas e reconhecimento

 

02_200_07EE: Nos Jogos de Londres, por muito pouco você não conquistou o bronze nos 100m peito. Como você avalia sua participação? Ficou satisfeita com o quarto lugar?

SS: Olha, eu realizei um sonho ao ir para a Paralimpíada de Londres e chegar a uma final. Bem perto da Paralimpíada eu tive uma queda e uma consequente piora. Então, fui reclassificada, nadei na classe S7. E a Paralimpíada foi uma surpresa para mim, porque pensei que não fosse conseguir nadar tão bem. Não ganhei medalha, a gente fica meio triste de não subir no pódio, porque tem esse sonho... Mas aquele quarto lugar, naquele momento, foi como se eu tivesse ganhado a medalha de ouro.

EE: A meta para os Jogos do Rio é ir além, não é?

03_200_05SS: É isso mesmo. Para 2016, meu sonho é escutar o hino nacional ali no lugar mais alto do pódio. Eu nunca trabalhei tanto para isso, estou longe dos meus filhos e me dedicando muito. Estou fazendo de tudo para chegar lá na minha melhor forma, poder disputar uma medalha de ouro e ganhar, se Deus quiser.

EE: Você acha que a torcida brasileira pode ser um diferencial, um empurrãozinho a mais?

SS: Não vai ser empurrãozinho, vai ser um “empurrãozão” (risos). Para mim, ter meus filhos na arquibancada vai ser maravilhoso, uma torcida muito especial. Com eles ali, eu vou querer nadar mais forte ainda.

EE: Em 2013, você fez sua estreia no Campeonato Mundial Paralímpico de Natação. Como foi encarar os melhores do mundo na água e sair como campeã mundial nos 100m peito?

susana2-1376444312_406_01SS: O Mundial do ano passado foi muito especial para mim. Eu entrei na piscina não sendo a favorita e competi com a campeã paralímpica na minha prova. Mas quando caí na água, muita coisa veio à cabeça. Eu pensei: “o momento de ganhar é agora”. Então, caí na água já sabendo que ia ganhar, mesmo tendo adversárias boas de briga. O resultado foi que eu me superei, baixei em três segundos o meu tempo da manhã [nas classificiatórias] para a tarde [final]. Quando bati na borda, não vi que tinha ganhado, porque cheguei muito perto da segunda colocada. Quando descobri que tinha ganhado, fiquei muito emocionada, passou aquele filme na minha cabeça de tudo que precisei enfrentar até chegar aquele momento. Ali eu nadei com a alma, nadei com o coração. Para mim não era só uma competição, eu lutei pela minha vida. Então, foi diferente para mim.

EE: Depois desse resultado, você foi eleita a melhor atleta paralímpica do país no ano. Como vê esse 04_200_07reconhecimento?

SS: Aquela noite foi muito especial para mim, fiquei muito emocionada com o prêmio. Eu estava competindo com outras atletas paralímpicas também muito boas. Por isso, quando escutei meu nome, foi meu momento de realização. Eu tive muito orgulho de ganhar aquele prêmio. Ainda mais ao lado do Daniel Dias, nadador de quem sou muito fã. Então, eu fiquei muito feliz.

EE: O Daniel Dias foi uma inspiração para você volta a nadar?

SS: Eu só conheci o Daniel depois, quando entrei para a seleção. Ele é uma inspiração para mim todos os dias até hoje. Nesse Mundial, eu estava bem nervosa e ele me ajudou muito. Ele é um atleta que a gente pode se espelhar, porque mesmo conquistando todas as medalhas que tem, continua uma pessoa humilde, treinando muito. Daniel merece cada medalha de ouro que recebe.

 

susana-premio-paralimpicos-2013-cpb-texto2_670 Susana recebe do presidente Andrews Parsons o Troféu de Melhor Atleta de 2013 no Prêmio Paralímpicos

 

Novos desafios

 

EE: Quais são seus próximos compromissos?

SS: Esse ano ainda temos duas competições. Temos a última etapa do Campeonato Brasileiro, que vai ser em Fortaleza agora em novembro. Depois nós vamos para o Canadá competir num Meeting que vai ter lá e é o último do ano. Em 2015, tem duas competições muito importantes: os Jogos Parapan-Americanos em Toronto e o Campeonato Mundial, em Glasgow, na Escócia. Essas últimas já são preparatórias para as Paralimpíadas de 2016.

EE: Como você avalia a estrutura do esporte paraolímpico no Brasil? Falta alguma coisa para os atletas?

su-sierra-nevada-texto_427SS: Nós estamos treinando aqui em São Caetano do Sul desde o início do ano. Eles montaram um centro de referência na cidade, então o Time Rio e o Time São Paulo estão treinando juntos aqui, num total de 10 atletas. É uma estrutura muito boa, os técnicos são ótimos e ainda temos acompanhamento de nutricionista, psicólogo, etc. Nós estamos fazendo uma preparação para chegar cem por cento na Paralimpíada. Acho que para nós da natação não falta nada.

EE: Até ano passado você estava no Rio. Agora mudou de vez para São Caetano?

SS: Não, de vez não (risos)! Eu vou e volto todo final de semana. Treino sábado, pego o avião e vou para o Rio ver meus filhos, minha família, e volto no domingo à noite. Vou ficar treinando em São Caetano até 2016.

EE: Então, durante a semana você fica afastada dos seus filhos. Essa fase está sendo difícil?

05_200_07SS: É um sofrimento... Eu tento não pensar sobre isso senão fico muito triste. Fico contando os dias para chegar sábado e poder abraçar meus filhos. Mas é o que eu falo para eles, nós somos um time. Eu estou aqui treinando para uma competição muito importante e eles entendem isso. Mesmo assim, a saudade é grande. Eu fico com o coração apertado, ligo para eles umas 20 vezes por dia, mas não é a mesma coisa do que poder estar perto todo dia e abraçar quando quiser. Ficar longe dos meus filhos é a parte mais difícil de ser atleta de alto rendimento.

EE: Como é a sua rotina de treinos?

SS: Eu treino de manhã e de tarde todos os dias. Isso dá umas cinco, seis horas por dia de treino. Além de treinar na água, faço a parte de musculação. Às vezes cansa muito, mas vai valer a pena.

EE: Você ensina a importância do esporte para os seus filhos? Eles já se iniciaram no esporte? Você incentiva isso?

SS: Eles vivenciam o esporte desde bebês, porque tanto eu quanto o pai deles somos atletas. Nenhum deles é atleta ou compete. Nós deixamos livre para eles escolherem o que queriam praticar, não tentamos impor nada. Mas eles vivenciam muito por estarem comigo. Sempre querem saber como foram os meus treinos e entendem que se eu nado mal fico de mau humor (risos). Hoje eles já estão acostumados com isso. Então, o esporte também é uma coisa bem forte na vida deles.

06_200_06EE: Para você, o esporte é essencial?

SS: Para mim, o esporte é totalmente essencial. Tenho certeza que é por causa do esporte que eu ainda estou aqui. O esporte devolveu a minha vida.

EE: Os órgãos responsáveis pelo controle antidoping notam, cada vez mais, o aumento do uso de substâncias proibidas nas modalidades paralímpicas. Como você encara o doping?

SS: Eu tomo muito cuidado com tudo o que consumo. Nós tomamos suplemento e outros produtos apenas de marcas que já foram testadas. Eu acho que o atleta é totalmente responsável pelo que toma. Então, temos que prestar muita atenção nisso. Temos que olhar todo o suplemento que o nutricionista passa e toda medicação que formos tomar, temos que avisar o médico e perguntar se pode. 

EE: Você recebe orientação do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) ou dos técnicos?

SS: Sim, nós somos orientados quase diariamente sobre isso e assistimos palestras. Todo atleta sabe que antes de tomar qualquer coisa tem que pedir orientação.

EE: Como você vê os atletas que se dopam com o intuito de melhorar os resultados?

SS: Eu acho que doping está fora do esporte. O atleta de verdade compete de igual para igual com todo mundo. Eu vejo como uma competição sem graça essa que envolve atletas dopados. Para mim, não teria a menor graça ganhar uma medalha de ouro me dopando concorrendo com atletas que não fazem uso de nada.

Fotos: Divulgação/CPB


Fatal error: Call to a member function getLink() on a non-object in /home/storage/a/b4/92/memoriaolimpicabrasi/public_html/incs/coluna_direita_noticias.codigo.php on line 27