Últimas Notícias

Homem é preso após ameaça de bomba e tenta levar avião a Soshi...
Esporte que constrói o Brasil.

ENTREVISTAS

Robson Caetano (Atletismo)

21/07/2012
Esportes relacionados:

robson_caetano_arquivo_pessoal_680O brasileiro mais rápido da história


Por Manoela Telles e Thyago Mathias

Considero as derrotas mais importantes do que as vitórias porque são tijolos nos fundamentos da vida de qualquer pessoa, de maneira geral. As vitórias são a consagração do trabalho realizado e as derrotas acontecem num momento em que você percebe que existe algo que deve ser modificado, deve ser trabalhado. Aí você passa às conquistas.

Robson Caetano da Silva é tricampeão mundial nos 200m (Copas de Camberra, Barcelona e Havana). Participou de quatro edições dos Jogos Olímpicos e subiu ao pódio em dois deles: Seul 1988, onde conquistou o bronze nos 200 metros rasos, e em Atlanta 1996, onde também ficou em terceiro, no revezamento 4x100m. Homem, mais rápido da América do Sul, Robson Caetano é detentor, até hoje, do recorde sul-americano nos 100m, com tempo de 10 segundos cravados que lhe deram vitória no Campeonato Ibero-Americano do México (1988).

Memória Olímpica: Em 1989, você viveu um grande momento em sua carreira: estabeleceu seu recorde pessoal e recorde sul-americano até hoje não superado, com 10s, na prova de 100m rasos do Meeting de Bruxelas. Derrotou Carl Lewis, considerado um dos melhores atletas do mundo. Como foi essa experiência?

Robson Caetano: Foi o ano em que mudei para San Diego, Califórnia. Junto com meu técnico na época, o Carlos Alberto Cavaleiro, trabalhamos e começamos a perceber os resultados. Fizemos uma primeira prova, em Tucson (Arizona, EUA), e vencemos com bons resultados nos 200m. Demos sequência ao trabalho, correndo esporadicamente as provas de 100m, o que culminou na vitória em Bruxelas em cima do Carl Lewis e do Joe DeLoach, campeões olímpicos. Isso me deu a certeza que o trabalho estava correto. Foi um ano mágico. Eu participei de quase 40 provas e fiquei em segundo lugar em apenas em uma elas.

MO: Como os erros contribuíram na construção da sua trajetória enquanto esportista?

RC: Os erros foram de fundamental importância. Há uma frase que serve para atletas e todas as pessoas: “É possível errar. Mas é preciso ter consciência do erro. De alguma forma, ele pode te levar à construção do sucesso”. Nosso papel nessa vida é fazer com que os nossos erros não se repitam nas gerações futuras. O grande legado que podemos deixar é uma vida de vitórias. Os passos devem vir seguidos de acertos e bem trilhados pelas gerações que estão chegando.

robson-caetano_cbat_489MO: Você foi campeão olímpico duas vezes e venceu três Copas do mundo de atletismo, além de ter saído vitorioso de várias outras provas e batidos vários recordes. Qual foi o momento mais importante da sua carreira?

RC: Tenho uma carreira de 25 anos no esporte. Escolher um só momento é difícil, são vários. Sou medalhista olímpico duas vezes, campeão do mundo, recordista gaúcho, recordista manauara, nas provas de 100 e 200 metros. Mas os momentos mais importantes foram aqueles em que encontrei algumas pessoas.  O momento mais feliz é ter deixado uma marca: Robson Caetano. Ela permitiu a mim e a outras pessoas conseguir o sucesso.

MO: Que dificuldades você enfrentou ao longo da sua carreira? O que elas representaram? Em algum momento você pensou em desistir?

RC: Nós temos dificuldades em todos os momentos, mas é isso que faz a vida ser um desafio tão gostoso, tão especial. São elas que nos convencem de que somos capazes de conquistar as coisas. As dificuldades me ajudaram a entender a importância de continuar. Eu sou uma pessoa muito dedicada, consciente e sempre soube de minha capacidade, mas também reconheço meus defeitos. Dificuldades fazem parte da vida e do esporte. Mas desistir é uma palavra que não faz parte do meu vocabulário.


MO: Qual o valor do esporte em sua vida? Além do atletismo, que outras atividades você pratica?

RC: O esporte é basicamente tudo na minha vida. Por meio dele eu conquistei muitas coisas. Eu jogo golfe e pratico voo livre. O golfe me proporciona paz de espírito e o voo livre, a sensação de liberdade. Faço musculação sempre que posso, não tenho mais o hábito de ir à academia todos os dias, para cultuar o corpo.  Hoje, penso que o intelecto tem um significado mais importante do que o corpo. Precisamos ser pessoas mais intelectualizadas, amorosas e emocionalmente mais bem resolvidas. É raro eu correr. Sou adepto da caminhada e jogo vôlei de praia, um esporte que me deixa também muito tranquilo porque é um esporte de competição no qual não existe contato direto.

MO: Como você vê o atletismo brasileiro hoje? Você reconhece algum talento dentro do esporte?

RC: Eu percebo que o atletismo brasileiro vai muito bem, haja vista a evolução de algumas provas, principalmente, no feminino. O atletismo feminino cresceu muito, se desenvolveu muito e hoje tem nomes que se consagraram, como a Ana Cláudia Lemos, a Rosângela Santos... No masculino, o Nilson André vem se destacando muito bem no cenário dos 100m. Temos futuro. O Ronald Julião tem se destacado no lançamento de disco, assim como a Andressa Oliveira. A Maurren Maggi no salto em distância, a Fabiana Murer no salto com vara e o Fabio Gomes da Silva, também. Temos a Keila Costa, no salto triplo e em distância. Hoje, temos um universo mais diversificado no atletismo. O que antes era só pista, só provas de velocidade, se ampliou e há um campo muito maior.

MO: Você costuma destacar o valor da família. Qual é a importância da família na sua carreira?

RC: Minha família foi fundamental, mas poderia ajudado mais. Quando você se sente abraçado pela família, sabendo da oportunidade que tem, através do esporte - e hoje, há um entendimento muito maior da família, nesse aspecto -, fica tudo muito mais fácil para o atleta. Ele se sente mais acolhido. Tive vários momentos em que minha família duvidou da possibilidade que o esporte apontava em minha vida.  Fui mostrando, aos poucos, que o esporte era o caminho, sim, que eu tinha que largar o emprego como ajudante de pedreiro e todo o resto. E uma pessoa em especial acreditou muito em mim, chamada Sônia Ricette (ex-técnica de atletismo). Foi ela quem me descobriu num campo de futebol, jogando um rachão, e me trouxe para o universo do esporte de alto rendimento.

robson_caetano_arquivo_pessoal_2_416MO: Quais são as suas expectativas para as Olimpíadas de Londres no atletismo?

RC: Como torcedor, eu acho que o Brasil vai ganhar tudo, tem que ganhar tudo. O torcedor brasileiro torce pela vitória, ainda não tem a cultura de entender a evolução do esporte, está aprendendo. Hoje, há atletas que ganham bons salários e tem ótimas estruturas para o treinamento.  Por mais que possa melhorar, hoje, eles possuem bons equipamentos, se alimentam bem. É diferente de uma época em que não se tinha nada para treinar. Então eles têm obrigação de chegar lá e conquistar pelo menos uma medalha, é o que espero como torcedor. Como comentarista, nós temos que avaliar a evolução do esporte. Há muitas modalidades com chances de medalhas: o atletismo, o vôlei, um dos melhores do mundo, no qual o Brasil se tornou referência, o basquete, o hipismo. Tem também o iatismo, que se desenvolveu bastante. O judô brasileiro, masculino e feminino, conseguiu, pela primeira vez, ter atletas em todas as categorias. Os técnicos vêm tendo a possibilidade de trabalhar com o que há de melhor, em termos de recursos humanos. Vamos torcer para que esses recursos se transformem em realidade nos Jogos Olímpicos. A pressão é muito grande. Estar numa Olimpíada é completamente diferente de tudo, especialmente para o atleta. Não é possível descrever a sensação de estar dentro de um estádio olímpico, de um ginásio olímpico, de uma piscina olímpica, competindo com os melhores do mundo.

MO: Quais as dicas que você daria para um atleta em relação justamente à concentração, à preparação psicológica para uma prova importante?

RC: Seja alegre, esteja feliz e esteja plenamente satisfeito com o treinamento que foi realizado ao logo de toda a sua carreira, para que você possa colocar em sua modalidade essa alegria, com técnica, vontade, garra e determinação. O que mais importa é sentir-se à vontade, mesmo no universo olímpico, que gera um nervosismo natural em todos os atletas. É importante reconhecer a responsabilidade e manter a alegria de estar vestindo a camisa verde e amarela. Estar leve, se sentir bem, estar despreocupado. Porque depois que passar esse turbilhão chamado Jogos Olímpicos vem uma mistura de sensações fantásticas e até frustrações. Mas eu diria que se for com alegria, se for feliz, respeitar as regras e entender que os adversários são apenas adversários, não são inimigos, tudo vai ficar bem.

MO: Você sempre manifestou publicamente sua indignação contra o doping. O que você, como atleta, pensa sobre o assunto?

RC: Na década de 1980, aconteceram várias atrocidades e covardias com atletas que não usavam doping e eu fui um dos injustiçados. Teve uma Olimpíada em que eu poderia ter me tornado campeão olímpico numa prova dos 200m e poderia ter me saído melhor na prova dos 100m, mas você já encontra uma barreira psicológica muito grande, sabendo que vai competir com atletas que estão se dopando e estão treinando. Além de se dopar, eles estão treinando, o que é um efeito limitador. Eu sou terminantemente contra. Para mim, um atleta pego no doping deveria ser banido do esporte. Todos os envolvidos, técnicos, atletas, comissões técnicas, clubes, deveriam pagar um preço altíssimo, mexer no bolso em caso de doping. Esse tipo de pessoa macula o esporte, tira os fundamentos do legado olímpico deixado pelo barão Pierre de Coubertin. Apesar de ser um entretenimento, o esporte é educativo. As crianças aprendem e se engajam através do esporte. Eu sou testemunha, sou a prova disso. Aprendi geografia, matemática, história, tudo através do esporte, só pelo fato de pertencer a uma seleção brasileira e estar servindo ao meu país.

robson-caetano_cbat_489

Robson Caetano da Silva foi descoberto por uma fada madrinha – a técnica de atletismo Sônia Ricette –, num campo de futebol, na Baixada Fluminense (RJ), no final dos anos 1970. Foi levado para o pentatlo moderno, no qual descobriu sua vocação para as provas de pista no atletismo. Especializou-se em provas de curta distância.

Seu primeiro pódio oficial foi uma terceira colocação, aos 19 anos, na prova de 4x100m, nos Jogos Pan-Americanos de Caracas (Venezuela), em 1983. Robson tornou-se um colecionador de medalhas. Quatro anos depois, conquistou a prata prova de 200m, no Pan de Indianápolis (EUA). No Pan de Havana 1991 (Cuba) conquistou medalhas de ouro nos 100m e 200m.

Segundo Caetano, todos os títulos de sua carreira tiveram grande importância, pois ajudaram a consolidar a busca pelo resultado e a certeza de que poderia se tornar um atleta de nível olímpico. Após encerrar a carreira, em 2001, passou a atuar como comentarista de TV. Multifacetado, já foi disc-jóquei (DJ), Formado em Educação Física, também fez faculdade de jornalismo e foi disc-jóquei (DJ). Hoje faz palestras sobre temas relacionados ao esporte. Nas horas vagas, não dispensa um bom filme, adora viajar e pratica voo livre, uma de suas paixões.


Veja mais:


Fotos: Divulgação (CBAT) / Arquivo pessoal