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Roberta Rodrigues (Boliche)

25/06/2015
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Por Katryn Dias

Roberta Rodrigues descobriu o boliche como muitos brasileiros: brincando com os amigos na pista em um momento de lazer. A diferença é que para ela, em pouco tempo, o lazer virou treinamento. Hoje, já faz mais de 10 anos que Roberta se dedica à seleção brasileira da modalidade.

Líder do ranking nacional, Roberta está focada em fazer bonito na sua estreia nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, em julho, no Canadá. Antes, porém, ela embarca para outro desafio: ajudar a mostrar para o Comitê Olímpico Internacional (COI) porque o boliche deve entrar no programa de 2020.

 

EE: Como surgiu seu interesse pelo boliche?

RR: Olha, comecei por brincadeira. Na época, nem tinha ideia que existiam competições de boliche ou seleção brasileira. Quando era criança, por volta dos 10 anos, comecei no Acre Clube, que fica na zona norte de São Paulo. Eu estava brincando com meus amigos no clube, era um lugar recreativo mesmo. No dia, tinham uns caras mais velhos que jogam lá, acharam que eu jogava bem e me convidaram para um campeonato da Federação Paulista. Então fui jogar meu primeiro campeonato, o Brasileiro Infanto-Juvenil, e já fui campeã. Depois disso nunca mais parei. Em 2004, entrei na seleção brasileira juvenil e, dois anos depois, já estava na adulta. Desde então não saí mais da seleção.

EE: Quando você decidiu que queria chegar ao alto rendimento?

RR: Em 2004, joguei meu primeiro campeonato pela categoria juvenil, o Interamericano, na Guatemala. Eu estava bem nervosa... Mas quando joguei pela seleção adulta, em 2006, os Jogos Sul-Americanos (ODESUR), percebi que era aquilo mesmo que eu queria fazer. Acho que foi a partir dessa época também que eu alavanquei no boliche.

01_200_31EE: Você é estudante de Letras. Consegue conciliar a faculdade com os treinos?

RR: Eu estudo de manhã e tento treinar à tarde ou à noite. Além disso, participo de campeonatos fora do horário de aula. Aqui em São Paulo jogo torneios praticamente todos os finais de semana (os campeonatos da Federação Paulista são aos finais de semana). Já os torneios do Circuito Brasileiro geralmente caem em feriados. Quase todos os feriados tem campeonato, porque são quatro dias de competição. Num feriado que cai numa quinta-feira, normalmente jogamos de quinta a domingo. Assim fica mais fácil para as pessoas conseguirem ir. O boliche é um esporte amador, então praticamente todo mundo que joga tem uma profissão. Assim fica mais fácil conciliar.

EE: Então o esporte nunca atrapalhou seus estudos?

RR: Não. Até porque a faculdade sempre me deu bastante ajuda, porque sabe que eu jogo pela seleção brasileira. Os professores abonam as minhas faltas, eu só preciso compensar as matérias quando voltar.

EE: Como é sua rotina de treinos? Você treina todos os dias?

RR: Não. Eu não estava treinando todos os dias, mas faltando um mês para o campeonato comecei a jogar cinco ou seis dias por semana. Também comprei material novo, especialmente para chegar bem preparada do Pan. Mas antes do Pan, estou indo para o Japão jogar um torneio e, de lá, vou para o Canadá. Agora é a reta final e vou dar uma acelerada nos treinos.

 

O boliche no Pan

 

EE: Qual a sua expectativa para o Pan de Toronto? Vai ser sua estreia, não é?

02_200_34RR: É, eu nunca participei. Estou feliz e bem ansiosa. Na última edição, já estava bem preparada, mas acabei saindo no último dia das eliminatórias e fiquei fora do Pan de Guadalajara. Então, nessas eliminatórias eu estava muito focada. Aconteceu no início do ano, por isso passei todos os dias do carnaval treinando. Queria mesmo conseguir essa vaga. Eu joguei muito bem as eliminatórias e terminei em primeiro lugar com uma vantagem boa. Por tudo isso, estou muito feliz. A companheira que vai jogar comigo também é do Pinheiros, então a gente já se conhece e já joga junto, apesar de ela morar nos Estados Unidos. Estamos bem entrosadas e empolgadas, acho que vai ser bem legal competir no Pan.

EE: Sua companheira de equipe, Stephanie Martins, já participou do Pan de 2011. Existe uma troca de experiências entre vocês?

RR: Existe, com certeza. A gente se ajuda bastante. Ela mora nos EUA, mas esteve agora há pouco no Brasil para participar do Brasileiro de Clubes, que tem todo ano. O Pinheiros leva duas mulheres e quatro homens e ela veio jogar de novo comigo. Se não me engano, nós fomos pentacampeãs brasileiras esse ano. Nós nos ajudamos muito, vamos nos falando sempre. Já viajamos para vários torneios juntas e nos damos bem. Ela conhece meu jogo e eu, o dela. Isso ajuda. Por isso, estamos bem animadas para jogar juntas no Pan.

 

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Roberta posa ao lado dos companheiros de equipe para o Pan: Charles Robini, Stephanie Martins e Marcelo Suartz

 

 

A luta para entrar no programa olímpico

 

EE: Você vai participar de uma competição demonstrativa para o Comitê Olímpico Internacional (COI), no Japão. Como vai ser isso? Qual o objetivo?

03_200_29RR: Em 2020, as Olimpíadas vão ser no Japão e o país-sede tem direito a indicar um esporte para entrar no programa. E o Japão quer colocar o boliche. Eles estão fazendo um campeonato (World Bowling Tour Major: Bowling World Open - Bowling to the Olympics) que vai ser uma mostra para o COI de como seria o boliche nos Jogos Olímpicos. O formato vai ser individual e duplas mistas, ou seja, eles convidaram um homem e uma mulher de cada país. Do Brasil, eu e Marcelo Suartz estamos indo para competir entre os dias 8 e 12 de julho.

EE: Vocês foram convidados ou teve uma seleção?

RR: A Confederação Brasileira de Boliche (CBBol) entrou em contato conosco. Acho que o Marcelo foi convidado pela organização, que queria ele mesmo. Já eu fui chamada pela Confederação porque sou a líder do ranking e fui a primeira colocada na eliminatória para o Pan. O Marcelo também é o primeiro do ranking. Então acho que a decisão foi por isso. De lá nós vamos direto para o Pan.

 

 

O cenário competitivo fora do Brasil

 

 

04_200_30EE: Stephanie se mudou para os Estados Unidos em 2009 para se dedicar mais ao boliche. Você acredita que sair do Brasil é melhor forma de evoluir na modalidade? 

RR: Realmente, saindo do Brasil a possibilidade de evoluir é muito maior. Outros países dão muito mais atenção do que aqui e conhecem o esporte. Por exemplo, nos Estados Unidos o boliche é um esporte universitário, os alunos competem o ano inteiro, tem toda uma preparação. A Stephanie e o Marcelo [Suartz] estudaram na mesma universidade norte-americana, que tem os melhores centros de treinamento de boliche no mundo. Isso ajudou muito a aprimorar o jogo deles, principalmente do Marcelo. Mas ele acabou voltando antes, porque é difícil viver de boliche.

EE: Você também pensou em morar fora?

06_200_22RR: Eu cheguei a pensar sim. Três universidades entraram em contato comigo para que eu fosse para os Estados Unidos. Mas acho que eu não conseguiria morar fora. Em uma delas, de Maryland, cheguei a fazer o processo até o final, teria 100% de bolsa, eles pagavam tudo, inclusive casa e alimentação... Eu falava com a técnica pelo telefone, mas chegou na última hora eu não quis ir. Eu não conseguiria morar cinco anos fora. Sou muito ligada à minha família. Já morei fora por curtos períodos. Morei cinco meses nos Estados Unidos para fazer curso de inglês e quatro meses na Bolívia para jogar um Campeonato Sul-Americano por um clube de lá. Mas cinco anos era demais... Não adianta. Essa oportunidade é para quem consegue largar seu país e sua família. Eu não consegui, fiquei no Brasil mesmo.

EE: Você se arrepende?

RR: Eu me arrependo às vezes. Tem momentos que penso que deveria ter ido e poderia estar muito melhor. Mas passou...

 

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Concentrada no jogo, Roberta disputa campeonato pela seleção brasileira

 

 

A estrutura brasileira

 

07_200_27EE: O boliche consegue espaço nos clubes atualmente? 

RR: É bem difícil... O Pinheiros é muito forte, até por nós sermos pentacampeões brasileiros. Mas a maioria dos clubes que têm boliche não são clubes propriamente ditos. São criados apenas para a modalidade e não têm uma estrutura por trás, como o Pinheiros. No Rio de Janeiro faz um tempo que o Vasco tem boliche. Acho que Portuguesa e Botafogo ainda conseguem se vincular a atletas também, mas não sei como funciona.

Eu acho que o boliche precisa ser muito mais divulgado no país. Quase ninguém sabe que existe competição internacional de boliche e que os atletas saem para representar o Brasil. O Brasil está muito fechado para o futebol e, agora, o vôlei. Os outros esportes são pouco divulgados ainda.

11_200_07EE: Como é a estrutura do Pinheiros para você?

RR: Eles não têm pista de boliche lá no clube, só têm bolão e, se não me engano, boliche de nove pinos, que não é o que jogamos. Eles chamam nosso boliche de bowling, como no inglês. Mas não têm pista apropriada. Então, nós treinamos fora do clube, só jogamos por ele.

EE: Mas o clube te dá outros tipos de apoio?

EE: Dá sim. O Pinheiros ajuda nas inscrições dos torneios. E somos reconhecidos lá. Além da ajuda do clube, recebo o Bolsa-Atleta. 

EE: Existe alguma comissão técnica?

EE: Não. Cada um é meio que por si. Eu treino sozinha, assim como a Stephanie, que mora nos Estados Unidos. Cada um treina de um jeito. Quando tem alguma competição que vamos participar como time, todos dão um jeitinho de treinar juntos. Mas a maioria das vezes cada um fica por conta própria.

EE: Não existe técnico no boliche ou vocês não podem arcar com essa despesa?

08_200_25EE: Nós treinamos por conta própria mesmo, sem auxílio de técnico. Até tem um técnico estrangeiro que já nos acompanhou em duas competições, pago pela Confederação Brasileira de Boliche (CBBol). Mas não que ele venha para o Brasil e fique aqui nos treinando. Se eu quisesse contratar um técnico até poderia, mas teria que pagar sozinha um técnico para me treinar, o que é muito difícil. Mas agora para o Pan-Americano nós temos um técnico norte-americano que vai nos acompanhar. Ele ajuda muito e faz toda a programação. Nós tomamos café da manhã juntos, temos um horário para dormir, e ele nos ajuda na pista. Ele é muito bom em conhecimento de pista, de material, de bola, e ajuda bastante durante o jogo. É diferente jogar assim. Mas aqui no Brasil não tem isso, eu não tenho um técnico para mim. Quando era mais nova, contratei um técnico e tinha aula. Mas hoje treino sozinha.

EE: Como uma pessoa pode começar a treinar boliche?

RR: Tem jogadores que dão aula para as pessoas interessadas, ou organizam clínicas. Além de jogar, eles ensinam. O Marcelo Suartz, por exemplo, já deu muita aula depois que voltou dos Estados Unidos. Agora ele não deve estar dando porque está treinando bem forte, se não me engano, todos os dias da semana. 

09_200_13É difícil porque se você vai ao boliche não sabe se tem um professor ali ou não. Teria que ser feito um trabalho de divulgação. Porque realmente estamos com falta de renovação. Precisamos de pessoas mais novas, no juvenil, que joguem boliche. Precisávamos fazer um trabalho para trazer gente nova para começar a aprender.

EE: A CBBol não faz esse trabalho?

RR: Eu não sei, acredito que não... É um trabalho que precisa ser feito, porque estamos bem mal. Por exemplo, no feminino juvenil, se não me engano, nós não temos ninguém para representar o Brasil em campeonatos. Então acho que a CBBol deveria se empenhar um pouco em trazer mais gente para jogar.

 

Diversos

 

10_200_15EE: Qual seu maior ídolo no esporte?

RR: Eu sou bastante fã de uma jogadora norte-americana, a Kelly Kulick. É muito boa, já joguei com ela em campeonatos. Kelly já foi profissional antes de acabar a liga profissional feminina (voltou há pouco tempo). Além disso, chegou a ganhar um campeonato da liga masculina, a primeira mulher a conseguir esse feito. Ela joga muito bem, tanto técnica quanto mentalmente. Mas existem muitos outros grandes jogadores no mundo... O boliche é um dos esportes mais praticados no mundo. É que o Brasil não tem muito conhecimento, mas fora daqui é um esporte muito difundido.

EE: Atualmente você é a líder do ranking nacional. Isso te traz mais responsabilidade? Pressão para continuar no topo?

RR: Com certeza! Não sei se existe essa pressão dos outros, mas eu me cobro bastante. Sou bem chata com isso, gosto de competir. Eu coloco muito mais pressão em mim mesma do que os outros. Talvez meu pai coloque um pouco também... Estou em primeiro e gosto de ficar ali, por isso me cobro mais.

roberta-texto_356EE: Qual sua posição sobre o doping no esporte? Existe antidoping no boliche?

RR: Sim, nós fazemos exame antidoping também. Inclusive fui chamada para ser testada no último torneio que participei. E eu sou a favor. 

Mas no meu esporte não tem muito porque usar doping. Acho que não tem nada que você possa usar para melhorar, tem que ser treino. Apesar disso, não fazer o teste seria meio injusto com as pessoas que não usam doping e que treinam e suam a camisa para conseguir um bom resultado. Não dá para uma pessoa dopada ter uma vantagem sobre esse outro que treinou...

EE: Para você, o esporte é essencial?

RR: Sim. Eu não consigo me imaginar sem o esporte. Sempre me envolvi com o esporte, pratico desde criança, várias modalidades, como natação, handebol, vôlei, futebol... Já fiz de tudo. Acho que natação foi o que eu mais me envolvi, adorava nadar... Mas o boliche é onde eu adoro competir, adoro o ambiente da competição, adoro treinar, ter foco. Eu gosto de tudo o que o esporte traz. Não me vejo não praticando boliche ou algum outro esporte.

 

Fotos: Divulgação/COB e Arquivo pessoal de Roberta Rodrigues


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