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RIO-2016: SEM TEMPO PARA MAIS CRÍTICAS

05/07/2016
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RIO-2016: SEM TEMPO PARA MAIS CRÍTICAS

Por Fabiana Bentes / Joana Coccarelli / Amanda Salles
Confira a entrevista no facebook/soudoesporte 

 

Crise na segurança, situação econômica e política preocupante e um estado de calamidade decretado no Rio de Janeiro. Ninguém poderia imaginar um contexto tão complicado diante de uma data tão esperada, mas ainda há chance de tirar saldos positivos dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio-2016. Essa é a mensagem de Lamartine Da Costa, um dos maiores pesquisadores sobre o esporte no Brasil e megaeventos esportivos.

Faltando pouco para o início do maior evento esportivo do mundo no Brasil, a jornalista Fabiana Bentes voltou a conversar com ele, numa entrevista ao vivo realizada pelo facebook/soudoesporte no dia 5 de julho, e você pode conferir lá este bate papo na íntegra ou acompanhar os pontos chaves por aqui.

JOGOS DO RIO2016 - o Final de uma Era

lamartine_420“Os Jogos do Rio de Janeiro terminam a era dos jogos gigantes. E sendo gigante é muito difícil cumprir todas as metas, mas acredito que sim, nós estamos prontos dentro do que foi possível ser feito. Não vai ser perfeito, mas vai ser possível dentro das condições colocadas pelo Rio de Janeiro”, afirmou.

Para Larmatine, os Jogos Olímpicos já definiram um novo tempo, um modelo desse futuro, que nada tem a ver com o que foi feito até agora, inclusive no Rio de Janeiro. “A agenda para Tóquio 2020, onde 42.000 sugestões foram transformadas em 40 recomendações, foge da visão que se tem de um evento de instalações, de legados. Não é somente isso. Por exemplo, a sustentabilidade será a grande moldura para a prática esportiva no futuro”, explicou.

Apesar de ter 99% das obras concluídas, a sustentabilidade é uma meta que não foi realizada no Rio de Janeiro. A tão falada despoluição na Baía de Guanabara, por exemplo, ficou apenas na promessa e, segundo Lamartine, a explicação para esse tema é clara: má administração. “Foram feitas alterações cosméticas com relação ao meio ambiente, uma decoração. A doença do Brasil não é a falta de dinheiro, mas sim, a falta de gestão. O país tem recursos, mas nós não temos conseguido sair das armadilhas político-administrativas que atingem a população”, concluiu.

Lamartine lembrou do caso recente de policiais e bombeiros, que foram ao Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Rio de Janeiro, protestar contra o não recebimento de seus salários por meio de um cartaz que dizia “Welcome to Hell” ou “Bem-vindos ao inferno”. Ainda que com muitas falhas, para o pesquisador, a atitude é um “tiro no pé”, um grande exemplo de como não agir neste momento pré-olímpico e ressalta que este é um momento único.

“Devemos esquecer o que é negativo e fazer de tudo para dar o melhor de nós. Qualquer coisa negativa, se volta contra nós mesmos. Não interessa mais os defeitos até agora. Aqueles policiais deveriam cobrar seus superiores, mas fazendo aquele tipo de manifestação, eles empurraram a responsabilidade para a sociedade brasileira. Acredito que devemos cumprir com o nosso dever de anfitriões e cidadãos neste momento”.

 Confira mais da entrevista com Lamartine da Costa:

LEGADO

“A questão do legado ainda está em aberto. Ela é fácil de definir, mas difícil na prática. Por exemplo, o velódromo construído no Rio de Janeiro tem uma serventia durante um período, mas ele jamais terá uma serventia longa na cidade. Nós gastamos uma fortuna de mais de 200 milhões e teremos um legado de horas e dias. Há uma escola da qual faço parte que define legado como aquilo que é assumido como responsabilidade pública. Tudo o que for de construção e organização em relação aos Jogos Olímpicos é um bem público pensado, não é uma entrega. O que houve até agora foi uma entrega e isso não interessa para o futuro”.

RIO X OUTROS EXEMPLOS DE JOGOS OLÍMPICOS

“Nós temos que separar o legado esportivo das mudanças da cidade. O Rio não passava por obras há 30 anos e estamos vendo uma transformação da cidade, principalmente em mobilidade urbana. Sair de 30% da população que usa o transporte coletivo para uma abrangência 60% é um avanço muito grande. Nenhuma cidade do mundo, nem Barcelona, teve modificações como essa. A mesma coisa não se pode ser dita do esporte. Nós vamos ter um espetáculo montado, mas não sabemos o que acontecerá depois. Isso precisa de uma definição e organização. Eu acho difícil tratar desse assunto até o início, no dia 5 de agosto, mas com o fim da competição, acho importante que as pessoas reclamem sobre a questão da manutenção e gestão desses equipamentos esportivos, que foram feitos para o desenvolvimento do esporte no Rio de Janeiro”.

barcelona_1992_660Abertura de Barcelona 1992: Olimpíada que foi considerada um sucesso em termos de transformação 

SEGURANÇA

 “Nós já temos uma longa experiência de preparação de segurança com o exército e as forças armadas, que pode não ser a melhor solução, mas tem se mostrado eficiente. Seja na vinda do Papa, no Pan de 2007 ou na Rio+20, sempre houve um certo nível razoável de segurança organizada. Nós respondemos bem às emergências, mas já se sabe também que essa área hoje é imprevisível em alguns aspectos e o terrorismo é um deles. Nós não temos a cultura desses ataques, mas isso pode mudar. Nós não temos como prever de onde vem, nem como pode acontecer”.

“TRANFORMA” E A EDUCAÇÃO OLÍMPICA

“Foi cumprido o pedido do Comitê Olímpico Internacional de levar a educação olímpica adiante, fizemos avaliações, são mais de 1000 escolas atingidas pelo projeto, mas a preocupação aqui continua a mesma. O que vai acontecer depois? É terrível essa pergunta, porque esse envolvimento todo pode desaparecer depois de setembro. Não há nenhuma definição sobre o futuro do projeto “Transforma”.

COPA DO MUNDO E JOGOS OLÍMPICOS NO BRASIL, ERA POSSÍVEL?

“A ideia dos dois eventos era de que um tivesse repercussão no outro. Por exemplo, o esforço feito na segurança para da Copa de 2014 é o mesmo que vem sendo feito agora para os Jogos Olímpicos. Os aeroportos que atenderam a Copa do Mundo são os mesmos de hoje. Só que isso não teve prosseguimento. O esforço maior da Copa foi em relação aos estádios e apenas três serão usados agora. O lado positivo de tudo que estamos vivendo agora é poder estabelecer uma consciência pública sobre as instalações, a manutenção, o serviço público, a oferta de atividades, uma série de consequências que vem quando a administração pública é feita de forma efetiva. Eu vejo positivamente os dois eventos. Um recurso bem colocado foi o turismo, por exemplo. Teve um grande efeito da Copa do Mundo de 2014 e podemos já colocar na conta dos benefícios para os brasileiros durante os Jogos Olímpicos. A infraestrutura turística melhorou muito junto a esses dois eventos”.

DESENVOLVIMENTO SOCIAL PELO ESPORTE

“Não adianta nada ter equipamento, sem saber o que vamos fazer com todas essas instalações. Se for só isso, teremos grandes elefantes brancos abandonados, o que já vem acontecendo com alguns estádios da Copa. Instalação sem gestão não funciona”.

DOPING

“Os sistemas de controle antidoping foram bem-sucedidos em identificar fraudes. Ele criou impedimentos e a sensação de risco para os atletas que estavam se corrompendo. Com isso, acredito que os resultados de doping durante os Jogos Rio-2016 deverão cair. Estamos não só vendo o fim de uma era dos Jogos gigantes, mas também uma modificação no comportamento dos atletas e de todo o controle”.

russas_atletismo_699Por conta de casos de doping, equipe russa de atletismo foi suspensa e está fora dos Jogos do Rio

VALORES

“Os Jogos Olímpicos são uma oportunidade de comportamento, o resultado dos atletas tem um significado de envolvimento, de dedicação e sobretudo de valores. Ele representa persistência e excelência. Os Jogos foram criados por Pierre de Coubertin por esse valor educacional, não por resultados. Ele estava interessado no modelo que o atleta representava para a sociedade. Vai ser muito bom para o Brasil poder ver nossos atletas conquistando resultados, porque isso sempre vai deixar um resíduo de valores para nossas crianças, estudantes e instituições do país. O custo do evento é elevado, mas é viável, e esses benefícios maiores não são trabalhados pela mídia. A educação não interessa para os meios de comunicação, mas nós cidadãos precisamos estar preocupados e trabalhar essa questão”.

COBERTURA DO JORNALISMO ESPORTIVO

“Essa é uma questão também dentro das universidades. A mídia existe para educar ou simplesmente para levar informação? Qual é a postura ideal? Nem a mídia encontrou a resposta ainda, então, eles resolvem explorar muito uma visão negativa e também a diversão, o entretenimento. A gente sabe que dificilmente assumirão uma postura educativa. O que vemos hoje é o esforço, a iniciativa de alguns jornais em abrir “ilhas”, que trabalham a informação de maneira educativa dentro das redações. Por exemplo, um jornal do Rio de Janeiro libera uma coluna na segunda página para que algum correspondente, algum especialista sobre algum assunto possa usar aquele espaço para dar sua opinião. Porém, isso ainda é pouco. O Esporte Essencial, da Sou do Esporte, é uma ilha dentro da comunicação como geral. A questão é fazer isso crescer e influenciar outros meios”.

PATROCINADORES

“Eles continuam presos ao marketing, ao espetáculo, mas alguns já vem percebendo que existe muito a fazer no lado social. Algumas empresas, por exemplo, não queriam sua imagem ligada a atletas paraolímpicos e hoje isso mudou muito. Os paraolímpicos viraram objeto de estudo exatamente por essa nova valorização dos patrocinadores”.   

VALORES OLÍMPICOS NA POLÍTICA BRASILEIRA

“Mesmo com o espetáculo, com os defeitos da mídia, o real é o resultado, a história de vida dos atletas, o que eles refletem. Eles trabalham esses valores na prática e indiretamente isso é para educar toda a população, pelo exemplo. O esporte tem o seu papel muito importante e terá seu impacto. Lógico que o problema da política brasileira é enorme e não são os exemplos dos atletas que vai mudar isso, mas vai haver mudança e exemplos do que é honestidade, excelência, fair play, entre outros valores, coisas que nossos políticos não mostram. Você vê horas desses indivíduos na televisão, a maneira que eles falam, o baixo nível, e dos atletas quase nada. Isso é muito contraditório. O lado político do Brasil vive um contraste com o lado esportivo, uma das poucas áreas que servem de exemplo para o país. O esporte é o melhor espelho do que temos no país nesse momento”.

O FUTEBOL E SEUS VALORES

“O futebol se tornou um esporte ambíguo. Nos EUA, é um esporte das escolas e das mulheres, que agora está começando a ser dos homens. O caminho é contrário. Por outro lado, você também tem péssimos exemplos violentos como na Eurocopa. Existe realmente um estado de violência inerente ao futebol e você não vê isso em outros esportes. Chama a atenção que o futebol tenha uma apresentação que dá a possibilidade desses indivíduos violentos se manifestarem, que são as torcidas organizadas. A violência não pode ser atribuída ao esporte, mas às condições do esporte. Mas é sempre importante não generalizar, porque o futebol também é uma ferramenta de união, de educação”.

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NOVOS MODELOS DE GESTORES ESPORTIVOS NO BRASIL

Se pudesse citar alguém do ramo esportivo hoje, me agrada muito os dois treinadores de voleibol do Brasil, Zé Roberto e Bernardinho. Os dois gostam de gestão, de tecnologia e prestam atenção no comportamento do atleta, além de várias outras características que estão na agenda do futuro de 2020. Outro nome que me agrada muito é o Morten Soubak, dinamarquês técnico da seleção feminina de handebol, que tem procedimentos bem parecidos. Todos eles são treinadores, mas se encaixariam nesse perfil”.

INCENTIVO NO ESPORTE BRASILEIRO

“Ao invés de incentivar por meios indiretos, o governo quer incentivar diretamente os atletas e o esporte, porque aquilo pode ser um produto político. A mensagem que fica é que ele está cedendo a bolsa, ele está fazendo pelo esporte. Só que o governo tem que diminuir seu envolvimento. São raras as instituições brasileiras que fazem uma boa gestão. A história de estar concedendo à população a democratização do esporte é falsa. Isso é um vício, só muda o nome dos políticos. O governo deve diminuir sua interferência direta e se transformar num grande incentivador esportivo de forma indireta, porque do jeito que está, tudo se transforma numa racha política. Por isso que há uma briga tão grande para a cadeira do Ministério do Esporte”.

Fotos: Divulgação


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