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Renzo Agresta (Esgrima)

20/04/2012
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Um esgrimista brasileiro a caminho de Londres

Por Nayara Barreto e Thyago Mathias

“A imagem do atleta precisa ser exemplar para que o esporte consiga agregar valores sociais também, mas o doping suja essa imagem.”

Depois de passar por Atenas e Pequim, o paulista Renzo Pasquale Zeglio Agresta segue para sua terceira participação olímpica, com vaga já garantida para representar a esgrima brasileira em Londres.

Com 26 anos, ele conseguiu conciliar educação e treinamento, formando-se em Administração pela Universidade John Cabot, em Roma, cidade aonde teve seguir para tentar superar as lacunas ainda existentes entre a esgrima nacional e a europeia. Este é um dos temas abordados nesta entrevista, pelo atleta, detentor de três medalhas de bronze em jogos pan-americanos (uma individual no Rio, em 2007, e duas por equipe em Guadalajara, em 2011) e especialista nas provas com sabre – a mais leve das armas da esgrima, com aproximadamente 500g de peso e, no máximo 88 cm, de comprimento de lâmina.

Memória Olímpica: Como foi sua aproximação com a esgrima? Antes de se profissionalizar nesta modalidade, você chegou a praticar outro esporte?

Renzo Agresta: O meu primeiro contato com a esgrima foi no Clube Atlético Paulistano, através da escola de esportes. Naquele primeiro contato, o esporte era algo muito recente para mim, preferi experimentar mais um pouco e diversificar as atividades. Alguns anos depois, um amigo me convidou para praticar a esgrima com mais afinco e dedicação, porque tinha uma tradição de família. Foi a partir desse segundo momento, em que eu já estava mais maduro, que tomei gosto e passei a me dedicar mais ao esporte. Sempre pratiquei diversos esportes. Houve uma época em que joguei tênis e hóquei, mas a esgrima foi mesmo o esporte a que me deu mais vontade de me dedicar, pois é uma modalidade bem completa. A característica de que mais gosto é o fato de o atleta conseguir aliar a parte física à mental. É um esporte em que você precisa formular uma estratégia e construir um plano tático para colocá-la em prática, mas se o atleta não tem um físico e uma técnica boa, não vai conseguir levar à frente esse plano estratégico. Por isso, consegue juntar esses dois lados, o físico com o mental. Foi o que mais me intrigou no início para que tivesse vontade de me dedicar.

MO: Apesar de não ser muito conhecida no Brasil, a esgrima é um esporte olímpico que conta com histórico de bons atletas brasileiros. O que a Confederação Brasileira de Esgrima poderia fazer a médio prazo, para  revelar atletas para os Jogos de 2016 e também para popularizar o esporte?

RA: A esgrima é um esporte em ascensão. Hoje, para conseguir popularizar um esporte, precisamos de um maior número de praticantes e para isso, por sua vez, precisamos de mais pessoas aptas a ensinar o esporte. Por isso, a confederação deveria tomar uma iniciativa para aumentar o número de cursos que habilitem pessoas para o ensino. Depois de capacitados, deve-se fazer com que esses profissionais consigam trabalhar nas diversas capitais brasileiras para fomentar o esporte em outros lugares. Esse movimento já vai fazer com que o número de praticantes cresça bastante. Aumentando o número de praticantes, aumenta-se a qualidade também. Com mais gente praticando, maior é a probabilidade de sair um campeão. Mas para isso tudo acontecer, há necessidade de divulgação, investimento em estrutura, investimento em campeonatos de alto nível... percebo que o Brasil tem caminhado no sentido de colocar esse plano em prática, por meio de investimentos privados e governamentais também.

MO: Quais são os maiores desafios que o esporte enfrenta no Brasil? Como você analisa o cenário atual?

RA: O maior desafio no Brasil é a falta de estrutura física para um jovem começar a praticar a esgrima. Existe o interesse, mas em muitos casos não tem um lugar. Esse é um problema na base do esporte, na prática esportiva por lazer. O grande desafio quando tratamos de atletas de alto rendimento é a dificuldade de se fazer um intercâmbio. Para o esgrimista, o intercâmbio é muito importante. Os principais atletas precisam viajar, participar das principais competições  internacionais e ter contato com atletas e treinadores de fora para aprimorar sua técnica.

MO: No segundo semestre de 2005, você foi treinar em Roma com o técnico Alessandro Di Agostino. Na ocasião, você declarou que existe uma lacuna grande entre a esgrima nacional e a europeia. Como avalia então o Renzo antes do intercâmbio e depois? Quais foram o maior ganho e evolução dessa empreitada?

RA: A principal diferença como atleta, foi na parte técnica, pois, a partir desse intercâmbio, consegui grandes resultados, grandes ganhos, classificações olímpicas e medalhas em Pan-Americanos. Sem dúvida, cresci muito, mas ainda acredito que exista uma grande lacuna no esporte nacional na parte da esgrima. Por isso, fui novamente para Roma, agora em 2011. Esse tipo de iniciativa é fundamental para a melhoria dos atletas.

MO: Como é o treinamento de um atleta profissional de esgrima? E quais as especificidades que diferenciam tanto o treinamento europeu do brasileiro?

RA: O treinamento é dividido em partes: técnica, física, tática, psicológica. Temos a parte de musculação, a parte física especifica da esgrima, em que o treinamento é feito com um técnico do esporte e com exercícios específicos de movimentação de perna e outras movimentações. Temos também analise de vídeos de adversários, um trabalho muito importante com psicólogos que fazem um acompanhamento para que o atleta consiga sustentar tanto a parte física quanto a mental, que envolvem o esporte. Sobre a grande diferença entre o europeu e o brasileiro, está na técnica mesmo. Faltam profissionais com experiência, capazes de passar adiante uma técnica mais amadurecida e estudada. Acho que isso acontece muito em função da popularidade do esporte e da intensidade com o qual ele é praticado no país.

MO: Você participou dos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo 2003, Rio de Janeiro 2007 e Guadalajara 2011. Conquistando a medalha de bronze em 2007 e em 2011. Qual foi a sensação de conquistar uma medalha em casa e em uma competição individual? Aliás, qual é maior dificuldade enfrentada pelos esgrimistas brasileiros em Pan-Americanos?

RA: Essa medalha no Pan de 2007 está entre as melhores recordações que guardo de minha carreira, pois foi conquistada em casa com a torcida e toda aquela vibração que não se tem como descrever. As outras medalhas também foram muito importantes, mas não há sensação igual a conquistar uma medalha individual e em casa. 2003 foi um período de crescimento para a equipe brasileira. Não tivemos qualquer medalha. Foi um período de transição. Já em 2007, estávamos em um período mais maduro, tivemos três medalhas individuais. Depois, em 2011, tivemos uma progressão, pois tivemos mais medalhas por equipe, o que denota não só uma melhoria individual, mas uma melhoria do grupo e de toda uma estrutura. Isso representa muito para o país.

MO: Hoje, você é o melhor brasileiro no ranking internacional de esgrima e esteve nas duas últimas edições dos jogos olímpicos, em Atenas e Pequim. Além disso, no mundial de 2010 foi 25˚ colocado, sua melhor participação. Como avalia sua progressão no esporte até o momento? E quais são suas principais metas no curto prazo?

RA: Minha evolução tem sido bem notável nesse ultimo período, assim como foi ao longo de minha carreira. Analisando as classificações olímpicas, isso já representa um bom crescimento no ranking mundial, já que essas classificações são decididas pelo ranking. Além disso, tive bons resultados. No final das contas, a grande vitrine para ver o crescimento de um atleta ou não é mesmo o resultado e tenho melhorado bem nos meus. Nas últimas competições do circuito internacional, tive boas participações e acredito que existam chances de lutar por uma medalha em Londres. Este é o grande objetivo no curto prazo.

MO: De que maneira a experiência de duas olimpíadas contribuiu tecnicamente para a busca da vaga em Londres? O que fica de mais marcante na memória sobre cada participação?

RA: Atenas foi a primeira olimpíada. Fui muito novinho. Foi, então, a olimpíada da novidade para mim. Pequim foi os jogos dos detalhes, em que pude perceber a preocupação da equipe e de todos os atletas para fazerem uma das melhores olimpíadas da modalidade, foi onde amadureci bastante e aprendi muito observando os adversários que também se dedicavam nos mínimos detalhes em técnica e movimentos. Isso para a esgrima faz muita diferença

MO: Qual o amadurecimento técnico e emocional a experiência dos Jogos Olímpicos pode trazer a um atleta?

RA: Acredito que exista uma preparação diferenciada para os jogos olímpicos. As pessoas estão acostumadas com os jogos normais de circuitos nacionais e internacionais, mas as olimpíadas são completamente diferentes. É uma competição diferente, em que o atleta precisa estar com uma cabeça especificamente voltada para ela. Para começar, é uma competição mundial e a diversidade técnica presente nos jogos é imensa. O atleta precisa estar preparado para isso, para viver momentos novos e situações adversas, que não viveria em uma situação normal, e saber o que fazer nesses momentos de adversidade. Tendo participado de duas olimpíadas, tenho algo, sim, a meu favor: já conheço as peculiaridades da competição e consigo trabalhar melhor. Sobre a parte técnica em si, acho que não existe uma evolução por conta da olimpíada, é algo que vem mais ao longo dos anos, progressivo... vou melhorando com o tempo e com os treinos. Por isso a grande vantagem de já ter participado dos jogos está na parte emocional mesmo, de controlar o nervosismo e lidar com aquele momento de tensão. Alguém que nunca participou não tem essa experiência.

MO: Tendo conquistado a vaga para Londres agora em 2012, a caminho da sua terceira olimpíada consecutiva, qual é sua expectativa para os jogos? 

RA: Londres, sem dúvida, será a olimpíada da maturidade. Acredito que estou na minha melhor forma física, técnica e mental. Toda a dedicação tem sido com muito cuidado e afinco para sustentar a jornada até o momento da competição. Hoje, eu me sinto mais seguro para lutar por melhores colocações nos jogos e, claro, lutar por medalhas e representar o Brasil da melhor maneira.

MO: No final de 2008, você foi premiado pelo Comitê Olímpico Brasileiro com o Prêmio Brasil Olímpico em sua modalidade. Foi a sexta vez que ganhou o prêmio, somando com os de 2002, 2004, 2005, 2006 e 2007. Qual o real valor e os possíveis desdobramentos desse tipo de reconhecimento?

RA: Um dos combustíveis para um atleta é o reconhecimento. Então, receber um prêmio como o melhor da sua modalidade, entregue pelo principal órgão esportivo do país é algo que motiva e ajuda o atleta para que ele treine cada vez com mais vontade e afinco em busca de melhores resultados. Por isso, fiquei muito feliz por esse premio e acredito que ele também ajuda a dar uma boa visibilidade ao esporte, além do atleta. Continuo treinando com empenho para fazer jus a esse tipo reconhecimento.

MO: Como você avalia o problema do doping nos esportes? E que mensagem deixaria para os jovens atletas?

RA: O esporte nasceu como algo puro. Ou seja, como competição entre duas ou mais pessoas em beneficio da saúde e do bem estar do corpo e da mente. Por isso, um atleta tem que ser um modelo para a sociedade. A imagem do atleta precisa ser exemplar para que o esporte consiga agregar valores sociais também, mas o doping suja essa imagem. Mais do que a do atleta, ele suja a imagem do esporte e suja a forma como ele é visto pela sociedade. Espero que esse tipo de prática diminua cada vez mais com o tempo e que o esporte seja capaz se manter puro. A mensagem é que, antes de tudo, pratiquem com amor e dedicação o esporte que escolherem. Independente do sacrifício, existe uma recompensa final, que pode vir através de resultados ou de autoconhecimento, o que é muito válido. A estrada do esporte vai gerar frutos para toda sua vida.

Visite o site do atleta: renzoagresta.com.br


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