Últimas Notícias

Homem é preso após ameaça de bomba e tenta levar avião a Soshi...
Esporte que constrói o Brasil.

ENTREVISTAS

Raphael Espindola (Professor de Kickboxing)

11/03/2016
Esportes relacionados:

10-03-capa-interna_raphael_espindola_680Arte: Paula Sattamini

Por Fernando Hawad

O caminho para se tornar um ídolo no esporte não é apenas o das medalhas, títulos e recordes. As atitudes também podem fazer alguém ser grandioso. E Raphael Espindola é um exemplo disso. Morador do Complexo do Alemão, ele foi atingido por uma bala perdida quando era adolescente. Passou a ter síndrome do pânico. Seu futuro poderia estar comprometido. 

Mas foi pelo esporte que Raphael encontrou uma maneira de se reinventar. Conheceu o kickboxing, se apaixonou pela modalidade, virou faixa preta e começou a transformar outras vidas. Há quase cinco anos, ele dá aulas gratuitas da arte marcial para crianças e jovens no Complexo do Alemão. É o Team Espindola, um projeto feito com raça e muito amor pelo esporte. A falta de apoio financeiro e a estrutura que não é das melhores podem até desanimar Raphael. Mas a recompensa de ver alunos mudando os rumos de suas vidas é o que o motiva a trabalhar cada vez mais. 

A rede Sou do Esporte apoia o projeto "Team Espíndola" desde 2015 com inscrições para competições, material de treinamento, passagens rodoviárias para competições fora do Estado do RJ, e apoio institucional, fortelecendo o projeto junto a entidades de renome no cenário do esporte brasileiro. É o caso da Universidade Estácio de Sá, que ao conhecer o projeto por meio da rede SDE, recentemente anunciou a doação do tatame para a melhorar a qualidade das aulas; e do canal Combate, patrocinador do II Festival de Artes Marcias do Complexo, nos próximos 8 e 9 de abril. Vale ressaltar que Raphael Espíndola ganhou o prêmio Sou do Esporte Solidário 2015, e seu aluno, Gabriel Mendes, o prêmio Sou do Esporte Atleta Transformação Social, ambos recebidos das mãos do campeão olímpico Nalbert Bitencourt.

Para investir no Team Espíndola, entre em contato com soudoesporte@soudoesporte.com.br.

foto_nalbert_665Raphael e Gabriel recebem os prêmios Sou do Esporte das mãos do campeão olímpico Nalbert

 

Esporte Essencial: Como era a sua vida até o contato com o esporte?

Raphael Espindola: Minha vida sempre foi tranquila. Meu pai e minha mãe sempre foram participativos na minha vida, me apoiavam em muitas coisas. Só que eu fui criado dentro de casa. E quando eu resolvi começar a ir para a rua, acabei levando o tiro. Comecei a ir para a rua em um ano e no ano seguinte fui atingido por uma bala perdida aqui no olhos_1_200_01Complexo do Alemão. Depois disso, tive um problema sério. Comecei a ter síndrome do pânico. Em qualquer lugar que eu ia, imaginava que pudesse morrer de alguma maneira. Uma professora da escola que eu estudava percebeu isso. Eu fiquei literalmente sem emoção. Era muito sério, não ria, não chorava. Fiquei uns dois, três anos sem chorar. Foi então que essa professora da escola começou a conversar comigo e acabou me levando a um psicólogo, que detectou que fazer algum esporte seria bom para mim. Eu nunca gostei muito de futebol. Sempre gostei de assistir, mas de jogar, não. Um amigo meu, o Gabriel, que tem uma história de vida difícil, conheceu o kickboxing e me chamou para ir, junto com um grupo de amigos. Quando eu fui pela primeira vez, me apaixonei. Participei de um projeto. Quando peguei a faixa preta, via certas coisas que não eram legais lá e resolvi montar o meu próprio projeto. Foi quando tudo começou a andar muito melhor. A gente começou a crescer. Hoje nós estamos aí, tentando buscar a melhoria para que cada vez mais crianças saiam da rua. 

EE: Quantos anos você tinha na sua primeira aula de kickboxing?

RE: Minha primeira aula foi com 14 anos, quase 15. Eu tinha sido baleado com 13 anos, no dia do aniversário do meu pai. 

EE: Como surgiu a ideia de criar o seu projeto para dar aulas no Complexo do Alemão? 

RE: A ideia, na verdade, veio de um amigo meu, o André. Ele falou para mim: “Po, cara, dar aulas pagas é uma coisa.olhos_2_200_01 Mas se você não cobrar, vai ver que as pessoas vão dar muito mais valor. Um treino desse é caro, as pessoas não têm paciência de ficar pagando.” Aí eu comecei a prestar atenção. E sempre reparei que as crianças que mais gostavam eram as que não tinham dinheiro para pagar. Foi então que eu resolvi experimentar. Comecei a deixar de graça um ou outro. Quando fui ver, a gente já estava com mais de 50 alunos, todo mundo de graça. Eu comecei a gostar, pegar amor mesmo pela coisa. E o projeto cresceu.

EE: Você tem quantos alunos hoje? 

RE: São 89 alunos inscritos. Mas às vezes alguns saem, outros entram, varia um pouco esse número. Mas são 89 alunos inscritos em um espaço onde não cabem nem 50. 

olho_3_1_200EE: Qual a idade mínima para poder se inscrever nas aulas? Tem alguma idade máxima também, ou não?

RE: A partir de seis anos. Idade máxima não tem. Já tivemos aluno de 65 anos. A gente sempre faz algumas adaptações para ninguém se sentir excluído. 

EE: Já aconteceu, durante esse período, de alguém te agradecer pelo que você faz aí no Complexo?

RE: O meu amigo Gabriel, que eu comentei que foi quem me levou para a luta, é muito mais novo que eu. Ele fez 19 agora e eu tenho 25. O Gabriel é órfão de pai e de mãe. Quando a gente começou a treinar ele já era órfão de mãe, mas não de pai. O pai dele foi preso naquela operação da PM para colocar UPP aqui no Complexo. Depois, entrou para o tráfico de novo e acabou morrendo. Depois disso, o Gabriel começou a fazer muita besteira. Largou os treinos, começou a fazer besteira atrás de besteira. Via os exemplos errados, aquelas caras com mulheres bonitas, relógios caros, motos. Aqueles exemplos faziam com que ele quisesse ir para o mesmo lado. Mas, felizmente, de uns três anos para cá o Gabriel foi mudando a vida dele. Hoje em dia ele está no quartel, vai ser pai, a cabeça dele mudou. E desde criança, muito antes de a gente começar a treinar, ele já frequentava a minha casa. Meu pai e minha mãe o ajudavam. O que davam para mim, também davam para ele, dentro do limite do dinheiro. Gabriel sempre teve liberdade na minha casa. Minha mãe deixava a chave da casa com ele. E sempre que a gente conversa com alguma galera aqui, ele fala que os meus pais são como pais para ele e eu sou o irmão mais velho. Já ocorreu uma vez de uma tia dele chegar e falar para mim: “Raphael, eu quero te agradecer todos os dias da minha vida pelo que você faz pelos meus sobrinhos.” A gente não faz só por ele, mas também pelos primos dele, pelo irmão dele. A história dele é muito dura, de muita superação.

EE: Que bacana! E ele te auxilia no projeto?

RE: Demais! Ele dá pizza para as crianças, bala, pirulito. Vem dar aula no meu lugar, quando eu não posso. É um irmão para mim. 

foto_4_660Raphael ao lado de seus alunos, que exibem as medalhas conquistadas em uma competição com apoio da Sou do Esporte

O Team Espindola

EE: Vocês devem ralar muito aí para tocar o projeto...

olhos_4_200_01RE: Vou te falar que a gente acabou de montar um bazar aqui para arrecadar dinheiro para a gente competir. Outro dia a gente fez um festival de pastel, para levantar uma grana. Vira e mexe, nós fazemos alguma coisa diferente para tentar comprar um material, ou competir, ou ajudar um aluno. A gente não tem apoio financeiro de ninguém. 

EE: Ninguém ajuda o projeto com dinheiro, então?

RE: Vira e mexe, a Sou do Esporte apoia a gente. E tem um camarada que às vezes nos ajuda com uma cesta básica. Na verdade, a gente nem prefere o dinheiro. A gente prefere que o pessoal chegue com material. Se envolver com o dinheiro dos outros é complicado. 

EE: E a estrutura para os treinamentos, como está?

RE: Só temos um local de treinamento, que é no Condomínio Jardim das Palmeiras, onde a gente concentra o projeto.olhos_5_200_01 

EE: Vários atletas do Team Espíndola já participam de competições de alto nível. O que representa isso para você? Deve dar um orgulho danado!

RE: Nós temos alunos de nível mundial. Sete atletas nossos se classificaram para o Campeonato Mundial. A gente não foi por falta de dinheiro. O Mundial na Sérvia, com o Euro do jeito que está, não tem como. Teve um atleta nosso, de 29 anos, que foi premiado como melhor atleta de 2015. Nossos alunos são surreais. Eu sempre falo para eles que é a força de vontade que faz com que eles vençam. Superam todas as dificuldades que a gente passa aqui. Nosso local de treino também não é lá essas coisas. A gente está para ganhar um tatame agora. O Sou do Esporte entrou em contato com a Estácio para tentar conseguir um tatame para a gente. Até agora, ainda não chegou. No outro dia, olhos_6_200inclusive, vários alunos saíram com o pé machucado porque os pisos já estão quebrando. Acabaram cortando o pé de quatro alunos. É complicado, mas a gente busca forças para continuar. Às vezes eu fico meio desanimado, tenho que conciliar a faculdade e o trabalho com o projeto e ainda ter ideias para levantar dinheiro. Mas, quando a gente chega em uma competição, com seis, sete alunos, sai todo mundo com medalha de ouro. Aí eu vejo que não dá para desistir disso! Na última segunda, por exemplo, quando eu tinha acabado de chegar ao projeto, vieram duas garotinhas, uma de seis e outra de sete anos, cada uma com uma carta, falando: “Tio Raphael, obrigada por tudo que você faz pela gente. A gente te ama.” Aquilo acabou comigo. Eu falei: “Como desistir disso? Não tem nem como.”

EE: Você já pensou em desistir?

RE: Em muitos momentos. Porque a gente não tem recurso. Às vezes falta ideia. A gente tem que proporcionar algo que interesse aos alunos, senão eles vão meter o pé. E nem sempre a gente tem ideias para mantê-los motivados. Isso acaba comigo.

com_guga_660Recebendo carinho de Guga e obervado por Zico durante evento da Universidade Estácio de Sá

EE: Além dos treinamentos, você conversa muito com os seus alunos sobre valores e atitudes?

RE: Direto. Até porque a gente tem muita menina de 14, 15 anos. Sempre coloco minha namorada para conversar olhos_7_200_01sobre sexo com elas. Converso com a rapaziada sobre em quem se espelhar, para que eles tenham como referência quem realmente merece ter o que tem. Ano passado a gente fez um reforço escolar para eles. Tinha uma galera que estava em recuperação. A gente fez um reforço escolar e mais da metade dos alunos passou de série. Tem um pessoal também que nos apóia com dentista. Estamos sempre buscando manter os nossos alunos no caminho certo. Se a gente sempre tiver algo que interesse a eles, eles nunca vão debandar para o outro lado. 

EE: Raphael, você tem algum ídolo dentro do esporte?

RE: Sempre gostei muito do Vitor Belfort. Aquele cara, para mim, é surreal. Eu me identifico muito com ele. A confiança que ele tem nele mesmo, as palavras motivadoras. Mas, agora, os meus ídolos são as pessoas que estão aqui comigo. Os alunos que começam a treinar em um dia e no outro dia já estão perguntando o que podem fazer para ajudar. Eles são meus ídolos. Mas sempre gostei muito do Vitor por esses motivos que eu falei. Ele sempre é alto astral, motiva quem está ao redor dele, nunca está para baixo. Há uns três anos, eu fui à academia dele. Chorei e tudo. Foi muito emocionante. 

foto_3_426EE: Já houve algum problema com aluno?

RE: Sim. Recentemente, inclusive. Foi há um mês e pouco. Tivemos um problema com um aluno nosso que estava roubando. Nós não sabíamos que era ele. Começou a roubar os moradores daqui, até o dia que o pegaram. Os bandidos deram um sacode nele e iam matar. Um aluno nosso foi lá na boca de fumo falar com o pessoal. Então, resolveram não matar. Tem uma aluna nossa também que está brigando direto com a mãe, de bater boca e tal. A mãe veio nos procurar e a gente está conversando, auxiliando. São algumas complicações que a gente tem.

EE: Sobre doping no esporte, você conversa com eles também?

RE: Eu nunca pensei em conversar sobre isso, até porque é um quadro que não chega até nós. A gente nem tem contato com essa realidade. Se algum dia chegarmos a essa realidade, vai ser o momento de começar a conversar.


 

Festival de Artes Marciais

EE: Fale um pouco sobre o Festival de Artes Marciais do Complexo do Alemão.

RE: Vai ser nos dias 9 e 10 de abril. Através da Fundação Via Varejo, das Casas Bahia, a gente conseguiu promover o evento aqui na favela, com lutas simultâneas de kickboxing, taekwondo, jiu-jitsu e kung fu. As inscrições são gratuitas olhos_8_200_01para motivar a galera. A gente não tem dinheiro para competir. São 89 alunos, todo mundo quer competir, mas a gente não tem condições de pagar. Conseguimos essa grana para fazer esse evento com inscrições de graça para motivar os alunos, fazer com que eles não desistam, continuem treinando. Assim, as pessoas que estão ao redor deles vão falar: “Po, vamos ver o fulano lutar lá no Festival de Artes Marciais.” É uma grande oportunidade para os alunos continuarem motivados. Eles vão ter um evento para lutar. Vão mostrar para os pais, os amigos, que não estão fazendo aulas apenas por fazer, mas porque têm um motivo para fazer. Vamos mostrar que não é só jogador de futebol que brilha.

EE: É a segunda edição do evento, não é?

RE: Sim. A primeira foi em 2013. Foi um sucesso. A gente conseguiu bastante coisa, como apoio do pessoal de tatame, um camarada que forneceu mil troféus. Foi muito maneiro, muito maneiro mesmo. 

EE: Que legal! Conseguiu mobilizar bastante gente?

RE: Bastante. A gente conseguiu colocar 700 e poucos atletas, fora a comunidade que também compareceu. A casa ficou cheia.

EE: Onde vai ser o evento?

RE: Não dá para ser no local do projeto porque é um evento muito grande. A gente conseguiu apoio do administrador da Vila Olímpica do Complexo do Alemão, o Luciano Medeiros. Então, o evento vai ser lá.  

EE: Qual o maior sonho que você tem?

RE: Meu sonho, no momento, é conseguir o tatame para o nosso local de treinamento. A princípio, tudo indica que aolhos_9_200_01 gente vai conseguir esse tatame. Agora, meu maior sonho é expandir o nosso espaço.  Quero levantar um espaço maior para atender mais crianças 

EE: Para fechar, a pergunta que fazemos para todos os nossos entrevistados. Para você, o esporte é essencial?

RE: Para mim o esporte é essencial porque é a melhor forma de doutrinar. A pessoa ganha responsabilidade, aprende a respeitar o próximo. Só o esporte te dar esses valores. Em outras áreas, você não vai conseguir. O esporte, principalmente a arte marcial, te ensina muitos valores, como a coletividade e o espírito de equipe.

Fotos: Acervo pessoal de Raphael Espindola

 

 


Fatal error: Call to a member function getLink() on a non-object in /home/storage/a/b4/92/memoriaolimpicabrasi/public_html/incs/coluna_direita_noticias.codigo.php on line 27