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Raff Giglio (Criador do Instituto Todos na Luta)

19/11/2014
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Por Katryn Dias

Raff Giglio começou a praticar boxe para fazer a vontade do avô, ex-lutador. Em pouco tempo, apaixonou-se e decidiu dedicar a vida a ensinar a modalidade. Após um ano da criação da sua escola de boxe, mudou as instalações para a comunidade do Vidigal, na zona sul do Rio de Janeiro. Lá dentro, Raff atraiu a atenção de diversas crianças para o esporte e, logo depois, já estava dando aulas de graça para os moradores. 

Foram esses os primeiros passos do que seria, mais tarde, o Instituto Todos na Luta, criado com a missão de educar através do esporte e dar uma oportunidade para as crianças de uma comunidade carente. Hoje, o projeto sobrevive pelo trabalho de voluntários e um apoio do Instituto da Criança.

 

raff-competindo-1999-texto_430_01EE: Como você se envolveu com o esporte?

RG: Tudo começou aos 17 anos quando entrei para a escola de boxe do Mestre Santa Rosa. Isso foi há 31 anos! Eu queria ser lutador. Meu avô, que já era falecido, tinha sido lutador e falava que ia me ensinar boxe. Infelizmente ele acabou morrendo cedo e nunca me ensinou. Então, quando completei 17 anos, comecei a praticar e nunca mais larguei. O boxe virou minha vida.

EE: Você chegou a competir, não foi? Conta um pouquinho da sua carreira no boxe. 

RG: Eu cheguei a fazer algumas lutas de amador, nada de competição importante, eram lutas casadas. Mais tarde, quando era professor e técnico, fiz três lutas como profissional. Mas não tinha o intuito de seguir carreira, foi mais para realização pessoal mesmo. Nessa época, já tinha definido que seguiria como professor de boxe e tinha montado minha academia.

01_200_14EE: Por que você abandonou o sonho de se tornar um lutador?

RG: Porque eu via que aqui no Brasil, e principalmente no Rio de Janeiro, o mercado era muito fraco naquela época. Eu via que não tinha um caminho promissor a percorrer no boxe. Além disso, o meu professor via em mim uma vocação maior para ensinar do que para ser lutador e me incentivou a fazer o curso de formação de treinadores. Esse era um curso do Programa Solidariedade Olímpica do Comitê Olímpico Internacional (COI) e foi ministrado por um professor cubano no CEFAM, no Rio de Janeiro, em 1988. Depois de formado, viajei para Nova York e fiquei lá durante um ano, treinando um lutador carioca que levei para lá. Na volta, abri uma escola de boxe, que já tem 26 anos.

 

O projeto social

 

raff_giglio-texto_400EE: Como foi esse processo de montar a academia?

RG: Assim que voltei dos Estados Unidos, inaugurei minha escola no Clube Federal, no Alto Leblon. Quatro anos depois, metade do clube foi interditada pela prefeitura do César Maia e o boxe ficava nessa área. Por isso, tive que sair de lá e acabei mudando para o Vidigal. Escolhi um espaço, aluguei e montei a escola. Todos os meus alunos me acompanharam e foi assim que comecei. 

O Instituto Todos Na Luta, fundado em 2010, foi um trabalho que começou nessa época. As crianças do Vidigal vinham na porta da academia olhar e gostavam muito do boxe, mas não tinham condições de pagar a academia. Foi aí que comecei a dar bolsa para algumas crianças e montei uma turma especial. Mais tarde, isso se tornou um projeto e eu tive que fundar uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) para tomar conta de tudo. Hoje o Instituto Todos na Luta faz um trabalho de educação através do esporte. Nós formamos não só campeões de boxe, que não são a maioria, mas muitos campeões na vida.

EE: Como foi feita a estruturação do projeto? Você enfrentou entraves burocráticos ou financeiros?

RG: Até que não tive tanta dificuldade, acho que fui sortudo. Eu abri a escola no Vidigal em 1993. Até maio de 2007, não tinha nenhum patrocínio efetivo, só apoio de alguns amigos. Nesse ano, conseguimos o primeiro patrocinador, uma empresa de um amigo meu, a Oscar Iskin. No início, era uma ajuda pequena, mas que foi crescendo. Foi a empresa que me convenceu a institucionalizar o projeto, fundando uma associação não governamental. A Oscar Iskin me ajudou em todo o processo, arcou com os custos do escritório de advocacia, do registro e da solicitação do título de OSCIP junto ao Ministério da Justiça em Brasília. A ONG saiu do papel em 2010 e o patrocínio me ajudou muito até novembro de 2012, quando terminou a nossa parceria.

02_200_18EE: Você já tem novos parceiros?

RG: Hoje nós temos o Instituto da Criança, que patrocina um projeto em curso desde março, onde atendemos 60 crianças numa turma mista. 

EE: É difícil conseguir patrocinadores?

RG: Sim. Eu lamento muito que o interesse dos possíveis patrocinadores seja quase nenhum num esporte olímpico e tão antigo como o boxe. Além disso, é um esporte que tem a possibilidade de trazer muitas medalhas para o país. Uma equipe de boxe masculina tem 11 atletas, com quatro medalhas em disputa por categoria (um ouro, uma prata e dois bronzes). Mas infelizmente os grandes empresários não dão atenção. Não há interesse em apoiar esse esporte... Preferem patrocinar a pancadaria com sangue voando lá no MMA, em vez de um esporte olímpico que tem uma fiscalização muito rigorosa. 

03_200_14EE: O instituto está funcionando da maneira como você planejava ou falta alguma coisa?

RG: Ainda falta muita coisa! Em 2012, o Instituto chegou ao seu ápice, quando nós podíamos atender 100 crianças e tínhamos uma equipe de 100 profissionais remunerados, entre diretoria, professores, fisioterapeuta, assistente social e assessor cultural. Os benefícios para as crianças também eram maiores, porque podíamos dar lanche diário, uniforme, tênis, passeios e programas culturais. Enfim, nós tínhamos um projeto grande, com um escopo bem avançado. Como a parceria com a Oscar Iskin não continuou, o recurso que temos é muito menor. Hoje esse patrocínio só paga dois professores de boxe e uma pedagoga. O ideal seria que nós conseguíssemos outro patrocinador grande, para podermos oferecer um trabalho muito melhor. Nós temos um projeto em curso desde março que atende 60 crianças e ainda tem uma fila de espera de mais 60. Todas essas crianças querem praticar esporte, mas nós não temos como atender.

EE: Como você consegue manter o projeto funcionando?

RG: Eu e minha filha Júlia Giglio tomamos conta de tudo, quase sem recurso. É tanta coisa para duas pessoas! Nós hoje somos voluntários, porque desde 2012 deixamos de ser remunerados por falta de patrocínio. Então, acumula muita coisa para nós dois. E ainda temos que cuidar da nossa sobrevivência. A gente se dedica ao instituto, mas tem que ganhar um dinheiro, porque temos casa e família para cuidar. Então, eu dou aula de boxe como personal trainer e a minha filha tenta advogar um pouco. Mas como ela se dedica muito ao projeto, acaba não trabalhando tanto e conta com uma ajuda da mãe, que tem uma situação um pouco melhor que a minha. Mas assim fica muito trabalho acumulado. Por exemplo, o Instituto Todos Na Luta tem um site muito legal que está desatualizado há um tempão...

EE: O Instituto Todos na Luta acaba de abrir uma turma nova. O que é o “Projeto Procura-se um Campeão”?

RG: Eu resolvi por minha conta criar um projeto novo, chamado “Procura-se um Campeão”. Estou abrindo essa semana 20 vagas em uma turma nova para meninos de 10 a 13 anos. Não tenho patrocínio nem nada, estou voltando à época em que comecei tempos atrás, sozinho. Vou abrir as portas da escola para as crianças da comunidade e dar aulas de graça para eles.

04_200_15EE: Esse projeto novo tem diferença para o que já estava em curso?

RG: Vai ter um pouquinho de diferença sim. Por exemplo, o projeto que tem o patrocínio do Instituto da Criança, tem um trabalho pedagógico junto, as crianças ficam uma hora com a pedagoga. Já essa turma nova vai ser boxe puro. Serão três vezes na semana, uma hora e meia de aula comigo. É um projeto apenas esportivo, para tentar revelar novos talentos dentro da comunidade. Claro que eu, na qualidade de professor e pai de quatro filhas, também não deixo de educar através do esporte, mesmo sem recursos. Eu ensino boxe, mas nas minhas conversas e discursos, estou sempre querendo colaborar na formação do caráter dessas crianças. Tento dar bons exemplos, ensinar, aconselhar, mostrar como se deve fazer...

 

Do Vidigal para o pódio

 

EE: Medalhista de prata nos Jogos Olímpicos de Londres, Esquiva Falcão treinou no Instituto Todos na Luta. Como é a sua relação ele? 

RG: Foi ótima! Eu trouxe o Esquiva para o Rio de Janeiro com 17 anos. Coloquei para morar na minha academia e reativei a carreira dele, porque ele tinha abandonado o boxe na época. Em um ano de trabalho, fiz dele vice-campeão brasileiro, no primeiro campeonato de elite que participou. No ano seguinte, foi convocado para a seleção brasileira. Hoje o Esquiva é como se fosse um filho. Quando vem ao Rio de Janeiro, se hospeda na minha casa com a esposa e o filho.

EE: Como você viu essa decisão do Esquiva de partir para o boxe profissional?

RG: Ele tinha um sonho de ser campeão mundial de boxe profissional. Depois de ter ganhado a medalha de prata na Olimpíada, achou que já tinha feito muito pela modalidade. Até porque ninguém é mais do que ele no boxe olímpico do Brasil. Vamos ver em 2016 se alguém vai superar essa prata. Então, ele achou que, para poder correr atrás do sonho, tinha que ir logo para o profissional e não esperar passar mais uma Olimpíada para só depois mudar, já bem mais velho.

 

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Comemorando as medalhas olímpicas com Esquiva e Yamaguchi Falcão

 

EE: Mas a questão financeira não pesa nessa opção pelo boxe profissional?

RG: Mais ou menos... Hoje existem bolsas muito boas do Ministério do Esporte. Além do programa Bolsa Atleta, tem também a Bolsa Pódio. Tem atletas da seleção que estão ganhando R$ 8 mil, R$ 11 mil ou até R$ 15 mil por mês. Então, o Esquiva poderia continuar como olímpico. 

O dinheiro não pesou tanto, até porque quando um pugilista passa a profissional, zera sua carreira. É um cartel novo, tem que começar a lutar do zero até se ranquear e poder ter uma chance de desafiar o campeão mundial... Por isso também ele não podia demorar muito a fazer essa escolha.

EE: A maioria das crianças com quem você trabalha sonha com uma carreira no boxe olímpico?

RG: Eles não entendem muito essa diferença... Mas conhecem os ídolos. Conhecem o Esquiva, alguns conheceram o Popó... A criançada quer ser como os ídolos, eles querem ser campeões.

  

O boxe no Brasil

 

05_200_13EE: Como você vê a situação do boxe hoje?

RG: No Brasil, o boxe até evoluiu muito, mas no Rio continua fraco em termos de competição, de eventos e de Federação. Parece que o Rio não andou nada... Mas em outros Estados a situação é diferente. Hoje em dia existe o Bolsa Atleta do Ministério do Esporte, que no meu tempo não tinha. Então, em nível nacional, o boxe cresceu bastante. Existem vários talentos no Brasil. Lá em São Paulo tem lutadores profissionais que estão lutando para caramba e ninguém sabe, porque a mídia não mostra. Só quem é do meio, sabe...

EE: Você disse em entrevista que se quisesse formar campeões, teria que trabalhar com as crianças da comunidade e não da classe média. O esporte é encarado de forma diferente de acordo com a classe social?

06_200_10RG: Eu sempre falei isso... Já trabalhei muito com pessoas da classe média e alta – e até hoje ainda trabalho porque preciso sobreviver –, mas esse aluno não quer ser profissional de boxe, quer aprender e praticar, mas não quer levar soco na cara. Já na periferia, a gente acha talentos que realmente querem ser lutadores de boxe. Assim, eu hoje tenho dois meninos que estão na seleção brasileira: Michel Borges e Patrick Lourenço. Um começou com 10 e outro com 12 anos e, hoje, por volta dos 20, estão viajando o mundo todo para competir, sendo preparados para disputar os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio. São garotos da favela e esperanças de medalhas. Eu nunca vou conseguir fazer um campeão de um cara que veio do asfalto, que nasceu já com uma vida privilegiada.

 

 

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Raff orgulhoso dos alunos que formou: Patrick Lourenço, atual vice-líder do ranking mundial até 49kg, e Michel Borges

 

EE: Você acha que o MMA, que teve um grande crescimento de adeptos nos últimos anos, tirou um pouco do foco do boxe, principalmente no Rio de Janeiro?

RG: Não. Nem o MMA e nem o jiu jitsu interferiram. Há muitos anos o Rio de Janeiro perdeu o interesse pelo boxe. O MMA ainda nem existia... 

07_200_14Nos áureos tempos, o Rio já foi a capital do boxe no Brasil. Na época em que a minha mãe era modelo e manequim – eu ainda era um bebê –, ela ia ao programa TV Rio Ringue, que passava boxe todo final de semana. Tinha um fotógrafo famoso que sempre ia com as modelos dele assistir às lutas que a televisão mostrada e sentava na primeira fila. Na época, tínhamos lutadores feras, como o Fernando Barreto, que mais tarde morreu doente vendendo ficha de telefone no Maracanã. Eu não sei o que aconteceu... A televisão parou de mostrar as lutas e o boxe não vive sem televisão e patrocinadores. O interesse foi morrendo aos poucos. Aí o jiu jitsu cresceu com os Gracie. Depois o pessoal do jiu jitsu criou o MMA, que têm crescido muito porque a mídia abraçou. Quando a televisão aberta resolve mostrar, o esporte estoura.

Isso aconteceu com o boxe um pouco na época do Popó e também do Maguila. Mas eles só querem mostrar o cara quando chega ao título mundial. A hora que o Esquiva Falcão, que foi meu atleta aqui no projeto, foi medalhista, teve repercussão. Agora, ele está invicto no boxe profissional, mas por enquanto só o SporTV mostra as lutas. Então, só quem tem dinheiro para pagar uma TV a cabo pode ver. Mas quando ele for campeão mundial daqui a dois anos (se Deus quiser!), aí a TV aberta vai querer mostrar, no horário nobre. Mas o cara tem que chegar lá primeiro para depois ter visibilidade... 

EE: Você acha que as medalhas conquistadas no boxe em Londres atraíram mais atenção para a modalidade? Você sentiu alguma mudança efetiva?

RG: O boxe apareceu um pouco mais, o Esquiva e o Yamaguchi agora são conhecidos no Brasil inteiro e também fez com que o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) injetasse mais recursos na Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe). Então, para a nossa equipe olímpica permanente, foi muito bom. O boxe estava precisando disso. 

08_200_13EE: Para você, o esporte é essencial?

RG: Com certeza! Eu acho que o esporte é uma das melhores opções que existem no mundo para inserir jovens na sociedade, dar um caminho, dar uma possibilidade de chegar a algum lugar e ter reconhecimento. Acho que o esporte só agrega coisa boa.

EE: Você conscientiza seus alunos sobre o doping? Qual a sua posição sobre o doping no esporte?

RG: A nossa orientação é que eles tomem muito cuidado com isso. Eu, por exemplo, sempre tive como espelho o Mestre Santa Rosa, que era contra até a vitamina C ou multi-vitamínico. Ele sempre falou que vitamina boa é um prato muito colorido, com arroz, feijão, legumes e verduras. Segui isso na minha vida, sempre gostei de fazer uma alimentação balanceada, porque nos alimentos nós encontramos tudo que precisamos. Então, não precisa comprar nada na farmácia, é só passar na feira. Eu sigo essa linha, porque foi isso que aprendi com meu mestre e é isso que passo para os meus alunos. Eu não acredito nesses produtos industrializados, para mim isso tudo é um comércio de enganação. Uma alimentação natural sadia resolve tudo.

Fotos: Arquivo pessoal de Raff Giglio


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