Últimas Notícias

Homem é preso após ameaça de bomba e tenta levar avião a Soshi...
Esporte que constrói o Brasil.

ENTREVISTAS

Rafael Silva (Judô)

30/10/2012
Esportes relacionados:

baby_bronze-fotocom-texto_650Equilíbrio e determinação para se tornar um grande campeão

 Por Manoella Telles e Katryn Dias

Sexta-feira, 3 de agosto de 2012. Esse dia vai ficar marcado na história do judô brasileiro. Para finalizar a melhor campanha do país em Jogos Olímpicos, Rafael Silva entrou no tatame para a disputa do bronze da categoria acima de 100kg com sede de vitória. Exibindo muito equilíbrio e concentração, Rafael só venceu a luta no golden score, quando o sul-coreano Sung-Min Kim levou sua segunda advertência. 

O bronze do paranaense de 25 anos teve ainda um outro significado: o judô brasileiro bateu o recorde de medalhas conquistadas em uma única edição olímpica. Com as quatro medalhas de Londres, o Brasil superou os resultados anteriores. Até Pequim 2008, o Brasil tinha conquistado, no máximo, três medalhas em edições dos Jogos.

Carinhosamente apelidado de “Baby”, Rafael Silva iniciou sua empreitada no judô somente aos 15 anos. Apesar de ter iniciado o treinamento com uma idade avançada, dois anos mais tarde, já estava chamando a atenção de diversos técnicos, ao conquistar a medalha de prata nos Jogos Abertos da Juventude.

"Quando a gente vai a uma competição, pensa muito no ouro, mas o bronze foi muito importante para a minha carreira. Hoje sou um medalhista olímpico e isso me traz muitas coisas boas para eu me preparar para a Rio 2016, em busca do ouro"


Esporte Essencial: Você começou a lutar judô tarde. Isso te prejudicou? Fale sobre o início da sua carreira.  

Rafael Silva: Comecei a treinar judô com 15 anos, uma idade atípica, o que trouxe bastante dificuldade para aprender os fundamentos. Precisei treinar muito, fazer muitas repetições para deixar os movimentos naturais e desenvolver a técnica... Para ficar técnico, treinei bastante, fiz muitas repetições de fundamento, a idade foi uma das maiores dificuldades. 

EE: Você praticou outros esportes antes de chegar ao judô? Hoje em dia, você pratica algum outro esporte?

RS: Fiz caratê dos cinco aos doze anos de idade, o que me ajudou muito no judô. Sempre gostei da filosofia oriental e a vivência que tive contribuiu no judô. Acabaram as aulas de caratê na minha cidade natal e por isso, comecei a treinar judô, foi por acaso que me inscrevi. Lembro de ver o Aurélio Miguel lutando em 1996, pela TV. Em 2000, vi o Tiago Camilo. Foi o incentivo que tive para começar no judô. 

rafael_silva_bronze-fotocom-texto_468EE: Como foi a preparação para as Olimpíadas de Londres? 

RS: Comecei a medalhar nas competições internacionais em 2010. Minha primeira competição foi em São Paulo, na Copa do Mundo. A partir daí, passei a rodar no circuito internacional e essas competições foram me dando pontos para me classificar para as Olimpíadas. O ano de 2012 começou muito bem para mim. Ganhei o Masters, que escolheu os dezesseis melhores atletas do ranking e eu fiquei em primeiro lugar. No Grand Slam de Paris, fiquei em segundo, o que definiu a minha vaga em Londres. 
Eu fiz uma preparação muito adequada, que me permitiu medalhar nas Olimpíadas. Cheguei a Londres em 3º lugar no ranking mundial e consegui trazer a medalha. Me preparei muito bem, não faltaram recursos financeiros para eu viajar, as opções de treinamento decididas no meu planejamento foram todas atendidas e deu tudo certo.
Tenho apoio da Confederação Brasileira de Judô, do Esporte Clube Pinheiros e do Exército Brasileiro. Com esse apoio, eu tive estrutura para rodar e arcar com os altos custos das viagens. 

EE: Londres foi a sua primeira participação olímpica e foi coroada com a medalha. Qual a importância de participar das olimpíadas e qual a importância de representar o seu país?

RS: Participar de uma Olimpíada é o sonho de todo atleta que pratica uma modalidade olímpica. Eu treinava respirando as Olimpíadas, com muita vontade. Quando consegui minha vaga, fiquei muito emocionado porque foi a realização de um sonho e eu sabia que eu tinha condições de medalhar. Então eu fiquei muito feliz por realizar esse sonho pessoal e também realizar o sonho de trazer uma medalhar para o Brasil, o meu país, que eu amo muito, o país em que vivo. Então foi uma honra muito grande trazer essa medalha, representar o país e os torcedores brasileiros. A medalha foi muito importante no meu lado pessoal, mas acredito que também foi muito importante para o Brasil. 

"O judô evoluiu bastante no aspecto do alto rendimento e o Brasil todo está ficando forte, com muitos adeptos de qualidade. O judô tudo para ir muito melhor em 2016, trazer mais medalhas inéditas e se definir como um dos esportes preferidos dos brasileiros"

EE: Você contribuiu para a melhor campanha do judô em Olimpíadas. Qual balanço você faz da sua participação olímpica?

RS: Sou o primeiro medalhista da categoria peso pesado, um fato inédito no judô brasileiro. Eu não tinha nenhuma medalha olímpica e conquistei. Foi uma campanha muito boa. Quando a gente vai a uma competição, pensa muito no ouro, mas o bronze foi muito importante para a minha carreira, hoje sou um medalhista olímpico e isso me traz muitas coisas boas para eu me preparar para a Rio 2016, em busca do ouro. A experiência que tive foi muito boa e vai contribuir muito na preparação para os Jogos de 2016.

EE: Você afirmou que o novo estilo de arbitragem do judô, muito observado em Londres, favoreceu atletas que forçam punições nos adversários. Eu assisti todas as suas lutas e percebi isso muito claramente. O que você pensa sobre isso? 

RS: O judô competitivo evoluiu muito de alguns anos para cá. Para ficar mais atrativo para o público assistir e também para haver mais vitórias por ippon. Todos esses eventos são feito para o público e essas regras têm mudado por conta disso. E a gente tem que se adaptar às regras, não dá para fugir delas. É preciso fazer o máximo para não deixar a luta terminar com uma decisão dos árbitros, quando a luta vai ser decidida pelas bandeiras ou quando vai ser definida pelas punições. O atleta tem que se garantir para não deixar a decisão final nas mãos da arbitragem. A preparação é muito importante para que isso não aconteça. O atleta tem que se adaptar às regras 

EE: Você declarou em entrevista a importância que ter um técnico como Shinohara na conquista da medalha. Você poderia comentar sobre isso?

RS: O técnico tem que vivenciar o sonho junto com o atleta. Ele também tem que querer ganhar a medalha, estar junto, conhecer os adversários. A presença do Shinohara na beira da área é muito importante. Ele entende muito de judô e consegue visualizar a luta de maneira diferente. Ele enxerga os detalhes que, muitas vezes, dentro da luta, eu não consigo ver. Esse feeling pelos detalhes que ele tem, podem decidir a luta. Ele me ajudou muito, especialmente na recuperação, quando eu perdi para o russo e voltei para a competição. 

EE: Como é a sua preparação para as lutas? Você estuda os adversários?

RS: Não gosto de assistir vídeos nos dias anteriores à luta. Eu estudo com antecedência. Conheço a maioria dos adversários, observo as novidades. Acho desgastante estudar as lutas na véspera. Quanto menos preocupado com o que vai acontecer na luta, melhor para mim. 

judo_mayra_kitadai_rafael_silva_sarah-fotocom-texto_650Rafael Silva exibe sua medalha ao lado de Mayra Aguiar, Felipe Kitadai e Sarah Menezes

EE: Você tem algum ritual antes de lutar?

RS: Gosto de assistir filmes, lutas de MMA, que me motivem. Um fato curioso é que no dia anterior às minhas lutas em Londres, eu assisti quatro vezes a um documentário sobre o Ayrton Senna. Agora, acho que isso vai virar um ritual.

EE: Qual o panorama do judô no Brasil, hoje?  

RS: O judô evoluiu bastante no aspecto do alto rendimento e a Confederação tem feito um trabalho para descentralizar o esporte. Há vários polos fora dos grandes centros. A Sarah Menezes, por exemplo, vem do Piauí e isso prova que o Brasil todo está ficando forte no judô, com muitos adeptos de qualidade. O judô brasileiro tem tudo para ir muito melhor em 2016, trazer mais medalhas inéditas e definir o esporte como um dos preferidos dos brasileiros. 

EE: Quais são os seus planos no judô? Você já está mirando em Rio 2016?

RS: Muitas coisas vão acontecer até lá, mas vou me focar para ficar bem colocado no ranking, reconquistar a minha vaga, degrau por degrau, mais uma vez. O foco é 2016, disputar as Olimpíadas em casa, o que favorece bastante e tem tudo para dar certo e o Brasil conseguir um recorde inédito de medalhas.

EE: Qual a maior dificuldade que você enfrentou na carreira? E qual o momento mais importante?

RS: A maior dificuldade é ficar melhor a cada dia, tentar conseguir o máximo de mim mesmo, evoluir. O início foi muito difícil porque só eu e minha família acreditávamos no trabalho, no sonho. A partir do momento em que se começa a ganhar competições é que o apoio aumenta. 
O momento mais importante ainda está para acontecer, eu continuo em busca do ouro olímpico. Acho que só vou poder definir isso quando eu parar de lutar. 

"A medalha abre mais portas, deixa o atleta em evidência. Infelizmente, as pessoas só decidem apostar em você quando você já ganhou e nós atletas, precisamos de ajuda antes de ganhar. Apostar em time que está ganhando é fácil. Apostar em alguém que está iniciando e tem potencial, investir a longo prazo é muito mais difícil de acontecer. Mas deveria ser assim"

EE: Então, a sua família teve um papel fundamental na sua evolução no esporte?

RS: Minha família me deu muito apoio. Saí do interior do Paraná (Rafael é natural de Rolândia, PR) e fui morar em São Paulo e a minha família foi fundamental quando eu decidi sair de casa e ir em busca do meu sonho. Também foi ela que me proporcionou disciplina e caráter. Educação é algo que se aprende no ambiente familiar. Toda bagagem de disciplina, de treinamento, de ir atrás do meu sonho vem da minha família. Eu agradeço à minha família por ter me educado de uma maneira que permitiu com que eu me tornasse um atleta de alto rendimento. E fico feliz em deixá-los orgulhosos com as minhas conquistas.

EE: Você tem algum ídolo? 

RS: O meu avô, pois não convivi com meu pai quando era pequeno. Ele é meu grande ídolo inspirador. Também tem o Ayrton Senna, um ídolo nacional no qual me espelho. Um dia gostaria de estar no coração dos brasileiros como ele conseguiu fazer. 

EE: Você já sofreu com a falta de patrocínio? O que você pensa sobre a questão do patrocínio no Brasil?

RS: Temos o patrocinador da Confederação, mas individual não tenho nenhum. É muito difícil conseguir. Estou buscando, a medalha em Londres ajuda nesse sentido. É complicado receber auxílio de uma empresa, no Brasil. Com a lei de incentivo, fica mais fácil uma empresa investir na estrutura do esporte, com a mediação do governo. A medalha abre mais portas, deixa o atleta em evidência. Infelizmente, as pessoas só decidem apostar em você quando você já ganhou e nós atletas, precisamos de ajuda antes de ganhar. Apostar em time que está ganhando é fácil. Apostar em alguém que está iniciando e tem potencial, investir a longo prazo é muito mais difícil de acontecer. Mas deveria ser assim. É preciso que haja um investimento maior nos esportes individuais. Em esportes coletivos, são mobilizados imensos recursos para viagens, competições e se consegue apenas uma medalha. Um esporte individual como o judô tem capacidade de trazer quatorze medalhas por competição. O Michael Phelps já conseguiu, sozinho, mais medalhas do que muito países. O investimento deveria ser maciço nessas modalidades individuais. 

rafael_silva_disputa-bronze-fotocom-texto_400EE: O que você pensa a respeito do doping?

RS: Doping é trapacear, é tirar vantagem de substâncias em benefício próprio, uma situação muito complicada. Não entendo como um atleta consegue ter a consciência tranquila, depois de ter se drogado para melhorar o desempenho numa competição. É lastimável ver um atleta que coloca sua saúde em risco, sua moral e ética em jogo para ter um desempenho melhor na competição. É deprimente ver uma situação dessas. 

EE: O que você diria para um atleta que está começando e deseja alcançar o topo?

RS: Acredite muito, trabalhe muito. Por mais que o atleta tenha muito talento, se ele não transpirar, suar, batalhar e sofrer muito, é muito difícil conseguir uma medalha olímpica. Não é só talento, tem que ser guerreiro, treinar muito. A satisfação de estar no pódio é uma sensação indescritível. Então, acredite seus sonhos, trabalhe por eles. Depois de muito sacrifício, a recompensa vem.

Fotos: Divulgação/ fotocom.net


Fatal error: Call to a member function getLink() on a non-object in /home/storage/a/b4/92/memoriaolimpicabrasi/public_html/incs/coluna_direita_noticias.codigo.php on line 27