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Odeniti Oliveira (professor de Educação Física)

27/02/2012
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odenti_660Do pentatlo à escola pública

Entrevista de Nayara Barreto e Thyago Mathias

“Vi no esporte um caminho para o futuro dos jovens. Por isso, quis me envolver com a educação esportiva. A minha história pode ser incentivo para muitas outras: é contar como alguém saiu de uma casa de sapê, cuidou de sítio e chegou aonde chegou. É mostrar que o sonho de ser um atleta precisa de muita luta para ser realizado, mas não é impossível. Mostrar que a vida de um atleta não é só ganhar, é um perde e ganha e que, se perdi hoje, posso vencer amanhã com muito esforço e dedicação.”

Criador do projeto “Jovens e brincadeiras, partilhando descobertas”, que promove a integração de conhecimento intelectual e atividades físicas entre estudantes de nove escolas públicas de áreas carentes do Rio de Janeiro, o professor Odeniti Vieira de Oliveira tem, ele próprio, uma trajetória que reúne experiência e conhecimento acadêmico. Graduado em Educação Física, ele se aproximou do esporte profissional como atleta do pentatlo, durante sua carreira militar.

Nesta entrevista, ele mostra os passos que podem fazer de pequenas iniciativas o ponto de partida para grandes resultados.

Memória Olímpica: Ao longo de muitos anos, você foi atleta de Pentatlo e chegou a vencer competições militares. Como se iniciou esta relação com os esportes, especialmente o pentatlo?

Odeniti Oliveira: Nasci em uma família muito humilde e sempre trabalhei na roça para ajudar meus pais. Na minha infância, o esporte não era uma realidade efetiva, mas sempre fui muito ativo. Quando fiz 18 anos, me alistei no Exército Brasileiro e foi lá que comecei a me destacar nos esportes e nas atividades físicas em geral. Foi somente depois de me tornar sargento que fui convidado a participar do pentatlo e, como se trata de uma modalidade que exige muito esforço, comprometimento e dedicação do atleta, viram meu potencial e acabei fazendo parte da equipe. No primeiro momento, não tive resultados muito bons, mas, com um pouco mais de treino, em 1987, comecei a conseguir resultados expressivos dentro da unidade do batalhão e fui também tricampeão dentro da divisão do exército. Cheguei a treinar junto com a equipe brasileira. Depois, infelizmente tive que dar baixa, mas deixei minha marca como atleta. Aprendi mais sobre meu corpo e sobre valores como responsabilidade e dedicação, entre outros que levo para a vida.

MO: Como eram as competições e a dinâmica das provas nessa época?

OO: Na época em que competi, nos anos 1980, não existiam os Jogos Mundiais Militares, que são bem mais recentes. Na época, existiam as divisões, que eram os comandos militares do Leste e do Sul. Depois disso, escolhiam as equipes que iam disputar mundiais de cada modalidade, fora do país. Mas é importante ressaltar que o surgimento dos jogos Mundiais Militares, além de ter modernizado e valorizado mais o militar, trouxe também mais modalidades. Na minha época, elas eram somente cinco. Essas competições fazem com que o próprio militar se envolva mais com a atividade que faz parte da carreira dele. Um militar pode ser sempre um atleta e isso pode e deve ser trabalhado. Não cheguei a competir fora, tive uma oportunidade, mas já estava de saída... mas acredito que seja uma experiência rica para os que têm a oportunidade de participar e ter contato com atletas de outros países.

MO: Que fatores levaram você a escolher a carreira de professor de educação física? O fato de ter sido atleta influenciou nessa escolha?

OO: Foi a partir do momento em que me tornei atleta dentro da divisão que o curso de educação física passou a ser uma escolha. Vi no esporte um caminho de muita perspectiva para o futuro dos jovens. Por isso, quis me envolver com a educação esportiva para poder contribuir à vida desses jovens, poder passar a eles minha luta e a maneira com que devemos manter nosso esforço, se quisermos conquistar algo. Isso gerou até mesmo o projeto de um livro que pretendo escrever, para que sirva de incentivo e exemplo a crianças e adultos. A minha história pode ser incentivo para muitas outras: é contar como alguém saiu de uma casa de sapê, cuidou de sítio e chegou aonde chegou. Se cheguei até aqui, todos podem chegar também. Este é um dos meus objetivos como professor, mostrar que o sonho de ser um atleta precisa de muita luta para ser realizado, mas não é impossível. Mostrar que a vida de um atleta não é só ganhar, é um perde e ganha e que, se perdi hoje, posso vencer amanhã com muito esforço e dedicação.

MO: De que forma um esporte consegue beneficiar aspectos da vida social, cognitiva e afetiva tanto de uma criança como de um adulto?

OO: O esporte não é o salvador das mazelas das quais a sociedade sofre, mas é um dos caminhos que, se for trilhado com honestidade, responsabilidade, força de vontade, respeito, dedicação, comprometimento e outros, será um transformador na vida das pessoas, seja criança ou adulto. O esporte consegue atingir as partes psicomotora e cognitiva, mas principalmente a afetiva e a social. A maior dificuldade que vemos hoje nas crianças não é na parte psicomotora, mas sim na parte afetiva. Nela, o esporte vem ensinar o respeito ao professor, aos pais e ao próprio corpo. Conseguimos assim formar cidadãos mais cientes e críticos a respeito de sua própria realidade. Além disso, é importante trabalhar o esporte desde a creche com a criança. As noções de espaço, de movimento e de corpo precisam ser desenvolvidas desde muito cedo, para que a criança passe a ter uma coordenação e uma expressão corporal mais definida. O trabalho precisa começar de baixo para cima.

MO: De que forma você utilizou sua experiência como atleta para ajudar em sua atuação como professor? Qual a importância de ensinar os valores do olimpismo em uma aula?

OO: Eu me sinto bem à vontade para passar à frente todos aqueles conceitos e valores que aprendi. Busco passar todas as coisas boas de minha experiência e sabemos que são vários os valores contidos no olimpismo. É muito gratificante ter o retorno de pais que vêm me agradecer pelo trabalho que tenho feito com seus filhos. O fato de ter tido a oportunidade de competir e conquistar vitórias já leva até eles algo maior que os faz acreditar mais nos benefícios que o esporte traz. E é extremamente gratificante saber que esses jovens se espelham na minha trajetória. Sobre os valores em si, são vários e são valores aplicados não só no esporte, mas em qualquer aspecto da vida, como regras, trabalho em equipe, cooperação, superação e outros que podemos aplicar sempre.

MO: É possível massificar outros esportes no país do futebol?

OO: Acredito que seja bem difícil, mas não impossível, até porque não devemos trabalhar com impossibilidades e sim com possibilidades. Sabemos que o futebol está no sangue dos brasileiros, faz parte da cultura e é praticado no Brasil inteiro o ano todo, além de gerar renda para milhares de pessoas e movimentar uma quantidade enorme de dinheiro. Além disso, pontos que dificultariam muito é o fato de o futebol ter investimentos e patrocínios muito maiores do que os outros esportes. A própria mídia valoriza mais o futebol. No entanto, vemos que não é impossível massificar outro esporte, pois temos aí o exemplo do vôlei que vem crescendo cada vez mais, de alguns anos para cá, obtendo vitoria expressivas. Para que outras modalidades também consigam isso, tem que haver investimento, divulgação e interesse, mas isso é o que mais falta.

MO: Você foi o principal criador de um importante projeto social que hoje conta com a colaboração de diversos outros professores. Poderia nos contar como surgiu a iniciativa, quais são suas metas, seu foco e as mudanças que esse projeto sofreu ao longo dos anos?

OO: O projeto “Jovens e brincadeiras, partilhando descobertas” foi criado em 2005. Ele parte da premissa de que o raciocínio é o elemento fundamental para que a cidadania se efetive. O intuito mais geral é que ele sirva como um complemento do processo de ensino e aprendizagem habilitando a melhoria social e comunitária. As atividades são compostas por jogos de dama, dominó, operações matemáticas, jogo da memória, quebra-cabeça e outros. Na parte de atividade física em si, é composto por esportes como basquete, futebol, salto, vôlei, queimado e outros. O interessante das atividades é que sempre buscamos misturar faixas etárias, com isso normalmente os mais velhos ajudam os mais novos e isso estimula uma cooperação no grupo. Por fim, senti a necessidade de expandir o projeto para outras escolas. Assim, a partir de 2005, convidei o professor Aluízio Barbosa para integrar e ajudar a propagar o projeto. Conversando com ele, criamos uma proposta para integrar o maior número de escolas possível e passamos a fazer uma competição interescolar, utilizando a quadra de uma igreja, a Igreja Batista da Vitória, que se tornou uma grande parceira. Hoje, temos nove escolas participando e mais a comunidade da igreja, que levou para o projeto mais de cem crianças carentes. Ela também nos cede uma Kombi e material, além da estrutura física. Nessas atividades, a vitória é consequência do treinamento e do condicionamento de cada um. O principal objetivo é a integração da comunidade em torno de valores. O que penso, daqui para frente, é aumentar o número de escolas e o número de atividades. As maiores dificuldades encontradas são transporte, alimentação e local estruturado para comportar as crianças.

MO: É importante que a família do aluno seja integrada a projetos sociais como este, realizados em escolas públicas? Como é feita a integração e qual é o papel da família nesse processo?

OO: A família tem que ser bem integrada aos projetos. A participação pode ser direta ou indireta, vai depender da organização. O primeiro passo nesse processo é a autorização que precisa vir dos pais. Para que isso possa ser feito com mais integração, os pais precisam ir à escola, incentivar, participar e conhecer realmente do que se trata. A família é a base da educação e a escola não pode depender somente de seus professores e funcionários para conseguir um plano de educação eficiente. A família precisa caminhar junto com a escola. Se isso acontecer, vamos conseguir melhores resultados. Existem pais que são interessados e outros que não, mas muitos, apesar do interesse, não conseguem participar porque trabalham muito, em mais de um emprego até. Mesmo assim, é importante que a escola sempre informe aos pais das atividades e busque fazer essa integração com a família.

MO: No Rio de Janeiro, projetos como o Ginásio Olímpico buscam identificar crianças da rede pública que tenham potencial de se tornarem atletas de alto rendimento. Qual a sua avaliação sobre este tipo de iniciativa?

OO: Acho a iniciativa excelente, muito boa mesmo, mas acho que o governo poderia fazer muito mais. Poderia existir mais investimento, mais cursos voltados para crianças e jovens, mais incentivos à prática esportiva em si. Além disso, não adianta somente implementar projetos. Precisamos ter escolas mais bem estruturadas, fornecer ao professor um ambiente adequado de trabalho, em que ele consiga desenvolver seu trabalho de forma mais calma e eficiente, oferecer também um salário digno para esse profissional para que se possa exigir dele mais comprometimento também. Hoje, é muito difícil encontrar uma escola municipal com uma boa estrutura. Então, se você faz um projeto legal, mas não equipa a escola, o trabalho é feito pela metade.

MO: No Brasil, os grandes talentos costumam ser descobertos em clubes e não na escola. Você acha que essa lógica deveria ser invertida? O país deveria investir para que a escola pudesse oferecer um treino adequado à formação de atletas de alto rendimento? E o que deveria ser feito para que os jovens pudessem praticar mais esporte nas escolas?

OO: Com certeza, essa lógica deveria ser invertida. Temos exemplos em outros países onde os talentos são descobertos e treinados nas escolas. A grande diferença é que esses países têm todo um aparato para esse desenvolvimento. O Brasil também poderia fazer isso, mas antes de pensar em fazer é preciso mudar muita coisa. Como falei, precisa de mais investimentos em estrutura e capacitação de professores. Acho que deveria ser feita também a elaboração de uma escola para talentos, não só na área esportiva, mas em outras áreas. Isso incentivaria muito os alunos e proporcionaria um olhar diferenciado, um cuidado e uma atenção maior quanto a esses talentos. Ao mesmo tempo em que poderia existir essa escola de talento, é preciso cuidar daqueles que não têm aptidão esportiva. Não pode haver uma exclusão total e é extremamente importante que também se olhe pelos que não são talentosos natos, para que eles se tornem atletas por seu empenho e esforço.

MO: Qual a sua avaliação sobre a regulamentação da profissão de professor de educação física?

OO: Acho que foi excelente, porque o professor de educação física é um profissional de extrema necessidade para a população e a regulamentação valoriza cada vez mais nossa profissão. Temos professores de educação física trabalhando fora do país, sendo muito bem valorizados e remunerados. Acho que qualquer profissão que seja de imensa importância dentro da sociedade, de cujo trabalho a sociedade necessite realmente, deve ser regulamentada. Essa regulamentação fez com que a educação física crescesse muito e com que seus profissionais melhorassem a cada dia.

MO: Na formação em Educação Física, as diretrizes curriculares de bacharelado e licenciatura foram separadas. Agora, o profissional precisa optar por cursar um ou outro. Para você, quais os pontos positivos e os negativos dessa separação?

OO: Tenho uma opinião que é compartilhada por muitos outros colegas. Acho que essa separação não é legal. O professor deveria ser habilitado a trabalhar em qualquer área que inclua atividade física e corpo em movimento. A diferença é que cada profissional deveria fazer um curso de especialização na área em que fosse trabalhar, seja musculação ou outra qualquer. Mas essa separação em si não traz nenhum ponto positivo para o profissional. Acho até que atrapalha e o limita, pois o professor de educação física é um agente da saúde, não só da educação.

MO: Como você avalia o reconhecimento e o espaço dados ao profissional de educação física no Brasil?

OO: O reconhecimento e o espaço dado ao professor de educação física têm melhorado cada vez mais, apesar de faltar muita coisa ainda. Falta um reconhecimento da população de que educação física não é só correr e jogar bola, de que é muito mais do que isso. Ela trabalha globalmente a criança. Temos nossos conselhos regionais de educação física que estão crescendo e têm brigado pelos direitos dos professores, mas até mesmo esses conselhos ficam atados por falta de recurso. Outro aspecto que precisa ser dito é o de que, para existir esse reconhecimento, o professor deve se empenhar também. Ele tem que estar comprometido com a sua profissão, tem que gostar do que faz e trabalhar com responsabilidade. Isso vai gerar reconhecimento. A escola também não pode enxergar a educação física como uma disciplina separada das outras, tudo tem que ser integrado e o ensino precisa ser interdisciplinar.

MO: Nos últimos três vestibulares de universidades federais no Estado do Rio de Janeiro, nota-se que a procura pelo curso de Educação Física cresceu muito. A que você atribui esse aumento?

OO: A educação física é uma profissão que está em expansão. É uma profissão muito prazerosa, muito gostosa de ser feita. Além disso, o próprio profissional de educação física tem um amplo leque de atuação, seja em escolas, associações, academias, como personal trainer e até nas clinicas de estética. O mercado e a demanda têm crescido muito e o cuidado com o corpo mais ainda. Isto faz com que a educação física se popularize mais.

MO: Como você avalia o problema do doping no esporte?
OO: O doping é uma forma ilícita de alcançar resultados expressivos em competições, além de ser nocivo à saúde e à carreira do atleta. Acho que deveria existir mais informação. Muitas vezes, o atleta se dopa por impulsão, sem ter conhecimento daquilo que está fazendo. Mesmo assim, essa não é uma justificativa para que faça uso de doping. Todo atleta deveria procurar saber sobre tudo o que ingere e cuidar muito bem de sua carreira.


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