Últimas Notícias

Homem é preso após ameaça de bomba e tenta levar avião a Soshi...
Esporte que constrói o Brasil.

ENTREVISTAS

O REMO PELAS MÃOS DE BELTRAME

19/07/2016
Esportes relacionados:

fabiana3_680

POR FABIANA BENTES / JOANA COCCARELLI / AMANDA SALLES

CONFIRA A ENTREVISTA NO FACEBOOK/SOUDOESPORTE 

 

Há um mês, Fabiana Beltrame anunciava sua aposentadoria da seleção brasileira de remo, depois de não conseguir vaga para os Jogos Rio-2016. Para a campeã mundial, um momento doloroso, mas que hoje a atleta parece buscar entender com mais tranquilidade. Ao lado da filha Alice e do marido e também remador Gibran Vieira, Beltrame conversou com a jornalista Fabiana Bentes para contar com exclusividade ao Esporte Essencial detalhes de tudo que aconteceu nos últimos meses e sobre seu futuro. 

Fabiana vai estrear em breve no canal Sportv como comentarista de remo durante a maior competição esportiva do mundo. Uma oportunidade que ela está levando muito a sério, como qualquer outra competição.

olhos_1_200_03“É uma coisa totalmente nova para mim. Estou bem ansiosa e também ando estudando os remadores, olhando um pouco da vida deles para levar um pouco de curiosidade para as pessoas. Não só falar sobre a técnica do remo. 
Quero me preparar, assim como me preparei todos esses anos dentro d’água. Tudo que eu faço, eu gosto de fazer bem feito”, afirmou atleta que também teve a oportunidade de conduzir a Tocha Olímpica em Florianópolis, cidade onde nasceu. 

Apesar das possibilidades de estar um pouco mais perto dos Jogos Olímpicos, falar da despedida ainda incomoda. Não pela aposentadoria em si, mas pela maneira que tudo ocorreu. Segundo Fabiana, a decisão de se despedir profissionalmente do esporte em 2016 já estava tomada, mas ela esperava poder participar desta que seria sua quarta e última olimpíada. 


“Foi uma sucessão de frustações. A primeira, em 2014, quando eu comecei a remar com a Beatriz Tavares e não deu certo, porque ela não conseguiu manter o peso. Decidi ficar no Skiff simples mesmo, que eu já estava mais adaptada. Me preparei bastante até o pré-olímpico, mas quando cheguei lá mudaram a regulagem do barco, o que prejudicou um pouco os resultados e também peguei uma gripe. Ainda assim, consegui a prata na repescagem. Só que na final A, com o vento a favor, eu já percebi que não seria a escolhida. Para completar, no dia do meu aniversário, já depois do pré-olímpico, eu acordei sem conseguir andar direito, com febre. Fui no hospital e me falaram que era uma virose. Voltei a remar 1 semana depois e com muito esforço para conseguir a vaga para os Jogos, fui à Copa do Mundo de Remo. Chegando lá, eu comecei a ter dores nos pés e dormência completa nas mãos. Eu remava, às vezes, oito horas sem sentir as mãos. Estava com Chikungunya e não tinha ideia”, descreveu.  

Críticas à gestão da seleção brasileira de remo 

Fabiana não poupou críticas quanto à assistência que recebeu nas competições pré-olímpicas, quando foi diagnosticada tardiamente com a doença, que é transmitida pelo mesmo mosquito da Dengue: o Aedes aegypti. A atleta faz um alerta para a falta de preparo no trato dessas doenças entre esportistas de alto rendimento no Brasil.

olhos_3_200_02“A seleção brasileira não tinha um médico para ajudar e eu tive que pedir ajuda para o mesmo setor da Austrália, que me receitou um remédio e fez com que as minhas dores diminuíssem bastante. Fui para última etapa da Copa do Mundo, na Polônia, me sentindo melhor, mas toda a minha recuperação não tinha sido feita direito. Eu não consegui competir e foi aí que decidi jogar a toalha e me aposentar. Muita coisa passou pela minha cabeça. Eu pensei: “Será que estou muito velha para isso?”. Muita gente me deu força, falando para eu não desistir, mas na verdade isso já estava decidido. Como o convite para os Jogos não veio, eu decidi antecipar um pouco. Cheguei no Brasil e as dores pioraram e só aí, por minha conta, fui investigar e descobrir do que se tratava. A gente vive de favores dos outros. Se a seleção quer um resultado profissional, a gente tem que se estruturar para isso. Isso não é um gasto de dinheiro, é um investimento no atleta. Se eu já soubesse do que eu tinha antes, eu pelo menos teria o tratamento certo”, criticou Beltrame.

Futuro

A dias do Jogos Olímpicos Rio-2016, a melhora na situação do remo brasileiro está longe do que Fabiana Beltrame esperava. Por enquanto, a atleta prefere pensar em como será sua vida daqui em diante e espera poder voltar a Florianópolis, onde tudo começou. 

olhos_4_200_03“Vou competir ainda pelas regatas estaduais pelo Vasco, onde tenho contrato até o fim do ano, e, talvez, o Campeonato Brasileiro e, no final do ano, encerro minha carreira como atleta. Eu não tenho ainda bem definido com o que eu vou trabalhar. Acho que vou continuar no esporte e quero muito retribuir de alguma forma o que o remo me deu até hoje”.

Sobre ser candidata a presidente da Confederação Brasileira de Remo, a atleta garante que, por enquanto, é só um projeto: “Nosso esporte está muito carente. Não acho que eu vá fazer uma boa gestão, mas se decidir por isso, vou me preparar e me cercar de gente que possa me ajudar nesse objetivo”.

Confira mais da entrevista com Fabiana Beltrame:

LEGADO DOS JOGOS OLÍMPICOS

“Para o remo não vai ficar absolutamente nada. Fizeram a torre de chegada, mas que para os atletas não adianta nada. De resto, tudo é estrutura provisória que vai ser retirada depois. Nada daquilo que a gente festejou em 2009 vai ficar. Eu fiquei com o pé atrás na época também, se tratando de Brasil, mas agora a gente está tendo a prova concreta, pelo menos para o remo, de que não vai ficar nada. Nem barcos que poderiam ter sido comprados com um incentivo maior. Em quatro anos, nenhum foi comprado. O que geralmente a gente faz, é treinar com barcos mais antigos e os novos são colocados só nas competições, mas eles sempre vêm com alguma mudança e você tem que se adaptar na hora. A flotilha brasileira é de 2006. 10 anos de uso. Para os Jogos, já compraram barcos novos, mas só vão ser usados na Lagoa, a partir do momento que o local for aberto para treinos”. 

Raias já estão colocadas na Lagoa Rodrigo de Freitas
Rio-2016: Raias já estão posicionadas na Lagoa Rodrigo de Freitas - Foto: Leonardo Filipo

GESTÃO DOS CLUBES DE REMO

“Eu acho que o remo brasileiro hoje é muito dependente dos clubes. Acredito que não deveria ser tanto, porque os clubes focam mesmo nos campeonatos estaduais, principalmente no Rio de Janeiro, e é a minoria que foca na seleção. Então, acho que o sistema esportivo do remo do Brasil deveria passar por uma reformulação, porque se não mudar, acredito que a gente não vai conseguir mais bons resultados, mesmo daqui há dez, vinte anos. A seleção brasileira deveria investir numa equipe de base para ir trabalhando e chegar a um nível adulto. Os atletas, até as competições, treinam cada um em seus clubes e se juntam uma semana antes para conversar. Com isso, a seleção acaba não criando uma identidade. Na Copa do Mundo, por exemplo, cada atleta vestia a camisa do seu clube. Só tínhamos o macaquinho de competição. É um exemplo pequeno, mas que reflete o que acontece no país que vai sediar os Jogos Olímpicos. Não é criticar os clubes. Se não fosse por eles, o remo não teria nada, mas é criar uma estrutura de seleção. O Brasil do jeito que é grande, lugar é que não falta. Estamos ainda discutindo isso a dias dos Jogos, sobre um esporte que é centenário no Brasil. Agora com o fim dos Jogos, que o investimento vai cair, você acha que alguma coisa será feita? A tendência é que seja esquecido”.

CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE REMO

olhos_8_200_02“Hoje, a Confederação não tem dívidas. O atual presidente, Edson Altino, realmente conseguiu sanar todos os problemas trabalhistas, mas o esporte não é só isso. Agora ele está meio que paranoico com deixar as contas sempre no positivo, mas agora a Confederação está bem e poderia investir mais. O que eu vejo é que tudo poderia ser mais multidisciplinar, porque uma pessoa só não vai saber gerir tudo. Acho que ele não se cercou de pessoas boas e agora a gente colhe os frutos”.

NOVA GERAÇÃO DO REMO

Fabiana: “A renovação anda bastante pobre. Não há uma equipe júnior formada para se transformar em profissional depois. Eu não vejo uma luz no fim do túnel. Claro que há um atleta ou outro que se destaca, assim como eu, que fiz uma estrutura própria, mas isso nunca foi integrado. 

Gibran: “A Fabiana não é resultado de uma boa gestão do remo brasileiro. Ela é um talento individual, que as pessoas ao redor souberam aproveitar isso. Nós tentávamos prever os problemas que iam acontecer e ajudávamos da maneira que podíamos. Para o futuro do remo, vamos continuar esperando lobos solitários, talentos individuais”.

julio1_680
Fabiana Beltrame recebe instruções de Júlio Soares - Foto: Detlev Seyb/MyRowingPhoto.com

JÚLIO SOARES

Fabiana: “O Júlio era o técnico do feminino. Ele foi responsável por todo processo seletivo da seleção e, até o pré-olímpico, ele era o responsável pelo treino. Só que depois das competições, mesmo tendo classificado dois barcos, contando que com a nova regra somente um poderia ir, ele foi desligado e ficou completamente arrasado. O sonho dele também era estar nesses Jogos Olímpicos. Por uma questão política e também de preferência das atletas, aconteceu esse revés. Isso me deixou muito chateada, porque ele merecia muito. Foi ele que fez esse barco andar e, de repente, ele foi desligado. Acho que a ingratidão, nesse caso, foi pior ainda”.

Gibran: “É muito amadorismo. Só um país que não está preparado, permite esse tipo de situação. Duvido muito que países como EUA e Austrália, as atletas vão cantar de galo desse jeito para decidir treinador”. 

MATERNIDADE

“Quando ela nasceu, depois de 45 dias, eu já voltei a remar e era uma loucura. Eu acordava cedo para treinar e o Gibran ficava com ela. Depois ele ia remar e eu ficava com ela. À tarde, a mesma coisa. Depois que ela cresceu um pouco, nós levávamos ela para o clube com uma babá. Eu amamentava antes de ir para água e, às vezes, quando eu estava no meio do treino, eu escutava ela gritando de fome e voltava para amamentar de novo. Foi assim até ela entrar na escola. Ela nasceu praticamente dentro de uma garagem de remo. É um pouco frustrante ouvir da Alice que ela não quer seguir no esporte, mas não podemos forçar. Acho que também é muito cedo. Eu comecei no remo com 15 anos. Na idade dela, o importante é experimentar ao máximo para ver se pega gosto com algum esporte. Ela vai ser o que ela quiser ser”. 


Fatal error: Call to a member function getLink() on a non-object in /home/storage/a/b4/92/memoriaolimpicabrasi/public_html/incs/coluna_direita_noticias.codigo.php on line 27