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ENTREVISTAS

Ney Wilson (Gestor de alto rendimento da CBJ)

22/10/2014
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Por Katryn Dias

Desde os Jogos de Los Angeles, em 1984, o Brasil é presença constante no pódio olímpico do judô. Se no início as conquistas eram fruto do suor de atletas empenhados, hoje são consequência de um trabalho sério e bem planejado da Confederação Brasileira de Judô (CBJ).

Gestor técnico de alto rendimento, Ney Wilson é um dos responsáveis pela profissionalização da entidade, que tem como um dos objetivos principais promover a prática do judô por todo o país. Nesta entrevista exclusiva, Ney detalha a estrutura atual da modalidade e as perspectivas futuras.

 

Esporte Essencial: Como você entrou para a gestão do esporte?

Ney Wilson: É uma história antiga (risos)... Na verdade, sempre fui praticante de judô, comecei aos seis anos. Depois fui fazer Educação Física, entrei na faculdade aos 17 anos, quando já era faixa preta. Então, não entrei pela gestão, mas porque era praticante e queria ser técnico de judô. Daí foi um passo. Comecei a ser técnico, tinha uma equipe bem forte no Rio de Janeiro, no Santa Luzia, um clube de remo no Calabouço. Por ter uma equipe forte e estar me destacando, me convidaram para fazer parte de uma chapa na Federação de Judô do Rio de Janeiro. Fui diretor técnico durante duas gestões, depois fui eleito presidente. Na época, a Federação do Rio foi bastante inovadora nas suas ações, isso obviamente alavancou bastante a instituição. Diga-se de passagem, a Federação do Rio sempre foi oposição à CBJ. 

Enfim, num determinado momento político, nós achamos que era a hora de lançar uma candidatura para a CBJ. O professor Paulo [Wanderley Teixeira], então presidente da Federação do Espírito Santo, se lançou para presidente e eu seria o responsável pela área técnica. Entrei porque eu era do Rio, a Federação mais forte do ponto de vista administrativo e técnico naquela época. Hoje sou gestor de alto rendimento, é um nome mais sofisticado (risos). Antigamente, era diretor técnico.

01_200_07EE: Quais seriam as suas principais funções hoje como gestor técnico?

NW: Eu administro a seleção brasileira principal (sênior). Toda a parte de planejamento de ações da seleção, desde o individual de cada atleta até o macro. Ou seja, toda a logística para viagens, orçamento, etc. Para as seleções de base nós temos outro gestor. É um trabalho integrado, mas é outra gestão porque sozinho não comportaria o tamanho que hoje está o judô brasileiro. No passado, era um só, eu. Mas depois nós evoluímos, a Confederação cresceu e são muitas ações, então ficou impossível estar à frente de tudo. Fiquei só com a seleção principal.

EE: A CBJ hoje é um exemplo de boa gestão e resultado. Como ocorreu a profissionalização da instituição? Foi no momento que essa nova chapa assumiu?

02_200_09NW: Sim, sem dúvida nenhuma. Nos 30 anos anteriores a essa gestão, não se conquistou um décimo do que foi alcançado nos últimos 12 anos. Nós começamos do zero e construímos isso. Mas não vejo a CBJ como exemplo nem modelo para nenhuma Confederação. Acho que cada esporte tem suas especificidades e suas necessidades. Nós fomos identificando quais eram as necessidades do judô, atendendo as demandas e hoje temos um bom resultado.

EE: Você é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) nos cursos de graduação e pós-graduação em Educação Física. Como funciona essa relação entre a universidade (pesquisa) e o alto rendimento?

NW: Na verdade, esse diálogo sempre melhora o trabalho. Eu tenho as duas visões, do pesquisador e do gestor. Dentro da universidade, muitas vezes se faz pesquisa pela pesquisa e o resultado não chega ao atleta, ao alto rendimento e ao treinador. Essa era um ponto com o qual sempre fui muito crítico e já estamos conseguindo reverter. O meu papel é de trazer o laboratório para a prática. O objetivo é que nós possamos realmente reproduzir a melhoria da performance do atleta. Não precisamos de pesquisa que fique no papel, engavetada, e que não se aplique a nada na prática.

Foto: Míriam Jeske

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A filosofia do judô e seus principais golpes: inspiração constante para os profissionais da CBJ

 

Resultados e metas

 

03_200_08EE: Como você avalia a situação do judô brasileiro atualmente?

NW: Bem, o judô brasileiro vem numa crescente. Nós temos a rotulação de ser o “carro-chefe” do esporte brasileiro, que é feita sobre um aspecto bom, mas também é uma responsabilidade muito grande. Quer dizer, nós ficamos muito orgulhosos de sermos apontados pelo Ministério do Esporte e pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) como o “carro-chefe” do esporte brasileiro em termos de conquista de medalhas. Ao mesmo tempo, isso nos traz uma responsabilidade enorme. Nós não temos nenhum receio, mas é sempre pressão. Lidar com essa pressão é o que temos procurado administrar da melhor forma possível para que também possamos blindar nossos atletas para evitar que vivenciem determinadas situações... Obviamente eles sabem que vão vivenciar pressão, mas têm que saber administrar de uma maneira positiva. Os atletas têm que estar com a estima alta para perceber que ser o “carro-chefe” só é possível porque os resultados apontam para isso. O que não pode acontecer é isso ser mais um peso nas costas deles. 

04_200_10EE: Qual a expectativa da CBJ para os Jogos Olímpicos do Rio?

NW: Nós temos uma experiência grande de que lutar dentro do Brasil para o judô tem sido muito positivo. Isso vem desde 2007, quando fomos sede de um Mundial. Naquela edição, os resultados foram os melhores da história na qualidade das medalhas. Depois nós tivemos os Jogos Pan-Americanos, onde os resultados também foram maravilhosos. E em 2013 tivemos novamente o Campeonato Mundial, que foi o melhor em termos de quantidade de medalhas conquistadas. Sem contar com os Grand Slams que realizamos aqui e sempre tivemos boas participações. Então, os judocas estão habituados a lutar em casa sem que isso produza uma pressão prejudicial. É uma pressão sadia que acaba sendo positiva.

EE: O superintendente Marcus Vinicius Freire revelou em entrevista ao Esporte Essencial que a meta do COB para o judô em 2016 é atingir sete ou oito medalhas. Essa é uma meta possível? O que é preciso fazer para alcançar esse objetivo?

05_200_09NW: Olha (risos)... Estamos a dois anos dos Jogos Olímpicos. Ainda podem existir atletas para os quais a gente não vislumbre medalhas e que, nos próximos meses, cresçam e possam ser candidatos a medalha. Da mesma forma, podem ter outros que neste momento são candidatos a medalha que sofram uma queda. Então, ainda é muito cedo para estabelecer um número de medalhas. Com certeza nós vamos para os Jogos com uma meta estabelecida antes, sabendo o que nós queremos alcançar. Mas dois anos antes ainda está muito cedo para dizer se vamos trabalhar com a possibilidade de chegar a esse número. Agora, oito medalhas... não chegamos não. Para alcançar oito medalhas, como o COB planeja, teria que dar tudo certo para o Brasil e tudo errado para todos os outros países. É uma possibilidade pequena.

Basta olhar o quadro de medalha do judô nas últimas quatro edições de Jogos Olímpicos. Ganhar oito medalhas numa única edição é muito difícil. Nos últimos quatro anos, só o Japão chegou a isso, mais nenhum outro país. Hoje o judô está muito universalizado, o que se reflete num quadro de medalhas muito diluído. No último Campeonato Mundial, esse ano na Rússia, nós ganhamos quatro medalhas e só uma de ouro. Isso nos levou à terceira posição no quadro geral. Por isso, pensar em oito medalhas é um número muito grande.


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EE: Qual a previsão da delegação para 2016?

NW: Nós temos 14 atletas que vão aos Jogos Olímpicos. Para chegar a seis ou sete medalhas, nós temos que ter entre 10 e 12 categorias com chance de subir ao pódio. Se nós tivermos sete para achar que vamos ganhar sete, não vamos ganhar. O esporte não funciona desse jeito. Não é uma ciência exata. Às vezes pensamos que tem sete judocas com chance de ganhar medalha e só quatro ganham. 

EE: O fato de a equipe feminina estar conquistando resultados mais expressivos (Sarah Menezes, Rafaela Silva06_200_08Mayra Aguiar) que a masculina preocupa?

NW: Não. Eu acho que na hora certa vai amadurecendo... Na Olimpíada de 2008, nós chegamos com a equipe masculina e ouvi essa mesma pergunta de um jornalista com relação ao feminino. E aí chegamos a 2012 com a feminina tinindo, uma equipe jovem, com boa experiência e que teve uma boa performance. Em 2016, acredito que o masculino vai chegar com um elenco bem renovado e fortalecido. Vai ser o que foi o feminino na Olimpíada passada. Então, vamos ter tanto o feminino quanto o masculino brigando por medalhas.

EE: Nos últimos anos tivemos judocas afastados por lesão, como Leandro Guilheiro, que ficou dois anos sem competir. O que é possível fazer para evitar lesões? Existe um trabalho específico para isso?

NW: O Leandro Guilheiro é uma geração que veio antes até de assumirmos a Confederação, ele já é um atleta destacado há anos. Hoje nós temos um trabalho de prevenção grande. Temos até um protocolo que todos os nossos atletas devem cumprir quando não estão com a seleção. São preventivos, sejam trabalhos funcionais, específicos da fisioterapia ou da preparação física. A nossa integração é com os clubes que tem esses atletas. Nós fazemos um trabalho a quatro mãos, CBJ e clubes, no sentido de dar as melhores condições para o atleta render mais.

EE: Há uns dez anos, você disse em entrevista que o judô era carente de torcida. Essa ainda é a realidade? Qual foi a avaliação do Mundial realizado no Rio, no ano passado?

NW: Isso mudou completamente nos últimos cinco anos, talvez até pelos resultados e pela exposição de mídia que cresceu muito. O que acontecia antes era que o judô passava um marasmo de dois, três anos antes da Olimpíada sem ninguém procurar. Às vésperas da Olimpíada, vinha uma multidão de jornalistas. Isso acaba perturbando muito o atleta, tira o foco... Hoje nós já convivemos de uma maneira melhor, porque o judô está na mídia no dia a dia. Então, os atletas já aprenderam a lidar com essa situação. Isso tem sido um exercício também da CBJ de fazer com que os atletas saibam conviver e lidar com a imprensa. No início do ano, nós temos uma série de atividades, entre elas o media training, para os atletas aprenderem a lidar com o fato de ter que estar sempre disponível. É bom que eles saibam lidar com a imprensa de uma forma positiva para eles mesmos e para o próprio judô.

 

A estrutura do judô brasileiro

 

EE: Como vocês encaram a contratação de técnicos estrangeiros? Existe essa troca de experiências entre os profissionais brasileiros e estrangeiros?

07_200_11NW: Na verdade, nós temos uma única técnica estrangeira, a japonesa Yuko Fuji. Esse projeto começou antes da Olimpíada de 2008. Pelo fato de acontecer a Olimpíada em Londres, nós firmamos um convênio com a Confederação Britânica de Judô. Nós íamos muito lá e os britânicos vinham muito ao Brasil. Numa dessas idas para treinar, nós conhecemos essa técnica que estava com a equipe inglesa. Eu e outros técnicos observamos que o trabalho dela era diferenciado e preencheria uma lacuna que nós tínhamos no judô brasileiro. A partir daí, eu comecei um diálogo. Ela disse que não tinha nada definido para depois da Olimpíada de 2012 e perguntei se toparia um novo desafio no Brasil. Na mesma hora, ela respondeu que sim. Combinamos de conversar depois dos Jogos de Londres, porque não queria ser antiético e negociar antes de acabar o outro contrato. Quando terminou a Olimpíada, em agosto, a Yuko veio me procurar, confirmei o interesse. Em novembro, nós a trouxemos ao Brasil por 30 dias. Primeiro, tive que explicar como funcionava o judô brasileiro, ela conheceu a estrutura e visitou alguns clubes. Nesse primeiro contato, nós avaliamos se realmente aquela parceria interessava para nós e para ela. Os técnicos brasileiros também estavam envolvidos nesse processo.

Então, a vinda dela não foi uma imposição de cima para baixo, da Confederação para os técnicos. Foi uma decisão coletiva de que seria uma coisa positiva para o judô brasileiro. Nós hoje temos a Yuko Fuji, mas que está na nossa equipe como se fosse uma brasileira. Até porque, em tão pouco tempo, já fala português como nós. Por isso, o diálogo é natural.

A vinda dela foi muito positiva. Nós não temos nenhuma pretensão de contratar outro técnico estrangeiro, acho que o judô brasileiro não necessita disso. Nós temos excelentes técnicos aqui que estão trabalhando na base e na equipe principal. Hoje os nossos técnicos todos foram atletas da seleção brasileira. Alguns são até medalhistas, como o Douglas Vieira [prata em Los Angeles 1984]. Isso nos dá bastante confiança e conforto de que nós temos uma boa equipe de trabalho. Mas a Yuko Fuji ainda preenche uma lacuna de transição entre o atleta que vem da equipe de base até chegar à equipe principal. 08_200_08Isso ela trabalha muito bem e é o que tem feito aqui no Brasil.

EE: Como é feito o trabalho na base?

NW: Nós custamos para conseguir organizar, porque todos os patrocinadores investem por causa da equipe principal. Ninguém investe na base. Primeiro, nós tivemos que ter resultados para que tivéssemos orçamento para a equipe principal. Depois que completamos a quantia considerada ótima, começamos a investir na equipe de base. Então, a base não recebeu investimentos ao mesmo tempo em que o judô de alto rendimento, começou mais tardiamente. Mas hoje o investimento é quase equivalente ao orçamento de trabalho da equipe principal. Houve uma melhora nesse trabalho e os resultados têm aparecido. Nós entendemos que a equipe de base é a nossa maior fornecedora de atletas. Se não tivermos a reposição das peças principais, uma geração acaba e até formar outra fica 09_200_02uma lacuna muito grande. O trabalho é de continuidade, de dar reposição aos atletas da equipe principal.

EE: Já temos uma boa geração para manter o judô no pódio nas Olimpíadas de 2020?

NW: Temos uma ótima geração. Nós tivemos um ótimo resultado no Mundial do ano passado. Esta semana começa outro Mundial sub-21 e nós também esperamos um bom resultado. Um dos exemplos é a Layana [Colman], campeã dos Jogos Olímpicos da Juventude.

EE: Como é a estrutura de treinamento do judô? Acabou de ser inaugurado o Centro Pan-Americano de Judô, em Salvador, não é?

NW: Agora o centro ainda está sendo equipado para podermos utilizar. Nós ainda não estamos utilizando, mas é uma obra grandiosa, tanto do ponto de vista estético quanto funcional. Acredito que vai ser uma nova fase do judô brasileiro.

Mas atualmente nós temos uma estrutura itinerante. Nós fazemos treinamentos pelo Brasil todo. Fizemos até treinamento no Piauí, porque temos a Sarah [Menezes] lá, então levamos toda a seleção brasileira. Pode parecer um absurdo, porque seria mais fácil trazer a Sarah do que levar todo mundo. Mas nós também precisamos conhecer a realidade que ela vive, como ela treina. Levar a seleção para lá é vivenciar a rotina dela, ver as dificuldades que ela tem. Para nós, é muito positivo esse treinamento itinerante, podendo vivenciar experiências em cada um dos locais, seja em Porto Alegre, em Belo Horizonte, em São Paulo, no Rio de Janeiro e até em Teresina. 

 

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EE: Mas a perspectiva futura é que toda a seleção treine no Centro Pan-Americano ou esse treinamento itinerante será mantido?

10_200_01NW: Obviamente nós vamos utilizar muito mais o centro de treinamento da Bahia, mas não vamos fazer só treinamento lá. Nós também temos o papel de promover a descentralização do judô no território brasileiro. E eu acho que um dos sucessos do judô tem sido a descentralização. Hoje na equipe de base nós temos atletas de quase todos os Estados. São 27 federações e temos atletas de, pelo menos, 20 delas na seleção. O marco disso foi a Sarah. É emblemático que a primeira campeã olímpica não seja de um grande centro, e sim de Teresina. Acho que é um bom exemplo para o judô e acaba repercutindo. Depois da Sarah, o judoca do interior pode achar que tem condição de chegar à seleção brasileira. Por isso, nós precisamos continuar fazendo campeonatos por todo o Brasil, apesar de também utilizar o centro. Lá também vai ser possível realizar grandes eventos, então vamos usar para competição e para treinamento.

EE: A CBJ trabalha em parceria com clubes para que essa descentralização seja possível?

NW: Nós temos feito grandes parcerias com os clubes, as federações estaduais e as prefeituras. Tudo isso tem oportunizado o crescimento do judô como um todo, por pelas as regiões do país. Nós não poderíamos tirar a seleção do Rio de Janeiro para treinar no Piauí sem ter a qualidade dos tatames e da estrutura que utilizamos. Nós podemos fazer treinamento em qualquer lugar do Brasil com a mesma qualidade, porque todas as Federações recebem tatames padronizados. Isso facilita bastante, porque nós não precisamos deslocar o material ou usar um material inadequado. Hoje todas as Federações têm condições de fazer competições e treinamentos de alto nível.

 

Mudanças e mais mudanças

 

EE: Qual a sua opinião sobre as constantes mudanças de regras no judô?

ney-wilson-miriam-jeske-2_450NW: Muito ruim. Eu digo que a grande maioria das mudanças foi boa e até favorável ao estilo do judô brasileiro. Só que elas foram acontecendo em momentos diferentes, em doses homeopáticas. A cada dia que íamos a uma competição mudava alguma coisa. E aí fica muito difícil para o treinador e para o próprio atleta. Daqui a pouco o atleta vai ter que consultar as regras para ver o que pode ou não pode, de tanta mudança que tem... Enfim, a minha leitura não é positiva desse fracionamento das mudanças.

O maior exemplo dessa confusão foi a Olimpíada de Londres. Em 2012, aconteceu uma polêmica envolvendo a Rafaela [Silva], que foi desclassificada por segurar na perna da adversária. Era uma situação no limiar do pode e não pode, e ela acabou sofrendo a punição. Hoje a regra é muito mais clara nesse sentido. Não pode mais segurar na perna de maneira nenhuma, não importa se está contragolpeando, saindo do chão ou complementando o golpe. Antes tinham essas situações possíveis. Se o atleta se desequilibrasse, podia complementar com o braço. Hoje não pode mais nada. Então, ficou muito claro. Esse é só um exemplo de mudança que teve que eu acho que foi muito positivo. Mas agora, a dois anos da Olimpíada nada muda mais. Isso é uma segurança.

A única parte do regulamento que acho que não foi boa é com relação à pesagem, que acontece na véspera da competição. Antes, a pesagem era no dia. Para o judô brasileiro, da forma com que é organizado, com uma equipe multidisciplinar e acompanhamento de toda a parte nutricional, eu preferia a pesagem no dia. E acho até que, em longo prazo, para a questão de saúde dos atletas, a pesagem no dia é melhor. 

EE: Isso abre margem para acontecer como no MMA, onde os atletas desidratam de um dia para o outro para perder quilos e depois ganham de volta antes da luta?

13_200_01NW: O problema não é perder peso, é perder saúde. Quando perde saúde, o problema é grande. A perda de peso demasiada também altera a performance, existe perda de resistência. Por isso, sou favorável que a pesagem continuasse como era, no mesmo dia. Mas isso não muda mais, então temos que nos adaptar.

EE: Os judocas já estão aderindo a essa prática de desidratar para bater o peso?

NW: A Federação Internacional de Judô (FIJ) permite que o atleta tenha uma alteração de até 5% do peso que ele estava na véspera. Acho que isso é justo por uma questão de saúde do atleta. No dia da competição, 40 minutos antes da luta os atletas pesam novamente e só podem ter um aumento de 5% no peso. Mas apenas cinco atletas por categoria pesam essa segunda vez, é por sorteio. Como ninguém sabe quem vai ter que pesar, todos têm que manter o peso.

 

Outros assuntos

 

EE: A CBJ também está envolvida com o judô paralímpico?

Foto: Míriam Jeske

ney-wilson-miriam-jeske-3_450_01NW: Envolvida diretamente não, mas nós temos um diálogo muito bom. Não só com as equipes paralímpicas, mas também com a special olympic, que é o Judô Para Todos*. Nós nos ajudamos no sentido de planejamento, de ações e até integração de treinamento. Muitas vezes quando estamos treinando em São Paulo, a equipe paralímpica pede autorização para treinar junto. Essa troca é boa para eles e para nós também. Conviver com eles é sempre muito bom. 

O que nós não temos é um departamento na CBJ voltado para isso, mas eu, por exemplo, mantenho um contato direto. Nós procuramos apoiar no que é possível. 

No judô paralímpico, nós fizemos um curso de arbitragem, para que os árbitros aprendessem a lidar com o esporte. No Judô Para Todos, da mesma forma, fizemos um curso de técnico em que mais de 200 profissionais aprenderam a lidar com as necessidades especiais. Enfim, a CBJ mantém um diálogo. Eu, particularmente, muito grande. Os principais atletas paralímpicos do Brasil há cinco anos treinavam comigo, junto com a equipe principal do Vasco. O Antônio Tenório era um deles. Então, a relação é muito boa.

 *Vertente do judô que reúne atletas com todos os tipos de deficiência.

EE: Como é feita a orientação dos atletas sobre o doping?

NW: Nós temos os caminhos oficiais e outras atividades. Em todas as competições da FIJ, os atletas que chegam ao pódio – e do Brasil é um número bastante grande –, são testados em dopagem. Essa vertente não é uma ação da CBJ, mas se estamos levando o atleta é porque confiamos no trabalho que fazemos preventivamente para chegarem lá.

14_200_01O nosso trabalho preventivo tem duas etapas. A primeira são os exames que a Agência Mundial Anti-Doping (WADA, na sigla em inglês) chama de off-competitions, fora da temporada de competição. Agora mesmo estamos programando uma seletiva e nesse dia, através de sorteios, vamos chamar atletas para fazer o teste de dopagem. O atleta que pleiteia chegar à seleção já sabe que vai passar por um crivo anti-doping. Além disso, nos nossos treinamentos itinerantes, nós marcamos e fazemos testes também.

A segunda etapa é educativa. No início do ano, nós temos várias atividades, além de treinamento e avaliações, temos palestras e uma delas é sobre o doping. Anualmente nós fazendo essas palestras, de níveis diferentes. Para o atleta que é novo e está chegando à seleção é um tipo de palestra, diferente daquela que o atleta que já está há anos vai assistir. Nesse momento inicial, o trabalho é voltado para fazer o atleta entender o que é o doping. Muitas vezes, o atleta pode se dopar sem ter consciência. Se usar um descongestionante nasal já pode ser pego, porque a maioria é doping. Às vezes um colírio ou uma pomada cicatrizante podem ser doping. Nós fazemos todo um trabalho preventivo para que eles entendam. Além disso, orientamos que toda e qualquer medicação deve ser submetida à comissão técnica. 

Apesar de estar disponível nos sites da WADA e do COB, nós distribuímos uma lista de substâncias proibidas. A experiência que nós temos é os atletas não vão em busca da informação do que pode ou não pode, querem a coisa mais “mastigada”. Por isso, normalmente nós já levamos a lista e qualquer dúvida que eles tenham podem mandar um e-mail que nós esclarecemos. Inclusive surgem muitas dúvidas com relação à suplementação. Quando desconfiamos de algum suplemento novo, nós submetemos a uma avaliação para saber se não tem nenhum problema no conteúdo, até para poder orientar os atletas da maneira correta.

15_200EE: Para você, o esporte é essencial?

NW: Para mim, o esporte é 100% essencial. E vou além, digo que o judô é essencial. O judô contribui muito para a vida das pessoas, não só do ponto de vista esportivo, de resultados, mas também na formação do individuo. Tanto que a ONU coloca o judô entre as modalidades mais adequadas para a prática de crianças. 

Vou dar um exemplo para ficar mais claro para uma pessoa que não tem a vivência do judô.  Para jogar um esporte de bola, você precisa da bola para chutar para o gol, arremessar ou cortar. A bola do judô é o corpo do outro. Então, o corpo do adversário faz parte do treinamento. Lidar com isso faz com que os judocas aprendam a respeitar os limites do outro. Se furo a bola, não tenho mais como jogar. Da mesma forma, se machucar o meu amigo, não vou ter mais com quem treinar. 

O judô tem toda uma filosofia voltada para aspectos pedagógicos. Por isso, é recomendado para a prática desde a infância. Além do que todos os outros esportes oferecem que é a saúde e uma melhor qualidade de vida. Acho que o esporte, praticado de forma prazerosa e preenchendo o lazer, é uma forma de manutenção da qualidade de vida no futuro. Por tudo isso, acho que o esporte é essencial na vida de todos.


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