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Nathália Brigida (Judô)

11/11/2015
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Por Fernando Hawad

De coroinha para um dos maiores talentos do judô brasileiro. A trajetória de Nathália Brígida nos tatames começou para valer na igreja que frequentava em Atibaia, sua cidade natal. Desde cedo, a judoca paulista demonstrava todo seu talento nas competições regionais.

O crescimento de Nathália foi proporcional à subida de patamar do judô feminino brasileiro. Bronze no Mundial Júnior de 2010, a atleta do Minas Tênis Clube chegou rapidamente à seleção adulta. No Pan de Toronto, substituiu a campeã olímpica Sarah Menezes e conquistou uma medalha. Em seu primeiro Mundial Adulto, aos 22 anos, alcançou as semifinais. Para disputar os Jogos de 2016, Nathália precisa superar justamente Sarah no ranking mundial. Com duas judocas de alto nível na categoria ligeiro, a tristeza é saber que uma delas vai ficar de fora do torneio olímpico. Por outro lado, a certeza é que o Brasil vai estar muito bem representado no Rio de Janeiro. 

EE: Como foi o início no tatame?

NB: Tive meu primeiro contato com o judô ainda bem novinha. Tinha uns cinco anos de idade e minha mãe me colocou numa academia onde eu morava lá no interior de São Paulo. Ela queria que eu fizesse algum esporte porque tinha muita energia, brincava muito, era meio sapeca. Por isso, o judô. Alguns primos meus já faziam também. Mas nessa idade acabei praticando por pouco tempo e saí. Depois, quando tinha 11 anos, era coroinha de uma igreja na minha cidade (Atibaia). Foi então que o sacerdote da igreja, que era faixa marrom de judô, começou a dar aulas lá mesmo no local, a princípio, só nos fins de semana. Ali comecei a gostar bastante e dei sequência. Fui para uma academia e, desde então, não parei mais.

brigida-posada_450EE: Ainda frequenta a igreja hoje?

NB: Sim, frequento. Não tanto quanto antes, quando era mais nova. Mas sempre que posso, quando estou no Brasil, vou à igreja. Gosto de ir à missa e levo minha fé comigo sempre.

EE: Quais as principais dificuldades que você enfrentou no começo de trajetória no judô?

NB: Em São Paulo, sempre competi muito desde novinha. Lá tem bastante competição para todas as faixas etárias. Eu gostava muito. Achava tudo uma grande diversão. Então, para mim, nada era problema, dificuldade. Meu pai sempre me acompanhava, gostava muito disso também. Estava sempre ao lado dos meus amigos. Não vejo mesmo dificuldades nessa época. Era uma coisa legal, que eu gostava muito de fazer.

EE: Quando foi que a seleção brasileira entrou na sua vida?

NB: Comecei a representar o Brasil bem nova, nas categorias de base. Disputei Campeonato Pan-Americano aos 12 e 14 anos. Como profissional mesmo, entrei na seleção em 2009, aos 16 anos.

 

2015: o ano da afirmação

 

EE: Você ficou sabendo que ia substituir a Sarah Menezes no Pan de Toronto com pouca antecedência e foi lutar logo no primeiro dia do evento. Como foi aquele momento de estar nos Jogos Pan-Americanos e ainda conseguir a primeira medalha do Brasil no evento?

NB: Foi uma surpresa para mim. Apesar de ter obtido bons resultados em competições anteriores, não esperava que essa convocação para o Pan viesse. Então, desde o início foi muito legal ter a oportunidade de estar nos Jogos. A minha participação foi muito boa, não apenas para a minha carreira de atleta, mas para a minha vida também. Sempre vamos para as competições de judô, viajamos, mas eu nunca tinha ficado dentro de uma vila, com diversos atletas de vários esportes, medalhistas olímpicos, campeões mundiais, vários ídolos. Parecia uma coisa que só via na TV, mas eu estava ali. Foi realmente uma experiência muito boa. A competição foi bem difícil porque a minha categoria tem atletas bem fortes aqui no continente. Perdi a semifinal para a argentina Paula Pareto, que foi campeã mundial neste ano, mas fiz uma boa luta com ela. Depois, consegui a medalha de bronze. Quando saí do tatame, não sabia que tinha sido a primeira medalhista do Brasil lá nos Jogos. Foi mais uma surpresa muito boa. Um momento que vai ficar marcado para sempre na minha vida.

 

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 Orgulhosa da medalha de bronze conquistada no Pan de Toronto, em julho

 

 

olho1_200_06EE: Um mês após o Pan, em seu primeiro Mundial, em Astana, no Cazaquistão, você conseguiu chegar às semifinais e quase beliscou uma medalha. Qual a sensação que ficou desse Mundial? Um gosto amargo por não conquistar uma medalha, ou a felicidade por ter feito uma bela campanha?

NB: A princípio, fiquei chateada. Depois de uma derrota é difícil enxergar alguma coisa boa. Hoje tenho a consciência de que fiz um bom Campeonato Mundial, mas, ao mesmo tempo, acho que tinha plenas condições de conseguir uma medalha. Foi uma competição muito dura, mas uma experiência muito boa. Agora já estou conhecendo bem melhor as atletas da minha categoria, tenho mais vivência. Isso é muito importante. A evolução é mais importante que a medalha. Mas é claro que ainda estou com a sensação de que poderia ter conquistado uma medalha no Mundial.

olho2_1_200EE: Você perdeu a semifinal para a experiente japonesa Haruna Asami, que acabou sendo derrotada na decisão por Paula Pareto, com quem você fez uma luta muito parelha na semifinal em Toronto. Isso mostra que a categoria ligeiro (48kg) é uma das mais equilibradas no feminino?

NB: Com certeza. A categoria ligeiro está bem equilibrada pelos resultados das competições deste ano. Não há uma atleta absoluta na categoria. Cada competição tem uma vencedora diferente.

EE: Certa vez, Mayra Aguiar falou que quando ela entrou na seleção, muito nova também, e sabia que ia lutar contra uma japonesa, entrava no tatame com um excesso de respeito por saber da força do judô japonês. Mas, de acordo com ela, essa situação mudou nos últimos anos. Com o crescimento do judô feminino do Brasil, o olhar para as japonesas passou a ser de igual para igual. No Mundial você encarou duas japonesas. Como é lutar contra elas? É diferente, pelo fato do Japão ser o berço do judô?

NB: O Japão tem muita tradição, principalmente na minha categoria. A maioria das japonesas consegue medalhas em Olimpíadas ou Mundiais. Então, estamos sempre treinando com o pensamento nas adversárias que trazem mais dificuldades. Como aconteceu no Mundial, de perder para duas japonesas, pude ver que o estilo de luta delas é um pouco a minha dificuldade. Por isso, venho trabalhando muito em cima disso, sem deixar de lado as outras adversárias. Mas na questão psicológica, não me sinto pressionada ao saber que vou lutar contra uma japonesa. No Mundial de Astana dei azar de enfrentar as duas japonesas, mas é algo que não aconteceria em uma Olimpíada (em Jogos Olímpicos cada país classificado pode ter somente um atleta por categoria).

olho4_200_04EE: Tem acontecido bastante intercâmbio com atletas de outros países nos treinamentos dos judocas brasileiros. Como isso pode ajudar na evolução de vocês?

NB: É muito importante treinar com as adversárias da sua categoria para conhecê-las melhor. No judô, não tem problema treinar com o adversário. Pelo contrário, isso é bom para todos. Em alguns esportes, isso não acontece. As pessoas escondem o jogo, tem a questão da estratégia. Mas, no judô, ter a vivência com outros países é essencial, porque o estilo de luta é muito diferente. Nós vamos treinar no Japão, é um estilo. Na Europa, outro. Então temos que nos preparar para essas diferentes possibilidades de enfrentar as atletas. E para se preparar bem, a melhor maneira é treinar com elas. Assim como aprendemos com as atletas de fora, elas também aprendem com o estilo de luta do Brasil. O intercâmbio é extremamente importante para a nossa evolução.

olho6_200_04EE: Por conta das conquistas que obteve nos últimos anos, o judô brasileiro acaba gerando muita expectativa na torcida e na própria Confederação, que traça metas ambiciosas para as grandes competições. Isto faz, por exemplo, o resultado do Mundial de Astana, com duas medalhas de bronze, ficar aquém do esperado. O próprio COB acredita que o judô vai ser o “carro-chefe” do Brasil nos Jogos do Rio. Você acha que essas metas colocam uma pressão muito grande sobre os atletas? Isso pode afetar o desempenho no tatame? 

NB: Eu, como atleta, não me preocupo com as metas. Com a vivência que tenho com os outros atletas da seleção brasileira, vejo que fazem o mesmo. Fazemos nosso treinamento buscando sempre o melhor para estarmos em perfeitas condições no dia da competição. Acho que meta não é uma pressão não. Nós estamos acostumados a esse tipo de coisa. Somos até treinados para isso. Acho que nenhum atleta coloca isso como fator negativo. Eu até coloco como um fator motivacional, de poder ajudar o meu país. Então, acho que não interfere em nada.

EE: Ainda sobre o Mundial, houve alguma conversa com os treinadores da seleção, ou nada especial?

NB: Não. Eles nos deixaram bem tranquilos para cada um ir lá e fazer o que treinou, correr atrás do próprio sonho. Essa pressão por parte deles também não há em momento algum.

olho7_200_06EE: No judô atual, muitas lutas acabam sendo decididas nas punições. Em alguns casos, o resultado é contestado. Você acredita que nos Jogos Olímpicos em casa, a força da torcida brasileira pode influenciar algumas decisões da arbitragem nesse aspecto?

NB: Não. A Federação Internacional de Judô dá boas instruções aos árbitros. Tem competição no mundo inteiro. Então, cada lugar vai ser a casa de alguém. Não acredito que a torcida possa interferir diretamente em uma luta. A torcida ajuda mais na parte motivacional do próprio atleta. Lutar dentro de casa, com a torcida a favor, dá mais motivação ainda para que você consiga fazer o seu melhor.

EE: Se o Japão tem duas grandes judocas na categoria, o Brasil também tem. Ter uma campeã olímpica, como a Sarah Menezes, que acaba sendo sua concorrente na disputa por uma vaga para os Jogos do Rio, é um fator que contribui para a sua evolução?

olho8_200_03NB: Com certeza. Isso é muito importante para mim. Eu tenho uma disputa bem acirrada na minha categoria. Uma atleta campeã olímpica, que realizou o sonho de toda atleta, chegou ao nível máximo. A Sarah conquistou o que eu venho buscando, o que é o meu sonho. Isso me motiva mais ainda a trabalhar, porque sei que tenho uma concorrência fortíssima. Se eu deixar de fazer alguma coisa, não vou conseguir realizar o meu sonho de participar de uma Olimpíada. É uma disputa saudável. Tanto para mim, como para ela, que não pode se acomodar porque sabe que tem outra atleta querendo a mesma vaga. 

EE: Quais os fatores que proporcionaram a evolução do judô feminino brasileiro, que atualmente figura entre os melhores do mundo?

olho9_200_02NB: Além de muito trabalho, uma boa organização e uma boa gestão por parte da Confederação Brasileira de Judô, que começou a investir mais no feminino. Não éramos tão valorizadas como o masculino. Então, eles começaram a investir mais, em busca de resultados. E foi o que aconteceu. Com maior investimento, as atletas subiram de patamar. Também tem o fator de que no feminino as mulheres acabam se destacando um pouco mais cedo em relação aos homens. A idade não faz tanta diferença. Entre uma menina de 16 anos e uma de 22, por exemplo, já não tem tanta diferença física. Agora, para um homem, já é mais difícil. Desde jovens as meninas já estão chegando. Mas acredito que o Brasil cresceu muito no feminino pelo investimento que a Confederação fez e continua fazendo.

EE: Como é a estrutura que vocês têm?

olho10_200_02NB: A estrutura é boa. Não apenas na seleção, mas também nos nossos clubes. Ficamos bem confortáveis e com foco só no treinamento. Eles nos dão todo o suporte físico, técnico, nutricional e psicológico. O Brasil é um dos poucos países que consegue trabalhar com todas essas áreas dentro do judô. A maioria dos países não conta com uma estrutura tão grande assim. Estamos bem à frente em relação a alguns países nesse aspecto.  

EE: Você tem algum ídolo no judô? Alguém que sirva como inspiração?

NB: Meus ídolos são, principalmente, as pessoas que convivem comigo. E aqui no Minas Tênis Clube tem pessoas que realmente me inspiram. Sempre falo que gosto muito do Luciano Correa, que é um atleta muito dedicado, e também da Ketleyn Quadros.

 

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Nathália posa ao lado dos companheiros de clube e seleção: Luciano Correa e Alex Pombo

  

EE: Você lembra bem da conquista da Ketleyn em Pequim?

NB: Eu era mais nova, mas lembro de ter sentido a emoção, de ter acompanhado aquele momento.

EE: Qual o maior sonho da Nathália?

NB: A medalha olímpica, com certeza.

EE:Sobre doping no esporte, o que você tem a dizer?

NB: Como atleta, eu não consigo aceitar que alguém possa tomar alguma suplementação que seja ilícita só para melhorar o rendimento. O esporte, sem dúvida nenhuma, é saúde, e uma coisa que tem que ser feita com muito cuidado também. Acho muito errado o atleta que busca o doping. Em contrapartida, os exames feitos nas competições são extremamente importantes para não permitir que nenhum atleta faça as coisas da maneira errada.

EE: Para você, o esporte é essencial?

NB: Sem dúvida, o judô para mim é essencial. Amo o esporte. Faço isso por prazer. Além da busca pelo meu sonho, eu faço o que eu amo e me sinto muito realizada por isso.

 

Fotos: Divulgação


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