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Monica Lages do Amaral (Saltos Ornamentais)

26/03/2013
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monica-montagem_680Tricampeã brasileira juvenil apela pela manutenção do Parque Aquático Júlio Delamare

 

Por Katryn Dias

Desde que tinha apenas seis anos de idade, a pequena Monica Lages do Amaral já saltava na piscina do parque aquático Júlio Delamare, sonhando em um dia participar de uma Olimpíada. Treze anos depois, a atleta vê chances reais de disputar os Jogos em 2016, mas tem uma barreira em seu caminho. O local onde treina está ameaçado de ser demolido para dar lugar a um estacionamento e uma área de aquecimento no novo projeto do Maracanã.

Tricampeã brasileira juvenil, Monica apela para que as instalações do Júlio Delamare sejam mantidas e a preparação da equipe brasileira possa continuar até 2016, sem interrupções. Para ela, o parque aquático é um dos melhores centros de treinamento para saltos ornamentais do país. Perder esse local agora, tão perto dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, seria “injusto” com as dezenas de jovens que treinam há mais de uma década por uma chance como essa.

 

"É injusto demolir. Isso interromperia todo o trabalho que estamos fazendo desde 2000, visando a Olimpíada"

EE: Como foi o seu primeiro contato com o esporte?

MA: Comecei com seis anos, no Maracanã. Eu fazia natação na piscina ao lado e fui chamada pelo técnico de saltos ornamentais para conhecer a modalidade. Ele me viu de maiô e achou meu corpo legal (risos). Por isso, me chamou para fazer um teste e eu passei.

EE: Quando você decidiu que queria seguir uma carreira esportiva?

MA: Depois que entrei, eu comecei a me sair bem nas competições. Em 2005, viajei para os Estados Unidos, representando a seleção pela primeira vez. Foi depois dessa competição que eu comecei a me interessar e me dedicar mais ao esporte, por conta dos benefícios que estava tendo através dele. 

monica-amaral3-texto_450EE: Como foi essa sua primeira experiência internacional com a seleção brasileira?

MA: Foi muito boa. Depois dessa viagem para os Estados Unidos, eu viajei outras vezes para participar de competições. E isso foi muito importante para a minha evolução, porque o esporte lá fora é muito diferente daqui, muito organizado, estruturado. A técnica dos estrangeiros é mais aprimorada do que a nossa, então, é sempre bom para aprender. Em todas as competições, é possível ver muitas coisas novas e nós aproveitamos para filmar tudo.

EE: Sua família te apoiou desde o início?

MA: Ah, sim. Na verdade, foi o meu pai quem quis que eu começasse nos saltos ornamentais. Ele ficava assistindo da arquibancada e achava o esporte legal. Quando fui chamada, ele ficou todo animado. Hoje, o meu pai é o que mais me apoia.

EE: Como foi para você conciliar o esporte com os estudos desde muito pequena?

MA: É difícil, mas me acostumei um pouco. Desde pequena estou no esporte, então tive que aprender a me virar. Nós atletas ficamos nessa indecisão do que fazer. Se não der certo no esporte, nós não temos onde nos apoiar, porque a gente acaba deixando o estudo em segundo plano. Hoje, eu continuo estudando, agora na faculdade – faço engenharia civil – e é mais cobrança, é mais matéria e menos atenção. Na minha escola, todos sabiam que eu era atleta, então se tivesse algum problema, tivesse que faltar uma prova ou perdesse uma aula importante, já conhecia os coordenadores, os professores e também tinha mais amigos na turma para me ajudar. Agora, não, tenho que me virar sozinha.

monica-1o-campeonato-brasileiro-texto_561No alto do pódio, Monica comemora seu primeiro título brasileiro, em 2004

EE: O que mudou na sua vida da época em que você começou até agora, depois de conquistar medalhas e títulos importantes?

MA: Muita coisa mudou. A gente aprende muito dentro da seleção, além dos saltos em si, principalmente disciplina e concentração. Além disso, tive a oportunidade de fazer várias viagens. Eu nunca viajei para fora do Brasil a passeio, então, todos os lugares que conheço foram graças ao esporte.

 

Salve o Parque Aquático Júlio Delamare


EE: Recentemente, você foi a público pedir a manutenção do Parque Aquático Júlio Delamare, que será desapropriado por conta das obras do novo Maracanã. Qual a sua posição sobre a decisão do governo de demolir o parque, assim como Ginásio Célio de Barros?

MA: Eu fazia natação lá com quatro anos e depois entrei no salto com seis. Tudo o que eu aprendi foi no Júlio Delamare. E assim como a minha, existem muitas outras histórias lá dentro. Então, é muito ruim essa decisão de demolir o parque, até porque a piscina é uma das melhores do país. É injusto demolir, ainda mais com as Olimpíadas chegando.

EE: A proposta do governo é realocar os atletas de saltos ornamentais para o Parque Aquático Maria Lenk. Qual a principal diferença de estrutura entre o Júlio Delamare e o Maria Lenk?

monica-amaral-passeata-texto_577MA: No Júlio Delamare, nós temos o ginásio para treino com cama elástica, colchão e pista acrobática. Isso ajuda bastante a montar os saltos e, se estiver chovendo muito, nós temos a opção de treinar fora da piscina sem perder o rendimento. Já o Maria Lenk não tem o ginásio, só a piscina, então nós só poderíamos fazer o treino direto na água.

Na estrutura da piscina, o Júlio Delamare tem um diferencial que são os elevadores para os atletas de salto. Eu acho que o Maria Lenk não tem isso. Pelo menos, quando eu fui, nenhum elevador não foi disponibilizado.

EE: Para você, qual a importância de participar de manifestações pedindo a manutenção do estado? Você acredita que os cariocas vão conseguir modificar a decisão do governo estadual?

MA: Para mim é muito importante, porque é a única forma que meu esporte tem de mostrar que estamos aqui, existimos e queremos respeito pelo pouco que temos. Ainda precisamos de muita força, mas espero muito que consigamos. O que me deixa triste é que eu vejo pouco envolvimento de pessoas de fora no movimento, as pessoas lêem, acham um absurdo e é só isso! Uma pena...

EE: Qual seria o maior transtorno para vocês atletas em ter que mudar o local de treinamento?

MA: O prejuízo seria perder o ginásio e ainda ter que gastar mais tempo e mais dinheiro para chegar ao treino. Toda a equipe mora por perto do Maracanã, então, se deslocar até a Barra da Tijuca envolveria ter que pegar mais ônibus, o que seria mais caro. Lá também não tem onde almoçar, porque não tem nada no entorno do Maria Lenk atualmente.

EE: Hoje, vocês continuam treinando no Júlio Delamare? Existe alguma previsão de quando vocês teriam que sair?

MA: Nós continuamos treinando lá normalmente. Não recebemos nenhum aviso dizendo quando vamos ter que sair, mas pode ser que aconteça como aconteceu com o atletismo.  Os atletas estavam treinando no Célio de Barros e um dia chegaram lá e o portão estava fechado. Sem aviso.

EE: Para você, o que seria uma preparação perfeita para esse novo ciclo olímpico?

MA: Para chegar à Olimpíada, tudo tem que ser feito da maneira perfeita. Nós não podemos ter nenhuma interrupção nos treinos. Mas como estamos com essa dúvida, se vamos continuar no Júlio Delamare ou não, pode ser que isso aconteça. Caso a gente tenha que sair, ainda mais sem previsão, nós acabaríamos ficando um tempo sem treinar até que liberassem outro parque aquático. Isso interromperia todo o trabalho que estamos fazendo desde 2000, visando a Olimpíada. Quando nós entramos no esporte com o intuito de sermos profissionais e representar o Brasil, nós fazemos todo um planejamento desde crianças para estar na Olimpíada. E agora que vai acontecer no Rio, é a maior chance que nós temos. Mas para chegar bem na Olimpíada, nós temos que continuar o processo, sem interrupção nenhuma.

EE: Você já disse que espera fazer parte das Olimpíadas do Rio, em 2016. Qual a sua meta para a disputa?

MA: Eu quero participar do trampolim de três metros. A princípio, eu quero só participar, já que nenhum brasileiro competiu nessa prova em Olimpíadas ainda. Mas se eu puder passar para uma final, ou conquistar um resultado melhor, seria ainda mais positivo. 

 

Medalhas, campeonatos e sonhos

 

monica-amaral-2012-2-texto_482EE: Qual o seu maior sonho?

MA: O meu maior sonho hoje é estar dentro das Olimpíadas. Poder, pelo menos, participar de uma edição.

EE: Você foi campeã brasileira em 2010, 2011 e 2012. Como é a sensação de ser a número um do país? 

MA: É muito bom! Como a próxima Olimpíada vai ser aqui, o Brasil já ganha a vaga automaticamente. Com isso, a disputa deixa de ser entre os países e passa a ser interna. É o melhor do país que vai. Então, saber que eu sou a melhor do Brasil já é um indício de que eu tenho chances reais de estar na Olimpíada de 2016.

EE: E o que você vai fazer para se manter na primeira colocação até 2016?

MA: Do mesmo jeito que é mais fácil, por não termos que brigar com outros países pela vaga, também vai ser mais difícil porque todas as atletas do Brasil estão se prontificando para participar. Mas não tem muito mistério. O que tenho que fazer é treinar todos os dias, treinar ainda mais para me manter no primeiro lugar.

EE: Em 2008, você competiu no Mundial Junior. Como foi essa experiência? O que você levou de lição dessa competição que reúne os melhores do mundo?

MA: Foi muito legal e muito diferente do que eu estava acostumada. No Brasil, geralmente nós saltamos com cinco, seis pessoas por prova, porque não tem muita gente praticando. E no Mundial tinham cerca de 30 pessoas na prova, então, cada atleta tinha que esperar muito mais para saltar. Apesar disso, foi muito bom, porque eu aprendi muito vendo os atletas de outros países saltando. A nossa equipe fez mais de 100 vídeos de vários saltos. Todo mundo estava com câmera e com caderno, a gente anotava e filmava tudo que via de diferente para depois tentar reproduzir aqui.

EE: Você tem algum ídolo em quem você se espelha no esporte?

MA: Nos saltos, dentro do Brasil, nós temos a Juliana Veloso, que é o ícone feminino, e o Cesar Castro, que treina com a gente no Júlio Delamare. Como o Cesar está mais próximo de mim, eu acabo aprendendo mais com ele. Ele treina do nosso lado na piscina e tem um nível bem mais alto, então a equipe juvenil tem em quem se inspirar.

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EE: Para você, o esporte é essencial?

MA: Com certeza. Muitas vezes, nós atletas temos muitos problemas, pensamos em parar... Mas hoje não sei mais viver sem fazer os saltos, faz parte de mim. Se eu acordar e não for para a piscina, o dia fica estranho. Já virou parte de mim, da minha família, dos meus amigos. Todo mundo já se acostumou com o fato de eu ser atleta. Não tenho mais como me desvincular disso.

EE: Como atleta, como você encara a questão do doping no esporte hoje?

MA: Nos saltos, nós não tivemos nenhum caso ou escândalo envolvendo o doping. E eu, pelo menos, nunca passei por um exame antidoping. Mas nós recebemos sempre orientação dos técnicos e dos nossos pais. No ginásio, nós pregamos a lista com os produtos que não podemos tomar e sempre que alguém vai ao médico e recebe uma receita, já olha lá se tem algum problema tomar aquele medicamento. Enfim, nós levamos com a maior consciência possível.

Fotos: Arquivo pessoal da atleta


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