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Martine Grael (Vela)

12/04/2012
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Aprendizado, treinamento e DNA

Por João Rabello e Thyago Mathias


martine_grael_236_01"É difícil achar uma empresa interessada em patrocinar uma campanha olímpica, ainda mais de um esporte que não é tão popular. Além disso, trazer material importado para o Brasil é muito caro, pois pagamos 100% de imposto. Essa política não é muito animadora e é um empecilho para muitos colegas que se encontram em situações piores do que a nossa".

Martine Grael já brincava de velejar aos seis anos de idade. Aos dez, sonhava em conquistar uma medalha olímpica. Filha de Torben Grael, principal nome do iatismo e maior medalhista olímpico brasileiro, passou a encarar os exercícios despretensiosos com seriedade e começou a disputar na classe Optimist, para crianças e jovens até 15 anos. Três anos depois, tornou-se campeã brasileira da classe e bicampeã em 2006.

Os resultados são fruto do incentivo da família. “Cada vez mais, percebo como é importante incentivar as crianças a praticar esportes cedo”. Ela destaca, porém, que os estímulos dos pais devem vir sem exageros. “É muito cedo para receber uma carga de cobrança, treinamento e competição profissionais. Isso acaba por prejudicar a formação da criança. Tive exemplo de amigos que largaram a vela por cobrança dos pais”, conta. Na sua casa, garante: “é zero pressão e 100% incentivos e dicas”.

Atualmente, a atleta e sua parceira Isabel Swan já têm em vista os jogos Olímpicos de 2012, em Londres, e de 2016, no Rio de Janeiro. Como atleta, se prepara para disputar a medalha olímpica em casa. Como cidadã, se preocupa com os problemas da cidade e do Brasil. “Gostaria que tudo desse certo, pois será a hora de mostrar como o nosso país é bonito e próspero. Mas algumas mudanças são necessárias. A realidade poderia mudar se políticos investissem no planejamento das cidades e na educação”, avalia.

Memória Olímpica: A família Grael está ligada às melhores tradições do iatismo brasileiro. Seu pai, Torben Grael, é respeitado medalhista olímpico. Como a família influi no seu desempenho?

Martine Grael: Minha família sempre gostou de esportes e me incentivou a fazer exercícios físicos por saber do benefício que eles trazem para a saúde e para a vida pessoal e profissional.                

MO: Na sua avaliação qual a importância dos pais na decisão dos filhos que pretendem praticar esportes? O estímulo é determinante?

MG: Cada vez mais percebo como é importante incentivar as crianças a praticar esportes cedo. Mas tem que ser algo leve, amador, pois é muito cedo para receber uma carga de cobrança, treinamento e competição profissionais. Isso acaba por prejudicar a formação da criança. Tive exemplo de amigos que largaram a vela por excessiva cobrança dos pais.

MO: Quando você começou a velejar e quando começou a acompanhar  seus pais nas competições de iatismo?

MD: Eu e meu irmão acompanhávamos meus pais em campeonatos quando éramos bebês, mas começamos a velejar com minha mãe em passeios na Europa.

MO: Como foi a decisão  de sair do amadorismo e velejar  profissionalmente?

MG: Em 2009, começaram a surgir muitas sugestões para que eu velejasse com a Isabel Swan e vice versa. Até que um dia resolvemos sentar e conversar sobre uma parceria. E aconteceu. Sempre gostei de velejar e sonhava em participar de uma olimpíada. Quando a oportunidade de velejar com ela apareceu, aproveitei. Neste momento passei da vela amadora para a profissional.

MO: Com 15 anos você foi bicampeã brasileira (2004 e 2006) na classe Optimist. Também competiu nas classes 420, J-24 e 470. Como foi o gosto da primeira vitória?

MG: Não me lembro bem da minha primeira vitória. Eu não fui muito boa no Optimist. Assim como em qualquer esporte, ganha quem tem mais horas de prática. Treinava porque adorava sair para velejar, principalmente com os companheiros do clube. Mas percebi que quanto mais treinava melhor me saia nas competições. Nunca gostei de perder, sou muito competitiva.

MO: Há dois anos se dedica à classe 470, que faz parte do programa olímpico. A possibilidade de participar dos Jogos de Londres, em 2012, influenciou sua decisão?

MG: Eu já participei também das competições de Match Race, que entraram como classe olímpica para Londres, mas a classe 470 é muito gostosa e encontrei uma parceira ideal.  Começamos pensando no Rio, não em Londres. Mas, como obtivemos bons resultados no ano passado, nossas metas se tornaram mais ambiciosas.

MO: Como você conheceu sua atual parceira, a medalhista olímpica Isabel Swan?

MG: Eu e Bel somos de gerações diferentes. Ela é amiga dos meus pais, mas não tínhamos muito contato. Ela fez a campanha ganhadora do Bronze em Pequim quando morava em Porto Alegre e depois voltou para o Rio tentando velejar na classe Laser, a classe do Robert Scheidt. Mas ela percebeu que, para começar uma nova classe, teria um longo caminho pela frente. Eu, por outro lado, competi na classe 420, que é um barco escola para o 470, e tive alguns resultados. Depois que ganhei o mundial, fiquei um pouco preocupada, pois queria continuar a velejar e participar de uma olimpíada. Várias pessoas me sugeriram velejar com a Bel. Até que combinamos de almoçar e estabelecemos uma boa parceria.

MO: Vocês demoraram muito para conseguir o entrosamento que resultou em tantas vitórias?

MG: Nosso entrosamento se deu bem rápido mesmo. A Bel tem muita garra e atitude, características importantes para o trabalho em equipe.

MO: Como foi o convite para participar da coach regatta com um dos melhores técnicos da classe 470, o ucraniano Victor Kolavenko?

MG: O convite veio no começo do ano passado, quando eu estava na minha primeira competição internacional. Fiquei bem surpresa quando descobri quem ele era. De fato, foi muito produtivo. Pegamos uma semana de ventos muito fortes e aprendemos bastante. Além de tudo, convivemos com velejadores bem experientes.

MO: Como foi seu desempenho na temporada pré-olímpica começou oficialmente em janeiro, no Rolex Miami ORC, nos Estados Unidos?

MG: O desempenho foi bom, mas queríamos ficar entre as cinco primeiras posições.

MO: Como você avalia a terceira colocação que você e sua parceira conseguiram na  Pré-Olímpica de Vela - Semana Brasileira de Vela 2011 em Florianópolis (SC), em fevereiro?

MG: O resultado também não foi o melhor, mas deixou muitos aprendizados e comprovou nossa evolução em um ano. Foi uma disputa bem acirrada.

MO: Quais duplas você considera que poderão ameçar a participação de sua equipe para representar o Brasil  na classe 470?

MG: Nossa única, mas não menos importante, rival é a Fernanda Oliveira, ex-parceira da Isabel. A seleção para Londres será composta por dois campeonatos: o Mundial desse ano, em Perth (Austrália), e um campeonato classificatório no Brasil. Havendo empate, a decisão será no mundial de 2012.

MO: Você tem feito algum treinamento especial?

MG: Em geral, faço treinamento físico de manhã, composto por exercícios aeróbicos ou fortalecimento, alongamento e tratamento de lesões. Depois, velejamos por cerca de 3 horas, mas, quando os campeonatos se aproximam, as horas de treinamento na água vão aumentando.

MO: Como você consegue conciliar os treinamentos para as competições com o curso de Engenharia Ambiental na Universidade Federal Fluminense?

MG: É muito difícil e sofrido, mas tento fazer poucas matérias e, sempre que dá, estudo.

MO: Onde você pretende competir para ganhar experiência até os Jogos de Londres?

MG: Nas semanas de velas internacionais dos EUA, Espanha, França, Holanda e Inglaterra, o mundial e eventuais campeonatos nacionais.

MO: Você acha que a Baia de Guanabara estará em boas condições para 2016?

MG: Gostaria que tudo desse certo, pois essa será a hora de mostrar como o nosso país é bonito e próspero. Mas algumas mudanças são necessárias. A Baía de Guanabara está literalmente um lixo, mas essa realidade poderia mudar se as pessoas jogassem o lixo no lugar certo e se políticos investissem no planejamento das cidades e na educação.

MO: Quais são os seus ídolos no iatismo, sem considerar o seu pai?

MG: Meu tio Lars, exemplo de superação e de inteligência. Sir. Peter Blacke, por tudo o que ele foi e seu exemplo de caráter. E Robert Scheidt, por sua determinação e conquistas.

MO: O fato de ser filha de Torben Grael ajuda ou atrapalha?

MG: Acho que as pessoas têm expectativas, mas não chega a ser uma cobrança. As pessoas é que colocam pressões em si mesmas. Por parte dos pais é zero pressão e 100% incentivos e dicas.

MO: Quais são suas atividades preferidas fora dos treinos?

MG: Gosto de encontrar os amigos e adoro fazer atividades ao ar livre, como andar de bicicleta e fazer trilhas. Gosto de adrenalina.

MO: Como é a preparação de sua equipe?

MG: Atualmente, eu e Isabel nos incorporamos à Marinha do Brasil, que vem nos dando um bom apoio. Tem sido um aprendizado interessante. Fizemos treinamento militar e agora contamos com um apoio logístico e profissional. Em julho, acontecerá os Jogos Mundiais Militares e a equipe que foi para o Bahrein ano passado representará o Brasil aqui no Rio.

MO: O iatismo no Brasil ainda enfrenta muitas dificuldades?

MG: Temos ainda muita burocracia ao fazer projetos incentivados pelo governo e é difícil achar uma empresa interessada em patrocinar uma campanha olímpica, ainda mais de um esporte que não é tão popular. Além disso, trazer material importado para o Brasil é muito caro, pois pagamos 100% de imposto. Essa política não é muito animadora e é um empecilho para muitos colegas que se encontram em situações piores do que a nossa. Também, depois que termina a carreira, um atleta, por mais bem sucedido que seja, tem que se virar para achar uma fonte de rendimento, pois não existe nenhuma bonificação em longo prazo, como uma aposentadoria.

 

Nota da redação:

A classe 470 é uma classe olímpica disputada em provas femininas e masculinas. São dois tripulantes, um timoneiro e um proeiro. O barco tem casco de fibra de vidro, mede 4,70m de comprimento e 4,40m de largura. Possui três velas e mastro de 1,68m de altura. São muito rápidos e sensíveis ao movimento do corpo dos velejadores. A classe 470 foi o primeiro evento olímpico de vela para mulheres, introduzido nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988. Até então, a presença feminina era restrita às provas por equipes.


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