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Esporte que constrói o Brasil.

ENTREVISTAS

Marcus Vinícius Freire (Superintendente Executivo do COB)

01/10/2014
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De A à Z - A atuação do COB

 

Por Fabiana Bentes

Marcus Vinícius Freire foi um dos integrantes da famosa "Geração de Prata" do voleibol brasileiro, que alcançou a segunda colocação nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984.

Como dirigente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), chefiou delegações de Olimpíadas e Jogos Pan-Americanos. Em 2009, assumiu o cargo de superintendente executivo de esportes na instituição. Nesta entrevista, entre muitos assuntos, Marcus Vinícius conta os planos do COB para que o Brasil esteja entre os dez primeiros países medalhistas em 2016.

 

EE: O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) almeja que o Brasil fique entre os 10 primeiros colocados nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. O que o COB faz de diferente para superar a inovação dos outros países?

01_2_200_01MVF: Em 2009, quando ganhamos o direito de sediar os Jogos, nós dividimos os times. Uma parte foi para o Comitê Organizador fazer o evento, e outra, cuidar dos atletas, times e seleções. Eu fiquei liderando esse lado dos atletas. De lá para cá, nós evoluímos na forma administrativa e de processos, para desenhar uma meta e, depois, os passos para atingi-la. Temos um mapa estratégico com o objetivo de tornar e manter o Brasil uma potência olímpica. Para chegar lá, começamos capacitando pessoas (tanto nosso pessoal interno como externo), e elaboramos estes processos estratégicos e nos esportes. Sou formado em Economia, MBA em Marketing e em Seguros. Trabalhei em bancos e seguradoras por 16 anos, que são basicamente empresas de processos, então foi isso que eu trouxe para cá, gente que não era de esporte apenas. Nós profissionalizamos a instituição esportiva. Hoje o COB é uma empresa com o objetivo esportivo de estar entre os melhores. Processos internos são sociais, inovação, gestão de cliente e gestão operacional. Proporcionar satisfação aos clientes, que muitas vezes as pessoas acham que são só atletas e treinadores, mas nós temos aqui as entidades públicas, os patrocinadores e a sociedade, que quer jogo limpo, transparência e perspectiva futura. Mudamos a marca do Time Brasil e , agora, temos padrinhos para apoiar de fora do mercado, mudando um pouquinho o perfil. O objetivo é esse: tornar e manter o Brasil uma potência olímpica.

 

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A nova marca do Time Brasil é apresentada por seus padrinhos e madrinhas, que até os Jogos Olímpics, estarão em 16 representantes: Preta Gil, Roberta Sudbrack, Rodrigo Lombardi, Carol Sampaio e Otaviano Costa. Luciano Huck e Tony Garrido também estão confirmados como padrinhos. (Foto: Divulgação/COB)


EE: Mas qual o trabalho que vem sendo feito para aumentar o rendimento dos atletas?

MVF: Com relação às medalhas, a nossa meta é ficar no Top 10. Nos últimos Jogos, o Top 10 tinha 27, 28 medalhas e nós ganhamos 17. Para saltar de 17 para 28, tecnicamente, precisamos de mais atletas classificados, mais modalidades classificadas, mais finalistas. Também manter e crescer o número de medalhas onde nós já ganhamos, como no vôlei. Na última edição, nós ganhamos quatro, duas na quadra e duas na praia. Nossa meta são cinco ou seis. No judô, o máximo que ganhamos nos Jogos de 2012 foram quatro medalhas de 14. Agora, nossa meta é conseguir sete ou oito. Além disso, conquistar medalha onde nunca ganhamos, o que já aconteceu em Londres com o Zanetti na ginástica e a Yane Marques no pentatlo, por exemplo.

02_200_05EE: Qua a estratégia do COB para o Brasil chegar a este número de medalhas?

MVF: Para conquistar 27 ou 28 medalhas, precisamos de pelo menos 10 modalidades, então focamos o plano estratégico em modalidades que sabemos que há possibilidades, ou pelo passado ou pelo futuro. Para cada modalidade há um livro, detalhando onde estamos hoje, onde queremos chegar, quais são os planos traçados, quanto custa e como vamos pagar. Chegando lá no final, nós vimos que não havia dinheiro para pagar tudo, nem com lei, nem com patrocinador, nem com nada. Fomos atrás dos outros agentes. Apresentamos ao Ministério, que apresentou à presidente Dilma e foi criado o Plano Brasil Medalha e o Bolsa-Pódio. Isso tudo entorno de patrocinadores, ou com lei de incentivo ou com convênios para que esse grupo seja atendido. Outros agentes que fazem parte disso são as Forças Armadas, onde temos mais de 200 atletas entre Exército, Marinha e Aeronáutica. Essa foi uma parceria nossa em 2010 para os Jogos Mundiais Militares e agora vai se repetir ano que vem para a Coreia, também vai ser próximo dos Jogos Pan-Americanos. O Brasil saltou de 10 medalhas para 100 no Rio, quando os Jogos foram aqui. Isso complementa.

03_200_04Nós entendemos que a participação de alto rendimento do Brasil é liderada pelo COB – e eu assumo essa responsabilidade com o meu time –, mas é preciso os outros agentes que conseguimos trazer nos últimos cinco anos. As pessoas perguntam qual foi a maior vitória. Nesses cinco anos em que estou aqui, cheguei em janeiro de 2009, foi conseguir trazer os agentes para que o investimento fosse na mesma linha. 

EE: Poderia detalhar mais esta questão do livro?

MVF: Nós fizemos um livro das modalidades e para cada um conseguimos financiamento através do Plano Medalha e mais os outros agentes. Também montamos uma comissão de clubes, que tinham uma briga com o COB quando eu cheguei. A primeira tarefa que me deram foi conversar com os clubes. Nós montamos uma comissão no Ministério, onde eu sou conselheiro do Ministro. Nós conseguimos arrumar mais dinheiro através do Ministério direto para a Confederação Brasileira de Clubes. Para a comissão de atletas, que era escolhida pelo executivo, nós instituímos eleição. Só pode se candidatar ou votar quem foi nas duas últimas Olimpíadas. Esses atletas elegeram 17 representantes e um presidente, que é o Emanuel Rego, do vôlei de praia.

De vez em quando as pessoas me perguntam por que tem tanta gente do vôlei na administração do esporte. É porque a gestão do vôlei fez um modelo, que gerou filhotes nesses últimos anos.

Mas enfim, para cada livro desse nós traçamos uma meta, e temos metas intermediárias. Dividimos as modalidade em quatro grupos: vitais, aquelas que nós não vivemos sem (vela, vôlei, natação, atletismo, judô); potenciais, não tem um histórico olímpico, mas tem resultados em Mundiais Adulto, Sub-23, Sub-21 (canoagem, boxe, ginástica); contribuinte, onde o trabalho da Confederação é bom, mas só temos um grande nome (pentatlo moderno, tiro com arco, tênis de mesa); e o grupo que se chama legado, onde as modalidades não levam um centavo.

Foto: Míriam Jeske

marcusvinicius-miriamjeske_450_02EE: Como assim, não levam um centavo?

MVF: Nós temos o orçamento da Lei, que é dividido para todas as modalidades e todas as 29 Confederações. O dinheiro da Lei foi feito para fazer evoluir o esporte brasileiro, não foi feito para ganhar medalha. O Plano Medalha, para o qual nós arrumamos um orçamento extra,  foca em tornar o Brasil uma potência olímpica em 2016 e manter em 2020 e 2024. Ou seja, ser Top 10 no quadro geral de medalhas. Então, esse dinheiro extra está focado para as modalidades em que eu preciso ganhar medalha em 2016.

EE: Faltam dois anos para os Jogos Olímpicos. O que está atrasado e o que está no cronograma?

11_200_01MVF: Vou concentrar a minha resposta na minha área, que são os atletas. Está completamente dentro do prazo, nosso plano começou em 2009 e nós temos metas parciais. A meta de 2013 foi batida, ganhamos 27 medalhas em Campeonatos Mundiais ou Copas do Mundo, é o recorde brasileiro. Foi o melhor ano da história do esporte do Brasil com ótimas surpresas para o público em geral mas, para nós, que acompanhamos toda semana, não foram. Nos Jogos da Juventude de Nanquim a delegação foi ótima, conquistamos mais que o dobro de medalhas dos de Cingapura, quatro anos atrás, com destaque para Matheus Santanha, Flavinha Saraiva e Marcus Vinicius do tiro com arco. A dupla de vôlei de praia feminina foi uma novidade. Apesar de ser campeã mundial sub-17 e sub-19, a Duda tem só 16 anos. Adorei por ela ser do meu esporte, é espetacular. Então, para nós está tudo dentro do plano e o dinheiro está aqui.

12_200EE: Como assim?

MVF: As pessoas me perguntam muito: “agora que tem dinheiro, vai ter resultado?”. O dinheiro é importante para o resultado, mas o tempo também é fundamental. Os nossos concorrentes – estamos falando de Austrália, França, Grã-Bretanha, Ucrânia, Coreia, Itália, Espanha – fazem investimento há três ou quatro quadriênios. Mas para esse pré-Rio nós temos realmente recursos e um plano muito bem traçado. Se tivesse que dizer o que está faltando, eu diria tempo. Se nós tivéssemos mais dois ou quatro anos, seria uma maravilha. Então, eu espero que o financiamento do esporte olímpico brasileiro continue nesse ritmo para que em 2020 e 2024 nós possamos manter o Brasil na posição que eu espero que atinja em 2016.

 

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O plano de ação do COB explicado por Marcus Vinícius nesta entrevista


 

O futuro do esporte e do COB

 

EE: Dentro desse programa não tem nada relacionado ao esporte de base, que seria a geração de 2020 e 2024. Como vocês investem na base?

MVF: Para 2020 nós temos outro projeto. Do dinheiro da Lei, onde eu mais gasto é na Olimpíada Escolar ou Jogos Escolares da Juventude. Aqui são dois milhões de crianças entre 12 e 14 anos, alunos de escolas públicas e privadas, e dois eventos por ano. É um dos maiores eventos escolares do mundo hoje, com 2 milhões que passam por etapas municipais e estaduais e chegam na final nacional com 4 mil crianças.

EE: Qual o trabalho que o COB faz para a nova geração?

MVF: Nós contratamos agora a Sue Campbell, ex-diretora do UK Sport. Logo quando eu cheguei aqui nós contratamos o norte-americano Steve Roush, da TSE/Consulting, para entender como outros países do mundo se relacionavam com as suas confederações e montavam estratégias. Ele ajudou a montar essa estratégia do COB. Já a Campbell teve como responsabilidade no UK Sport preparar os dez anos antes dos Jogos Olímpicos e montar uma base de esporte. Aí nós temos que pensar na identificação de talentos, que acontece na Olimpíada Escolar, por exemplo; cuidar do alto rendimento; e no meio do caminho tem a confirmação e o desenvolvimento do talento.

EE: Você mudou a sua posição dentro do COB não é mesmo?

MVF: Eu era voluntário, fazia parte da assembleia desde 1999. Eu fui o chefe da missão do Pan-Americano de Winnipeg, e nas Olimpíadas de 2000, 2004 e 2008. Em 2008, eu apresentei as coisas, falei “já deu” para o voluntariado. O conselho se reuniu e me chamou depois que eu tinha saído. Eu expliquei que já tinha formado outras pessoas, trabalhava em banco e seguradora e tirava férias para ir às missões, onde o trabalho começava às 7h e terminava às 3h do dia seguinte. O conselho decidiu colocar um executivo e me escolheu. 

EE: É uma pena, de certa forma, porque quando o Nuzman sair, você não está apto a concorrer ao cargo em razão do regulamento do COB. 

MVF: Nunca foi a minha vontade e não tenho o perfil. Se hoje eu tivesse que ganhar os votos das Confederações, eu não ia levar quase nenhum.

EE: Pelo contrário, seu nome sempre foi muito bem visto...

MVF: Por pessoas de fora. Porque nós promovemos uma evolução profissional. Eu trouxe uma experiência de 16 anos de jogador profissional.

EE: Mas isso não seria bom?

MVF: Não, essa função é de um executivo, não precisa ser de presidente. A minha cabeça é bem diferente da maioria das pessoas que pensam esporte...

04_200_06EE: Quem poderia assumir o COB depois do Nuzman?

MVF: Quem estiver com a vontade de fazer. Eu acho que presidente hoje é uma função política, desde que a instituição tenha estrutura, que foi o que nós fizemos aqui. Hoje nós temos no COB dois executivos. Eu cuido de tudo que é esporte, marketing, relacionamento e patrocinador, e tem um administrativo-financeiro. Dois diretores que fazem todo o dia a dia e pensam 24h nos projetos. Embaixo de mim, eu tenho sete gerentes e 24 ex-atletas olímpicos trabalhando. Tem espaço para ex-atletas com experiência e formação. Então, na hora em que nós montamos um formato profissional e para baixo uma estrutura, o presidente vai ser alguém que tem perfil político. E eu não tenho esse perfil, nunca fui nem síndico do meu prédio, porque eu sou brigão, sou direto, sou matemático (pela formação em engenharia e economia). Eu diria que a maioria dos presidentes de confederações me odeiam (risos). E são eles os votantes. Para resumir, eu não seria eleito, não quero e nesse momento nem posso, porque não faço mais parte da assembleia. Eu pedi demissão da assembleia para assumir a função executiva.

 

Projetos esportivos

 

EE: Como são elaborados os projetos do COB ou de parceiros?

MVF: Qualquer projeto que entra do COB, para usar recursos, ele precisa corresponder a um objetivo. As Olimpíadas Escolares, por exemplo, se enquadram em “fomentar o esporte olímpico no ambiente escolar”. Nós criamos um instituto em 2009, o Instituto Olímpico Brasileiro (IOB), que tem três pilares. A primeira é o apoio ao atleta na transição de carreira, com coaching e bolsas em curso de inglês e faculdade. A segunda é a Academia Brasileira de Treinadores, onde todos os professores são doutores ou pós-doutores. E o terceiro são os gestores, em que eu tenho um MBA, um curso de 13 meses com quatro semanas presenciais dentro do COB para formar gestores. Hoje nós estamos construindo instalações e não adianta ter atleta e estrutura se não tiver gestor.

EE: Como o COB seleciona os atletas para o laboratório de treino de alto rendimento? Num país como o Brasil, você não acha que nós deveríamos ter uma diversidade de laboratório por todos os lados?

05_200_06MVF: Acho que devia, acho que isso é o futuro, mas não podemos fazer tudo ao mesmo tempo, temos que começar com um. Nosso projeto, desde 2009, era montar um primeiro centro de treinamento e um protocolo. Hoje nós temos uma área que chama “Performance esportiva”, são 12 ciências. Nessa área de ciências nós temos um laboratório olímpico envolvendo bioquímica, fisiologia do movimento, psicologia, recuperação, terapia do sono... Não adianta querer fazer como os políticos fazem, dizer que vou fazer 14 laboratórios, quando não tenho gestores, dinheiro e ciência para esse número. Para a parte de ciência, eu fui buscar uma parceria com o Ministério de Ciência e Tecnologia, que nunca tinha feito nada de prática esportiva e eles que financiaram R$6 milhões, todos os equipamentos desse laboratório. Esse financiamento foi feito através do FINEP, então esse dinheiro não vem para o COB, nós só fazemos a escolha dos usuários dos equipamentos e o dinheiro foi para a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Essa parceria vai ser modelo. Eu acho que o Ministério do Esporte está construindo alguns centros de treinamento em alguns locais que vão replicar depois esse modelo, como em Fortaleza. 

EE: Quanto tempo tem esse projeto?

MVF: Nós começamos em 2009.

EE: Nós perdemos muito tempo, não é? Poderíamos ter feito isso antes.

MVF: É, mas eu não posso falar porque não estava aqui. Eu trouxe essa ideia. E hoje nós temos um chefe médico, um chefe de fisioterapia, um profissional de bioquímica, outro de fisiologia...

EE: E como os atletas são escolhidos para participar desse projeto?

MVF: Boa pergunta. Toda segunda-feira minha área técnica faz uma lista dos melhores brasileiros ranqueados. Na última segunda-feira foram 196 nomes, entre esportes individuais e coletivos. Nós analisamos se eles competiram no final de semana e qual foram os resultados. Nosso papel hoje é descobrir quem são os brasileiros no Top 50 e como eles podem virar Top 20; quem são os Top 20 e como fazer para que sejam Top 10, etc. Todo o meu time pensa nisso todo dia. E junto com as Confederações, nós analisamos o que esses caras precisam para subir no ranking. Nós temos uma cesta de produtos para essa minha lista e eu vejo o que complementa. Muitas vezes não é meu, eu vou lá no Ministério. Hoje a Bolsa-Pódio, que saiu desse plano que a gente desenhou, e o Plano Medalha, nós temos três pessoas no colegiado da escolha. A primeira é a Adriana Behar, medalhista olímpica; o Peri [José Roberto Perillier], que foi meu sub-chefe em todas as missões; e o Jorge Bichara, que é o gerente geral do programa de performance esportiva. Muitas vezes o dinheiro pode não estar aqui e eles correm atrás. Um exemplo é o Robert Scheidt, que nós compramos um barco novo, mas ele ainda precisava de um fisioterapeuta na Itália, porque ele mora lá. Aí vamos atrás de outros 06_200_05agentes, complementando as funções.

Já no futuro, pensando em manter, temos outro projeto, para o qual a Sue Campbel foi contratada. Quem encabeça esse projeto aqui dentro é o Sebastian Pereira, campeão mundial de judô e duas vezes medalhista olímpico. A base é a turma que foi aos Jogos da Juventude em Nanquim agora, e a turma que tinha ido a Cingapura, em 2010. Nós estamos tentando desenhar para quem não for para 2016, levar para 2020 ou 2024. Aí é outro protocolo e uma cesta diferente. Eu não dou para o Cielo o que eu dou para um atleta mais jovem. Aí é uma parceria com cada Confederação. O que acontece hoje é que tem um buraco gigante entre o COB e as 29 Confederações. E aí nós temos algumas tentativas de diminuir isso. Um das formas de fazer isso é fomentar a maturidade profissional.. 

 

As Confederações e os megaeventos

 

EE: Muitas Confederações estão comprometidas financeiramente. Qual é a responsabilidade do COB nessa situação das Confederações e o que fazer para reverter esse quadro? Porque isso "afunda", de certa forma, o esporte de base.

MVF: Mas melhorou muito... É mais do que responsabilidade. Na verdade, o COB entende que eles são um agente importante. Não adianta o COB ficar tentando fomentar 42 modalidades que não vai conseguir, as Confederações é que 07_200_07têm que fazer esse trabalho. Nós podemos dar as ferramentas e é isso que estamos tentando.

EE: Quais seriam essas ferramentas?

MVF: Formação de RH, dinheiro, instalação... Eu ter um centro de treinamento e a Confederação poder usar é fundamental, é o legado. Para cada uma das instalações que estão sendo construídas para 2016 nós temos uma proposta de uso futuro.

EE: A propaganda dos Jogos Olímpicos baseou-se muito no legado do Pan-Americano. Hoje, as instalações do Pan não são uma representação máxima de legado. O Parque Aquático do Maria Lenk, por exemplo, não é utilizado para a comunidade diariamente.

MVF: Não, que isso!

08_200_03EE: Mas não tem escolinha nenhuma ali...

MVF: Não tem porque não foi construído para escolinha. A profundidade da piscina não pode para uma escolinha. O Maria Lenk hoje tem 14 modalidades treinando lá dentro. Ele não pode ser usado pela comunidade porque não foi construído para ser social. Essa é a diferença para as instalações olímpicas. Quem construiu pensou apenas nos 17 dias. Foi uma discussão minha com Maria Silvia [Bastos] e agora com Joaquim Monteiro de Carvalho [presidentes da Empresa Olímpica Municipal]. O problema deles é entregar 17 dias, mas o do COB é treinar antes e usar depois. Então, já que vai fazer piscina, o ideal é fazer com um fundo que possa ser diminuído para ter escolinha. O que eu não posso é colocar crianças em uma piscina com 3m de profundidade.

EE: Então houve um erro?

MVF: Não, são estratégias diferentes...

EE: Então me explica um pouco sobre  o legado do Pan... 

09_200_01MVF: O Pan foi muito importante para nós ganharmos a Olimpíada. Se era meia verdade ou não, mas foi. O Maria Lenk, o Velódromo, que já mudou de lugar, a formação de recursos humanos... O evento, do jeito que foi montado naquele ano, foi o melhor Pan. E olha que eu participo de Pan-Americanos desde 1983... Foram os melhores dias da cidade. O trânsito foi legal, o astral foi maravilhoso... Então, foi realmente com esse objetivo. 

Nós estamos fazendo o nosso papel. Nós registramos todo esse plano de uso para as instalações. Não sei quem vai administrar, mas nós temos a proposta de uso esportivo. Pode ser a Prefeitura, o Estado, o Governo Federal... Mas nós que conhecemos esporte, o COB e as Confederações, juntamos um time de 50 pessoas e a nossa patrocinadora Ernst & Young e montamos esse pacote. Então, já é diferente de lá de trás. A ideia é usar esse plano agora, enquanto as instalações estão sendo construídas. Não adianta depois que fez o piso de cimento querer fazer o fosso para a ginástica. Vai quebrar tudo de novo? Por isso tudo, eu espero que seja bem melhor do que o Pan.

EE: Em relação ao ciclo olímpico, existe uma reclamação dos atletas de que a Copa do Mundo interrompeu o investimento. Em vez de ter quatro anos e a utilização da imagem de atletas olímpicos, só vamos ter dois. Visto isso, você aconselharia outro país a fazer a sediar dois megaeventos em um curto espaço de tempo?

MVF: Eu não vejo nenhum problema, vejo o lado positivo. Nós tivemos algumas experiências boas de fazer o evento aqui. Dificilmente as pessoas gastam quatro anos de investimento, e eu já sentei na cadeira de marketing de duas multinacionais, sei o que estou falando. Até porque desgasta se forem quatro anos de exposição. Eu sou o link aqui com os nossos patrocinadores e falo todos os dias com esses caras, então sei que não é tão simples assim. Não vejo problema em ter dois eventos. Vejo na cabeça do Governo Federal, por exemplo, que tem uma equipe muito menor que a minha e o cara que está fazendo a Copa do Mundo é o mesmo que deveria pensar em Olimpíada. Naqueles dois anos ele não consegue pensar. Esse sim é um problema.

Agora para o atleta, eu acho que não. Não senti essa dificuldade. Claro que nós tivemos uma divisão de mercados. O Itaú fez a Copa do Mundo, enquanto o Bradesco está na Olimpíada. Na Copa era a Hyundai e agora é a Nissan. Teve quase uma divisão de patrocinadores. No Governo, principalmente o Federal, a equipe é pequena e realmente estão focadas.

 

O acidente de Laís de Souza

 

EE: Como ex-atleta de remo, eu sei como é difícil conseguir uma classificação e quanto treino é preciso para isso. A Laís de Souza era da ginástica artística e a maior velocidade que já tinha atingido era a que os próprios pés possibilitavam. E aí, em pouco mais de seis meses, quiseram transformá-la em uma atleta olímpica de esqui acrobático. Não foi um pouco de irresponsabilidade a colocarem nessa Olimpíada de Inverno,  podendo prepará-la para 2018?

MVF: Primeiro, essa decisão não tem nada a ver com o COB, isso é estratégia da Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN). Foi o Stefano Arnhold, presidente, quem desenhou. Eu só tenho a ver com ela porque é minha chefiada desde 1999. Então, eu tenho uma ligação grande com a Laís, mas esportivamente. Estive com ela há poucas semanas, inclusive...08_200_05

O esqui aéreo é uma prova nova no programa de inverno. Não tem atleta que nasceu fazendo isso, todos vêm transferidos de outros esportes, normalmente ginástica artística e de trampolim e saltos ornamentais. No mundo inteiro é assim. O técnico me disse que tanto a Laís quanto a Josi Santos tinham a perfeita noção de onde está o chão no momento em que saltam. Eu e você não temos.

EE: Mas o acidente dela não aconteceu no salto, aconteceu na velocidade, aí é que está o problema...porque mostrou que ela ainda precisava de treino para controlar o esqui.

MVF: O risco grande é o salto. No mundo inteiro, as experiências mostram que todos fazem assim. Aí eu fui pesquisar, porque eu sou chato. Antes de a criança escolher o esporte, a China tem uma escola de 3D. Antes de entrar nos saltos ornamentais, ginástica artística, trampolim e as modalidades acrobáticas de inverno, eles entram na escola de 3D. Essas pessoas tem uma habilidade especial. A Holanda transferiu atletas nos últimos três ou quatro anos...

 EE: Mas já são países de inverno, não é? As pessoas já esquiam...

MVF: Mas você viu o esqui da prova dela? Ela desce uma rampa e freia por um 5m. O problema foi que ela saiu da pista e deu de cara com a árvore. Foi completamente casual. A Josi e o treinador vinham atrás... Claro que depois que aconteceu, eu fiz a mesma pergunta para o Stefano e para o meu time: por que foram botar essa menina lá? Mas depois que aconteceu é fácil falar. Então eu fui olhar e realmente o mundo faz.

 

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Marcus Vinícius em visita recente à Laís Souza, quando ela foi presenteada por Gilmar Rinaldi com uma camisa autografada pela seleção brasileira de futebol (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

 

EE: Você vê então esse acidente como fatalidade?

MVF: Sim, uma fatalidade total. Graças a Deus ela também vê desta forma. Principalmente onde estava esquiando, numa pista sem saltos. Eu estive com dois treinadores (porque tem um treinador para salto e outro para freio) dela e ambos me disseram que ela evoluiu muito e que a habilidade dela era impressionante. Então, eu vejo como fatalidade que não gostaria de repetir. Mas vou te contar que hoje o trabalho já está sendo feito com mais oito ginastas.

EE: A responsabilidade, em geral, é de quem está no topo, então...

MVF: Depende. Nesse caso, eu assumi uma responsabilidade que não era minha. Porque ela não estava classificada para Sochi, estava treinando com a CBDN, tentando fazer pontos em campeonatos para conseguir a classificação. Ela tinha alcançado o índice mínimo, mas não estava classificada... Faltava pouco tempo para Sochi e nós descobrimos que a Bielorússia tinha quatro atletas classificadas, mas uma tinha operado o joelho. Enquanto a Laís treinava lá em Salt Lake City, eu estava aqui fazendo uma carta para o cara da Bielorússia falando que se ele abrisse mão da quarta vaga, a nossa atleta conseguiria se classificar. No dia seguinte, cinco horas da manhã fui acordado com a notícia do acidente. Quando cheguei aqui ao COB para discutir o que íamos fazer na emergência, recebo o fax do cara dizendo que não ia inscrever a sua atleta no dia seguinte, abrindo mão da vaga. Mas no momento do acidente ela não estava conosco, não estava na delegação. A inscrição, inclusive, foi no dia seguinte ao acidente dela.

EE: Ela está melhor agora?

MVF: Foi uma vitória gigante! Ela é a primeira pessoa no mundo a fazer o tratamento com células-tronco. Nesses sete meses, já fiz carta para tanta gente... Eu tenho um cadeirante na família, então sei como é a dificuldade. O Dr. Antonio Marttos que tratou a Laís é um médico do Time Brasil baseado em Miami, um dos maiores gênios que o Brasil não descobriu. Ele trabalha para o exército norte-americano fazendo operação no Afeganistão e no Iraque à distância, com auxílio da robótica e da telemedicina. Dr. Marttos está com o COB, nós montamos um projeto em Miami. Lembra quando a Jaqueline quebrou a cervical no Pan de 2011? Ele estava comigo lá e todo o diagnóstico e a cirurgia dela foram feitos por especialistas em São Paulo.

 

Iniciativas em prol do esporte

 

EE: A ONG Atletas pelo Brasil fez, junto ao LIDE Esportes – do grupo João Dória, um pacto de transparência entre as empresas que patrocinam o esporte, pedindo uma série de mudanças na gestão. Como o COB vê essa iniciativa e como responde a ela?

MVF: Nesse assunto, COB e Marcus Vinicius são duas visões diferentes. Eu tenho uma relação há muito tempo com a Ana Moser. É delicado para mim responder isso porque eu acho que falta do lado deles um pouquinho de comunicação. Está aberto, até agora não marcaram uma reunião. Gustavo Borges e Neco Aerts, que são meus amigos há muito tempo, fazem parte agora da ONG e me convidaram para uma conversa. Mas essa é uma questão delicada. Teremos uma reunião com eles no próximo mês, encabeçada por Lars Grael, Gustavo Borges e Neco Aerts, para que possa haver uma convergência. Acho que falta do lado de lá um pouquinho de vivência na gestão. Quando se faz uma lei, tem que se pensar nas consequências. Acho que para o futuro algumas coisas são muito boas.

EE: Você diz relacionado à reeleição?

MVF: À reeleição, ao pagamento... Essa discussão de reeleição eu já tive com eles, faço parte do LIDE. Mas não é tão simples. É muito fácil ser oposição, difícil é sentar na cadeira e resolver. Isso em qualquer situação, seja em esporte, política, empresa. Eu tenho a vantagem de ter experiência em vários mercados e sei que funciona assim.

13_200EE: Sempre é necessário buscar uma melhoria. Em que o COB falha hoje e precisa melhorar?

MV: Sempre tem muita coisa para melhorar. Eu aposto muito em pessoas, então estou sempre preocupado em qualificar gente. Trazer mais gente boa para dentro da sua equipe é essencial. Acho que podemos continuar abrindo mais a conversa com os outros agentes. O COB tem que ser o líder dessa operação sim, mas sozinho não vai a lugar nenhum, vai continuar na média de 17 medalhas. Podemos sempre melhorar nessa área para que o diálogo seja melhor com os agentes.

EE: Algum ponto específico?

MVF: Falta conseguir trazer as Confederações para essa cabeça totalmente profissional que temos aqui dentro. Eu gostaria que fossem 30 empresas: 29 Confederações e o COB. Que esse perfil que nós desenhamos fosse replicado. Já estamos conseguindo, temos exemplos ótimos, como a Confederação Brasileira de Judô (CBJ), a Confederação Brasileira de Rugby (CBRu) e a Confederação Brasileira de Golfe (CBG), que são profissionais, onde o presidente é um cargo político e tem lá um executivo e uma equipe. O rugby é novo, é um esporte que nem era olímpico e hoje tem 18 patrocinadores, contrato com televisão e até ídolos. Aos pouquinhos eles vão arrumar seus resultados, o feminino já até ganhou o sul-americano, tem técnico estrangeiro lá dentro... Então eu acho que isso falta, a gente conseguir dar um gancho para que as 29 venham para aumentar a percepção de valor das Confederações no Brasil.

Foto: Míriam Jeske

marcusvinicius-miriamjeske-2_462EE: Poderia comentar sobre o caso da suposta corrupção na CBV?

MVF: Não foi corrupção. O que eles fizeram foi juridicamente possível, está no contrato, não foi ilegal. Mas na minha cabeça, foi um pouco imoral. Eles não conseguiram explicar ainda o que aconteceu. Teve uma repercussão ruim para o nosso esporte, que tem um histórico legal de administração, planejamento e resultado. É um modelo que ficou agora uma manchinha. Acho que ainda tem coisas para serem explicadas, um complemento da explicação para que isso seja justificável. 

EE: O que o COB faz para inibir a ação do doping no esporte brasileiro?

MVF: Essa é uma pergunta para a qual tenho duas respostas. Fui da Comissão de Atletas da Agência Mundial Anti-Doping (WADA, na sigla em inglês) na época da sua criação, no Canadá. Fiquei dois mandatos, sou muito ligado nesse assunto, mas quando cheguei como executivo entendi que a responsabilidade de controle estava no COB. Então, nós não podemos fazer papel de polícia e ladrão. Se eu sou protetor dos atletas, eu não posso ser o acusador.

EE: Poderia explicar de forma mais detalhada?

MVF:  Copenhagen referendou que o Brasil precisava ter uma agência, que acabou sendo a Agência Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), ligada ao Ministério do Esporte. Por ser uma agência, tem que ser independente. Não pode ficar aqui dentro. Se der positivo eu vou tirar o atleta do meu time. Então, não combinava. Acho que esse não é o papel do Comitê. O papel do Comitê é educacional e aí nós temos toda a responsabilidade de campanha, de informação para delegação no site. Temos um filminho para passar para a delegação, fazemos a comunicação com a cara dos atletas. Não adianta eu, com a cara de cinquentão, querer me comunicar com os maios novos dançando bolero. Tem que ser um rap, um desenho animado, um aplicativo. Então, nós temos feito o que é o nosso papel. O papel hoje de gerente e controlador é da ABCD, que está cuidando da finalização do Laboratório Anti-Doping aqui na UFRJ. Então, nós dividimos as funções.

14_200EE: O esporte é essencial?

MV: É essencial sim. A minha vida foi isso. Eu tenho 51 anos e vivo do esporte desde os 11. Eu joguei basquete, depois quando fui para o vôlei não saí nunca mais. Joguei no Brasil e na Europa, morei fora. Quando voltei em 1990, fiquei um tempinho afastado, atuando na área de economia. Mas em 1995 eu assumi como comentarista no SporTV e na TV Globo. Em 1999, à convite do Nuzman, fui o chefe da missão e de lá para cá eu estou com esporte no sangue total. Agora não tenho mais responsabilidade só sobre o meu vôlei, mas sobre 42 modalidades. A maior delegação da história do Brasil vai estar aqui em 2016, serão 500 atletas. Eu só penso nisso, 24h por dia. Tenho uma grande equipe que me acompanha e todos eles têm a certeza de que o esporte é essencial.

 

 

 

 

Livros Escritos por

Marcus Vinícius Freire

     
 

livro-marcus11_200Ouro Olímpico, A História do Marketing dos Aros
Selo COB Cultural
Editora Casa da Palavra 
Lançamento: 2007 
Número de páginas: 336

 

livro-marcus-22_200Resolva!
Editora Gente
Lançamento: 15/10/2014 às 19h, Livraria da Travessa no Shopping Leblon
Número de páginas: 160

 

 

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