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Marcos Goto (Técnico de Ginástica Artistica)

30/07/2013
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arthur-marcos-div_625O técnico por trás do melhor ginasta do Brasil


Por Katryn Dias

“O Marcos foi um dos responsáveis, por me tornar essa pessoa de caráter que eu sou hoje, e além disso, um grande profissional”, é assim que o campeão olímpico Arthur Zanetti se refere ao treinador Marcos Goto, com quem treina desde os sete anos. A parceria de sucesso entre treinador e atleta já conquistou diversos títulos internacionais e está ajudando a divulgar a ginástica brasileira para o mundo.

"A medalha do Arthur consagrou a evolução da ginástica brasileira."

Mas apesar das medalhas, Marcos Goto ainda não está satisfeito. Ele quer uma estrutura decente para todos os ginastas do país, que hoje treinam em ginásios precários. Ele quer mais reconhecimento e valorização para os técnicos, que às vezes trabalham sem receber. Ele quer um apoio sério para continuar levando a bandeira brasileira ao topo do pódio.

EE: No ano passado, você foi eleito o técnico (individual) do ano no Prêmio Brasil Olímpico. Como foi a sensação de ter seu trabalho reconhecido?

Marcos Goto: Acho que esse é o objetivo de todo treinador: fazer o melhor possível. Por que um treinador praticamente vive para os atletas. Um prêmio desse tipo é bem gratificante. O problema é depois, se você vai continuar sendo reconhecido ou não.

EE: Qual a importância para a ginástica artística brasileira do ouro inédito conquistado pelo Arthur Zanetti nos Jogos Olímpicos de Londres?

marcos-goto-cbg-texto_485MG: A medalha do Arthur consagrou a evolução da ginástica brasileira. A ginástica como um todo evoluiu bastante e a medalha do Arthur só veio para provar que nós estamos no caminho certo. Hoje nós temos vários outros atletas medalhistas em Copas do Mundo, já pegamos finais em Copas do Mundo, não só com o Arthur e o Diego [Hypólito], e tivemos atletas entre os 10 melhores na Olimpíada... Então, o ouro só mostrou que nós estamos chegando entre os melhores do mundo na modalidade.

EE: Qual foi o seu papel na conquista dessa medalha? Como surgiu a ideia da estratégia para levar o Arthur para a final em último lugar?

MG: Dentro da Olimpíada, existe um sorteio para definir as finais. Por esse sorteio, se o Arthur terminasse a semifinal em primeiro, ele seria o primeiro a competir na final, e nós não queríamos isso. Eu não queria, porque o primeiro serve muito de parâmetro para os outros. Por isso, nós abaixamos a nota dele para tentar ser o segundo ou o terceiro. E acabou calhando que ele foi o quarto colocado, que seria o último a competir. Deu tudo certo. Em nenhum momento pensei que ele ficaria de fora da final, eu tenho certeza do que eu faço.

 

Estrutura precária para a ginástica artística


EE: Depois da medalha de ouro nas Olimpíadas, aumentou o reconhecido da ginástica artística no Brasil? 

MG: Aumentou um pouco a dor de cabeça. Algumas coisas melhoraram, mas outras não. Hoje nós estamos com os salários atrasados. Como nós podemos trabalhar sem receber? Além disso, o país ainda não fornece o local adequado para nós trabalharmos. Eu esperava que o governo fosse nos dar um ginásio com melhores condições para nós treinarmos, mas isso não aconteceu. Algumas coisas não melhoraram nada. Não vou dizer que nada mudou, mas foram poucas mudanças para o resultado que nós conquistamos.

EE: Há quanto tempo você não recebe?

"Num país que te dá pouca condição de trabalho, é muito difícil identificar um talento esportivo. Talento no Brasil é aquele que aguenta treinar e chega ao alto rendimento."

MG: Nós temos um contrato com o clube [o SERC São Caetano] de dez parcelas no ano. Esse ano, nós só recebemos três até agora, no mês sete.

EE: O que é preciso fazer de mais emergencial para que os ginastas brasileiros tenham a estrutura adequada para treinar em alto rendimento?

MG: Nós precisamos de uma estrutura física melhor. No último final de semana, nós competimos [nos 57º Jogos Regionais de Barueri] em um ginásio que a temperatura interna estava nove graus. Isso não é possível. Como um atleta pode dar seu melhor dentro de uma área de competição que está nove graus, num ginásio que nem área de aquecimento tinha?

Hoje, nós também estamos treinando dentro de um ginásio que não tem calefação, então os atletas precisam treinar nesse frio que está fazendo. Dá para perceber que não é a melhor condição possível de trabalho. Se o dia está muito calor, o ginásio fica muito quente. Se está frio, fica muito frio. Por isso, é impossível trabalhar o ano todo dando o máximo.

O Brasil não pode reclamar do resultado que tem atualmente na ginástica, porque essa é a condição precária que o país dá para os atletas treinarem. E nós já conseguimos muitos resultados para as condições de trabalho que temos.

EE: Você diria que os técnicos são reconhecidos e valorizados no país?

MG: Se hoje sou reconhecido é porque eu mostrei resultados. Os outros treinadores, como eu já fui um dia, são só mais um. Nós precisamos de um reconhecimento maior de todo mundo, porque assim os resultados podem vir mais rapidamente.

EE: O Brasil tem bons técnicos qualificados na modalidade?

MG: Para mim, o Brasil tem hoje o melhor grupo de treinadores do mundo. Com a condição que temos no país, nós fazemos muito. O resultado vem porque nós somos bons mesmo. Os treinadores daqui se dedicam muito ao trabalho. Se não fossem os treinadores e os clubes, a ginástica não teria chegado ao resultado que chegou, ao nível que tem hoje. Isso tudo se deu graças aos treinadores. Eles podem ser pouco reconhecidos, mas são muito dedicados.


marcos-goto-seleao-texto_650Marcos Goto posa ao lado dos ginastas da seleção brasileira

EE: Logo depois de Londres, você deu uma entrevista reclamando que seu contrato com a seleção brasileira não tinha sido renovado. Como está a situação hoje?

MG: Hoje eu já estou na seleção (risos). De vez em quando, eu tenho que falar algumas coisas para ver mudanças. No Brasil é muito difícil, é preciso cobrar muito. E cobrar coisas que são óbvias. Por exemplo, eu acho que não preciso ficar cobrando salário atrasado. Se eu trabalho, tenho que receber. Mesmo eu, sendo treinador do melhor atleta do país, preciso ficar brigando para receber meu salário. Aqui as coisas só acontecem quando alguém cobra.

EE: Nessa época, Arthur Zanetti afirmou que não treinaria com outro profissional que não fosse você. Como você explica essa cumplicidade tão grande?

MG: É a convivência. Nós trabalhamos juntos desde o início da formação dele. Ele confia plenamente no meu trabalho e eu confio nele também. Depois dos resultados que nós tivemos até hoje, os dois lados viram que a parceria dá certo. O que eu falo para ele é como se fosse lei, eu digo o que pode e não pode. Eu fico muito contente em ter um atleta que segue sem questionar o que eu oriento. Isso me dá uma segurança maior também.

 

O futuro da ginástica brasileira

 

EE: O Brasil tem novos talentos para seguir o caminho de Zanetti? Que nomes você apontaria para o futuro da modalidade, nos Jogos de 2016 e 2020?

marcos-e-arthur-foto-contrape2-texto_434MG: Hoje nós temos muitos ginastas com potencial para chegar a 2016. A preocupação nossa é quem vai chegar inteiro, depois do ciclo olímpico. Não só os atletas, mas os clubes, os treinadores e os próprios profissionais da seleção brasileira, precisam tomar cuidado com as lesões. Mas nós temos um grupo de pelo menos 15 atletas em perfeitas condições de chegar a 2016 como uma equipe muito forte.

EE: Como é possível identificar talentos esportivos ainda na infância? Quanto tempo é preciso para formar um atleta de nível competitivo internacional?

MG: É uma boa pergunta! Eu não enxergo não, nós vamos trabalhando e as coisas vão acontecendo. Num país que te dá pouca condição de trabalho, é muito difícil identificar um talento esportivo. Talento no Brasil é aquele que aguenta treinar e chega ao alto rendimento. Um atleta que chega ao nível internacional, mesmo com a pouca estrutura que nós temos no país, aí ele é um talento com certeza.

É difícil identificar quando é criança, porque tem vários fatores que influenciam. Para chegar ao alto rendimento, não precisa só ser bom de ginástica ou ser coordenado, existem outros fatores fora do esporte. Por exemplo, a família, a força de vontade do atleta, a sua coragem. Isso sem falar nas condições que vão dar para ele, se vai receber ajuda ou não. Às vezes a família não tem dinheiro nenhum e o atleta precisa de vale-transporte para treinar. E às vezes o clube não tem para dar. Sem dinheiro, muitos precisam parar de treinar para ir trabalhar. Assim, nós perdemos muitos atletas.

EE: Qual o papel do esporte na formação de uma criança? 

MG: O esporte é um meio de tirar a criança da rua, dar uma condição de vida melhor para ela. Se você tem uma criança saudável, vai ter um adulto saudável. Assim, investindo no esporte para crianças, os gastos com a saúde vão diminuir. Países inteligentes conseguem enxergar isso. Infelizmente, o Brasil ainda não. O esporte realmente educa, disciplina, dá uma linha de raciocínio. Uma criança que está dentro do esporte é mais politizada e tem uma percepção do mundo muito melhor.

Cada modalidade e seus treinadores estão fazendo um pedacinho. Os treinadores nacionais cumprem o seu papel, quem não cumpre é o governo.

EE: Para você, o esporte é essencial?

MG: O esporte é essencial para a vida do ser humano. Porque o ser humano é competitivo por natureza. Então, o esporte é um meio de canalizar essa habilidade.

EE: Como técnico, você orienta seus atletas em relação ao doping? Qual a sua posição pessoal sobre esse assunto?

MG: Na ginástica não tem muito isso. Não adianta o cara tomar alguma substância ilegal e achar que vai ter uma performance melhor da ginástica, porque não vai. O doping dentro da ginástica só atrapalha. O atleta tem que treinar mesmo. É o volume, associado à qualidade de trabalho, que determina o nível técnico de um ginasta. Por isso, nós não temos muitos problemas com doping dentro da ginástica.

Fotos: Divulgação/Arquivo pessoal de Marcos Goto


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