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Marcelo Vido (diretor de esportes olímpicos do Flamengo)

18/12/2014
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Foto: Míriam Jeske

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O futuro olímpico e promissor do Flamengo

 

 Por Fabiana Bentes

Campeão mundial de clubes pelo Sírio em 1979, do Pré-Olimpico de 1984 e integrante da equipe brasileira nos Jogos Olímpicos de Moscou e Los Angeles, Marcelo Vido continuou sua carreira de sucesso fora das quadras de basquete. Juntando a formação acadêmica com a experiência esportiva, ele já passou pela Secretaria de Esportes do Estado de Minas Gerais, COB e Atlético Mineiro, além da gerência de Negócios e Marketing do Minas Tênis Clube. 

Atualmente, ele é diretor de Esportes Olímpicos do Flamengo. Nesta entrevista, Vido mostra como o Clube de Regatas do Flamengo está profissionalizando sua equipe para um modelo de gestão sustentável e de sucesso.

 

EE: Marcelo, você assumiu a diretoria de esportes olímpicos do Flamengo em janeiro de 2013, são praticamente dois anos. A expectativa que você tinha dessa gestão moderna e profissional está sendo concretizada?

MV: Foram dois anos difíceis. Nós encontramos a Gávea, do ponto de vista de equipamentos e estrutura física, um tanto quanto ultrapassada. Para fazer um esporte bem feito, com qualidade, tem que ter o mínimo de estrutura para acompanhar. Em janeiro de 2013, tivemos o incêndio no ginásio de ginástica, que foi uma fatalidade, mas já era fato que não tínhamos espaço para a modalidade e nem para a escolinha. Hoje, todas as modalidades são integradas com a escolinha, porque ali começa o gosto pelo esporte. A gente pode associar a escola de esportes do Flamengo com o início da base. Em março nós tivemos um problema seríssimo também com a piscina, que teve quase um colapso do ponto de vista estrutural. E quando se fala em piscina, em qualquer clube, é o espaço mais frequentado pelas modalidades, pela escola e pelo lazer livre. A falta de uma piscina para o Flamengo impacta em três modalidades aquáticas: nado sincronizado, polo aquático e natação. Além da escola de esportes e do lazer livre, do sócio. Fechar uma piscina em qualquer clube tem um impacto muito grande. Então tivemos que repensar essa estrutura, melhorar a área de vôlei, basquete e remo. Foi um trabalho muito difícil em 2013, tivemos que descontinuar algumas modalidades profissionais não só pela falta de estrutura, mas também, pela falta de condições para assumir compromissos em relação aos salários. Mas 2014 começa a mudar um pouquinho a história e eu não tenho dúvida 01_200_17que 2015 vai ser, do triênio, um ano de mais realizações.

EE: Em 2014 houve alguma mudança de planejamento pela situação do Clube que você encontrou em 2013?

MV: Não. Quando nós começamos em 2013, estava muito claro, desde o primeiro dia que estive com o presidente do Flamengo (em 14 de janeiro de 2013), que a gente tinha três áreas de atuação no esporte olímpico. Foi proposto isso. Primeiro, a gente iria buscar, até em razão do momento da cidade do Rio de Janeiro, como sede dos Jogos Olímpicos, a forma para modernizar as nossas instalações. Eu sempre falo em auto-sustentabilidade, ou em sustentabilidade, e não é só financeiro. É no ponto de vista de assumir o compromisso com os atletas, os fornecedores, de ter um parque esportivo adequado para a prática, e, principalmente, pensar na sustentabilidade a médio e longo prazo. Não posso pensar no Flamengo em 2014, 2015, Olimpíadas 2016. Tem que pensar no Flamengo, no desenvolvimento do esporte olímpico, em 2020, 2024, não esquecendo que nós temos que passar por 2013 e 2014. 

02_200_20Era muito claro: vamos ter uma sustentabilidade no esporte olímpico, buscar a sustentabilidade, modernizar a nossa estrutura física e começar a melhorar os processos de desenvolvimento do esporte. Isso é muito claro. Outro pilar que a gente começa a desenvolver mais em 2014, principalmente para 2015, é buscar, dentro de cada modalidade, a excelência, a melhor prática para desenvolver aquela modalidade. O basquete foi uma exceção. Ganhamos tudo, mas sempre falo que cada vitória nossa, até no Mundial, que basquete é uma modalidade que tem muito o que melhorar ainda, em termos de escola. E o outro pilar que está claro, a partir do momento que o clube cumpre os seus deveres, a gente tem que levantar a bandeira de melhorar o esporte como um todo, junto com as federações, confederações. É o debate no sentido de construção. Tem um ditado que eu gosto muito: “O Flamengo não tem conflito de interesses, mas tem interesses de conflitos”, no sentido de construir. Não é a crítica pela crítica e nem a acusação pela acusação. É a discordância com o objetivo de melhorias, que nós precisamos muito nesse país. E no esporte, sem dúvida.

EE: Nessa ocasião, o Flamengo, exatamente ressaltando a questão de retirar alguns esportes olímpicos, não renovou o contrato com alguns atletas, principalmente com o César Cielo, por não haver uma estrutura e a questão da receita. Como está a natação do Flamengo hoje?

03_200_16MV: Eu cheguei ao Flamengo e logo no dia 28 de dezembro (2012), quando fui anunciado como diretor de esportes olímpicos, veio a notícia já do descontínuo da equipe adulta de natação. Não foi uma decisão minha, foi do clube, e, no meu ponto de vista, acertada. Primeiro, a gente estava sem condições de assumir compromisso com esses atletas. É uma falta de respeito uma instituição assumir um compromisso e não cumprir. Era preferível dar, como o Alexandre Póvoa falou, dois passos para trás e pensar lá na frente. Em seguida, veio o problema da piscina. A gente tinha uma equipe de natação que era uma das melhores do Brasil, com um campeão olímpico, mas não poderia assumir compromissos com ele, já estava sem assumir compromisso financeiro, e sem estrutura adequada para uma equipe treinar. Então, foi uma decisão difícil, agora, a nossa equipe de base continuou se fortalecendo. Hoje nós temos grandes resultados na categoria júnior, tivemos dois atletas com resultados muito bons no Maria Lenk e José Finkel, o Luiz Altamir e a Natália. Batemos alguns recordes, inclusive.

EE: O foco está, então, nas equipes de base?

MV: Então, o trabalho da base continua sendo feito. Mas falta uma piscina. Conseguimos só agora, no final do ano, uma academia, não é nem academia, é um centro de força dos mais modernos para o atleta de rendimento. Foi inaugurado no final de outubro. Oficialmente vai ser inaugurado em dezembro, porque tivemos alguns problemas de fornecedor. Então assim, estamos mudando a estrutura do Flamengo. Nós queremos sim ter uma equipe adulta de natação, mas não esquecendo que o importante para se ter adulto é a base e a escola de esportes que é integrada. Então, sem dúvida a gente vai continuar esse trabalho...

04_200_19EE: Vocês querem atingir o alto rendimento em algum momento, novamente?

MV: É um caminho. Eu acho que toda modalidade que a gente tem até o último estágio da base (sub-19, sub-18, sub-20), naturalmente a gente quer ter uma equipe adulta. É assim com a natação, é assim com o voleibol.

EE: E tem uma previsão de tempo para isso?

MV: Não, eu acho que as coisas acontecem naturalmente. Nós temos que entregar a piscina, temos todo um plano para entregar no ano que vem. E a partir daí, buscar atletas que vejam o Flamengo não apenas como uma grande instituição, uma grande marca, mas uma boa estrutura de treinamento. Esse é o papel dos clubes. Dar aos atletas, principalmente ao atleta individual, uma boa estrutura de treinamento. O atleta individual treina para a equipe, mas ele busca os resultados individuais. Quando você busca o resultado individual, 05_200_15tendo uma estrutura, vai ter mais condições de arrumar patrocínios individuais, ter Bolsa Atleta, Bolsa Pódio. Então, o clube é um meio para esses atletas. É difícil bancar toda essa estrutura, a conta não fecha hoje em dia. Principalmente no esporte individual. Os atletas têm que entender que o clube faz o papel dele, de formação, desenvolvimento. Agora, o clube não tem condições de ficar bancando todo o estágio de altíssimo rendimento. É um conceito americano que os atletas de alto rendimento no esporte individual, os clubes, associações que formam, são meios de eles chegarem a um ponto de alta performance para conseguirem seus patrocínios, seus apoios. No Brasil, isso ainda não é bem claro para todos. 

 

A experiência no Minas Tênis Clube 

 

EE: Você ficou sete anos à frente do Minas, como gerente de novos negócios e marketing, não é isso?

06_200_12MV: É, eu aceitei com toda a minha experiência como atleta. Depois fiquei à frente, cuidando tecnicamente do esporte do estado de Minas Gerais. Aí fui me especializar com mestrado na Inglaterra. Quando voltei, fiquei nessa área mais de negócios, novos problemas, novas soluções (risos), mas também mais satisfações. No Minas, tive uma etapa de buscar os recursos necessários, as oportunidades de negócios e no Flamengo eu vim mais para desenvolver o esporte. Mas é bom ter esse conhecimento também das dificuldades para buscar recursos, porque às vezes o esportista acha que “não, isso não é problema meu”. Não é assim. As coisas não são assim.

EE: Eu vejo no Minas, realmente, um clube muito positivo em relação ao esporte olímpico, de uma grande gestão. Quais são as diferenças, positivas e negativas, entre o Minas e o Flamengo na questão do esporte olímpico?

MV: Os dois clubes têm uma história fantástica na formação e no desenvolvimento do esporte olímpico. A história não se pode nunca deixar de ter. O Flamengo tem uma história riquíssima. Em 19 edições de Jogos Olímpicos, teve em torno de 196 participantes, entre atletas e comissão técnica. Não sei se tem um clube com participação maior que o Flamengo. Já o Minas tem uma estrutura fantástica pela competência da gestão nos últimos 30, 40 anos. Isso tem que ser reconhecido. E faz um trabalho belíssimo em sete modalidades olímpicas. O Minas está um passo a frente em relação à estrutura e o modelo de gestão. Nós estamos caminhando para isso. Agora, o Flamengo tem uma força maior que o Minas em relação à marca, ao mercado. Não dá para comparar o mercado de Rio e São Paulo com Belo Horizonte. Isso é fato, não é crítica. Temos os prós e os contras. Em algumas coisas a gente tem até o Minas como referência, o sistema, os processos, a padronização. Todas as escolas de esporte do Minas, hoje, são padronizadas, têm ISO 9000. E a gente está em um processo de metodologia. 

EE: É um modelo de gestão a ser espelhado?

MV: É, a gente tem que ver os pontos bons. Eu costumo falar que o Minas é tão ótimo de estrutura que, às vezes eles, até esquecem de valorizar isso. O Flamengo faz um belo trabalho em esporte olímpico com uma estrutura muito aquém. A gente tem que pegar o espelho do Minas, não desconsiderando o que a gente faz, que é um trabalho belíssimo, mas tem que buscar melhorias.

 

Os muitos projetos do Flamengo

 

EE: A CBC (Confederação Brasileira de Clubes) contemplou 16 clubes com verba incentivada para o desenvolvimento do esporte. O Flamengo recebeu mais de cinco milhões de reais, e foi o clube que mais recebeu este aporte. Em segundo estava o Paulistano com quase três milhões e meio e por último o Mackenzie com 220 mil reais. Questionei ao Lars Grael, da CBC, como foi esta avaliação e ele respondeu: “O Flamengo apresentou vários projetos, o que foi permitido no edital. Atua em várias modalidades olímpicas e foi julgado pela comissão técnica como o clube com os projetos mais bem fundamentados. O clube assina um convênio nos moldes de um convênio para o poder público, presta contas quanto à execução física, técnica e financeira do convênio e as contas passarão pela aprovação da CBC, do Ministério do Esporte e do TCU. Haverá uma comissão de acompanhamento e da execução desses convênios”. Me explica um pouco esses projetos. 

Foto: Míriam Jeske

marcelo-vido-miriam-jeske_488MV: Vamos lá. Primeiro tem que mencionar o esforço da instituição Flamengo de ser um clube cidadão. O Flamengo sendo uma instituição cidadã, cumprindo seus deveres, estará apto a buscar serviço incentivado, o que nunca aconteceu com o Flamengo nesses últimos anos... Minas, Pinheiros e outros clubes já têm esses recursos há seis, sete anos. Eles estão na frente, seis, sete anos em relação a recursos. Nesse primeiro edital da CBC o recurso foi para equipamentos. E é o que a gente mais precisa, para modernizar a nossa base de treinamento. 

EE: Você poderia detalhar melhor, até para que outros clubes entendam o processo para conseguir esta verba incentivada?

MV: Sim. O Flamengo conseguiu esse recurso, primeiro porque é um clube cidadão. Segundo, porque nós focamos, desde janeiro, em aproveitar esse momento do esporte no Brasil para a equipe ser competente e fazer bons projetos, que fossem realistas e exequíveis. Então, desde o início do ano passado nós montamos uma equipe especializada em projetos incentivados. Não é só buscar o dinheiro. É elaborar, escrever, executar e prestar conta. As quatro, todas importantes, todas as áreas. Então, nós montamos um núcleo. Fomos buscar no mercado profissionais reconhecidos e com um apoio total da diretoria. Hoje nós temos uma equipe com cinco pessoas e eles são capacitados, vão em treinamentos, cursos, vão para Brasília, vão para Campinas, para São Paulo, não importa. Eles têm que ser uma equipe muito fiel. O Flamengo é um dos poucos clubes junto com o Minas e o Pinheiros que desenvolve cerca de dez modalidades. Então há uma história de desenvolvimento no esporte olímpico, que está atualmente com muitas modalidades, atletas federados e uma necessidade enorme de equipamentos e com as condições de buscar os recursos. Então, casou isso. Estou muito feliz pelos três projetos nossos estarem ente os cinco melhores avaliados. Isso mostra que nós estamos trabalhando certo.

EE: O que são esses equipamentos?

MV: Um projeto é a solução da piscina, que é a Mirka Construção, tecnologia alemã. As piscinas de Londres foram todas da Mirka, as de 2016 muitas vão ser também e é uma solução moderna, nova. Cada projeto precisa de no máximo dois milhões. A piscina vem casar com a obra, que já começou. Então, complementa o investimento que é através da lei de incentivo estadual. É equipamento, não é construção. A CBC definiu nesse edital que não poderia ser construção. Eu não tenho dúvida que foi considerado também pela CBC que o Flamengo tem uma história enorme no esporte aquático e nós estamos sem piscina. 

Outro projeto é o remo, uma modalidade centenária e a razão de ser do Flamengo. O foco era nos barcos, equipamentos. O terceiro projeto aprovado, que foi um valor um pouco menor, para a gente modernizar a área de lutas, que é o judô, voleibol e ginástica. Essas três modalidades foram escolhidas, porque o basquete já estava sendo beneficiado com o ICMS. 

EE: E quanto à questão das certidões negativas, dívidas trabalhistas, tudo que o Flamengo tinha na hora que vocês assumiram? Eu chamo de um certo passado negro, né? Como é que está agora na situação fiscal do clube? Vocês estão conseguindo manter as contas em dia? 

MV: Do ponto de vista da instituição, todas as certidões estão em dia, pois nós somos aptos a buscar os recursos. Essas certidões sempre têm validade de três a seis meses, mas é normal em qualquer constituição – falar em constituição nem é a área de esporte olímpico, aí já é a área financeira, jurídica. A gente está sempre em dia com as certidões e sempre apto a buscar os recursos.

07_200_16EE: Sim, mas também tem as questões das dívidas trabalhistas...

MV: É, equacionadas. A partir do momento que você está renegociando, você está em dia. Quer dizer que não temos dívidas. Eu até li na imprensa, essa semana, a dívida auditada do Flamengo, que no início de 2013 era em torno de 750 milhões, no último balanço de novembro havia caído para 565 milhões. Ou seja, 200 milhões dava para contratar muito jogador de futebol, de basquete (risos). Encarar a dívida é uma opção acertadíssima. 

É por isso que às vezes o time de futebol ainda sofre um pouco, mas o futebol deve estar contente com o esporte olímpico porque, em 2015, a gente não vai depender de nenhum centavo deles. Então vai sobrar um dinheirinho para lá. E não é só 2015, nós temos que pensar em sustentabilidade para muitos anos. É um desafio. Sabendo que a partir de 2016 devem diminuir os recursos dos esportes olímpicos. Temos que equilibrar sempre, é um desafio muito grande, entre receitas incentivadas e receitas diretas. Não podemos depender só de incentivadas, mas também não dá para fazer esporte na base só com patrocínio. Então, nós temos que pensar o que vai ser em 2017, 2018.

 

Mídia e patrocínio

 

08_200_16EE: Qual a sua opinião sobre o papel da mídia no esporte?

MV: É positivo, se comparado há dez anos, que só tinha praticamente a TV aberta, depois a fechada e os jornais. Hoje, temos a pluralidade de novas opções de mídias, sites, blogs, melhora bastante. A gente discute muito TV aberta, mas não tem jeito, não dá para negociar. Na TV fechada já é difícil ter mais modalidades. Mas, pelo menos assim, com essas novas tecnologias, redes e blogs, melhorou muito. 

EE: Qual sua opinião sobre o patrocínio ao esporte?

MV: Eu vejo dois lados, para ser bem sucinto. Primeiro, o papel do empresário e o que eles pensam em relação ao esporte olímpico. Porque também utilizar a lei de incentivo para tudo, eu acho um tiro no pé. Ninguém investe mais no Brasil se não for por lei. Isso vira um 09_200_06problema. E as empresas, hoje, querem ter os mesmos direitos e propriedades com a lei de incentivo. Esse é um problema sério que a gente tem que atacar. Hoje, os maiores concorrentes dos clubes que formam são as confederações, não tenho dúvida disso. Maiores concorrentes da lei de incentivo. Hoje, as confederações têm cada vez mais recurso e cada vez menos recurso chega na formação. Outro ponto: qual o papel do atleta nessa indústria? O atleta mesmo, não gosto muito de generalizar porque eu também fui atleta olímpico, mas o atleta sempre se coloca...

EE: Como vítima?

MV: Exatamente. Como é que é essa indústria? O papel deles? Aí você dispensa um atleta e ele fala: “Poxa, falta consideração, eu competi dez anos pelo Flamengo”. E o que o Flamengo investiu nele durante dez anos? Tem que ter o mesmo equilíbrio! E é sempre a vítima. Os deveres, longe... Não é nem com o clube, é na indústria mesmo. Até que ponto o atleta tem que se inserir no mercado de uma forma diferente, principalmente no esporte individual? Até que ponto ele não tinha que pagar para um clube, para ele nadar por um clube? Pensa na estrutura que o clube dá. Não é só piscina, mas a equipe de nutricionistas... 

Já lançamos agora um projeto chamado CUIDAR, que é Centro Unificado de Identificação e Desenvolvimento de Atleta de Rendimento, que a gente vai investir. Investir para ter condições de tratar bem, cuidar do atleta.

 

As metas para 2015 e 2016

 

EE: O ano que vem é pré-olímpico. Vocês já têm algum destaque aí que venha para 2016?

MV: Sim, vou falar por modalidade. A base da seleção feminina de ginástica é de atletas rubro-negras. A gente tem algumas meninas também no nado sincronizado e no polo aquático. Eu só não sei realmente como são os pré-olímpicos classificatórios, porque cada modalidade tem uma forma de classificar. Na natação, a nossa equipe é de base, então é difícil prever alguém para 2016, talvez o Luiz Altamir, mas polo sim, masculino e feminino, mais o feminino. Ginástica, sem dúvida, no feminino. No basquete, nós temos alguns atletas. Voleibol é base também, a gente está pensando a partir de 2016. Já no remo eu não sei quantos se classificam, porque cada modalidade é muito específica. Judô, a gente tem algumas meninas bem cotadas. A gente já tem uma meta para 2016, mas não vou revelar ainda.

EE: Tem comissão técnica também?

MV: Sim, fora a comissão técnica. A gente considera também. O Flamengo é rico nisso. Mesmo sem uma estrutura adequada, a gente consegue ter bons profissionais, isso é um ponto positivo.

EE: O Flamengo será a sede da equipe dos Estados Unidos em 2016, a maior potência olímpica. Como o clube vai ser beneficiado?

MV: O contrato foi discutido no ano passado. Tem duas partes bacanas. A primeira é que eles estão investindo na organização dos espaços. Então, o ginásio de basquete, com toda a estrutura, está para ser entregue dia 20 de dezembro. O ginásio Canela e a área de lutas também. Então, é a modernização dos espaços. Eles vão deixar como legado também uma academia específica. 

Na negociação com eles, o que eu achei muito legal para a gente, além da modernização dos espaços, é que uma parte do investimento vai ser troca de experiências, conhecimento e tecnologia. A partir de 2015, nós vamos fazer um calendário de profissionais nossos, não só no esporte, mas na área de comunicação, para fazer troca de experiências com os centros olímpicos de treinamento dos Estados Unidos. Na área de ciência do esporte, a gente vai atacar muito. Porque até pouco tempo, o esporte era muito a parte técnica, mas hoje é técnica, ciência e conhecimento. A gente vai desenvolver o nosso projeto CUIDAR com o Comitê Olímpico Americano e alguma coisa com o Comitê Olímpico Britânico, principalmente algumas modalidades específicas, como o remo, por exemplo.

 

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Vido com a equie do Sírio, campeã do mundial interclubes de 1979

 

 

Calendário de competições

 

EE: E como é que está a relação com as confederações no que tange às competições? Você fez uma crítica exatamente na questão das confederações, dos calendários, de expor mais os atletas às competições e de uma questão de convênios. Você queria aumentar os calendários de competições nacionais, internacionais, uma maior organização disso?

10_200_03MV: Nós temos um problema com o remo, isso foi fato no ano passado. Tivemos com o basquete também. A gente quer dialogar um pouco mais. Não é possível que os clubes, que respondem pelas federações, que por sua vez respondem pelas confederações, não consigam fechar um calendário que atenda à seleção, à federação e aos clubes. O que aconteceu no remo, ano passado, foi uma coisa inacreditável. Com seis regatas no ano, o calendário batia com as regatas internacionais, de Copa do Mundo e etc. O clube investe na estrutura, nos atletas, e a gente deixa de contar com os atletas em seis regatas no ano.

EE: E não há uma mudança por quê?

MV: Falta diálogo. Falta sentar, discutir, debater.

11_200_02EE: Falta vontade?

MV: Sim. Falta vontade e falta reconhecer que os clubes têm importância nisso tudo. Não pode o atleta do clube ficar dez meses treinando na seleção. Então, vamos entender o papel do clube. Se o clube não é importante, então vai ter uma seleção permanente? Vamos fazer o esporte de desenvolvimento mais na parte lúdica? Esse é o nosso papel? Então, tá bom. Precisamos discutir. Eu quero sempre ser informado da convocação de algum atleta, de profissional, técnico ou médico. Ter esse conhecimento, no mínimo. Esse grupo nosso, são profissionais e funcionários do clube. Não pode a seleção pegar, aí fica três meses e o Flamengo fica sabendo pela imprensa. Tem que mudar essa relação.

 

O cenário do basquete

 

EE: O que mudou no basquete brasileiro, em termos de organização, do tempo que você jogava para agora?

13_200_02MV: A minha geração, nos anos 80, era mais romântica do que hoje. Não sei se a evolução é para melhor, mas o mundo evolui. É difícil comparar. O que acontece hoje é que as seleções, em qualquer modalidade e no basquete também, têm que ser formadas naquele ano para se pensar em quatro, oito anos. Voltando à minha geração. A geração durou de 10 a 15 anos, com Oscar, Marcel, Israel, Cadum... Isso era muito bom. Quando esse grupo foi ficando velho e já estava há muito tempo na seleção, estava matando várias gerações que vinham atrás. Então, dá uma lacuna de 10, 15 anos que você não recupera. A seleção tem um papel importante naquele ano, mas para ter continuidade durante muitos anos. Quando um atleta, mérito dele, principalmente em esporte coletivo, compete em cinco Olimpíadas, alguma coisa não funcionou para trás. Quando uma geração fica 15 anos na seleção brasileira, o que vai acontecer depois? 

Então, quando eu falei em basquete, será que as seleções hoje não tinham que ter um equilíbrio entre atletas já no auge para sair um grupo e ter outro já vindo? Será que isso não é um movimento que tem que ser contínuo? Não sei, é uma discussão. Eu estou tendo vontade de mudar isso no Flamengo. Hoje, no Flamengo, nós temos oito atletas adultos e o resto é sub 21, 22. Estou querendo implantar isso. Nem sempre os técnicos aceitam. Os técnicos também são da geração antiga e são cobrados para aquele momento, aquela competição. É Olimpíada, é Mundial de 2014, é aquela competição. 

EE: Essa equipe de basquete de 2014 já tem essa mescla?

MV: Nós estamos mudando essa filosofia mesmo. Então, hoje, o terceiro armador da equipe não pode ser um veterano, tem ser um menino. O quarto, quinto pivô não pode ser um cara já em final de carreira, tem que estar começando. Isso é a filosofia do clube. Eu conversei isso até com o Bernardinho, será que tem que levar os 12 melhores para a seleção? Porque em nenhuma modalidade coletiva, seja vôlei, basquete, os 12 jogam. Jogam oito. É fato. Será que três não têm que ser preparados para o futuro? No clube, estou fazendo isso. 

Tem dois modelos para serem seguidos no mundo. Vou levar para o futebol, mas sou basquete. Tem o modelo do Barcelona, do Bayern de Munique, do Manchester United, que têm uma estrutura muito forte na formação e contratam, pontualmente, atletas de destaque. Outro modelo é do Real Madrid, do Chelsea, do Manchester City. É dinheiro, dinheiro, dinheiro, contratar, não importa. O basquete do Flamengo, que a gente quer implantar em todas as modalidades, é esse modelo de formação. Tem também o modelo do Osasco e o do Rexona no vôlei. São dois modelos diferentes. Não existe modelo certo, modelo errado. Você precisa seguir. A gente encontrou no basquete e quando você ganha tudo, fica mais difícil mudar algum modelo, mas a gente tem que aceitar que vamos perder. Não existe modalidade que ganha sempre. Só que a sua filosofia não pode mudar. Você pode sair um pouquinho para cá, repensar, mas a filosofia você não pode. Num dia tem 20 milhões, contrata um time, no dia seguinte você tem um milhão, manda embora.

 Foto: Míriam Jeske

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Vido posa ao lado da homenagem do Flamengo ao time campeão mundial de 2014

 

EE: E o NBB, já na sétima temporada? Você acha que já está trazendo um avanço para o basquete brasileiro?

MV: Sem dúvida. Primeiro, eu sou um dos mais adeptos ao conceito de liga. Eu fiz o meu mestrado na Inglaterra e a minha tese foi sobre as ligas europeias, as ligas americanas. Eu participei, desde a fundação do NBB e não tenho dúvida que a única liga, conceitualmente correta, é a do basquete. A do vôlei não é uma liga, porque quem detém todas as decisões é a CBV. Então, não é uma liga conceitualmente. No basquete é uma liga. As decisões certas e erradas são dos clubes. Que erram também. Às vezes tem uma votação e a maioria decide, mas decide erroneamente. E faz parte do processo. Mas não tenho dúvida que o basquete passa a ter mais credibilidade, mesmo com todas as dificuldades que nós estamos enfrentando.

EE: E está aumentando o prestígio e o reconhecimento da torcida?

MV: Sim. Até internacionalmente também. A NBA vai anunciar a única parceria fora dos Estados Unidos com uma liga, que vai ser NBA e NBB. Agora, você pega uma NBA, foi fundada nos anos 40. A Liga Espanhola (ACB) foi fundada em 1984, depois que a Espanha foi vice-campeã olímpica em Los Angeles. A Liga Argentina é de 1992. Ou seja, nós estamos completando, agora, seis anos. Tem muita, muita coisa pela frente.

 

Outras questões

 

 

EE: Bom, é legal falar do Investidor-Anjo. Acho que é uma plataforma boa que vocês têm para as pessoas físicas se envolverem com os patrocínios.

MV: As leis de incentivo, vou mais focar agora na Federal, tem a pessoa jurídica e a pessoa física. A pessoa jurídica são as empresas que entram, lógico que precisa ser empresa do lucro real, precisa pagar imposto. Então, tem todo o momento que atravessa o país. O resultado das empresas diminuiu um pouco neste ano. Foi um ano difícil no ponto de vista econômico. E a pessoa física é 1% até 6%. E o programa Anjo, no ano passado, já foi um sucesso em relação ao que os outros clubes estão fazendo. Um milhão e 200 mil reais foi muito bacana. Agora, pode aumentar. Porque simplesmente você está transferindo 6%, em vez de pagar para o governo, você transfere para aquela modalidade, aquele grupo de modalidade que você tem identificação. Eu acompanho diariamente o resultado da campanha e a gente está com uma meta de alcançar dois milhões.

EE: Qual o trabalho que o Flamengo faz sobre doping?

MV: Nós temos dentro dos contratos cláusulas que falam sobre isso. Agora, a gente deve ter para 2015 um manual de conduta. Isso não é preventivo, é mais reativo. Mas o Flamengo precisa sim começar a ter reuniões ou apresentações em diversas áreas. Bullying é uma delas e doping é outra. Mas a gente depende muito, hoje, das confederações, desses exames.

14_200_03EE: O esporte é essencial?

MV: Eu sempre defendo que o esporte como meio é uma coisa maravilhosa. Como fim é uma consequência. Poucos vão chegar ao alto rendimento, mas o esporte para o desenvolvimento do ser humano é muito bacana. Eu fui atleta, tenho três filhas que também são, estudam e competem nos Estados Unidos. Ter o esporte na formação da criança e do jovem é muito legal. Os atributos do esporte, só o esporte que tem. Isso não quer dizer que quem não faz esporte não vai ser bom cidadão, mas o esporte contribui para a formação, os atributos são muito bacanas. Disciplina, respeito, trabalho em equipe, saber ganhar, saber perder. Hoje a juventude não sabe o que é perder. Perder faz parte, nem sempre você ganha, tem que administrar a frustração, não desanimar. É muito bacana o esporte, né. Eu sou defensor, principalmente, do esporte como meio. No alto rendimento, poucos chegam lá. Na base, de mil atletas federados, quantos vão chegar lá? Talvez dez, quinze. Mas é o nosso papel, participar da formação da criança.

EE: E uma mensagem especial para a Nação Rubro-Negra?

MV: Um agradecimento pelo apoio que temos recebido dos torcedores. O trabalho está sendo feito. É um trabalho a médio e longo prazo, porque a potência que a gente quer tornar o esporte olímpico é a médio prazo. Nação, participe com a gente, acredite no trabalho. Vamos ter derrotas no meio do caminho, faz parte. Mas pode ter certeza que estamos pensando em um Flamengo muito forte e estruturado, sempre pensando a médio e longo prazo.


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