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Luis Carlos Cardoso (Paracanoagem)

23/03/2016
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23-03-capa-interna_luis-carlos-cardoso_680Arte: Paula Sattamini

Por Fernando Hawad

Natural de Picos, no Piauí, Luis Carlos Cardoso sofreu uma grande reviravolta na vida. Era um dançarino profissional de sucesso até o final de 2009, quando ficou paraplégico por conta de um parasita que se alojou em sua medula. Além de ter perdido os movimentos das pernas, Luis Carlos teve outro baque com a morte de sua mãe. A paracanoagem foi fundamental para o piauiense recuperar o sorriso e a vontade de viver.

No começo, a modalidade tinha o papel de auxiliar a reabilitação de Luis Carlos. Mas rapidamente ele tomou gosto pelo esporte e virou um atleta de ponta. Um ano após iniciar a prática da canoagem, já se tornou campeão pan-americano. Desde então, a coleção de medalhas não para de crescer. Foi campeão mundial em 2014 e repetiu o feito em 2015, ganhando dois ouros em Milão. O piauiense trocou os palcos pela água, mas continua brilhando. Para coroar essa linda história de superação, o foco dele está todo voltado para o Rio 2016. Será a estreia da canoagem nos Jogos Paralímpicos.  

Esporte Essencial: Conte um pouco sobre a sua história de vida e de como a canoagem passou a fazer parte dela.

olhos-1_200_01Luis Carlos: Estou na cadeira de rodas desde o final de 2009, por causa de uma infecção na medula. Antes da deficiência eu era dançarino profissional. Cheguei a dançar em várias bandas, foram nove anos profissionalmente. Passei por várias bandas de forró e também me apresentei em vários programas de TV, como Raul Gil, Sabadaço, do Gilberto Barros, e alguns outros. O último trabalho que eu fiz foi com o cantor Frank Aguiar. Até que eu fiquei na cadeira de rodas, no final de 2009. Comecei na canoagem em 2011, como reabilitação. Eu já estava há um ano e pouco na fisioterapia, já tinha melhorado bastante e me indicaram a canoagem para me ajudar a ter mais força, mais equilíbrio de tronco. No início eu fui mais pensando na reabilitação mesmo. Mas depois eu percebi que poderia ir mais longe. Foi quando eu comecei a treinar mais, me dedicar mais e fui para o meu primeiro Campeonato Brasileiro, no final de 2011, em Curitiba. Lá, eu conquistei duas medalhas, uma de prata e outra de bronze. Essa medalha de prata que me colocou na seleção brasileira em 2012. 

EE: O Frank Aguiar te ajudou bastante depois do acidente, não é? Como foi esse apoio dele para você?

LC: Ele me ajudou muito, foi um pai para mim. Ele sempre deu a maior força, não só para mim, mas para todos os dançarinos que trabalhavam com ele. Depois da deficiência, ele não me abandonou. Era sempre prestativo, colocou um motorista para me levar para a fisioterapia. Eu ia bastante para o médico no início e ele colocou um carro à disposição. Quando eu falei para ele que tinha conhecido a canoagem, que eu percebi que podia chegar longe no esporte, ele ficou super animado e me deu muita força. Inclusive, a minha primeira canoa foi ele que comprou.

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Luis Carlos se apresenta em show do cantor Frank Aguiar 

EE: Em que momento você percebeu que a canoagem deixaria de ser apenas o seu meio de reabilitação e você se tornaria um atleta de ponta?

LC: Quando eu fui convocado para a seleção. Quando eu fui para o Brasileiro em Curitiba, não fui pensando que iaolhos-2_200_01 ganhar. Fui mais para conhecer a galera, conhecer aquele clima de competição. Mas quando eu recebi a convocação para disputar o Campeonato Pan-Americano em 2012, percebi que era o momento de me dedicar mais porque eu ia competir em um torneio internacional. Foi quando o húngaro Akos Angyal, que era o treinador da seleção olímpica do Brasil, me levou para Guarapiranga. Eu comecei a treinar lá com ele. A gente treinava a semana toda, de segunda a sábado. Naquele momento eu comecei a treinar de forma intensa e ganhei a medalha de ouro no Pan-Americano de 2012.

EE: De lá para cá você só cresceu. Tornou-se um campeão mundial. Como está a sua estrutura de treinamentos e a sua própria condição de patrocínios? Está dando para se dedicar 100% à canoagem?

LC: Hoje eu posso falar que tenho uma excelente estrutura. Tenho um ótimo treinador, que é o Akos, além de uma equipe que trabalha ao meu redor. Tenho patrocínios que me ajudam a bancar tudo isso e me dedicar somente ao esporte. Meu dia é todo focado na canoagem, pensando, primeiramente, na seletiva para os Jogos do Rio, na Alemanha, e no meu objetivo maior, que é a Paralimpíada.  

EE: O Comitê Paralímpico Brasileiro ajuda bastante?

LC: Está sempre auxiliando em tudo que a gente precisa. Sempre dando a maior força. Inclusive eu faço parte do Time São Paulo, que é uma parceria entre o Governo do Estado e o Comitê Paralímpico. Faço parte deste time com grandes atletas que estiveram na última Paralimpíada e outros que têm chances de estar nos Jogos deste ano. 

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EE: Quando você começou na canoagem, optou pela canoa. No ano passado, você migrou para o caiaque porque será a modalidade disputada nos Jogos Paralímpicos...

olhos-3_200LC: Isso, eu comecei na canoa. Quando eu ganhei a medalha de prata no Brasileiro de 2011, era seletiva para o Pan-Americano. Os dois primeiros se classificaram. E como eu me classifiquei na canoa, me dediquei somente à canoa. Só que a canoa não vai fazer parte dos Jogos do Rio. Então eu passei a me dedicar mais ao caiaque, deixando um pouco de lado a canoa. Mas, mesmo assim, no Mundial de Milão, no ano passado, eu conquistei dois ouros: no caiaque e na canoa.

EE: Entendi. Queria que você falasse um pouquinho de como foi a adaptação ao caiaque. Os barcos são muito diferentes?

LC: Olha, muda muita coisa da canoa para o caiaque. Começando pela embarcação. Na canoa você pode remar do lado direito ou do lado esquerdo, pode escolher. Já no caiaque, não. Você precisa intercalar para ter o equilíbrio no barco, para não deixá-lo virar. A canoa é um barco bem mais estável. Fora isso, eu mudei totalmente a técnica para remar no caiaque. Também tive que vencer um trauma que eu tinha de caiaque porque quando eu iniciei, em 2011, eu virava muito no caiaque. E isso ficou no meu inconsciente. Então eu tinha receio de subir no caiaque. Mas quando falaram que era a minha única chance (de participar dos Jogos Paralímpicos), não pensei duas vezes. Comecei a treinar forte e o resultado veio no Mundial.

foto_2_500Medalha de ouro no peito: Mundial de Milão 2015

EE: O ano passado foi muito especial para você. Duas medalhas de ouro no Mundial de Milão e o Prêmio Paralímpicos de melhor atleta masculino. O que representou para você receber esse prêmio?

LC: Eu já tinha ficado muito feliz de ter sido escolhido novamente o melhor atleta da paracanoagem. Mas quando me falaram que ia concorrer ao título de melhor atleta de todas as modalidades, com dois grandes atletas, o Daniel Dias (natação) e o Felipe Gomes (atletismo), eu fiquei fascinado. Quando eu ganhei, não acreditei. A ficha só veio a cair no decorrer da semana, quando o pessoal ficava me ligando, quando eu lia as mensagens. Foi ali que caiu a ficha. Isso foi muito gratificante para mim porque me deu mais força e mais garra para 2016. 

foto_4_500Luis Carlos recebe o Prêmio Paralímpicos 2015 

EE: Tem algum grande ídolo no esporte e na vida?

LC: No esporte, eu tento aprender muito com os atletas do Canadá e da Hungria, que para mim são os melhores. Estou sempre observando o que eles fazem para poder colocar em prática dentro da água. Na vida, vou ser um pouco religioso, meu ídolo é Jesus Cristo. É uma pessoa em que eu me inspiro a cada dia. Procuro ler a palavra dele todos os dias para me acalmar porque nesse meio, em que a gente vive, há muita disputa e várias situações que te desanimam. Eu procuro sempre orar para me fortalecer de alguma forma. Encontro isso na Bíblia. 

EE: Você recorreu muito à fé no momento do acidente?

LC: Sim, porque naquele momento eu não perdi somente as minhas pernas. Perdi também a pessoa que eu mais amava no mundo, que eu amo ainda, que é a minha mãe. Infelizmente, ela veio a falecer alguns dias depois, quando eu ainda estava internado. Aquilo (a fé), de alguma forma, não me deixou entrar em depressão. O que eu imaginava que poderia ser a minha morte, foi o meu renascimento. Foi o que me deu forças para seguir em frente. Eu creio que isso foi algo espiritual, que veio de Deus. 

 

Jogos Rio 2016:

LC: Tento não pensar. Tento não ficar imaginando como vai ser. Eu sou muito de focar no momento, de pensar no queolhos-5_200 tenho que fazer agora, no que tenho que melhorar. Creio que vai ser maravilhoso estar competindo em casa, ter a família lá torcendo. Isso vai dar ainda mais força para a gente. Mas eu tento não pensar muito em como vai ser justamente para não tirar o foco do meu momento. Tento focar no agora. Amanhã, a Deus pertence. 

EE: Em uma modalidade como a canoagem, a torcida pode ser preponderante para o resultado?

LC: Com certeza. Como eu falei, a gente vai estar em casa. A nação brasileira vai estar toda torcendo pelos seus atletas. Eu creio que essa energia que o público vai passar será ótima para os atletas.

EE: Você acredita que a realização dos Jogos Paralímpicos no Rio pode servir para que haja uma mudança na vida do deficiente no Brasil? Contribuir para que o deficiente tenha seus direitos mais respeitados?

LC: Acredito que sim. É um grande evento. As pessoas não vão somente ver pela televisão. Elas vão poder ir aos locais de competição para assistir, ver como é a vida de um atleta de alto rendimento. Acredito que isso vai mudar a olhos-4_200noção que muita gente tem a respeito de pessoas com deficiência. Espero que haja mais conscientização nos próximos anos, em vários fatores, porque, infelizmente, o Brasil ainda está deixando a desejar na questão do respeito ao deficiente. Não vou generalizar, porque há pessoas que respeitam muito. Mas há pessoas que não têm essa noção. Quando eu vou a um estabelecimento e vejo que tem uma pessoa sem deficiência estacionada em uma vaga para pessoas com deficiência, eu fico irado. Espero que com os Jogos Paralímpicos as pessoas venham a respeitar mais quem tem qualquer tipo de deficiência.

EE: Como cada país só vai poder ter um representante por prova na canoagem, acabou que você está em uma disputa com o Fernando Fernandes, outro grande atleta do país, pela vaga paralímpica. Como é a relação entre vocês?

LC: A disputa tem que estar dentro da água. É uma competição, vai vencer quem estiver melhor naquele momento. Nós somos adultos para entender que a briga está dentro da água e não fora dela. A gente tem uma boa relação, a gente conversa, mas o foco está realmente em treinar para poder dar o melhor dentro da água.

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EE: Dá para dizer que o Brasil mudou de patamar na paracanoagem? No último Mundial foram sete medalhas. Os adversários já olham para os atletas brasileiros com mais respeito?

LC: Acredito que sim. A gente está se tornando referência para a galera lá de fora. Eles estão vendo que o Brasil está se esforçando. O brasileiro tem isso de se dedicar, por mais que as circunstâncias não nos ajudem, mas a gente está ali sempre se esforçando, sempre buscando fazer o melhor. Vejo que há bastante respeito pelos paratletas brasileiros. 

EE: Sobre doping no esporte, o que gostaria de dizer?

LC: O doping destrói totalmente o atleta. O atleta deve ter a consciência de fazer algo que não vá o prejudicar, porque o doping pode acabar com a carreira dele. Eu me preocupo muito com isso. Para tudo que eu vou tomar, sempre olhos-6_200consulto meus médicos e meu treinador. Como sou um atleta que já conquistou ouros em Mundiais, eles estão sempre em cima. Qualquer hora pode chegar um exame para fazer, não apenas em competição, mas também na minha casa. Sou totalmente contra o doping porque isso traz uma consequência muito grande, prejudica muito a carreira do atleta.

EE: O esporte é essencial para você?

LC: O esporte é vida! Todas as pessoas, se puderem, deveriam praticar esporte. Eu amo praticar. Mesmo antes da deficiência, sempre pratiquei. Eu amo fazer isso. Acho que todo mundo deveria praticar. Sei que há pessoas sedentárias que não gostam de praticar, mas pratiquem. Pratiquem porque isso só vai trazer coisas positivas para vocês. 

EE: Maravilha! Finalize com um recado para a torcida brasileira que vai acompanhar os Jogos Paralímpicos do Rio.

LC: Gostaria de pedir a todos que adquiram os ingressos, que já estão à venda. Que estejam lá conosco nesse momento tão especial para nos dar essa força, essa energia positiva. Podem ter certeza que isso vai nos ajudar muito para conseguirmos as medalhas.

Fotos: Bendita Imagem


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