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Esporte que constrói o Brasil.

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Leomon Moreno (Goalball)

02/03/2016
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01-03-capa-interna_leomon_680Arte: Paula Sattamini

Por Fernando Hawad

Leomon Moreno começou a praticar goalball inspirado nos seus irmãos mais velhos. Chegou à seleção brasileira ainda adolescente e foi um dos responsáveis pela subida de patamar da modalidade no país. Entrar nas competições apenas para participar faz parte do passado. Atualmente, o Brasil é uma das principais forças do goalball mundial.

Aos 19 anos, Leomon integrou a equipe que foi prata nos Jogos de Londres 2012, conquistando a primeira medalha paralímpica do goalball brasileiro. Em 2014, o brasiliense alcançou o topo do mundo. Com muitas bolas na rede, 51 gols marcados na competição, Leomon foi o artilheiro do Campeonato Mundial na Finlândia e conduziu o Brasil ao título inédito. Em Londres, a prata ficou de bom tamanho para a seleção brasileira. Mas no Rio a equipe vai fazer de tudo para chegar ao ouro! Os adversários que se cuidem porque o goalball brasileiro cresceu. 

 

foto_1_363Esporte Essencial: Como você conheceu o goalball?

Leomon Moreno: Eu conheci o goalball por causa dos meus irmãos. Eu tenho dois irmãos mais velhos que também são deficientes visuais. Quando eu era criança, eu enxergava um pouco mais que eles porque minha deficiência é degenerativa, hoje eu enxergo bem menos. Então, na época, eu os levava aos treinos. Esse foi o meu primeiro contato com o goalball. Tinha sete anos de idade. Fui conhecendo e já enchia o saco da técnica da equipe para ficar jogando, mas como é um esporte de contato muito forte com a bola, a gente recebe muita bolada, só é indicado começar a partir dos 13, 14 anos. 

EE: Quando o goalball se tornou algo mais sério na sua vida?

LM: Eu ingressei no esporte pelo atletismo. Era velocista. Corria 100m, 200m, 400m. Não tinha idade ainda para ingressar no goalball. Participei de algumas competições nacionais e até internacionais pelo atletismo. Quando tinha 13, 14 anos, comecei no goalball. Antes, já tinha passado por outros esportes, como o futebol de cinco, o judô, a natação, mas me firmei mesmo no goalball, até por causa da família, por já ter dois irmãos que praticavam. Com dois anos de prática no goalball, fui eleito a revelação de uma Paralimpíada Escolar e aí veio a minha primeira pré-convocação para a seleção brasileira. Eu fui cortado três,olhos_1_200 quatro vezes da seleção. Sempre era pré-convocado e pegava experiência com os mais velhos. Foi a partir desse momento que o goalball virou uma profissão para mim. Até 2011, 2012, a gente jogava praticamente por amor. Em 2012, com a medalha de prata que a gente conquistou em Londres, o investimento cresceu no goalball. Hoje em dia eu já consigo sobreviver financeiramente do esporte. 

Goalball no Brasil

EE: Atualmente, como está a estrutura do goalball no Brasil?

LM: Eu costumo dizer que se o atleta tem uma estrutura boa e não se preocupa com outra coisa, a não ser treinar, ele vai ter sucesso. Hoje em dia, nós somos patrocinados pela Caixa Econômica Federal e temos o Bolsa Atleta, pelo Ministério do Esporte. Eu também tive a honra de ser contratado pelo Santos Futebol Clube. Estou jogando pelo Santos. O investimento foi só crescendo. Foi uma escala bem equilibrada. Enquanto a seleção brasileira foi crescendo, os times também resolveram investir mais nos atletas.

EE: Como é o goalball no país a nível de clubes? As competições são regulares durante o ano? Existem muitos times?

LM: O goalball no Brasil tem cerca de 2500, 3000 atletas. Há algo entre 70 e 100 times de goalball. Existem os campeonatos regionais, que classificam os melhores colocados para o Campeonato Brasileiro, que é realizado no segundo semestre do ano. As principais competições são essas. Mas como eu estou no Santos, em São Paulo é mais intenso. A gente disputa as etapas do Campeonato Paulista, tem a Copa São Paulo também. Nós sempre buscamos participar do máximo possível de torneios.

EE: Então essas competições garantem uma atividade longa durante o ano para os atletas?

LM: Sim. A gente tem, no ano, três etapas do Paulista, o Regional, o Brasileiro, a Copa São Paulo. De dois em dois meses a gente tem algum campeonato para participar. Então, a preparação tem que ser intensa e focada.

EE: O Campeonato Brasileiro conta com quantos times?

LM: São 12 equipes. Os dois primeiros colocados do Brasileiro levam uma vaga a mais para o seu respectivo Regional. Nos regionais se classificam os dois primeiros para o Brasileiro. Com mais uma vaga, o terceiro colocado também entra. Então, dois regionais classificam três equipes e os outros três classificam duas, totalizando 12 times no Campeonato Brasileiro. O Santos observou bastante a movimentação no cenário do goalball no ano passado. A equipe em que eu estava antes era a UNIACE, de Brasília. Nós fomos campeões brasileiros. O Santos me contratou e também contratou o Romário, que disputou a final do Campeonato Brasileiro contra a minha equipe. O Santos está se preparando muito bem para essa temporada.

olhos_2_200EE: O que fez o Brasil se tornar uma grande potência no goalball mundial?

LM: Sobre a seleção, antigamente a preparação era feita juntando os melhores atletas a 15 dias de uma competição. Hoje, a preparação é feita a longo prazo. A gente tem umas sete, oito fases de treinamento por ano, de dez a 15 dias por mês. A estrutura foi crescendo conforme a gente ia conseguindo os títulos. Nós estamos em primeiro no ranking mundial e somos favoritos para os Jogos Paralímpicos. Mas não temos esse pensamento de que por sermos favoritos, vamos ser campeões. Não é assim. A gente tem que ter a cabeça no lugar e os pés no chão para conseguir esse título, deixar a medalha de ouro aqui dentro da nossa pátria. 

EE: Em Londres 2012 você tinha 19 anos e já conquistou uma medalha de prata. Conte um pouco sobre esse momento.

LM: Em Londres, eu já vinha de uma preparação de dois anos. Fui pré-convocado pela primeira vez em 2010. Jáolhos_3_200 vinha de treinamentos intensos. Antes dos Jogos, a gente disputou um campeonato preparatório bem forte, na Lituânia, que é um país com bastante tradição no goalball. Então, isso me deu uma experiência para disputar a Paralimpíada. Dentro dos Jogos, a gente foi crescendo. Conseguimos passar da primeira fase. Ganhamos por 3 a 0 da Bélgica nas quartas de final e por 2 a 1 da Lituânia nas semifinais. Esses resultados nos deram uma confiança a mais para estarmos onde estamos agora, no topo do mundo. Depois da Paralimpíada de Londres, fomos campeões mundiais em 2014. Se na final da Paralimpíada nós perdemos de 8 a 1 para a Finlândia, no Mundial nós conseguimos devolver. Ganhamos de 9 a 1 deles lá na Finlândia. Depois teve o Parapan de Toronto, em 2015, quando conseguimos ganhar dos Estados Unidos na final.

foto_2_660Leomon posa com a medalha de prata conquistada nos Jogos Paralímpicos de Londres

EE: Você fez 51 gols no Campeonato Mundial. Essa vocação ofensiva sempre fez parte do seu jogo?

olhos_4_200LM: A base do goalball que a gente trabalha aqui no Brasil é a técnica defensiva. No goalball são três atletas de um lado, três do outro, e todos podem arremessar e defender. Os arremessos são muito fortes. Se a equipe não tiver uma técnica defensiva bem apurada, acaba levando muitos gols. O Brasil tem essa diferença em relação a todas as equipes do mundo. A gente consegue ter uma defesa bem equilibrada e nosso ataque vai fluindo conforme a nossa defesa. A gente tem atletas destinados ao ataque, atletas destinados à defesa, mas o atleta tem que ter a técnica de defesa muito apurada para estar na seleção brasileira. Não adianta ter um ataque bom e uma defesa ruim.

EE: Em 2014, com o destaque que você teve no título mundial, você acabou recebendo o Prêmio Paralímpicos de atleta do ano. A sua vida mudou muito a partir daquele momento?

LM: Eu costumo ser muito coletivo. Não foi só a minha vida que mudou, foi a vida do goalball brasileiro. A gente vinhaolhos_5_200 de três, quatro anos, em que o Prêmio Paralímpicos saía só para atletas de modalidades individuais. Conseguir esse feito de trazer o Prêmio para o goalball foi muito importante porque mostrou a nossa força dentro do esporte paralímpico. Isso incentivou mais pessoas a praticar o goalball. Eu tenho certeza que o Prêmio deu um gás a mais para a nossa modalidade dentro do Brasil.

EE: Tem mais gente praticando o goalball, mais jovens procurando a modalidade?

LM: Na seleção mesmo, a gente tem quatro, cinco caras mais experientes e o resto é tudo garoto mesmo, que tem talento, só falta ser trabalhado. O treinador da seleção (Alessandro Tosim) gosta de trabalhar a base, então ele convoca atletas jovens para pegar experiência ali com a gente. Assim como fez comigo. Eu entrei na seleção com 16 anos. Hoje, com 22, já tenho uma experiência internacional muito grande. 

foto_3_594Leomon recebe de Aldo Rebelo, então ministro do esporte, o Prêmio Paralímpicos de 2014

EE: O Brasil fez algum intercâmbio com as grandes potências da modalidade para crescer?

LM: O Brasil criou uma característica mais sul-americana, mais alegre de jogar, mais intensa. Os europeus são mais pacatos. Equilibram o jogo na defesa e se tiver um golzinho, muito bom. Nós temos um sistema de jogo mais alegre. olhos_7_200Mas buscamos, sim, intercâmbio com outros países. Fomos para a Suécia, que é um país bastante tradicional no goalball. Antes do Mundial, fizemos alguns amistosos com a Turquia, que está se tornando tradicional. Todos esses intercâmbios ajudaram bastante a gente, além de o nosso técnico ser bem inteligente. Ele pega as equipes mais fortes, de dentro do Brasil mesmo, e leva para os nossos treinamentos para a gente ter aquele ar de competição. As equipes sempre vão focadas, querendo um bom resultado contra a seleção. É esse tipo de preparação que faz a diferença a nosso favor. 

Rio 2016

EE: São 12 seleções nos Jogos Paralímpicos. Você colocaria quantas equipes como postulantes ao pódio?

LM: Na minha cabeça, o Brasil vai deixar a medalha de ouro dentro de casa. A gente vai treinar para isso. Mas asolhos_8_200 outras equipes que vão disputar o pódio são essas mais tradicionais: Lituânia, Finlândia, Turquia, Estados Unidos. Acho que até a China vai brigar também. São esses os times mais fortes, mas nunca desmerecendo as outras equipes. 

EE: Há algum adversário que você considera mais difícil de enfrentar?

LM: As duas últimas finais importantes, Jogos Paralímpicos e Campeonato Mundial, foram entre Brasil e Finlândia. Nos Jogos de Pequim, em 2008, a final foi entre Lituânia e China. Mas, por incrível que pareça, a equipe que o Brasil ainda não conseguiu derrotar é a Turquia. É um time que tem uma defesa muito equilibrada, um ataque sem penalidades, sem faltas. Mas isso é bom para o nosso time. A gente gosta de desafios e de enfrentar equipes que gostam de defender. A gente não gosta daqueles jogos que terminam 12 a 10, 9 a 8. A nossa característica é de defender bem.

foto_5_680

EE: Participar dos Jogos Paralímpicos em casa.

olhos_9_200LM: É um sonho. Eu vou estar muito motivado. O brasileiro é muito emotivo. A gente gosta de emoção. Tenho certeza que a torcida vai comparecer em peso na Arena do Futuro. Lá cabem 12 mil pessoas e quero 12 mil corações pulsando pela gente. Dentre esses corações, com certeza vão estar alguns familiares. Isso vai me incentivar muito a jogar bem. Cada gota de suor que for derramada vai ser para todos os brasileiros que estiverem torcendo pela gente. 

EE: Os Jogos em casa podem contribuir para a melhora da vida do deficiente no Brasil?

LM: Acho que sim. É uma abertura que tem para a população brasileira conhecer um pouco mais sobre as pessoas com deficiência. Saber que as pessoas que possuem algum tipo de deficiência não ficam como coitadas, mimadas pelos familiares. Elas têm que correr atrás da vida, trabalhar. Os Jogos Paralímpicos vão abrir muitos caminhos para a melhora do tratamento das pessoas com deficiência. Às vezes a gente chega ao restaurante com cão-guia e algumas pessoas ficam meio receosas de deixar a gente entrar. Penso que os Jogos vão abrir muitas portas. Alguns preconceitos vão cair. 

EE: O respeito aos deficientes ainda está muito aquém do ideal no país?

LM: Já melhorou um pouco nos últimos anos, mas ainda não é o que a gente precisa. Outro dia mesmo eu estava no aeroporto e um rapaz foi passar pelo detector de metal com um cão-guia. Foi detectada alguma coisa no cão e ficaram com medo de chegar perto do rapaz por causa do cão-guia, que é um animal totalmente dócil, adestrado. 

foto_4_690Camisa 4, à direita, Leomon comemora, com os companheiros de seleção, uma vitória no Parapan de Toronto

EE: Sobre ídolos: quem é a sua referência no esporte?

LM: Desde criança, eu tenho um ídolo. Pelo goalball ser um pouco parecido com o futebol, a gente faz muitas defesas parecidas com as que fazem os goleiros de futebol, eu tenho como o grande ídolo da minha vida o Rogério Ceni (goleiro do São Paulo que se aposentou no fim de 2015). Quando criança, eu enxergava um pouco mais, até meus 12, 13 anos, e acompanhei muito os títulos do São Paulo, torço pelo clube. Isso me faz ter a mesma determinação que ele teve, acreditar na minha profissão. 

EE: Que legal! E dentro do esporte paralímpico, no goalball ou em outra modalidade, há alguém que você admire muito?

olhos_10_200_01LM: No goalball, sem nenhuma dúvida, são os meus dois irmãos. Eles que me levaram para o goalball, eu acompanhava os treinos deles. Então, eles são meus ídolos mesmo. O Leandro já foi meu colega de seleção. No Mundial a gente tava junto, em Londres também. Mas meu outro irmão, Leonardo, o mais velho, foi o primordial de tudo. Ele que levou a gente para o goalball. Hoje eu dedico tudo a eles. É uma honra representar a minha família nos campeonatos. 

EE: Sobre doping no esporte, o que tem a dizer?

LM: Qualquer parte que saia da lei do esporte, eu condeno. Nós somos responsáveis pelo nosso corpo.

EE: Para você, o esporte é essencial?

LM: É essencial porque representa tudo na minha vida. Desde a base financeira, até a base sentimental mesmo. Eu costumo dizer que se tiver uma competição de cara ou coroa, eu estou dentro. Gosto de torcer e de competir. Então, é essencial o esporte na minha vida. 

EE: A meta do CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro) para os Jogos do Rio é alcançar a quinta colocação no quadro de medalhas. É factível?

LM: Acredito que sim. Em todas as metas que são traçadas para mim, pode ser pela minha mãe ou pelo presidente do Brasil, eu tento correr atrás o máximo para conseguir realizar. No goalball, todos os atletas estão empenhados para buscar o melhor desempenho e conseguir a medalha de ouro, tanto no masculino, como no feminino. Conheço atletas das outras modalidades também e tenho certeza que todos estão empenhados para buscar essa meta porque o CPBolhos_11_200 é um instrumento muito grande na nossa vida. Ele trabalha muito para a gente. 

EE: Para fechar, mande um recado para a torcida brasileira.

LM: O recado é que os ingressos já estão à venda. Entre no site do Rio 2016 e compre o ingresso para a modalidade que você gosta mais. Espero que seja o goalball (risos). Ter a arquibancada lotada é uma honra para a gente. Saber que todos os brasileiros estão torcendo pela gente dá sempre um gás mais. 

 

Fotos: Divulgação/CPB


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