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Lara Teixeira e Nayara Figueira (Nado Sincronizado)

19/02/2013
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nado-sincro_680Sincronia de corpo e alma

Por Katryn Dias

Vestindo maiôs coloridos nos tons vibrantes dos desenhos do artista plástico Romero Brito, e ao som da música de Arnaldo Antunes, o dueto brasileiro encantou o público durante as Olimpíadas de Londres, chamando atenção para uma modalidade linda, mas às vezes esquecida: o nado sincronizado. Por poucos décimos, Lara Teixeira e Nayara Figueira não se tornaram as primeiras brasileiras a participar de uma final olímpica. 

Formado em 2007, o dueto inova em coreografias modernas e figurinos irreverentes, mas sem esquecer o quesito técnico. A sincronia das duas vai além das piscinas e passa também para a vida. Amigas dentro e fora da piscina, Lara e Nayara apostam na dedicação, no trabalho duro e no amor ao esporte para seguirem em busca de um sonho comum, que é ver o nado sincronizado evoluir e ser reconhecido no Brasil.

"Acima de querer buscar medalhas e resultados, eu e a Nayara queremos fazer a divulgação do nado sincronizado, para que seja possível uma a massificação da modalidade dentro do Brasil" – Lara Teixeira

EE: Como foi o primeiro contato de vocês com o nado sincronizado?

Nayara Figueira: Eu vi uma apresentação no ginásio do Ibirapuera, que era de um grupo da escolinha que tinha lá. E foi amor à primeira vista. Depois disso, resolvi entrar para o nado sincronizado e comecei ali no próprio ginásio, quando tinha sete anos.

Eu comecei a treinar, me dedicava muito, e os resultados foram vindo. Logo depois, entrei para as seleções de base e quando cheguei à adulta, em 2005, vi que tinha chances de ir para campeonatos maiores. Ali eu percebi que não dava mais para brincar.

Lara Teixeira: Meus pais sempre me incentivaram a praticar esportes e desde os quatro anos de idade eu já frequentava o Tijuca Tênis Clube, no Rio de Janeiro. Eu fazia natação, para aprender a nadar, e ginástica olímpica, para ter uma maior desenvoltura. Ao todo eu fiquei três anos praticando, e, entre esses dois esportes, eu sempre ficava olhando o nado sincronizado na piscina. Eu sempre admirei o esporte, ficava esperando só para assistir o treino das meninas mais velhas. Aos oito anos, quando acabei todos os níveis da escolinha de natação, eu pude escolher entre ser federada na natação ou ir para o nado sincronizado. Eu escolhi o nado, até por gostar muito de ver o esporte. Meus pais sempre me incentivaram bastante, eles viam no esporte uma importante ferramenta para o meu desenvolvimento e minha educação. Então, fazia chuva ou sol, eu estava na piscina ou na ginástica.

Na verdade, eu nunca decidi “Vou ser atleta do nado sincronizado”. Foi acontecendo aos pouquinhos. Quando cheguei à seleção adulta que eu me vi numa situação mais profissional, não era mais hobby. E foi nos treinos para o Pan-Americano de 2007 que realmente percebi que eu estava começando uma carreira e queria seguir aquilo.

lara-nayara-pan-2011-satiro-sodre-texto_500EE: Como é a rotina de treino de vocês hoje em dia?

NF: Até a Olimpíada a gente estava treinando dois períodos, de sete a oito horas por dia. Desse tempo, eram seis horas dentro da água e duas horas para preparação física, fisioterapia, psicólogo. Agora está um pouco mais tranquilo. Fazemos seções de treino em um período só.

EE: Geralmente, vocês surpreendem o público nas apresentações por conta dos figurinos criativos. O maiô conta pontos nas competições? 

LT: O maiô não conta pontos, o que conta é o contexto. A gente começa a entreter o público e os juízes pelo tema que a gente vai apresentar na água e isso sim é o que vale, chama-se de nota de impressão artística. Na verdade, é o tema, relacionado com a música e a coreografia que a gente vai mostrar. Então, a gente tenta chamar bastante atenção logo no início para os juízes não terem dúvida nenhuma do que a gente quer mostrar.

EE: Em geral, quanto tempo leva para vocês desenvolverem o conceito de cada apresentação, montando coreografia, escolhendo música e figurino? Como funciona esse processo?

NF: A parte da criação demora entre 15 e 20 dias, mas a gente ainda fica certando alguns detalhes até a véspera do campeonato. A gente fecha mesmo a coreografia uns 20 dias antes da competição, depois não muda mais nada, para deixar bem fixa a coreografia na cabeça.

EE: De onde vocês tiram inspiração para pensar nos temas e nas músicas?

LT: Ah, de vários lugares. Nós temos sempre que estar ligadas. Quando vamos competir em um país muito diferente, a gente tenta estudar um pouco da cultura ou pensar no que a gente poderia inovar que o público e os juízes do local iriam gostar. Por exemplo, fomos foi para China em 2010 e fizemos o Yin-Yang. No México, ano passado, nós fizemos o Chapolin e o Chaves. Na Olimpíada de Londres, nós fizemos o corpo humano, pensando em um tema mundial, que todos pudessem entender. Então, tem sempre uma pesquisa antes. Nós também temos que ficar atentas para quais juízes vão estar na competição, se vão ser mais velhos ou mais novos e modernos, para nos adequarmos. 

lara-nayara_chaves_e_chapolin-mvpsports_500EE: Vocês já se apresentaram usando os mais variados maiôs, de Elvis Presley até Popeye. Mas as fantasias que mais fizeram sucesso foram Chaves e Chapolin. Como foi se apresentar no México homenageando os personagens de maior sucesso do país? Como foi a receptividade dos mexicanos?

LT: Foi uma delícia. Antes de nós entrarmos para competir, uma câmera foi nos bastidores filmar e já rolou uma fofoca, todo mundo queria ver o Chaves e o Chapolin. Na ocasião, nós terminamos na oitava colocação [do World Trophy], mas o pessoal veio falar com a gente dizendo: “Não importa. Para a gente, o Chaves e o Chapolin foram os melhores”. A gente conseguiu criar essa interatividade, as pessoas se identificaram com a apresentação, então foi muito gostoso. Também foi muito bom o feedback dos brasileiros, todo mundo queria saber. Eu fiquei sabendo por amigos que até homens que só se interessavam por MMA compartilharam o vídeo da nossa apresentação. Foi surpreendente.

EE: Nas Olimpíadas de Londres, vocês esbanjaram criatividade e ousadia, surpreendendo, principalmente, o público brasileiro. Com maiô desenhado pelo artista plástico Romero Brito e ao som de ópera rock vocês empolgaram o público na rotina técnica. Depois, vestiram o corpo humano ao som de Arnaldo Antunes na rotina livre. Como foi feita essa escolha?

LT: Para Londres, a escolha da ópera foi querendo colocar uma linha mais clássica e a gente foi com o maiô do Romero Brito para representar a cultura brasileira. Já a do corpo humano foi tentando num linha mais global, para que todo mundo se interessasse pelo tema. A gente representou algumas partes do corpo ao longo da apresentação e ousamos um pouco, no sentido de sair um pouco da linha do nado sincronizado perfeitinho. Nós quisemos fazer essa oposição de temas justamente para mostrar que nós conseguimos fazer os dois, tanto o clássico quanto uma coisa mais moderna.

lara-nayara-londres-2012-satiro-sodre2_500EE: Em Londres, vocês encerraram sua participação olímpica com o 13º lugar nas eliminatórias, a apenas uma posição da final. Como vocês avaliam o desempenho do dueto durante as Olimpíadas? E o que faltou para vocês avançarem para a final?

NF: Na verdade, acho que nós fizemos a nossa melhor nadada lá, nós estávamos bem preparadas física e mentalmente. Tanto que nós saímos da piscina muito satisfeitas e até depois, quando assistimos, nós gostamos muito. O problema é que o nosso esporte é um pouco subjetivo. A gente não gosta nem de colocar a culpa nisso, mas é o que acontece. Depender de outras pessoas para te julgar é um pouco complicado. Para nós, a gente estaria dentro da final, nós achamos que a nossa performance foi melhor do que de alguns países, mas infelizmente essa não foi a opinião dos juízes. Então, é um pouco complicado de falar. Mas a gente fez o que a gente podia, o que estava em nossas mãos.

LT: Essa é a segunda Olimpíada que eu e a Nayara ficamos em 13º lugar. A gente costuma falar que nem sempre o resultado reflete o nosso trabalho. Nós tivemos uma evolução muito grande mesmo, em todo o ciclo olímpico, desde Pequim. Nos Mundiais seguintes a gente ficou no 11º lugar e os juízes começaram a olhar para o dueto brasileiro com outros olhos. Mas tem uma série de coisas que, no nado, a gente tem que levar em conta. Nós tivemos uma preparação minuciosa de competições, fizemos a nossa parte, nos cobramos muito, fomos muito profissionais, mas tiveram alguns detalhes que não contribuíram para o resultado esperado, que era a final olímpica.

EE: Apesar disso, vocês continuam com a mesma meta para 2016: chegar a uma final olímpica?

LT: Com certeza! A gente continua treinando o dueto. Vai ter muita renovação para 2016, inclusive a equipe vai competir, porque como sede o Brasil ganha a vaga para participação da equipe, sem depender da classificação. A gente ainda está começando a treinar para esse novo ciclo olímpico, mas a nossa meta continua sendo estar entre as 12 melhores e chegar à final olímpica. Mas no geral, o Brasil tem que ter metas mais ambiciosas e ter um planejamento para isso. E eu falo isso como Confederação.

lara-nayara-corpo-divulgao_500EE: Vocês acreditam que competir em casa, com o apoio da torcida brasileira, pode ser um diferencial na disputa olímpica?

LT: Eu acho que a torcida pode tanto contribuir quanto pode prejudicar. Eu e a Nayara já passamos por essa experiência no Pan-Americano de 2007 e a primeira impressão é bem chocante. Eu lembro perfeitamente que tive vontade de chorar na hora que eu entrei para a minha primeira prova, que foi o dueto. Eu nunca tinha tido um situação em que estavam todos os meus familiares, amigos e todo o público brasileiro, aquele bem caloroso mesmo, lotando a piscina no nosso próprio país.

Então a gente precisa trabalhar muito bem as meninas novas que ainda não passaram por essa experiência para que todas possam levar a torcida pelo lado positivo, pensar que estão nos motivando. Com certeza é um ponto muito positivo competir em casa, mas a pressão também é muito maior e nós precisamos trabalhar o lado psicológico.

EE: Quando um dueto consegue empolgar o público com a apresentação, os juízes levam isso em consideração na hora de atribuir as notas?

LT: Eu costumo dizer que, como um teatro, a energia que a gente troca com o público, e a energia que a gente passa para os juízes acaba influenciando em uma nota um pouco mais positiva. Mas não conta para o juiz se o público gosta ou não. Como o juiz está um pouco mais longe da água, os nossos movimentos não são vistos tão de perto, então a gente tem que passar essa energia na coreografia, e não só nas expressões artísticas do rosto (que contam ponto).

EE: Quais são os principais pontos que os juízes avaliam durante as apresentações de nado sincronizado? 

LT: São duas notas que contam e cinco juízes para cada nota. Então, cinco juízes avaliam o quesito técnico, que é o quanto a atleta sai da água (quanto mais alto, maior a nota), o quanto se mantém na superfície, o quanto ela tem de explosão. Também tem alguns elementos técnicos que contam ponto, como por exemplo, quando a gente faz o espiral descendo.

E a outra parte, são outros cinco juízes que só julgam o mérito artístico. Aí eles levam em consideração o quanto a atleta representa o tema na coreografia, o quanto a música combina com a coreografia, o quanto a atleta nada (porque a gente tem que passar por todos os pontos da piscina, se movimentar o tempo todo), o artístico das feições.

E nós executamos sempre duas coreografias diferentes. Em uma delas, chamada de rotina técnica, tem seis elementos obrigatórios que todos os países devem executar. E no segundo dia, é a rotina livre, que as atletas não têm elemento obrigatório nenhum.

lara-nayara-podio-pan-2011-texto_565EE: Nos últimos anos, vocês vêm colecionando títulos invejáveis. Em 2011, no Pan-americano de Guadalajara, vocês trouxeram um bronze inédito para o país e, em seguida, a melhor classificação da história do nado sincronizado brasileiro num pré-olímpico, o nono lugar; e o ouro nos sul-americano absoluto em 2012. Como essas conquistas influenciaram a carreira de vocês?

LT: Nós mesmas nos cobramos muito, mais do que qualquer outra pessoa, e ficamos muito satisfeitas quando conseguimos um resultado positivo. É sempre bom ver que o nado está entrando na vida do país. Quando a gente tem um resultado inédito ou muito bom, as pessoas começando a comentar mais sobre o esporte. É bem legal ver a diferença nos últimos anos. Antigamente, as pessoas só falavam de nado sincronizado em Pan-Americano e Olimpíada e agora não. Agora a gente já vê nosso título de campeã sul-americana ser reconhecido, a gente vê um resultado de Mundial e Pré-Olímpico aparecer. Então isso é muito bom para o esporte. Acima de querer buscar medalhas e resultados, eu e a Nayara queremos fazer a divulgação do nado sincronizado, para que seja possível uma a massificação da modalidade dentro do Brasil.

EE: Na opinião de vocês, o que falta para o Brasil evoluir mais no nado sincronizado?

NF: Primeiramente, eu acho que está faltando muito planejando a longo prazo. A CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos) depende do patrocínio dos Correios, então é complicado de saber em quais competições a gente vai conseguir competir no ano. Porque para nós, atletas, quanto mais competições a gente participar, melhor. E também acredito que tinha que ter muito mais clínicas. As atletas brasileiras tinham que ir para fora, treinar com outras técnicas em outros países, e também trazer gente de fora para dar mais treinos aqui no Brasil. Isso aconteceu ano passado, a Leslie Sproule veio treinar a gente e nós crescemos muito com ela. Então, eu vi que esse é o caminho, mas infelizmente isso não é feito com frequência.

LT: Eu acredito que nós precisamos achar um pouco a linha de trabalho. Eu costumo pensar um pouco diferente do que a CBDA tenta fazer. Porque eles trazem num ano uma técnica canadense, depois uma russa, então nós atletas ficamos um pouco perdidas em relação a que linha a gente tem que trabalhar. Eu acho que o Brasil tem que, aos poucos, construir uma linha de trabalho mais forte, especificamente para o país, não tentar atirar para todos os lados. E também falta um pouco de planejamento. Como administradora, eu sempre penso que o planejamento e a gestão do esporte por trás das atletas é essencial para o resultado. Eu sempre cito o vôlei, que também não tinha estrutura nenhuma no Brasil e, aos poucos, com planejamento sério, foi alcançando resultados e é uma Confederação super bem estruturada, com títulos, ídolos e tudo o mais. Então, eu acho que nós precisamos trabalhar nesse sentido, porque existem muitas meninas novas que tem muito talento e às vezes são desperdiçadas por essa falta de planejamento.

lara-nayara-foto-divulgacaomvp-sports-texto2_651EE: Se vocês tivessem que fazer propaganda da modalidade, como vocês convenceriam jovens atletas a dar uma oportunidade para o nado sincronizado?

NF: Eu acho que o nado é muito bem visto aqui. Não vou dizer que ele está popularizado, mas as pessoas já sabem como é o esporte. Acho que o esporte vende porque é diferente, é bonito e mostra uma leveza na água, mas também é muito difícil. Então é uma mistura e quem começa a fazer, se apaixona. 

EE: No nado sincronizado, as maiores potências são Rússia, China e Espanha, que se mantêm no topo em praticamente todas as competições mundiais. Por que é tão difícil bater esses países? A tradição conta nesses momentos decisivos?

NF: Tem a tradição, mas também tem a cultura. A Rússia, por exemplo, tem uma cultura esportiva bem diferente da nossa. Aqui no Brasil é só futebol, futebol e futebol. E lá não, eles se dedicam a vários esportes. Além disso, a Rússia, assim como a China e a Espanha, têm um centro de treinamento para o nado sincronizado, então as meninas conseguem ter um retorno. É principalmente isso, lá fora, elas vivem do esporte. Aqui a gente, infelizmente, ainda não consegue isso. A gente faz muito por amor ainda e por enquanto está dando para continuar. Mas eu espero que no futuro, as meninas das novas gerações não tenham que optar entre trabalhar ou praticar e consigam ficar no esporte por muito mais tempo.

EE: Lara, no ano passado você iniciou um projeto de capacitação de nado sincronizado e já planeja a segunda edição para 2013 em São Paulo. Qual o principal objetivo do curso?

LT: Na verdade, eu tenho o projeto todo fechado e estou em busca de investidores. Há uma boa procura, tem muitos profissionais de educação física e até estudantes procurando saber se tem curso de nado sincronizado. O curso é basicamente para a capacitação de novos profissionais, para que já se formou em Educação Física ou quem está estudando ainda e quer ter conhecimentos de como se dar treinos para a iniciação da modalidade. Eu acho que isso também é fundamental para o nado conseguir crescer como esporte.

EE: Qual a principal meta do dueto para esse ano de 2013?

NF: Esse ano tem o Mundial de Esportes Aquáticos em Barcelona, em julho, e a gente quer entrar na final, o que a gente não conseguiu na Olimpíada. Provavelmente serão as mesmas competidoras do ano passado, então, queremos ficar entre as 12 primeiras.

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EE: Como vocês encaram a questão do doping no esporte?

LT/NF: O doping nunca foi uma coisa próxima para nós! No nado, nunca vimos uma caso positivo e também não temos polêmicas de suspeitas. Mas achomos que esse tipo de atitude por parte de alguém do meio esportivo não pode ser considerado um atleta. Somos desafiados todos os dias a chegar ao nosso limite e nos superar, e quem tenta usar artifícios não-naturais para obter resultado sai totalmente dos valores positivos que o esporte tem por de trás da performance

EE: Para vocês, o esporte é essencial?

LT/NF: Claro, para nós é mais que especial e essencial. Vivemos disso, estamos treinando para cada vez mais aperfeiçoar nossas técnicas e movimentos. Desde pequenas lutamos para alcançar nosso objetivo de sermos profissionais! 

Fotos: Divulgação/ MVP Sports/ Sátiro Sodré


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