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Julia Vasconcelos (Taekwondo)

06/04/2016
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06-04-capa-interna_julia-vasconcelos_680Arte: Paula Sattamini

Por Fernando Hawad

Julia Vasconcelos foi levada ao taekwondo por seu pai, praticante da arte marcial. Ainda criança, a paulista de São José dos Campos tomou gosto pelo esporte. Quando chegou à seleção brasileira juvenil, percebeu que fazia parte de um grupo de elite. 

Da seleção juvenil para a adulta. Da seleção adulta para a vaga olímpica. Em março, a atleta de 23 anos atingiu o ponto mais alto de sua carreira até aqui. Julia venceu a seletiva olímpica da categoria até 57kg, em Vitória (ES), e vai representar o Brasil no Rio 2016. 

Esporte Essencial: Como surgiu o taekwondo na sua vida? 

Julia Vasconcelos: Comecei em 1998 (com seis anos). Meu pai que me colocou no taekwondo. Ele, que já praticava, me levou para assistir uma aula. Eu acabei gostando e comecei.

olhos1_200EE: E quando você percebeu que o esporte ia virar uma profissão?

JV: Eu entrei para a seleção brasileira juvenil em 2009. Nesse momento eu pensei que dava para brigar por uma vaga na seleção adulta. E logo no ano seguinte, em 2010, eu consegui entrar na seleção adulta. Foi onde tudo começou. Essa fase de alto rendimento mesmo, de grandes competições.

EE: A gente sabe que ainda existe preconceito com mulheres em esportes de luta. Você chegou a sofrer algum tipo de preconceito?

JV: Não, graças a Deus eu nunca sofri nenhum preconceito. Às vezes aparece gente falando: “ah, isso é esporte de homem”. Mas a gente não pode dar importância para essas coisas. Se a gente der ouvido para essas pessoas, aí é que a gente não vai conseguir mesmo. Mas hoje em dia está tudo tranquilo quanto a isso. 

EE: O fato de seu pai ter lutado foi importante para você ter o apoio da família?olhos-8_200

JV: Com certeza. Meu pai era atleta bem antes de mim. Ele era do atletismo, antes de treinar taekwondo. Sempre praticou esporte e queria que eu seguisse o mesmo caminho. Então minha família apoiou, todo mundo apoiou, não teve repressão de ninguém. Infelizmente o meu pai faleceu há 12 anos. Deixou saudades. Hoje, tudo que eu faço no taekwondo é por ele. Tenho certeza que ele queria que eu estivesse nesse caminho que estou hoje. 

EE: Até esse momento em que você se estabeleceu como uma atleta de ponta havia dúvida entre seguir no taekwondo ou tomar outro rumo na vida?

JV: Sim. Eu tive um pouco de dúvida porque eu tinha 17 anos, estava terminando o ensino médio, pensava em fazer uma faculdade, passar no vestibular. Mas o taekwondo acabou ganhando mais evidência na minha vida e optei por continuar no esporte.

EE: Em termos de estrutura e patrocínio, está tudo bem atualmente?

JV: Hoje, aqui em São José dos Campos, eu posso contar com o apoio da prefeitura da cidade. Eu também tenho o apoio do Exército Brasileiro e tem um vereador aqui, chamado Valdir Alvarenga, que ajuda bastante a nossa equipe. olhos-2_1_200Quando surgem viagens que não estão previstas no nosso calendário ele ajuda a gente. Também tem o apoio da Petrobrás, através da Confederação Brasileira de Taekwondo. A estrutura hoje está bastante completa, mas antes eu só tinha o apoio dos meus pais. Eles que bancavam tudo para mim. 

EE: Vários atletas olímpicos têm essa parceria com o Exército. Como isso surgiu para você?

JV: As Forças Armadas, Exército, Marinha e Aeronáutica, possuem o Programa de Atletas de Alto Rendimento. Todo ano é lançado o edital para determinada modalidade. O atleta se inscreve e se atender as exigências deles, no meu caso, do Exército, entra como terceiro sargento. Eu entrei em 2013. O Exército precisava de uma atleta na minha categoria e eu resolvi me inscrever. Como já tinha alguns títulos nacionais e internacionais, fui selecionada para entrar. Você entra como sargento e fica durante oito anos servindo ao Exército como atleta. 

EE: Quais as normas que você precisa cumprir por ser uma atleta do Exército?

JV: Eles pedem para a gente divulgar a marca do Exército e também da Comissão de Deportos do Exército. Pedem também para a gente ter conduta desportiva militar. Além de civis, nós somos militares e precisamos dar exemplo para a sociedade. Em troca disso, a gente recebe salário como terceiro sargento. Nós temos todos os benefícios de um sargento. Há também algumas viagens e alguns compromissos militares que precisamos cumprir para eles. 

EE: Entendi. E como foi a experiência de participar dos Jogos Mundiais Militares, no ano passado?

JV: É uma competição de altíssimo nível. Muitos atletas que participam de Jogos Olímpicos e de Campeonatos Mundiais também são militares. Isso eleva bastante o nível da competição. Eu consegui uma medalha de bronze e foi muito importante porque dá uma visibilidade legal.    

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Rio 2016 

EE: A obtenção da vaga para os Jogos do Rio foi o momento mais marcante da sua carreira até agora?

olhos-3_1_200JV: Foi sim. A gente trabalhou muito. Desde dezembro eu trabalhei demais para conseguir essa vaga. Foi muito sacrificante, mas graças a Deus deu tudo certo.

EE: O que você espera da sua primeira participação olímpica?

JV: Vai ser uma responsabilidade muito grande. Mas vamos continuar o trabalho que estamos fazendo. Eu tenho uma equipe multidisciplinar muito competente aqui em São José. É só trabalhar que o resultado virá.

EE: Há alguma meta sua em relação ao resultado ou você procura não focar muito nisso?

JV: A gente vai focar na performance. Se tudo estiver como o planejado, tenho certeza que a medalha olímpica virá. É só a gente cumprir o roteiro aqui da equipe, fazer o que está programado, que eu tenho certeza que o resultado será positivo. Eu não penso tanto em ganhar a medalha em si. Penso em fazer o meu melhor. Assim, a consequência será a medalha. 

EE: O taekwondo é uma modalidade em que a torcida a favor pode influenciar muito na hora da luta?

JV: Particularmente, a torcida não me influencia muito na hora da luta porque a gente faz um trabalho de concentração muito grande. Eu acabo nem percebendo a torcida. Mas antes de entrar na competição a torcida é muito importante. 

EE: Na sua categoria tem alguma atleta que está muito acima das outras ou há um equilíbrio?olhos-4_1_200

JV: Tem umas europeias que são muito fortes. Uma belga, uma espanhola e uma britânica que eu acredito que serão as adversárias mais difíceis. Mas vou estudá-las bastante até os Jogos.

EE: Há intercâmbio entre os atletas brasileiros e os atletas de grandes potências do taekwondo, como coreanos, europeus?

JV: A gente faz o cronograma estabelecido pela Confederação Brasileira. Se surgir um intercâmbio com alguma equipe, a gente faz. Em julho, por exemplo, eu estou indo para a Coreia fazer uns 20 dias de treinamentos por lá. 

foto_3_660Julia comemora muito a conquista da vaga olímpica na seletiva realizada em março

EE: O taekwondo brasileiro melhorou muito da época que você começou para agora?

olhos-5_1_200JV: Sim. Quando houve o anúncio de que os Jogos Olímpicos seriam no Rio de Janeiro, começou um investimento muito grande. Com o investimento, consequentemente aparece o resultado. De 2013 para cá, a gente já teve três medalhas em Campeonatos Mundiais, medalhas em Grand Prix e ótimas colocações no ranking mundial. 

EE: Você acredita que esse investimento todo vai diminuir após os Jogos do Rio?

JV: Eu acho que sim. Acho que o único investimento que não deve acabar é o do Exército Brasileiro. Mas o apoio do Ministério do Esporte, patrocínio, isso eu acredito que vá acabar. Mas pode ser que retorne em 2018, dois anos antes da próxima Olimpíada, porque senão o Brasil não vai ter condições de brigar por uma boa colocação em 2020.

EE: O Rio 2016 pode deixar um bom legado esportivo para o país?

JV: Eu torço para que sim. Torço para que deixe um legado importante, para o esporte de base também. Mas quem vai saber disso é o governo. A gente fica na torcida para que dê certo.

EE: Vamos falar de um acontecimento triste. Você estava em Paris no ano passado, no dia daquele fatídico atentado terrorista. Conta para gente como foi aquele momento.

JV: Eu fui disputar o Aberto de Paris. O torneio ia ocorrer no sábado e no domingo. Cheguei lá na quinta-feira. Naolhos-7_1_200 sexta, que é o dia da pesagem, aconteceu aquilo tudo. Eu estava dividindo o quarto do hotel com a Josiane Lima, outra atleta brasileira. Quando houve o atentado, a gente estava muito perto. Nosso hotel ficava a três quilômetros de onde ocorreu o ataque. Ficamos desorientadas. A competição foi cancelada e nós tivemos um prejuízo muito grande porque pagamos tudo do nosso bolso. Tirei dinheiro de onde tinha e de onde não tinha para pagar passagem, hospedagem. Esse torneio ia ajudar a gente na pontuação para os Jogos Olímpicos. Acabou sendo cancelado e a gente jogou dinheiro fora. Mas nós lamentamos muito tudo aquilo que aconteceu lá. Foi um grande susto.

EE: Isso de você tirar dinheiro do seu próprio bolso para competir acontece com frequência ou foi uma ocasião isolada?

JV: Antes acontecia mais. Hoje, não tanto. Nós temos o apoio do vereador aqui da cidade e ele nos ajuda muito nessa questão. Mas quando eu não tinha o apoio dele, isso acontecia com bem mais frequência. 

foto_2_390EE: A Confederação Brasileira não dá o suporte nessas horas?

JV: É que acontece o seguinte. Durante o ano, a gente tem o calendário de competições estabelecido pela Confederação Brasileira. Eu também tenho o calendário do Exército e da cidade de São José dos Campos. Quando surge um torneio que não está dentro desses três calendários, eu tenho a opção de ir pagando do próprio bolso. E essa competição em Paris foi um caso desse.

EE: Você tem algum ídolo dentro do esporte?

JV: Tenho sim. É uma atleta francesa, que é a inspiração para mim. O nome dela é Gwladys Épangue. 

EE: Um sonho:

JV: Primeiramente, ganhar a medalha olímpica. Ano que vem vai ter o Campeonato Mundial e eu também quero brigar por uma medalha. E seguir conquistando os objetivos que a gente traça. Esse que é o sonho maior.

EE: Sobre doping no esporte:

JV: No taekwondo não ocorrem muitos casos de doping. Os casos que acontecem são de atletas que tomam diuréticoolhos-9_200 para perder peso com mais rapidez. Mas doping de anabolizante, para ganhar mais performance, não acontece dentro do taekwondo. Nessa questão somos mais tranquilos. Eu nunca tive problema nenhum, espero nunca ter. Eu tenho uma nutricionista, a Marcella Amar, e ela me passa tudo com muita responsabilidade. A gente trabalha com bastante segurança.

EE: Para você o esporte é essencial?

JV: Com certeza. Se eu não fosse atleta, não sei o que eu seria. Esporte é o meu trabalho, a minha profissão. É essencial para mim e para a minha família porque mudou completamente a minha vida. 

Fotos: Reprodução/Divulgação


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