Últimas Notícias

Homem é preso após ameaça de bomba e tenta levar avião a Soshi...
Esporte que constrói o Brasil.

ENTREVISTAS

Jucelino Silva (Remo Paralímpico)

31/03/2015
Esportes relacionados:

jucelino-capa_680

 

Por Katryn Dias

Nascido em uma família humilde, Jucelino Silva teve uma infância difícil e, aos 10 anos, descobriu que tinha atrofia muscular nas pernas. Ainda adolescente encontrou no remo uma atividade que lhe conferia paz e a possibilidade de uma vida melhor. Por seu porte físico magro e pequeno, foi escolhido para ser timoneiro do Flamengo, clube em que trabalhava como office boy. 

Hoje Jucelino é integrante da seleção paralímpica de remo e sonha em disputar uma edição dos Jogos Paralímpicos. Para alcançar esse objetivo, largou o trabalho e está se dedicando exclusivamente ao esporte.

 

Esporte Essencial: Conta um pouquinho da sua história.

Jucelino Silva: A minha história começou quando minha mãe veio de Minas Gerais para o Rio de Janeiro e me teve aqui. Com cinco meses, tomei a injeção de poliomielite – há 42 anos a vacina ainda era injetável – mas só fui descobrir que estava com atrofia aos 10 anos. Eu sou deficiente físico, o que não me atrapalha em muita coisa hoje. Só tenho uma perna bem mais fina que a outra. 

jucelino-flamengo-2_400Aos três anos, minha mãe me colocou em um colégio interno por não ter condições de me criar. Ela trabalhava, era empregada doméstica, morava numa favela, nunca entrou em um colégio e não tinha nada. Quando eu tinha 14 anos e já tinha saído do colégio, a patroa da minha mãe, que era aeromoça, foi transferida para a Alemanha e a levou junto. Então, com 15 anos praticamente fui jogado no mundo. Não diria abandonado, porque eu tinha casa, só precisava me virar sozinho.

EE: Você tinha mais família no Rio?

JS: Eu não tinha ninguém. A outra parte da família só vim a conhecer muito mais tarde. Eu não sabia que tinha uma irmã, minha mãe viveu escondendo isso de mim até 2005. Um dia apareceu essa irmã, já com uma filha de 19 anos, procurando a minha mãe. Eu me emociono muito falando sobre isso...  

Quando a minha mãe voltou da Alemanha, dois anos depois, eu já trabalhava no Flamengo como office boy, um emprego que arrumei sozinho. Se hoje sou um atleta da seleção brasileira paralímpica, é porque Deus colocou muita gente boa no meu caminho. O esporte salvou a minha vida. E acredito que fui escolhido para fazer o bem. 

01_200_21EE: Antes de conhecer o remo, você teve algum contato com outras modalidades esportivas? 

JS: Eu tentei (risos). Quando tinha 16 anos, já office boy do Flamengo, tentei entrar para as escolinhas de base do futebol. Como toda criança de comunidade, sonhava em ser jogador de futebol. Os médicos fizeram análise na minha perna esquerda, que é a mais fina, e viram que eu não teria condições. O pessoal falava que eu jogava bola bem, corria bem, tinha habilidade, mas mesmo assim não ia conseguir alavancar uma carreira por causa da deficiência.

 

Os primeiros passos como atleta

 

EE: Como veio o convite para ser timoneiro?

JS: Em 1992, o clube passou por uma crise e muitos funcionários foram demitidos. Eu era um desses que seria mandado embora. Como um antigo patrão da minha mãe tinha remado no Flamengo e conhecia o treinador Buck [Guilherme do Eirado], me levou para ver uma regata. Quando o Buck me viu, pequeno do jeito que sou, perguntou logo se eu não queria ser timoneiro. Na época, eu nem sabia o que era ser timoneiro e morava muito longe, em Bangu. Eles insistiram tanto que eu acabei indo conhecer e fiquei três anos treinando sem maiores ambições. Fui gostando e fui ficando...

03_200_19EE: Muitos atletas começam no esporte ainda crianças. Você acha que por ter começado mais tarde a aprendizagem foi mais difícil? Como foi seu início no remo?

JS: Eu não conhecia nada a respeito do remo. Garoto de comunidade só conhece futebol, pipa, peão, bolinha de gude... Essas eram as brincadeiras com que eu tinha contato na infância. Então o início no remo foi difícil, principalmente porque eu sentia um pouco de discriminação. 

EE: Discriminação por ser deficiente?

JS: Não pela deficiência, até porque naquela época não existia muito esporte paralímpico. O remo, por exemplo, só veio a ingressar nos Jogos Paralímpicos a partir de 2008. Então não foi por isso. Eu me sentia excluído pela minha condição social. Não era pela cor da pela, era por morar em comunidade. As pessoas no clube demonstravam isso muitas vezes com palavras e até com gestos e atitudes. Naquela época, a maioria dos remadores morava na Zona Sul e tinha uma renda melhor.

Mas aos poucos eu fui quebrando esse preconceito com meu bom humor e meu empenho. Hoje em dia a situação já está melhor para todos. Não fui eu que quebrei a barreira, mas acho que contribui. As gerações vão aprendendo e ensinando para as seguintes.

 

jucelino-flamengo-antiga_670

A equipe de remo do Flamengo, com Jucelino (terceiro em pé da esquerda para direita), em 1994

 

 

04_200_22EE: Como foi mudar a vida para a rotina de um atleta?

JS: Eu nunca fui de curtir night, então não tive tanto problema para me adaptar à rotina. O meu jeito sempre foi pacato mesmo, caseiro até. Eu fiquei um ano indo de Bangu para o Flamengo, chegando lá para treinar às 4h30, 5h. Isso sem faltar um único dia! Tinha folga aos sábados à tarde e domingos o dia inteiro. Eu pegava o ônibus por volta das 3h30 para não atrasar e era sempre um dos primeiros a chegar. Só mais tarde fui conseguir o alojamento do Flamengo, que foi quando passei a estudar à noite.

Não entrei para o remo pensando que ia salvar a minha vida em termos financeiros. Então, não deixei de trabalhar. Eu treinava de manhã, trabalhava e, à noite, estudava. A primeira coisa que ganhei no Flamengo foi, depois de dois anos, uma bolsa de estudos para terminar o segundo grau. E ganhava também uma quentinha por dia e R$50 por semana, que o Buck tirava do próprio bolso e me dava. Eu sabia que não ia ficar rico, sabia que aquilo ali estava me ajudando.

EE: Quando foi que você começou realmente a treinar para competir?

JS: Competi pela primeira vez em 1994, foi quando o remo começou a ficar um pouco mais sério. Antes disso, eu participava de algumas provas para ir acostumando e a comissão técnica ver meu desempenho. A minha primeira viagem foi em 1995. Fomos para um Campeonato Brasileiro em Vitória. Em 1999, quando eu já estava na seleção brasileira olímpica – na época não existe a paralímpica –, participei do Mundial Sub-23* na Dinamarca. Hoje em dia estou na seleção paralímpica desde 2007. 

*Segundo o regulamento da competição, os remadores precisam ter até 23 anos, mas o timoneiro pode ser mais velho. 


jucelino-remo-flamengo-texto_670

Na água, com a equipe do Flamengo

 

 

O ano pré-olímpico

 

05_200_18EE: Como está a sua programação de competições?

JS: O ano pré-olímpico é sempre mais puxado. Em maio, nós vamos ficar cerca de 40 dias na Europa, porque temos três competições já visando a Paralimpíada de 2016. Depois em agosto, tem o Mundial na França, que já distribui as oito primeiras vagas para a Paralimpíada. No ano que vem, serão disputadas as outras quatro vagas. Eu acredito que nossa equipe já vá conseguir a classificação agora em agosto. Se olharmos o histórico do último Mundial, que foi na Holanda, nós terminamos em quinto lugar, mesmo sem a formação titular do barco. Este ano nós vamos com todos os titulares e acredito que o resultado seja melhor. Mas se ficarmos entre os oito, já está ótimo.

EE: Como é a formação do seu barco titular?

JS: O meu barco é misto, dois homens e duas mulheres. Pelo regulamento, os barcos podem ter quatro deficientes físicos ou, no máximo, três físicos e dois visuais. Nunca pode ter maioria de deficientes visuais. O meu barco tem dois homens deficientes físicos e duas mulheres deficientes visuais. Além disso, tem duas outras pessoas correndo por fora, esperando uma vaga para entrar.

 

jucelino-paralimpico-texto_670

Jucelino, de costas, comandando o barca da seleção brasileira paralímpica

 

06_200_14


EE: Vocês só treinam juntos durante competições internacionais?

JS: Cada um treina nos seus clubes, fazendo seu trabalho com o mesmo foco. Geralmente, 15 dias antes da competição nós começamos a treinar com o barco da seleção. Como já nos conhecemos, esse tempo basta para nos encaixarmos.

Seria melhor ter uma seleção permanente, que treina sempre junta. Mas isso depende dos trâmites das Confederações e do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), além de envolver dinheiro. Essa questão foge da alçada dos atletas. Nós já fizemos essa solicitação, mas não somos nós que decidimos. Para os atletas, com certeza seria bem melhor.

EE: Como você encara a responsabilidade de ser os olhos do barco, quando está na água com deficientes visuais?

JS: Eu me sinto super satisfeito em poder transmitir minhas emoções a quem não pode visualizar. Mas tenho certeza que as imagens chegam para eles em forma de sentimento.

07_200_19EE: Qual a sua expectativa para as Paralimpíadas do Rio? Acha que vai ser diferente competir em casa?

JS: Com certeza. É outra coisa representar o seu país estando aqui. Nós conhecemos muitos atletas estrangeiros e muitos falam que a melhor coisa seria disputar uma Olimpíada ou Paralimpíada no próprio país. É uma oportunidade que nós não sabemos se vai se repetir. Sei que vai ser difícil, porque vai ter pressão. Mas deve ser muito legal.

EE: É uma vantagem já treinar na raia olímpica?

JS: Acho que não. O que faz diferença, na verdade, é treinamento. Na Copa do Mundo, por exemplo, a seleção brasileira, jogando em casa, não fez um campeonato legal. 

 

Apoio e patrocínios

 

jucelino-silva-texto_470EE: À medida que você foi evoluindo no remo, entrando para as seleções, chegou a conseguir patrocínio?

JS: Não, isso nunca aconteceu. A forma de me manter sempre foi trabalhando. Eu não entendia o trâmite de patrocínio, então nunca me enchi os olhos para isso.

EE: A seleção paralímpica te dá alguma ajuda?

JS: Hoje em dia a seleção dá sim. Na verdade, o timoneiro é um atleta e também membro de comissão técnica. Quando nós viajamos, geralmente recebemos diária. É mais como se fosse uma gratificação para quem deixa o trabalho para estar com a seleção. 

Ano passado, eu enfrentei uma situação familiar difícil e tive que sair do meu trabalho. Pela primeira vez, fiquei só com o remo, que é uma coisa que eu amo. O remo me deixava mais tranquilo. E quando eu viajava para competir, voltava renovado.  

EE: Você está conseguindo se manter só com a renda do remo?

JS: Eu guardei um dinheiro da minha recisão do último contrato e das parcelas do seguro desemprego. Além disso, vou ganhar as diárias das viagens desse ano. Assim vou levando... Se eu arrumar qualquer trabalho com carteira assinada agora, todo o meu sonho de disputar a Paralimpíada acaba. Qual empresa que vai me liberar várias vezes durante o ano para participar de competições? Ainda mais que vou passar mais de 40 dias na Europa ainda no primeiro semestre. Então, sou bem sensato, não posso para arrumar nada agora. Eu quero disputar a Paralimpíada. 08_200_19Depois de 2016 eu arrumo minha vida.

Nos últimos anos, quando eu estava trabalhando, sempre encaixava as viagens no meu período de férias. No início do ano, fazia um planejamento com a Confederação e passava para a empresa colocar as férias para aquelas datas. 

 

O remo hoje no Brasil

 

09_200_08EE: Você projeta bons resultados para o Brasil no remo a longo prazo?

JS: Não sei... O remo não é um esporte característico sul-americano. É um esporte de europeu. Nós temos a Fabiana Beltrame, que foi campeã mundial, mas acho que outro feito desses não vai acontecer em muitas décadas.

EE: Por quê? Falta investimento?

JS: Hoje em dia não mais. Com a Olimpíada aqui, o investimento aumentou bastante. O que falta mesmo para o remo são atletas. É muito escasso. Tem remadores que já vão participar da quinta ou sexta Olimpíada, com quase 40 anos, como o Macarrão [Anderson Nocetti]. E ele consegue a classificação por mérito próprio, não é decisão política. Isso tudo porque não tem renovação. Não temos outros brasileiros para substituí-lo. Os novos atletas que aparecem param porque precisam trabalhar. Lá 10_200_06fora não é como aqui, os atletas vivem do esporte.

EE: Qual a sua posição sobre o doping no esporte?

JS: Eu acredito que na maioria dos casos de doping o treinador ou alguém acima do atleta está sabendo. Os atletas de ponta que querem se manter no topo acabam caindo na lábia de espertos que querem se dar bem. Por isso, acredito que os treinadores também deveriam ser punidos, se ficasse provado o envolvimento.

EE: Para você, o esporte é essencial?

JS: O esporte é essencial porque me faz viver. É complicado dizer, mas acho que minha vida seria diferente sem o esporte. A minha mãe nunca me incentivou a estudar, foram os amigos que começaram a me aconselhar. O esporte me faz respirar. O esporte em si salvou a minha vida.

 

Fotos: Arquivo pessoal de Jucelino Silva


Fatal error: Call to a member function getLink() on a non-object in /home/storage/a/b4/92/memoriaolimpicabrasi/public_html/incs/coluna_direita_noticias.codigo.php on line 27