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Esporte que constrói o Brasil.

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José Cruz (Jornalista)

21/08/2014
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Com tantos recursos, o esporte brasileiro não pode morrer na praia

 

Por Fabiana Bentes

José Cruz é jornalista e atua em Brasília há 34 anos, sendo há 24 anos envolvido com o esporte. Trabalha incansavelmente para expor à sociedade a atuação pública e privada em relação ao esporte no país, seu impacto social, a utilização de recursos públicos e é defensor radical da implementação de políticas públicas que tenham como premissa o investimento no esporte de base. Nessa entrevista ao Esporte Essencial, Cruz detalha como funciona, na  visão dele, a gestão do esporte brasileiro.
 

Esporte Essencial: Cruz, você é uma pessoa chave no processo de desenvolvimento do esporte brasileiro pela sua ininterrupta atuação como jornalista que investiga a gestão e suas ramificações. Mas vamos começar pelas coisas boas. O que o Brasil tem de bom na gestão esportiva pública e privada?

jose-cruz-em-brasilia-texto_450José Cruz: Eu acho que o grande aspecto positivo é nós termos um Ministério do Esporte (ME), que era uma reivindicação antiga. Nós tivemos Ministério do Turismo, Secretaria de Turismo e Esporte, depois Secretaria Extraordinária do Esporte, Secretaria do Esporte, mas nunca tínhamos tido um Ministério exclusivo. Nós temos isso já há 11 anos, desde 2003. No Executivo, então, nós temos o Ministério do Esporte e, no Legislativo, a Comissão do Esporte na Câmara Federal e a Comissão de Educação e Esporte no Senado Federal. E todos os demais órgãos que formam o sistema nacional do esporte, como o Comitê Olímpico e Paralímpico, as Confederações e Federações, estão legalmente constituídos. Temos uma vasta legislação, o que não falta no Brasil é legislação – acho até uma intromissão exagerada do Estado, mas isso já é outra história. Temos toda a legislação funcionando e muitos recursos financeiros. Aquilo que faltava até 2003, que eram recursos, não falta mais. Até o governo Fernando Henrique Cardoso, era difícil ter recurso, era exclusivamente recursos de loterias e olhe lá. Além de termos as instituições funcionando, a legislação e os recursos financeiros aplicados, nós temos potencial humano em quantidade. Nós temos hoje em torno de 40 milhões de estudantes nas nossas escolas. Isso é um aspecto positivo e um potencial que pode ser explorado. Mas não está sendo explorado da forma que deveria. 

Então, o principal aspecto positivo é essa estrutura institucional da qual nós dispomos. Ela existe e está funcionando, com todas as pessoas legalmente instituídas em seus cargos.

EE: Num panorama diretamente ligado aos Jogos Olímpicos, que aspecto positivo você vê?

JC: O aspecto positivo é que nós vamos sediar o maior evento esportivo mundial, junto com a Copa do Mundo. Então, o Brasil vai ter esse privilégio. Repara bem, não é só a Olimpíada. Depois nós vamos ter a Paralimpíada e, em 2018, ainda vamos ter a Universíade, que será em Brasília. E nós já tivemos os Jogos Mundiais Militares, os Jogos Mundiais Estudantis, a Copa das Confederações e os Jogos Pan-Americanos, que foi o que abriu as portas em 2007. Então, a Olimpíada e a Paralimpíada são o ápice dessa série de eventos que o governo decidiu trazer para o Brasil. Com isso, eu acredito, assim como os próprios organizadores do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), virão os investidores. Nós falamos muito disso na Copa do Mundo. Ainda não vimos resultado porque é um resultado que aparece a longo prazo. Ao contrário do que aconteceu no Pan-Americano, na Olimpíada vamos ter essa participação dos investidores. Para a economia, isso é importante, é a forma que o esporte tem para movimentar a economia.

 

A experiência valeu?

 

EE: Olhando o que já passamos nesses eventos recentes, como podemos avaliar se valeu e se valerá a pena sediar estes megaeventos?

JC: Aí que começa a parte crítica da questão. Nós já tivemos Jogos Pan-Americanos, Jogos Mundiais Militares, Copa das Confederações, Copa do Mundo e, recentemente, o evento-teste da vela na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Como é que o Brasil captou nesses eventos resultados para o desenvolvimento do seu esporte? Eu dou 08_200_01exemplos. Aqui em Brasília, nós tivemos os Jogos Estudantis Mundiais e os estádios estavam vazios. A organização não teve a preocupação de colocar ônibus à disposição dos estudantes e professores para levá-los aos estádios para verem um evento internacional com a participação de atletas que, quem sabe, estarão aqui na Olimpíada ou na Universíade. 

Isso acontece porque falta a nós brasileiros a cultura do esporte. Nós temos a cultura do futebol, mas não do esporte. Será que as nossas escolas, por meio dos professores de Educação Física, estão orientando seus alunos para mostrar o que significa a Olimpíada para o Brasil? As origens da Olimpíada, as modalidades, as regras básicas... Será que os nossos estudantes estão se preparando para acompanhar esse evento como deveriam? Isso também já faz parte da educação do esporte. Então, é isso o que eu digo, a nossa cultura esportiva ainda é muito frágil e pobre, para o tamanho do evento que vamos receber.

EE: Esses eventos prometem um legado, não só de estrutura, mas social...

JC: Nós estamos em 2014, sete anos depois do Pan-Americano, que foi para nós um grande evento que antecede a Olimpíada. O que ficou para o Rio de Janeiro depois dos Jogos Pan-Americanos? Tem o estádio do Engenhão fechado, porque a cobertura estava caindo; tem o Velódromo demolido, que custou R$ 15 milhões (vão construir um outro que vai custar R$150 milhões); tem o Estádio de Remo da Lagoa, que foi terceirizado para uma empresa que ali fez um centro de consumo, limitando o espaço dos remadores; o estádio de atletismo Célio de Barros, que foi totalmente asfaltado para servir de estacionamento de luxo para a Copa do Mundo... Então, o que ficou de fato de legado para a comunidade? Como a comunidade do Rio de Janeiro usou aqueles espaços nos últimos sete anos? Sem a pista do Célio de Barros, mais de 300 garotos foram prejudicados e estão sem treinar ou treinando em pistas improvisadas a dois anos da Olimpíada. 

Aí entra a questão maior, que é a falta de entrosamento entre as ações do governo federal, que trouxe os eventos, os Comitês Organizadores, as Confederações, os governos estaduais e as prefeituras. Eles não falam a mesma linguagem. Principalmente porque nós temos um empecilho político: a cada quatro anos, muda prefeito e governador. É da nossa cultura o governante que entra não dar continuidade às obras que ficaram, mesmo àquelas que já estão quase prontas. Por conta disso, o diálogo fica prejudicado e o prejuízo maior é para a população, porque as instalações não são aproveitadas como deveriam. 

O que foi feito no estádio de natação Maria Lenk? Qual foi o grande projeto desenvolvido lá? O que aconteceu com os ciclistas que usavam o Velódromo e de repente souberam que aquilo ia ser demolido? Repara que, ao mesmo tempo em que o governo trabalha para trazer as megacompetições para o Brasil, ele não se prepara para tirar resultados em favor da comunidade. Inicialmente, dos atletas e, depois, da população em geral, que até constitucionalmente tem direito de praticar esporte. Nós estamos sete anos depois do encerramento do Pan-Americano e não temos o relatório final do Tribunal de Contas da União (TCU), porque ainda existem processos abertos.

 

Recursos públicos e política

 

EE: No caso do TCU, é dinheiro público ou são obras gerenciadas pelo comitê organizador?

JC: Todos esses eventos que citei, inclusive os Jogos Mundiais Militares, têm dinheiro das três áreas do governo: federal, estadual e municipal. E também da iniciativa privada. No caso do Pan-Americano, da Olimpíada e da Paralimpíada, há dinheiro do próprio comitê organizador.

EE: Na questão específica do Pan, o que está no TCU é em relação ao dinheiro público?

JC: Sim, especificamente em relação ao dinheiro público. O TCU só audita os recursos liberados pelo governo federal.

EE: Então, o Comitê Organizador não tem responsabilidade sobre esta má gestão de recursos públicos...

JC: Mas muitos recursos do governo foram gastos pelo comitê organizador. Eu vou dar alguns exemplos. O Brasil comprou cinco mil tochas pan-americanas e recebeu 450. Quando terminaram os Jogos, os auditores foram para dentro da Vila Pan-Americana e encontraram 880 caixas fechadas com aparelhos de ar condicionado que o governo federal pagou e não foram instalados até o final dos Jogos. E vou te dar mais um exemplo e esse é estarrecedor. A área de segurança dos Jogos Pan-Americanos, quando a Polícia Federal e os demais órgãos chegaram ao Rio de Janeiro para tomar conta, dois ou três meses antes dos Jogos, viram que a estrutura era frágil e precisava de um aperfeiçoamento. Naquela altura, não dava mais tempo de fazer licitação. Então fizeram termos aditivos ao processo original da área de segurança do Pan. E ao final, os auditores do TCU identificaram que esses aditivos aumentaram a conta da segurança em 16.000%. Olha a complexidade dessas informações. Por isso que se demorou tanto para concluir, porque tudo tinha que ser muito checado, muitas pessoas tinham que ser ouvidas. Isso é só para ilustrar a complexidade que é organizar um evento desse tamanho, com participação e recurso do governo federal. No Ministério em que nós não temos pessoas especializadas e, principalmente, num Ministério que é do partido PCdoB, que tem que dialogar com o governo federal do PT, governo do Rio do PMDB. E assim por diante. Esses partidos tornam difícil a comunicação entre as esferas.

 

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Trocando experiências com o colega de profissão Andrew Jennings, responsável por investigar a Fifa

 

EE: Isso acontece porque transformam o esporte em ferramenta política, não é?

JC: Com certeza. O ex-prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, quando sentiu que a prefeitura estava ficando atrás na divulgação do Pan, porque quem aparecia nas entrevistas era o presidente Lula, o ministro Orlando Silva e o governador do estado, ele disse que não botava mais dinheiro e não botou. Houve uma correria, veio todo mundo para o Palácio do Planalto, passaram dois dias reunidos e o governo federal teve que bancar a conta, senão não sairia Pan. Então, de fato, a briga é também política.

 

Gestão pública

 

EE: De certa forma, acredito que vamos amenizar este problema com a atuação da Autoridade Pública Olímpica (APO). Na entrevista que fiz com o General Azevedo e Silva, ficou claro para mim, de certa forma, sua neutralidade entre os poderes e o fato dele ter recebido o trabalho como uma missão e não como um cargo político.

JC: Sim. O atual presidente, o General Azevedo e Silva é uma excelente pessoa, um militar experiente e ex-atleta. Ele é que serve de mediador entre os partidos políticos. Quando a coisa começa a ficar conturbada, ele entra em campo. Pelo que eu notei quando conversei com ele, me parece uma pessoa preparada psicologicamente para lidar com isso.

EE: Você vê uma necessidade de mudança no ME? O que seria uma gestão adequada?

JC: O problema não é do ME, é do governo. E não é do atual governo ou do anterior e sim da história política do Brasil. Ao assumir o governo, os presidentes distribuem os Ministérios entre os partidos e cada um faz o que bem entende. Grandes escândalos já aconteceram... No Ministério do Esporte, tivemos um grande escândalo com o Orlando Silva e com o Agnelo Queiroz, que até hoje está sendo investigado na Polícia Federal, etc. Então, o problema é que nos Ministérios nós temos a pessoa política e não o técnico. É difícil imaginar uma Esplanada dos Ministérios sem um político comandando, com o Congresso Nacional ali fazendo exigências que faz para o Palácio do Planalto. 

 

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Cruz ao lado de Ana Moser e Andrew Parsons na Comissão de Educação, Cultura e Desportos do Senado


EE: Faltam pessoas ligadas ao esporte na gestão, ex-atletas de renome que são absolutamente capazes de administrar, você não acha?

JC: Sim, claro! Como entender que nós tenhamos à frente do ME uma pessoa como o Agnelo Queiroz (o primeiro ministro), que não sabia diferenciar um taco de golfe de um bastão de beisebol? Ele era um ignorante no meio esportivo. Na verdade, quem segurou a corda para ele foi Gil Castello Branco, que foi o criador da Lei Agnelo-Piva. Porque o Agnelo assinou sem nem saber o que estava assinando. 

Depois nós tivemos lá como presidente o Orlando Silva, que é um ex-presidente da UNE. Se ele estivesse, de repente, o Ministério da Educação poderia ter sido um grande gestor, porque estaria falando a mesma linguagem dos estudantes. Mas não para o ME, onde ele tentou fazer política e a base eleitoral para ser eleito deputado federal agora nessa próxima eleição. Teve um grande escândalo. 

E finalmente temos lá um gestor que é uma pessoa séria, eticamente responsável, mas de esporte, se tornou um grande gerente de obras da Copa do Mundo, que é o nosso ministro Aldo Rebelo. Ele conhece muito a política, foi presidente da Câmara, é uma pessoa respeitada e talvez por isso a presidente Dilma o tenha colocado lá, porque naquele momento o ME precisava de uma pessoa que trouxesse credibilidade. Ele chegou para substituir o Orlando Silva e deu essa credibilidade. Mas chegou lá para tomar conta da Copa do Mundo e da Olimpíada, tendo saído da relatoria do código do meio ambiente. Então, Aldo passou um ano discutindo meio ambiente e, de repente, descobriu que tinha que cuidar da construção de estádios. É assim que a gente faz o esporte no Brasil. Nós temos sob o comando do ministro Aldo, o  Conselho Nacional do Esporte, que é, nada mais nada menos, do que um conselho que se reúne para homologar as decisões dele. Não é um conselho que discute e propõe. Ali tem representação de todos os segmentos, de técnicos, de arbitragem, de atletas, de empresários e de dirigentes. Todos estão lá, mas o representante dos atletas vai dialogar com os atletas para levar para o conselho os problemas deles? Esse é mais um órgão de enfeite nessa grande estrutura que nós temos.

 

Programa Bolsa-Atleta

 

EE: O Bolsa-Atleta é um programa que tem como objetivo manter os atletas no esporte. Como você vê essa iniciativa?

JC: O Bolsa-Atleta foi mais uma ação criada por Gil Castello Branco, isso tem que ser dito. O Gil é um carioca que mora em Brasília há muitos anos, trabalhou na área de orçamento do governo federal e no Congresso Federal. Ele se tornou amigo do Agnelo Queiroz e foi parar no ME. É um ex-atleta, que praticou basquete, remo e vôlei. A esposa dele é amazona, e o filho dele jogou tênis e hoje é triatleta. Então, o Gil tem uma família de desportistas e vive o esporte. Ele via atletas chegando no gabinete do Agnelo pedindo dinheiro para uma competição, para comprar um tênis ou um medicamento. Conhecendo toda a estrutura, o Gil resolveu pesquisar para criar o Bolsa-Atleta. Com base no que pesquisou, elaborou um texto explicando que a grande vantagem é que o dinheiro vai diretamente para a mão do atleta. Bom, o que acontece hoje... O Bolsa-Atleta não pode mais ser visto hoje de forma individualizada.

EE: Você poderia detalhar sua visão sobre o Bolsa-Atleta, então?

JC: Vou te fazer uma colocação que é a fonte de origem do nosso esporte. Nós temos dinheiro do orçamento federal e recursos de seis estatais (Banco do Brasil, Caixa, Petrobrás, Correios, Infraero, etc.), da Lei Agnelo-Piva (recursos das Loterias Federais repassadas para COB e CPB) e da Lei de Incentivo ao Esporte, que são 400 milhões por ano. Então, nós temos hoje fontes de recurso para financiar o esporte. O COB abre esses recursos para as Confederações, que por sua vez financiam o treinamento para os seus atletas em rede. As Confederações vão à Lei de Incentivo e apresentam seus projetos para captar mais recursos. Paralelamente, recebem recursos das 01_200_02empresas patrocinadoras. Então, são várias fontes de financiamento para uma mesma instituição. Eu faço essa pergunta porque não sei, já tentei descobrir e ninguém me responde: será que não há duplicidade ou triplicidade de aplicação desses recursos na mesma fonte arrecadadora? O que estão fazendo com tanto dinheiro? Se 2003 nós não tínhamos tanto e tínhamos resultado, ganhávamos medalhas em Mundiais e Olimpíadas... A partir daí, começamos a ter dinheiro, dinheiro, dinheiro e para completar, veio o Bolsa-Atleta. Hoje, para se ter uma ideia, e o ME se orgulha de dizer isso, nós temos 6.600 atletas contemplados com bolsa. Eu duvido que o ME tenha fiscalização sobre esse dinheiro que repassa aos atletas. Se o senhor José da Cruz lá do caratê do Acre forjar os resultados para dizer que é campeão estadual – e isso é fácil de se fazer com os recursos da tecnologia –, ele vai receber a bolsa. E o Ministério vai mandar o dinheiro e não vai questionar, porque não tem equipe para fiscalizar. O Programa Segundo Tempo faliu porque não tinha fiscalização. Não é só no ME, falta fiscalização no governo em geral. Só o TCU, com o número de auditores que tem, não dá conta. Então, o Bolsa-Atleta pode estar sendo hoje um grande problema para os cofres públicos, de onde está saindo o dinheiro, sem saber quem está recebendo esses recursos. O ME diz que é o tal do João da Silva que está recebendo. Mas será que o João da Silva é mesmo campeão de hipismo lá no Mato Grosso Sul? Ninguém sabe disso. Pode estar havendo uma grande fraude no programa Bolsa-Atleta. 

Aí você pega um atleta num nível olímpico, que pode estar ganhando a Bolsa-Pódio de uns R$15 mil por mês. O atleta já tem patrocínios, o clube que ele treina capta recursos da Lei de Incentivo, assim como a Confederação, que 02_200_03também tem convênio com o ME e recebe recursos da Lei Agnelo-Piva. Todo esse dinheiro para treinar o atleta em questão. E o patrocinador larga dinheiro, porque ele precisa viajar para fora para competir, precisa treinar nos Estados Unidos, pagar o técnico. Mas quem fiscaliza se esse dinheiro já não está saindo também por outra conta dessas fontes todas? Não existe. Lamentavelmente há uma disputa de prestígio entre o ME e o COB. Isso é evidente. Eu estive no COB, inclusive com o Gil Castelo Branco, que hoje faz parte da ONG Contas Abertas que faz a fiscalização do dinheiro público através de órgão oficiais. Então, o COB nos convidou para passar uma tarde lá e tivemos uma aula do rigor que eles têm dos gastos. Eles não podem ter falha, porque senão o TCU vai no pé deles. E o ME concorre com o COB nas mesmas confederações liberando recursos por convênios. Será que o ME e o COB estão conversando para saber quem está aplicando e onde está aplicando esses recursos? E aí quando vem a prestação de contas do dinheiro que o governo libera, quem faz essa fiscalização? Eu ano passado descobri que a Confederação de Tênis desviou R$440 mil, apresentando recibo de aluguel de quadra, quando na verdade a quadra tinha sido emprestada. Eu consegui a prova disso. E o ME só ficou sabendo porque houve a denúncia. Quantos casos como esse acontecem porque não tem quem fiscalize?

EE: Cruz, tenho algumas ponderações. O primeiro é a questão do receptor do Bolsa-Atleta, se ele existe ou não. Até aí, tudo bem. A segunda é que a questão de um atleta de nível olímpico receber a bolsa e mais patrocínios e não comprovar onde o dinheiro está sendo investido. Para mim, na verdade, um atleta de nível olímpico já entra num esquema de fazer o que quiser com o dinheiro, recebe como seus patrocínios e pronto, precisa apresentar 04_200_03resultados e divulgar as propriedades previstas em contrato com o patrocinador. O que não entendi muito bem qual é o problema de um atleta de alto rendimento receber patrocínio e também recurso público por mérito?

JC: Isso aqui está dentro de um contexto maior. Outro dia a Maurren Maggi estava fazendo campanha para arrecadar dinheiro. O que eu quero mostrar com isso é que nós temos as instituições funcionando, as pessoas instituídas nos seus cargos, os recursos e a legislação, mas nós não temos uma política nacional do esporte. Por conta disso, nós não temos a prioridade de aplicação dos recursos e hoje estamos trabalhando com o emergencial. Temos que preparar a equipe olímpica, sem dúvida, então tudo é para a equipe olímpica. Mas quem se preocupa com a iniciação, com a base, com a descoberta do talento? Quem valoriza o técnico para que ele possa descobrir o talento e encaminhar? Então, nós temos hoje o dinheiro público concentrado na elite do esporte, em detrimento da base e da formação. Esse recebem, 05_200_04mas com uma dificuldade muito grande. Outro dia, para a equipe de esgrima viajar, os pais tiveram que comprar uniforme.

EE: O Bolsa-Atleta também poderia ser estendido para os atletas medalhistas no pós-carreira? Como o Brasil deveria cuidar financeiramente desses heróis esportivos?

JC: Olha, acho que isso está dentro daquele contexto de que falta definir quem faz o que e, inicialmente, o que o Brasil quer com o esporte. O esporte de alto rendimento compete ao governo federal ou compete ao COB e a iniciativa privada? Hoje, o governo federal está se intrometendo e ditando regras até no futebol, que é um negócio altamente corrupto, com evasão de dividas, sonegação fiscal, enriquecimento ilícito. E o governo está misturado nisso aí. Então, compete ao governo federal se envolver com o alto rendimento ou ele tem que se envolver, como diz a Constituição no seu artigo 217, prioritariamente com desporto escolar? Não para formar atletas, mas para usar o esporte na formação do caráter dos jovens. Esse é o ponto de partida. Então, enquanto não se definir isso, nós vamos ficar discutindo se compete ao Estado dar bolsa a quem foi ao pódio. E quem não foi, quem ficou em quarto lugar? Eu sei que nós temos atletas dos quais nos orgulhamos e que foram pessoas que representaram o Brasil com resultados expressivos e que hoje estão na miséria, com problemas seríssimos. Há pouco tempo a presidente Dilma saiu em socorro dos nossos campeões mundiais do futebol... Mas a questão é essa: compete ao Estado se envolver com o alto rendimento a ponto de pagar a aposentadoria do atleta? Bom, é uma discussão... E nem o Congresso Nacional e nem o Conselho Nacional do Esporte discutiram isso. Mesmo assim, a comunidade esportiva em geral está querendo implantar isso. Mas nós não temos configurada a nossa política de esporte, o que é o 06_200_03esporte no Brasil. Nós estamos tratando do atleta em aposentadoria, enquanto as nossas quadras das escolas não existem ou estão deterioradas e os professores estão defasados. Então a resposta seria o esporte como questão de educação. A ironia é que o ME fica em frente ao Ministério da Educação. No entanto, por serem ocupados por partidos diferentes, não dialogam. E o Ministério da Educação por ideologia dos que lá estão não quer nem ouvir falar de esporte. Então, nós estamos passando aí 11 anos desse governo de desperdício, porque nós não definimos o que queremos com o esporte. A escola e a universidade ficam paradas e nós temos uma Confederação Brasileira de Desporto Escolar e uma Confederação Brasileira de Desporto Universitário. Essas duas receberam ano passado em torno de R$30 milhões do ME para financiar suas delegações em eventos internacionais. Mas que representatividade é essa se nós não temos nem desporto escolar nem universitário? Nós estamos num país de farturas e indefinições quanto ao nosso objetivo.

 

Prioridades no esporte

 

EE: Como você observa as prioridades do esporte no Brasil?

JC: Olha que incoerência. O governo federal, através do ME, já realizou três excelentes Conferências Nacionais do Esporte, que debateram na base, na comunidade, no município. Trouxe para Brasília delegações eleitas em cada estado, que elaboraram documentos. Sendo que este último elaborou toda a diretriz de para onde vai o esporte do Brasil. O interessante é que lá não estava trazer Copa do Mundo nem Olimpíada. A grande comunidade do esporte no Brasil discutiu que temos que dar um rumo ao esporte. Temos as instituições, temos os recursos, temos os recursos humanos, então temos que dar um rumo. E o ME nunca aplicou, mesmo tendo financiado essas conferências. Criou o Plano Decenal do esporte. Mas nós temos hoje um problema elementar a ser definido: o que compete a cada instituição. É por isso que o COB e o ME aplicam dinheiro, competindo entre si.

EE: Essa é uma competição saudável?

JC: Eu acho que é uma competição danosa, porque eles estão aplicando dinheiro nas mesmas confederações, voltadas para o mesmo evento, que é 2016. Por que não concentrar esses recursos no COB? Por que o ME tem que ser o órgão repassador para as confederações, se tem um orçamento que concentra? Falta essa definição de quem faz o quê. O que faz a Secretaria dos Esportes? O que compete à escola? E aí entra mais um dado que agrava essa situação toda. O ME é tão político que quando se viu acuado pelos clubes, abriu os cofres e passou recursos para a Confederação Brasileira de Clubes. Ou melhor, está repassando mensalmente. 

EE: Isso está errado ou está certo?

JC: Está errado, porque se vê que cada um que se sente prejudicado, bate na porta do ME, que começa a dar dinheiro. E de repente esse dinheiro está sendo aplicado em clubes que já têm recursos de confederações. Então, nós temos hoje uma confusão. Nós temos muitas fontes e muitas pessoas recebendo com as mesmas finalidades. Enquanto isso a gente vê atletas dizendo que precisam de dinheiro para viajar, precisando fazer vaquinhas para arrecadar verbas. Nós temos tantos atletas fazendo isso, inclusive medalhistas de ouro...

 

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Unindo esporte e educação: visita do Esporte Essencial ao CIEP Thomas Jefferson, no RJ, com a atleta Joice Silva. O Esporte Essencial defende o esporte de qualidade nas escolas e a capacitação contínua dos profissionais de Educação Física. O EE atua há 3 anos e já atendeu mais de mil crianças com uma metodologia própria de educação esportiva. Sabemos que o maior recurso é o humano e que o  esporte é essencial para essa garotada.  Ações do EE nas escolas: http://www.esporteessencial.com.br/educacao/acoes/

 

EE: Tudo bate na questão do planejamento...

JC: Com certeza. Mas antes de começar a planejar, vamos definir o que queremos. Precisamos definir quem vai cuidar do alto rendimento, da base e do desporto escolar. E nós estamos falando do esporte olímpico e ainda tem o paralímpico, onde a situação se agrava.

EE: A situação se agrava, mas no alto rendimento tem melhor resultado.

JC: Não, não foi isso que eu quis dizer. O alto rendimento paralímpico hoje está muito bem, está com boa gestão. Eu gosto muito do Andrew Parsons... Mas em termos da descoberta desses atletas ainda é precário. A Rosinha, que foi a nossa medalhista e recordista mundial de dardo, foi descoberta ao acaso por um técnico. Não foi por um projeto específico.

 

Organizando a estrutura

 

EE: Eu vejo pela sua análise umacoisa muito clara: o ME deveria estar dedicado à questão de estrutura do esporte do país, ligada à parte educacional, direcionado principalmente para o esporte de base; e o COB deveria estar focado no esporte de alto rendimento. É isso?

07_200_02JC: Não só o ME. Numa política nacional do esporte, tem que se envolver educação, saúde, turismo, meio ambiente – no caso dos esporte ao ar livre –, indústria e comércio – porque é uma das indústrias que mais crescem e contribuem para o nosso PIB. Então, não pode ser uma decisão isolada. Primeiro, precisamos de uma definição do governo do que queremos com o nosso esporte e quem faz o que. A partir daí, vem o planejamento para definir onde os recursos serão aplicados. E o objetivo, quem vai fazer o que para chegar aonde. 

Hoje nós temos as instituições ganhando e ganhando e uma “bateção” de cabeça muito grande. Essa é uma visão de quem está há 34 anos em Brasília e há 25 envolvido com o esporte. Eu cobri economia e política, depois só esporte, principalmente cobrindo ME e Congresso. Aprendi muito com Lars Grael, quando ele foi secretário, tinha verdadeiras aulas com ele. E depois com a Magic Paula. 

Quem é o nosso grande atleta nacional que está dentro do ME? Não tem. Então, como nós podemos começar a pensar esses objetivos se nós não temos a cabeça pensante de quem vivenciou o esporte? No COB, a gente encontra no mínimo 25 ex-atletas que estão trabalhando pela Olimpíada.

EE: Como você vê a gestão do COB?

JC: Eu vejo o COB em um pedestal, em um outro patamar. Ele está longe da nossa realidade. Claro que o COB se relaciona com as confederações, nem é com as federações. Aliás, a maioria das nossas federações estaduais, de todas as modalidades, está falida e ninguém dá importância a isso. Outro dia eu falei isso até com o deputado Romário e com o senador Álvaro Dias. As federações estão falidas, em primeiro lugar, porque não recebem recursos de todo esse bolo que eu já falei. Elas não são contempladas, quando muito são contempladas com uma miséria para votar no presidente da confederação. Eles doam recursos na época da eleição, pagam passagem para o dirigente da federação, além de um bom hotel por dois ou três dias com direito a levar as esposas. Os presidentes das federações quando voltam à sua realidade, são instituições falidas, que não tem nem telefone e nem secretária. Muitas delas, além de falidas, estão devedoras de milhões de reais por causa dos bingos, porque emprestaram seus nomes na época dos bingos e ficaram devedoras ao fisco. Aliás, essa lei que está para sair aí, que vai beneficiar o futebol na renegociação das dívidas, as confederações vão ser beneficiadas também. Então, as federações estão falidas e o COB não conhece ainda essa realidade. O COB trata com a elite do esporte, com o atleta de nível olímpico e que tem representatividade internacional. Então, está muito distanciado dessa realidade. E quem se importa com essa realidade que está aqui em baixo, no clube, nas pistas? É essa a definição que nós temos.

 

Organizações paralelas

 

EE: O "Atletas Pelo Brasil" é um exemplo de movimento de grandes atletas em prol de um novo esporte para o país. Até onde vai a força deles?

jose-cruz-texto_450_01JC: Eu conheço muito pouco, estive uma vez apenas com eles. Mas pelos nomes envolvidos, poderia fazer muito mais pela força e representatividade que tem. Inclusive eu já conversei muito com o Lars Grael sobre isso. Claro que o Lars hoje está voltado muito mais para competição, mas é um nome de expressão dentro do Brasil. ele representa o país não só na competição, como também na estrutura federal do nosso esporte, vinculado ao estado de São Paulo. Agora, pelos atletas que essa organização reúne, eles poderiam ter proposições de maior significado e, principalmente, de expressão. Eles já mostraram que é possível.

Porque nós temos que tratar também uma questão que é a seguinte: nós estamos a dois anos da Olimpíada. Essa é a nossa meta hoje, tudo é voltado para a Olimpíada. Então, pensar tudo isso que eu falei é até um pouco de utopia. Nesse período de dois anos, nós estamos dependentes da verba pública, então as decisões são políticas.

 

Doping e outros

 

EE: Como você observa o doping no esporte?

JC: É muita ironia. Esporte é saúde e, no entanto, quantos de nossos ídolos nós já vimos pegos no doping.... Semana passada, teve mais um do atletismo. Até julho, nós já tivemos três atletas envolvidos. A cada dois meses, um do atletismo foi pego. Nós estamos muito atrasados não só na identificação do doping, como no combate.

EE: A questão do doping é um problema de falta de instrução, que as confederações não educam seus atletas ou por uma necessidade imediata de resultado?

JC: Também por isso. E não só pela necessidade imediata de resultado e se tornar famoso. Com o resultado, além de se tornar famoso, ele vai ganhar uma bolsa maior. Tem um professor que não me recordo o nome que está fazendo um trabalho sobre isso, mostrando até que ponto a fartura do dinheiro incentiva o atleta a chegar mais rápido ao resultado para ganhar mais dinheiro do próprio governo. Será que o garoto do Amapá, do Acre, do Rio Grande do Sul não está se dopando para ter o resultado mais rápido? O doping pode estar acontecendo já nas categorias menores, para o atleta poder avançar e no campeonato nacional seguinte ter um resultado melhor e já ganhar a bolsa nacional. Que trabalho de educação faz o ME sobre isso? E que trabalho faz o governo federal de forma integrada principalmente com a educação e com a saúde? Que política integrada nós temos nesse sentido? Não temos.

E estamos atrasados, porque perdemos o credenciamento do nosso laboratório também. Então, quem conversa com o atleta na beira da piscina se não o técnico? E o técnico também quer ficar famoso... 

Nós não estamos vendo o esporte hoje no Brasil como forma de contribuir como formação do caráter dos garotos. Eles não praticam esporte na escola para aprender a conviver em comunidade, aprender a perder, saber acompanhar o líder ou o capitão da equipe, para respeitar as regras do jogo e a legislação federal. Nós não estamos usando o esporte na formação educacional, estamos usando o esporte para termos ídolos.

EE: E depois esquecer esses mesmos ídolos...

JC: Exatamente. Aí chega naquele aspecto, vamos ajudá-los ou deixá-los abandonados? Repara como nós estamos precisando discutir essas questões. E quem vai liderar essa discussão: o COB, o ME ou o atleta?

 

Fotos: Arquivo pessoal de José Cruz


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