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ENTREVISTAS

Jorge Steinhilber (presidente do Confef)

12/04/2012
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Educação Física é coisa séria

Por Fabiana Bentes e Thyago Mathias

"A educação física era segregada, separada, tudo era separado. Esta foi a minha grande luta, a não marginalização da educação física. Eu não quero estar à margem da educação, eu sou um professor, sou um profissional da educação. Então, tenho que estar inserido ali. Agora, resgatar um processo de tantos anos é que é o nosso problema".

Presidente do Conselho Federal de Educação Física (Confef) e da Academia Olímpica Brasileira (AOB), Jorge Steinhilber inaugura um novo espaço de entrevistas dentro do Memória Olímpica, dedicado a ouvir e repercutir o que têm para contar os profissionais de educação física.

Steinhilber tem uma trajetória de luta pela valorização desse profissional e também do olimpismo. Ele se formou em Educação Física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e foi presidente da Associação dos Professores de Educação Física do Rio de Janeiro (APEF-Rio) e assessor de Educação Física da Secretaria Municipal de Educação do estado. Publicou dois livros: Colônia de Féria e Profissional de Educação Física... existe? No ano de 2007, participou da comitiva que trouxe o Fogo Pan-americano, da Cidade do México até Santa Cruz de Cabrália (BA), para que a Tocha Pan-americana, que viajou por todo o país, fosse acesa. Além disso, Jorge é um dos poucos condecorados com o Discóbulo de ouro, prêmio em reconhecimento pela luta  em prol da Regulamentação dos Profissionais de Educação Física.

Memória Olímpica: Como você se aproximou dos esportes e optou pela Educação Física, antes mesmo da regulamentação desta atividade?

Jorge Steinhilber: Há 50 anos, quando o esporte era praticamente “pai-trocínio” ou amador e não existia o esporte profissional, você ia para Associação Cristã de Moços ou para Fluminense, Flamengo, Botafogo... um clube desses onde você praticava vários esportes. Naquela época, não se profissionalizava no esporte, você praticava um esporte. Meus pais, europeus, me motivavam muito a participar de atividades esportivas. Meu pai era empresário, queria que eu seguisse a linha empresarial dele, e eu disse “não, eu quero é ficar de calção!”. E fui fazer educação física, achando que seria como num belíssimo clube. Quando você chega lá, vê que a realidade é outra. Tem um outro tipo de ensino, um outro tipo de conhecimento, que, por outro lado, te permite ficar realmente muito mais à vontade, de calção, de camiseta. Na época, eu comecei com natação e quando você chegava aos clubes, em Teresópolis, Friburgo, e pedia “quero dar aula”, a resposta era “poxa, que bacana, tem alguém aqui!”. Era esse o tipo de trabalho de iniciação esportiva: natação para criança, para bebê, para iniciar. Nos últimos 15 ou 20 anos, a formação em Educação Física é totalmente diferenciada. Primeiro, porque passamos por uma época de modismo em relação ao corpo, não é? Naquele período nos anos 1960, todo mundo queria ser “barriguinha para dentro e bundinha para fora”. Nos últimos 20 anos, a coisa mudou bastante. Mudou, porque o cuidado com o corpo passou a ser uma questão de necessidade. Com isso, evidentemente, ao me formar e acompanhar toda essa evolução, eu percebi que a gente precisava dar um rumo diferenciado a essa questão. A formação não podia ser apenas aquele negócio de ensinar o indivíduo a dar uma aula de atividade física, de iniciação esportiva. Quer dizer, nós temos que ensinar a criança a compreender a razão da atividade física. Eu tive a oportunidade de ser um dos elaboradores das bases do ensino do primeiro grau, quando houve a fusão do Estado da Guanabara com o do Rio de Janeiro. Na cidade do Rio de Janeiro, a Terezinha Saraiva assumiu como secretária e eu tive a oportunidade de trabalhar com ela. Nós tínhamos que realmente criar uma dinâmica para explicar que estamos educando para a saúde, educando para a vida. Educação física não pode ser uma aula que está ali apenas para suprir um momento obrigatório. A criança tem que ter todas as possibilidades de vivenciar os movimentos, as várias possibilidades de movimento, para entender que ela tem que escolher uma modalidade para continuar praticando a vida inteira. Senão, vai cair no sedentarismo, na obesidade.

MO: Mas e a desmotivação dos professores? Principalmente em relação aos Jogos Olímpicos, porque o atleta começa a ser desenvolvido na escola, mas o professor de educação física ainda é visto como um professor de menor importância na escola. Além disso, há a questão dos salários e dos recursos da educação física, que incluem falta de espaço, de equipamentos, inclusive para abrir oportunidades a novos esportes, além do vôlei e do futebol...

JS: Ele está desmotivado ou se deixou desmotivar? Porque, veja, a educação física é obrigatória há trinta anos e está na escola, no mínimo, duas vezes por semana. O que foi feito no sentido de conscientizar o aluno sobre a importância da atividade física? O que foi feito no sentido de chamar os pais para explicar a importância da educação física? Quer dizer, o professor ficou, durante muitos anos, separado das outras disciplinas. Eles também se afastavam desse processo, não acompanhavam as salas de reunião, não iam para a sala dos professores, para conversar com os demais professores, não participavam dos conselhos de classe... Nós temos que, primeiramente, identificar a questão da marginalização. É a diretora da escola que bota esse professor de lado ou foi ele que foi, ao longo do tempo, ficando de lado. Sou da época em que nós tínhamos um departamento de educação física na secretaria de educação. Enquanto todos os professores eram vinculados a uma supervisão educacional, a educação física era segregada, separada, tudo era separado. Esta foi a minha grande luta, a não marginalização da educação física. Eu não quero estar à margem da educação, eu sou um professor, sou um profissional da educação. Então, tenho que estar inserido ali. Agora, resgatar um processo de tantos anos é que é o nosso problema.

MO: Então, como aproveitar a oportunidade trazida pelos Jogos Olímpicos para isso?

JS: A nossa dificuldade aqui no conselho é mostrar aos parlamentares a importância da educação física, enquanto área da saúde. Você chega lá e diz “o profissional de educação física é assim”, ele diz “ah, que isso. Quando estava na escola, o cara falava um, dois, três, quatro e dava a bolinha para eu jogar”. Quer dizer, a visão que ele tem é aquela de que ele participava. Agora, indivíduo tem uma quadra e quer um ginásio. Para que ele quer um ginásio? Para dar a educação física ele precisa de um ginásio? Não, não precisa de um ginásio para dar a educação física escolar, porque não tem que dar esporte oficial na escola. Na escola, eu tenho que dar movimentos esportivos e outros. Badminton eu posso desenvolver em qualquer atividade, corrida eu posso desenvolver em atividade, pular corda e dança de salão, também. Musculação eu posso fazer em qualquer hora, ginástica eu posso fazer em qualquer lugar. Eu tenho que ensinar à criança as diversas possibilidades no ambiente dela. É óbvio que eu não estou dizendo, com isso, que não se tenha que mostrar também os esportes de alto rendimento. Eu talvez não dê para ela o basquete oficial na escola, mas posso mostrar como acontece aquele jogo. Depois, eu posso ir com ela a uma sala de aula e discutir o que é aquilo, o que representa e como ela adquire valores em cima daquilo. O que acontece é que os valores estão escondidos, os valores não são aplicados. Aí eu pergunto para os professores se eles aplicam valores. Eles desenvolvem valores? Atuam nisso com as crianças? Não estou dizendo que eles não têm razão, não. Eles têm razão e têm que brigar por isso, sim. Temos que dar pelo menos uma sala de aula para eles e um ginásio coberto, para que ele possa ter um local para trabalhar. Não estou dizendo que não deva ter. Agora, isto não quer dizer que, naquele ginásio, só tenha que dar aquelas atividades que estão ali. Porque, senão, você nunca vai dar surfe, nunca vai dar patins, nunca vai dar corda. Tem uma infinidade de outras atividades que você pode fazer. Nós temos que separar com toda a clareza para os pais e para os gestores: Um, o que é a educação física escolar; dois, o que é o esporte na escola. Se você for conversar hoje com uma diretora e perguntar “o que a senhora quer com a educação física?”, “eu quero tirar a medalha”. Mas educação física tem o objetivo da medalha? É a educação física escolar que tem o objetivo de dar medalha? Não é. E é aí que começa a segregação. A educação tem que ser inclusiva, não tem que ser exclusiva. Então, quando as pessoas começam a olhar a educação física como uma questão de busca por medalha, busca de talento para criar atletas, nós estamos errados. Estamos equivocados. E esta é a função que a mídia – e, de um modo geral, a sociedade – tende a considerar, em função dos Jogos Olímpicos. Agora, como é que eu dou uma aula para quarenta alunos com o objetivo de formação e tenho que, daqueles quarenta alunos, tirar uma equipe? Ou então, eu não dou aula e aí fico em horário extra ou escolho só os melhores e vou dar um treinamento, deixando de dar minha aula. Está errado. Nós temos que ter as duas situações. Nós temos que trabalhar as políticas públicas no sentido de que a educação física escolar seja obrigatória e continue sendo desenvolvida com este papel de formação e orientação para a saúde, mas também para que a escola ofereça um horário fora do turno com outras possibilidades de esporte e formação de equipes.

MO: Ainda estamos longe dessa realidade?

JS: Nós temos que brigar por essa realidade. Senão, o que vai acontecer? A criança vai continuar obesa, que é um grande problema hoje no Brasil e no mundo. Por que? Porque a educação física escolar não dá conta disso. Ela não tem como dar conta. Não adianta só conscientizar e não dar oportunidade ao aluno. Hoje, um garoto está na aula de matemática, desce dez minutos, troca de roupa em cinco, tem 20 minutos de educação física e depois tem que ter 15 minutos para voltar para a sala de aula. Eu vou dar condicionamento físico para esse garoto? Não tenho chance de dar. A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos vão ser um catalisador muito forte para a sociedade. Vai estar todo mundo ligado nisso. Então, é o momento de se levar essa filosofia para que comecem a dizer ao pai “olha a responsabilidade que o senhor tem nisso, seu filho tem direito a isso, tem direito às duas atividades, seu filho tem que cobrar isso do poder público”. Quer dizer, para que comece a haver uma comoção social, uma revolução ética, como eu costumo chamar. Precisamos aproveitar esse momento essa ebulição toda, esse tsunami todo para realmente aproveitar e difundir essa questão.

MO: O que você quer então para uma educação física de fato?

JS: Para a disciplina da educação física eu não quero mudança, já está isso tudo nos Planos Nacionais da Educação: a educação física é uma disciplina formativa integrada ao projeto pedagógico da escola que tem o objetivo de ensinar às crianças as questões do movimento e, através das atividades físicas do esporte, levá-la à formação para a vida, para a saúde, para o trabalho, etc.. Nossa função na educação física escolar é dar a ela entendimento do movimento. Claro, na primeira série, trabalha-se co, um tipo de intensidade, um tipo de condição. Quando o aluno chegar aos 15, 16 anos, é óbvio que você vai dar uma atividade esportiva, uma vez que ele está mais pronto se já vier desde baixo com esse entendimento. Se trabalharmos desta forma, a formatação está boa. Agora, nós temos que mudar o quê? Temos que oferecer o contraturno ou outros horários para a atividade física, se possível todo dia. Ali, você vai ter condições de dar a aptidão física, dar condicionamento, fazer treinamento esportivo...

MO: Qual é a maior dificuldade para que isso se torne realidade?

JS: Financeira. Contratar profissional de educação física para fazer esse trabalho. E aí o que acontece com os órgãos públicos? Contratação de pessoal é a maior dificuldade deles hoje. Para aumentar salário de professor é uma dificuldade. O salário de deputado aumenta rapidinho. Tem municípios que não conseguem nem pagar a folha, depende do governo federal fazer repasses. Então, como é que vão contratar mais gente? Aí, entra outro problema que nós tentamos trabalhar no conselho: eles inventam atividades esportivas dadas por qualquer um, como o Amigos da Escola... como se qualquer pessoa pudesse chegar ali e desenvolver atividade esportiva. Isso prejudica o trabalho.

MO: O voluntariado não é bom para as escolas?

JS: Está melhorando agora. Não era bom. Até dois anos o Amigos da Escola não era bom. Por quê? Porque eles botavam qualquer um para dar atividades esportivas. Era uma briga conosco. Não sou contra o voluntariado, mas você tem que ser voluntária na sua área. “Eu quero ser voluntária, mas sou dentista”. Aí chega lá para dar atividade esportiva porque jogou vôlei. Não, espera aí, não é assim. Eu fui operado 50 vezes. Posso ser cirurgião? Não. Fui condenado dez vezes. Sou um bom advogado? A coisa não funciona dessa maneira. Infelizmente no esporte as pessoas acham que a coisa funciona assim, chutou bola já é professor de futebol. Não, tem todo um contexto social, psicológico, de inclusão, pedagógico, didático. Infelizmente, no Brasil, para as crianças das comunidades mais carentes, a gente dá o pior professor, o pior dentista, o pior tudo e bota lá de qualquer maneira. Está errado. Nossa concepção está errada. Eu tenho que dar para a criança mais carente o melhor professor, o melhor dentista, o melhor médico, para dar a oportunidade a ela. Mas batemos, reclamamos, conversamos e aos poucos isso foi sendo eliminado. Agora, entrou o projeto Segundo Tempo, do Ministério dos Esportes, junto com o de Educação. Ele leva para as escolas o profissional de educação física. Com o Amigos da Escola, o que aconteceu? Como é voluntariado, nós fomos lá e explicamos: “pode ter voluntário, mas tem que ser com profissional de educação física”. Então, tem voluntário sim, tem “Amigos da Escola” sim, mas o profissional de educação física é que tem que ser voluntário. Se o profissional de educação física quer ensinar capoeira, maravilha! É um direito seu. Mas é ele que vai fazer, não é um pai qualquer de aluno que vai lá ensinar a capoeira, judô ou sei lá o quê. Com cada voluntário na sua respectiva área de atuação, não há problema nenhum. É importante que aconteça e precisa ser oferecido pelo setor público. Por que só as escolas particulares oferecem isso? Nas escolas particulares você tem lá a educação física e depois dela você tem inúmeras oportunidades e ofertas de dar para as crianças fora do turno. Aí você vai lá e aprende o esporte, treina.

MO: A regulamentação da profissão de educação física trouxe uma reserva de mercado de trabalho. Você acha que a profissão já está legitimada socialmente no Brasil? Que fatores ainda dificultariam esse reconhecimento?

JS: A profissão de educação física é uma profissão regulamentada há 12 anos e ainda não conseguiu esta legitimação que a gente gostaria. A gente quer sempre uma Mercedes, não é? Mas sem dúvida nenhuma, a regulamentação foi importantíssima e fundamental. Eu tenho a impressão – não posso ter certeza porque não tenho os dados – que, se ela não tivesse existido, não existiria mais o profissional de educação física, hoje, a não ser na escola. Teria sido uma invasão de pessoas desenvolvendo atividades... e a sociedade correndo um risco muito grande. Veja só, por que a profissão foi regulamentada? O Congresso Nacional, hoje, é avesso a regulamentar profissões e há toda uma demanda no sentido de não haver regulamentação de profissões. A nossa foi regulamentada por uma série de circunstâncias: A questão da atividade física ser uma necessidade, a questão do boom das academias... Quem estava trabalhando nas academias? Pessoas que não tinham nenhuma formação. Quem eram os treinadores das atividades esportivas? A maioria das pessoas não tinha a menor formação. O que acontecia? Atividade física que todos nós recomendávamos começou a gerar lesões. Aí, o congresso percebeu que havia a necessidade de, por segurança e proteção à saúde, regulamentar a profissão, para que a gente pudesse ter profissionais qualificados e pudesse fiscalizar esse exercício profissional. Temos, hoje, mais de 1000 escolas de educação física. Por quê? Porque o pessoal realmente percebeu que a profissão começa a ganhar relevância social. Ela foi incluída na área da saúde, não ficou só na área pedagógica, na área da educação. Foi reconhecida pelo Conselho Nacional de Saúde como profissão da área da saúde. Nossos pontos fracos estão nas atividades que são reconhecidas, entre aspas, pela sociedade, como atividades que não eram, entre aspas, próprias do profissional de educação física: artes marciais, yoga, dança e capoeira. Em que pese serem atividades físicas, em que pese estarem sendo oferecidas pelas diversas academias como axé e dança, axé yoga,  power não sei das quantas... Até “yoga dog” tem... Os caras hoje inventam tudo... Sem problema, está tudo perfeito. Na verdade, é o mesmo exercício que você fazia há trinta anos, mas com um ritmo diferente, acende uma vela, bota uma música diferente, não sei o quê... Só não pode querer dizer que isso não é atividade física e exercício físico. “Educação física não aprende isso?”. Claro que aprende. Não aprende todas as modalidades esportivas, mas o profissional aprende a essência e depois se especializa. Como um médico ou advogado, que depois se especializam. Outro fator de dificuldade é o senso comum de que “o esporte faz bem à saúde, o esporte é que promove a inclusão social”... Como o esporte promove a paz? Você pega 12 palestinos, 12 israelitas e tudo vai ficar na paz por causa do esporte? O esporte não promove saúde, o esporte não promove educação o esporte não promove a inclusão social. O esporte é uma ferramenta. Se ele é uma ferramenta ele é um meio, se ele é um meio não é ele que faz. É alguém que faz, utilizando ele. Na verdade, quem promove isso é o profissional de educação física ao se valer da ferramenta esporte. Quando você joga isso para a sociedade, “ah, é o esporte que faz isso”, “ah, legal, então é o esporte? Vou fazer esporte”. É a prática do esporte orientada que faz isso. Porque se não for orientada não vai levar a isso.

MO: Como o senhor avalia o apoio que o país da aos profissionais de educação física?

JS: A sociedade já esta reconhecendo os Profissionais de Educação Física como verdadeiros profissionais da promoção da saúde e os governantes também os estão respeitando, contratando-os para prestação de serviços de orientação das atividades físicas, seja nos projetos sociais como nos treinamentos de alto rendimento. Também tem crescido enormemente os convites para Profissionais de Educação Física presidir Fundações de Esporte bem como dirigir Secretarias de Esporte.

MO: O discurso do atleta é importante como exemplo, como motivação, mas o trabalho de valores tem que ser feito sob a orientação de um pedagogo?

JS: Esse profissional, esse ex-atleta que vai falar, ele tem que ter uma orientação. Ele não pode só chegar lá e contar a história dele. “Olha, meu amigo, você está aqui para contar a sua historinha, mas você vai passar a sua historinha não é para aquele garoto ali só ver você como ídolo e querer ser você. Ele tem que entender que você adquiriu uma série de valores naquela atividade esportiva e que aquilo foi bom para a sua vida. Não só enquanto atleta, mas para sua vida toda”. Para o garoto chegar a ser atleta, você tem que passar isso para ele. Se você pega essas escolinhas de futebol aqui na praia, todo mundo quer ser Ronaldinho. Todo mundo acha que aquilo vai ser a salvação deles. De cada mil, 999 não vão chegar lá. Se não tiver essa orientação, sai todo mundo frustrado dali e, aí, sai ao contrário. Ao invés do esporte ser algo positivo, ele acaba sendo negativo. Por isso, insisto muito na questão de botar esses valores não como pano de fundo e sim de pano de frente. E que isso seja realmente orientado pelo profissional de educação física. Não é em função de um corporativismo, de uma reserva de mercado. Nós aqui não existimos para uma reserva de mercado, nós existimos para defender a sociedade.

MO: Em entrevista ao MO, o presidente da Confederação Brasileira de Vôlei, Ary Graça, criticou um pouco as Olimpíadas Escolares, por não funcionarem devidamente. Você concorda?

JS: Não sei qual seria a crítica para as Olimpíadas Escolares. Eu entendo que as Olimpíadas Escolares são uma oportunidade para as crianças vivenciarem uma competição. Nós vivemos em um mundo capitalista, não é mais o mundo em que havia uma utopia de sermos socialistas um dia. Ficou claro que nós vivemos em mundo capitalista, competitivo, em um mundo que você tem que respeitar as regras, em um mundo em que você tem que entender a importância do seu parceiro, a importância do companheiro de trabalho, da família... Eu penso que é uma oportunidade das crianças poderem vivenciar um tipo de desenvolvimento social que vai carregar para o resto da vida. Novamente, eu vou ser obrigado a dizer, se tiver orientação correta. É óbvio que não é pra deixarmos ali só a competição pela competição, repetindo o modelo que nós temos hoje de briga, de quebra joelho... Uma competição de futebol de salão de criança de seis, sete anos, é uma desgraça. Os pais chegam ali e chamam os filhos e mandam quebrar a perna do garoto. Quer dizer, o garoto está ali brincando, numa competição de lazer. Ainda não atingiu um nível de maturidade para entender o que é aquilo ali. Essas atividades, jogos, são muito boas para que as crianças possam vivenciar tudo isso e inclusive, de repente, revelar talentos. De repente, até descobrir alguém ali que tenha potencial e que possa ser levado para algum clube por um olheiro...

MO: Mas não acontece de colocarem os bons ali para ganhar medalha e esquecerem os alunos com menos aptidão?

JS: Se for nessa linha eu acompanho o Ary Graça. Sou contra. Agora, se a gente puder realmente ter uma linha de trabalho de respeito aos direitos da criança e deveres do estado, sou totalmente a favor, desde que não seja para repetir os modelos do alto rendimento de adulto ou profissional. Ao contrário, que se discuta ali o que representa aquilo. E, aí, talvez até a gente venha a diminuir um pouco a violência que tem hoje nas torcidas. Para que o garoto aprenda a torcer.

MO: Como presidente da AOB, de que forma os estudos relacionados aos valores olímpicos, aos valores do esporte, podem ser incentivados pelas instituições e pela pesquisa?

JS: O barão de Coubertin era tão visionário, que percebeu que os Jogos, por si só, não iriam desenvolver a filosofia que julgava como uma atividade esportiva para a educação. Ele imediatamente percebeu que aquilo lá ia acabar virando competição e um grande negócio. Já entendendo isso, ele incentivou que se criasse uma filosofia paralela para não deixar morrer esse lado educacional, filosófico, utópico, vamos chamar assim, desse processo. A Academia Olímpica veio nesse sentido: formatar estudo, formatar pesquisas, trabalhos, que mantenham vivas essa chama do olimpismo. No Brasil, ela sempre esteve voltada para as universidades. Até então, o trabalho da Academia era muito voltado para desenvolver centros de estudo dentro das universidades, tanto é que nós temos oito ou nove no Brasil que estudam, apresentam trabalhos e teses sobre olimpismo. A PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) inseriu uma disciplina, a educação olímpica, no seu currículo de educação física. Outros discutem um pouco isso fora, mas ainda não se conseguiu que isso fosse uma palavra chave, que isso tivesse uma força dentro das universidades no sentido de que fosse fomentado tanto nos cursos de licenciatura quanto nos de bacharelado. Em 2009, o (Carlos Arthur) Nuzman nos convidou para aceitar esse desafio de entrar na Academia Olímpica com o objetivo de fazer com que as escolas de educação física discutam um pouco mais essa questão e, principalmente, levar isso para as secretarias de educação, o que é um processo longo. Mudar a cabeça de um secretário de educação é um processo muito difícil. Do professor também.

MO: Mas o COB não deveria dar um apoio mais forte? Ou mesmo, não falta investimento nesse sentido?

JS: Ta. É função do COB isso? Qual é a função do COB? Às vezes a gente cobra muita coisa das instituições desconhecendo o papel dela. O papel do COB não é formação de atleta, mas representar o Brasil nas competições internacionais. O esporte, infelizmente, se profissionalizou demais. Na época em que eu era treinador de esportes, no Rio de Janeiro, você tinha 18 equipes jogando voleibol, por exemplo, na categoria juvenil. Quantas equipes jogam hoje voleibol? Quatro ou cinco... Por quê? Porque virou profissional. Você tem as equipes profissionalizantes, você escolhe os profissionais e cada um ganha oito, dez mil reais. Um garoto de 15 anos, 16 anos para jogar voleibol ganha oito ou dez mil reais. Quer dizer, virou uma profissionalização exacerbada. Então o que acontece? O Torben (Grael) não tem mais como se segurar, por exemplo. Se ele não tiver patrocínio, não tem jeito. O esporte de alto rendimento está altamente profissionalizado e caro. Resultado: ou você tem as Olimpíadas Escolares para tentar dar essa oportunidade para as crianças desenvolverem, ou então você não vai conseguir desenvolver esse trabalho. O que acontece com a Academia Olímpica? Ela está inserida no COB em razão do COI (Comitê Olímpico Internacional), para que todos os comitês tenham esse desenvolvimento, mas não é exatamente a função deles. A questão da educação olímpica, a questão dos valores do esporte, a questão do olimpismo não tem que partir do COB. Isso tem que ser uma questão filosófica do interesse de uma agenda pública. Quando a agenda pública quis acabar com a fome, colocou na agenda e todo mundo se envolveu nisso. Você já imaginou se fosse uma questão obrigatória que todos os colégios, no período de 23 de junho, em que se comemora a semana olímpica, desenvolvessem uma semana olímpica? Cada um de acordo com as suas possibilidades, de acordo com a sua realidade, mas falta informação, falta incentivo, falta vontade, falta interesse, falta tudo. Aí é que eu vou concordar, os Jogos vão trazer o quê para nós? Vai ficar o quê para nós? Vão ficar as instalações, ótimo, vão ficar as estruturas maravilhosas...

MO: Isso fica tudo perfeito, mas e depois?

JS: O pós também vai ficar por isso mesmo, o que ficou depois do Pan. Em qualquer lugar, se você for nessas arenas gigantescas, está tudo abandonado, não é só aqui não. No mundo inteiro é assim. Mas aquilo trouxe recurso, demanda, visibilidade... Tudo aquilo ali, no final, valeu. O que nós estamos fazendo? Nós estamos mandando cartas, ofícios, pedindo audiência para o Henrique Meirelles, para o Márcio Fortes, para o conselho da APO (Autoridade Pública Olímpica), para o Ministério do Esporte, Ministério da Educação. Estamos sempre lá, instigando. Já fizemos três ou quatro seminários no Congresso Nacional com a Comissão de Turismo e Esporte. Criamos a Frente Parlamentar da Atividade Física junto com os deputados... Para quê? Isso aqui é um trabalho... não sai de uma hora para outra. Na hora de tirar uma medalha a mídia aparece é tudo muito bonito. Criam escolas e todo mundo acha lindo e maravilhoso. E os professores foram preparados para trabalhar naquela escola? Fez uma capacitação? Não, então infelizmente nós ficamos em uma situação em que os legados tangíveis são facilmente contestados e os intangíveis ficam perdidos.

MO: Quais são as suas expectativas em relação às olimpíadas que serão sediadas no Brasil, em 2016? Quais os impactos que os megaeventos podem trazer para o mercado profissional da área da educação Física e esportes?

JS: Acredito que os megaeventos podem agregar valores, sejam sociais, morais e educacionais, não tenho dúvida. Se realmente vão agregar valores, é outra questão. Acredito ser possível atingir legados socioeducacionais se nossos dirigentes e parlamentares perceberem essa importância, planejarem e programarem essa possibilidade. Os legados não vão acontecer pura e simplesmente porque o Brasil está sediando os megaeventos. Espero que os dirigentes acordem e, além dos legados tangíveis, passem a dar importância e relevância aos legados intangíveis. Quanto ao mercado, vai haver uma maior procura e interesse pelo esporte; consequentemente, maior demanda pelo Profissional de Educação Física. Poderá, ou melhor, deverá ser maior se o governo e a mídia incluírem no impacto dos megaeventos a missão, o objetivo e a finalidade de erradicar a obesidade, epidemia que assola o mundo e o Brasil. Estaremos vivenciando o esporte intensamente nesta década. Essa é a conjuntura mais do que apropriada para ressaltar os heróis esportistas, medalhistas, os atletas olímpicos e, ao mesmo tempo, promover campanhas e ações de conscientização para a prática de exercícios físicos devidamente orientados. Não são ações nem metas excludentes: pode-se trabalhar no sentido de desenvolvimento do esporte de alto rendimento, bem como pelo esporte que promove a formação e a melhoria da qualidade de vida.

MO: Ainda em 2007, o Sistema CONFEF/CREFs foi convidado a participar do Programa de Observadores Rio 2007, evento com o objetivo de discutir questões que aumentem as chances de candidaturas a grandes eventos esportivos. Como o senhor avalia a importância social de um país ser sede de um grande evento esportivo?

JS: Creio ser o reconhecimento da credibilidade do país. Assim como entendo que a maior missão do Profissional de Educação Física é formar campeões para a vida, um país conquistar o direito de sediar os maiores eventos do mundo é a vitória e a consagração de ser campeão de credibilidade mundial, de reconhecimento, de maturidade e de competência dos dirigentes. Se não fossem esses fatores, o Brasil não seria campeão.

MO: Em 2006, o senhor recebeu a condecoração do Discóbolo de ouro por sua luta pela regulamentação da profissão. Qual a importância do prêmio e do reconhecimento?

JS: Foi uma honra ser agraciado com o Discóbolo de Ouro. Creio que foi uma das formas de reconhecimento pela minha insistente luta, de 30 anos, pela Regulamentação da profissão. Ser homenageado refletiu o reconhecimento pela liderança, empenho, amor e possivelmente agradecimento de muitos que não acreditaram ser possível transformar o sonho em realidade.

MO: Em 2007 o senhor participou de um momento histórico para a Educação Física Brasileira, fazendo parte da comitiva que trouxe o Fogo Pan-Americano, da Cidade do México até Cabrália (BA), para que a Tocha Pan-americana fosse acesa. Como foi participar de um  momento tão importante para o esporte?

JS: Foi uma emoção indescritível e inenarrável. Difícil, para não dizer impossível, o sentimento de assistir a toda sociedade, em um ponto místico no México, acompanhar a tocha no avião, sem ar condicionado, com parte das maiores autoridades do país suando nessa viagem inesquecível. A chegada a Cabrália e todo o cerimonial de início da caminhada da tocha foram inesquecíveis. E ainda tive o prazer de carregar a tocha em Brasília! Sentir o calor de nossa gente dava a impressão e a sensação de ser transportado para os Jogos na era antes de Cristo. Foi fantástico.

MO: Como você avalia a questão do doping e do anabolizante, que acaba sendo um problema nas escolas?

JS: Volto a repetir que tem um pouco da responsabilidade da educação física. Apareceu um doping? É uma oportunidade de se conversar para que as crianças percebam esse tipo de situação. Na minha opinião tem um pouco de ausência dessas discussões por parte dos profissionais de educação física para que a criança aprenda ou perceba os riscos. A gente sabe que nem sempre se a gente falar sobre isso é o suficiente. Eu não posso proibir você de fazer o que quiser. Quanto à questão do doping em atleta, esta é uma questão um pouco mais complexa. Por quê? Se nós formos perguntar aos atletas – e eu já vi uma pesquisa sobre isso –, se ele toparia perder 20 anos da vida dele para subir ao pódio, mesmo dopado, ele aceita. Ou seja, a questão da vitória está tão exacerbada, tão incrustada na nossa sociedade, que o cara quer fazer de qualquer forma. Eu confesso a você que precisaria de uma discussão um pouco mais profunda sobre isso para realmente entender o que é melhor, se é melhor liberar e aí quem for atleta vai fazer, ou continuar com essa coibição. Recentemente, se tirou a medalha do campeão de corrida porque se descobriu que sete anos atrás o cara tomava alguma coisa, mas naquela época não era doping. Como vai ficar essa relação? Durante cinco anos é campeão e, de repente, você perde a sua medalha? Não sei. Isso aí precisaria de uma discussão um pouco mais aprofundada.


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