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ENTREVISTAS

Jordi Ribera (Técnico de Handebol)

24/02/2015
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Por Fernando Hawad

O handebol entrou muito cedo na vida de Jordi Ribera. O espanhol nascido na Catalunha começou a trajetória de treinador ainda adolescente. Aos 26 anos, passou a comandar equipes profissionais na forte Liga Espanhola, uma das mais competitivas do mundo. Conhecido por ser dedicado e estudioso, construiu uma carreira sólida no país natal. Em 2004, desembarcou na América do Sul. Após uma temporada na Argentina, foi convidado para assumir a seleção brasileira masculina em 2005, no projeto que tinha como objetivo o ouro nos Jogos Pan-Americanos do Rio, meta alcançada com sucesso.

Depois dos Jogos de Pequim 2008, Jordi voltou para a Espanha. Mas o bom trabalho que realizou no Brasil deixou saudades. Em 2012, a Confederação Brasileira de Handebol lhe ofereceu novamente o cargo de técnico da seleção principal e o catalão voltou. A boa campanha no Mundial do Catar, em janeiro deste ano, não deixa dúvida de que o handebol brasileiro está em boas mãos.

 

jordi-ribera-mundial-cbhb-texto_360EE: Para começar, fale sobre a sua trajetória no handebol e de como surgiu a oportunidade para trabalhar no Brasil pela primeira vez, lá em 2005.

Jordi Ribera: Eu comecei a ser treinador muito cedo. Quando tinha 15 anos já treinava meninos novos. Mas a nível profissional, foi aos 26 anos. Nessa época, lá na Espanha, eu era o treinador mais novo a comandar uma equipe de primeira divisão. A partir daí, fiquei uns 15 anos treinando times profissionais na Espanha. Depois recebi uma proposta para trabalhar na Argentina. Fiquei um ano lá e então fui chamado pela Confederação Brasileira, que perguntou se eu tinha interesse em treinar a seleção em um projeto que visava aos Jogos Pan-Americanos do Rio, em 2007. Aceitei a proposta e vim para cá. Depois do Pan [competição em que o Brasil foi campeão], recebi uma proposta para voltar para a Espanha e fiquei mais quatro anos lá. Ainda assim, no meu primeiro ano, a Confederação Brasileira me propôs continuar no comando da seleção para os Jogos Olímpicos de Pequim 2008, mesmo enquanto eu treinava um clube na Espanha. Aceitei e fiquei até os Jogos. Depois, deixei o comando da seleção e o Brasil contratou Garcia Cuesta para o ciclo olímpico de Londres. Fiquei quatro anos na Espanha e quando o Brasil não conseguiu classificação para a Olimpíada de 2012, a Confederação voltou a ligar para mim e me ofereceu novamente o cargo de treinador no projeto para o Rio 2016. Voltei e já são dois anos e meio nesta nova etapa. 

 

A evolução do handebol no Brasil

 

EE: Até pouco tempo, a seleção ia para as grandes competições e não conseguia jogar de igual para igual com as potências da modalidade. Hoje já estamos fazendo jogo duro. A que se deve essa evolução do handebol brasileiro?

JR: Muitos jogadores novos foram para Europa jogar, alguns até que nunca haviam participado da seleção. Por exemplo, se olharmos essa equipe que foi agora ao Mundial do Catar e compararmos com a que disputou o Pan de Guadalajara, em 2011, veremos que houve uma transformação. Alguns experientes continuaram, mas uma grande parte de jogadores novos entrou a partir da minha volta, em 2012. Muitos desses novatos saíram do Brasil em busca de mais experiência a nível internacional. E isso ajudou muito a seleção a melhorar o seu jogo, sua competitividade. 

01_200_18EE: Você acredita, então, ser fundamental para a evolução dos atletas a saída do Brasil? A Liga Nacional ainda está em um nível muito abaixo do que se joga na Europa?

JR: A competição é muito importante para o jogador evoluir. Se não há competição, é muito difícil que o atleta atinja um alto nível.

Para atingir o alto rendimento, teríamos dois processos. O primeiro seria ter uma seleção permanente, sempre disputando partidas internacionais. Mas isso é muito difícil. Então, a outra solução é que os atletas encontrem lugares onde possam competir contra os melhores. Assim que se evolui. Além disso, se forem jogadores talentosos, com condições técnicas e táticas, muito melhor.

EE: Como você avalia a participação da seleção neste Mundial do Catar? Fizemos ótimos jogos contra grandes potências da modalidade como Espanha e Croácia, mas acabamos perdendo no final. Você acredita que falte um pouco de força psicológica para os nossos jogadores no momento decisivo?

JR: São jogadores novos. Temos que lembrar que em alguns jogos a nossa primeira linha tinha atletas de 20 anos, como o João e o Zé, de 21, como o Arthur Patrianova. Estamos falando do jogo contra a Croácia, equipe que tem jogadores com muita experiência, além de um nível físico elevado. Necessitamos de um pouco mais de tempo. Acho que, nas próximas competições, teremos ainda mais chances. Se olharmos para as oitavas de final agora no Catar, acho que um time que merecia passar para as quartas era o Brasil. Por alguns desencontros dos árbitros e alguns erros nossos, não conseguimos passar, mas se alguém mereceu passar de fase pelo desempenho, acho que foi o Brasil. 

03_200_17No Mundial da Espanha, em 2013, a nossa classificação foi até melhor. Ficamos em 13º lá e agora ficamos em 16º. Mas se olharmos o nível de jogo apresentado, houve uma melhora. Em 2013, quando jogamos contra a Alemanha, perdemos de dez. Quando jogamos contra a França, perdemos de cinco, não brigamos de igual para igual. Neste Mundial de agora, encaramos todas as seleções. Em todos os jogos nós ficamos perto no marcador. Além disso, tanto Catar, como Espanha, chegaram até as semifinais, o que mostra que o nosso grupo na primeira fase era bastante forte. A evolução foi boa. O que falta para a seleção é ter um resultado expressivo contra esses times de primeiro escalão. Fizemos bons jogos contra a Espanha, campeã de 2013, a Eslovênia e a Croácia. Se ganhássemos algum desses jogos, o passo teria sido maior, mas há de se levar em conta que a evolução da equipe foi muito boa.

 

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Jordi Ribera passa instruções para a equipe durante partida contra a Eslovênia no Mundial do Catar

 

04_200_20EE: Como foi para você o confronto contra a Espanha no Mundial. Foi diferente, por ser o seu país de origem?

JR: Não. Na verdade, quando estou na quadra, quero que a minha equipe ganhe. Tento sempre fazer o meu melhor. O técnico da Espanha é muito meu amigo, mas não tenho uma sensação diferente por enfrentar a Espanha ou qualquer outro time. Eu já treinei muita gente, então, na Croácia, por exemplo, dois jogadores já haviam trabalhado comigo em clubes. Na Espanha também tinha alguns jogadores que eu já havia treinado. Em outras seleções também. Minha sensação quando jogo contra a Espanha ou outra seleção é a vontade de ganhar, porque ganhar de times deste nível é dar um passo à frente muito grande.

EE: Com essa evolução gradual que estamos tendo, você percebe que o Brasil já está mais respeitado pelos adversários?

JR: No Mundial da Espanha já tínhamos dado um passo, mas agora, no Catar, avançamos ainda mais. Todo mundo está vendo o Brasil como um rival complicado. Todos que nos enfrentaram e todos que assistiram às nossas partidas viram como foi difícil derrotar a nossa equipe. Então, naturalmente ganhamos respeito. Agora, com esse respeito, precisamos dar continuidade ao trabalho.

 

As futuras gerações

 

05_200_16EE: Como é o seu trabalho aqui no Brasil quando não está em competições com a seleção? 

JR: Nós aqui no Brasil fazemos muitas coisas. Viajamos pelos estados, fazemos clínicas de três, quatro dias, com garotos novos. Juntamos atletas e técnicos dos estados para trabalharmos com eles. Todas essas atividades servem para passarmos aos atletas e técnicos as ideias de jogo que procuramos implantar no Brasil. Quando cheguei aqui, tanto na primeira etapa, lá em 2005, como na segunda, em 2012, sempre falei com a Confederação que eu não viria para treinar somente a equipe adulta, mas que viria para fazer um projeto global em todas as categorias. Por isso, nós estabelecemos estas atividades, que nos permitem trabalhar com jogadores novos, que no futuro podem estar na seleção. Não estamos pensando apenas na equipe adulta, que é a ponta da pirâmide. Nunca se pode ter uma ponta da pirâmide se não estabelecermos uma boa base de trabalho nas categorias inferiores.

 

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EE: Como estão as categorias de base no Brasil? Podemos esperar novos talentos surgindo nos próximos anos?

JR: Sem dúvida. Você tem que pensar que em 2013, a seleção adulta ficou em 13º no Mundial, mas a seleção júnior ficou em sexto lugar. A seleção juvenil, no último Mundial, ficou em nono lugar. Nós temos seleções de base que estão gerando jogadores para a seleção adulta. O João e o Toledo, por exemplo, são meninos que jogaram no Mundial Juvenil e dois anos depois estavam jogando um Mundial Adulto. O Arthur Patrianova estava no Mundial Júnior e agora foi para o Mundial Adulto. Estamos falando de meninos que em pouco tempo passaram dos campings que nós fazemos para defender o Brasil em grandes competições, conseguindo bons resultados. A seleção júnior conseguiu o melhor resultado da história em 2013, com esse sexto lugar. A juvenil também, com o nono lugar. Eu acho que estamos em um processo não apenas com o adulto, mas em todas as categorias, de uma melhora geral da modalidade no país. Isso é importante.

07_200_17EE: Com o bom desempenho no Mundial, ficou aquela sensação de que o Brasil pode fazer bonito nos Jogos Olímpicos do Rio. Qual é a meta para 2016?

JR: O projeto para a Olimpíada do Rio começou no momento da minha contratação, em 2012. Quatro anos, para ter uma mudança tão significativa, é pouco tempo. Mas eu acho que nesses primeiros dois anos e meio, evoluímos bastante. Vamos tentar fazer o máximo de atividades com a equipe nos últimos meses antes dos Jogos Olímpicos, mas vale lembrar que muitos jogadores estão com seus clubes na Europa, então vai ser um pouco difícil reunir o grupo todo durante muito tempo. Em 2013, antes do Mundial da Espanha, a maior parte dos atletas estava aqui no Brasil e nós ficamos muito tempo trabalhando com eles para chegar ao Mundial. Isso ajuda bastante. Mas também sabemos que a seleção permanente não pode estar sempre junta porque os jogadores precisam competir nos clubes em alto nível.

 

Mais trabalho pela frente

 

08_200_17EE: O trabalho da seleção feminina, que foi campeã mundial em 2013, pode servir de exemplo para a seleção masculina?

JR: A seleção feminina conseguiu dar um passo à frente muito importante. Foi um processo de muitos anos que deu certo. A seleção masculina está iniciando esse processo. Além disso, a realidade do handebol masculino é diferente da realidade do feminino a nível internacional. Eu acho que, para nós, é muito mais difícil atingir o que a seleção feminina conseguiu. Mas precisamos ter paciência. Acredito que com um pouco mais de tempo a equipe masculina vai ter condições de dar um salto mais significativo.

EE: Qual o melhor jogador que você dirigiu internacionalmente e qual o melhor brasileiro que você já trabalhou nessas duas passagens?

JR: Eu não gosto muito de diferenciar. A seleção é uma equipe. Quando se olha uma equipe, há de se esperar todos jogando na mesma direção, dando sentido ao que fazem. Não sou o tipo de pessoa que gosta de diferenciar e de dar preferência a uns jogadores. Há jogadores que em determinados momentos podem ser melhores e outros que podem funcionar melhor em outros momentos.

02_200_21EE: Com toda a sua experiência, você acredita que o Brasil esteja, em termos de organização, muito atrás da Europa?

JR: Na Europa o handebol é muito tradicional. Então, estamos falando de um espaço reduzido, onde se encontram muitos países para competir com os melhores times e os melhores jogadores. Aqui no Brasil, ainda estamos longe de ter muitos times, muita competição. É uma diferença grande. Aqui, nós temos muitos jogadores que começam a praticar handebol na escola, mas que quando acabam a fase escolar não encontram lugares para dar continuidade à carreira. Lá na Europa, os jogadores iniciam dentro dos clubes e podem continuar até o profissional. Aqui nós temos muitos talentos nas escolas, mas acabamos perdendo vários deles porque faltam clubes para que possam seguir competindo e evoluindo.

 

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A etapa fundamental de todo desenvolvimento: os treinos


10_200_04EE: Qual é o patamar do handebol hoje no Brasil?

JR: O handebol é um dos esportes mais praticados nas escolas brasileiras. Eu acho que houve uma evolução muito grande no conhecimento da modalidade a nível geral. Um dos problemas que nós temos é a falta de continuidade. Se conseguirmos dar continuidade a todo esse volume de meninos que estão jogando, o handebol brasileiro vai melhorar muito. De alguns anos para cá, vemos que o handebol tem sido mais difundido, com transmissões na televisão, na rádio. Isso é muito importante para que as pessoas conheçam mais a modalidade. O título mundial das meninas também ajudou nessa evolução. Nossa campanha agora no Mundial do Catar foi acompanhada por bastante gente, o que mostra que a modalidade está crescendo. Ainda precisamos de muitas coisas, como um centro de treinamento específico. 12_200_02Temos um centro em São Bernardo, mas ainda não está inteiro. Estamos a um ano e meio dos Jogos Olímpicos e o handebol ainda não tem um centro de treinamento específico. Isso é um passo importante que precisamos dar.

EE: A pergunta que fazemos para todos os nossos entrevistados. Para você, o esporte é essencial?

JR: Para mim o handebol representa tudo. São muitos anos de vida dedicados ao esporte.

 

 

Fotos: Divulgação/ CBHb/ Photo&Grafia


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