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Homem é preso após ameaça de bomba e tenta levar avião a Soshi...
Esporte que constrói o Brasil.

ENTREVISTAS

João Havelange (presidente de Honra da FIFA)

05/08/2011
Esportes relacionados:

f_j6_660Quase, não. Um fenômeno.

Por Fabiana Bentes, Pablo Carrilho e Thyago Mathias

“Aqui, parece que é uma desonra ter os Jogos Olímpicos... O Ministério dos Esportes não tem força nenhuma. E dói. Palavra de honra. As obrigações para 2016 já estão em cima.”

“Eu nunca me esqueço quando o avião da Pan Air desceu. Quem trabalhava na pista do aeroporto botando asfalto e tudo, era só mulher. Aquilo me deu um choque, porque aí percebi que tinha morrido muita gente.” (1952, Helsinque)

“No joelho, você vê o que aconteceu. Está rico, mas amanhã pode ser que tenha que andar de cadeira de rodas. Está bem? Não, está mal.” ( Sobre o ex-jogador Ronaldo)

“Levamos 21 dias de navio do Rio de Janeiro até San Martin, onde era o outro porto. Não tinha nada. Fizeram uma piscina de lona, de 4x4 metros. O que a gente podia fazer? Nada.” (Berlim 1936)

“Eu fui, delicadamente, e disse que havia sido eleito e queria apresentar minha senhora. Ninguém se levantou, como se eu fosse um lixo.”

 “'Se um dia eu chegar à CBD, eu dou a Copa do Mundo ao Brasil'. Fui-me embora. Oito anos depois, fomos campeões.”

“Essa menina Marta tem que colocar calças. É um fenômeno. Tem uma coisa, nem os homens a que eu assisto, nem eles, se ela tivesse calças e entrasse, poderiam enfrentá-la.”

Aos 95 anos, Jean-Marie Faustin Goedefroid de Havelange nada 2 mil metros diariamente, na piscina de um clube do Rio de Janeiro. Esta vitalidade do sétimo presidente da FIFA (Federação Internacional de Futebol, na sigla em francês), de 1974 a 1998, é, por si só, um atestado sobre os benefícios do esporte para a saúde.

O carioca, filho de belga, conhecido por todos os brasileiros como João Havelange, conquistou uma medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos da Cidade do México 1955, pela equipe de polo aquático, mesmo esporte pelo qual competiu nos Jogos Olímpicos de Helsinque 1952. As outras participações nos Jogos foram em 1956, onde chefiou as equipes de vela e remo e, em 1936, em Berlim, como nadador.

Membro do Comitê Olímpico Internacional desde 1963, Havelange recebeu a equipe do Memória Olímpica em seu escritório, no qual mantém uma rotina diária de trabalho, no Centro do Rio, para uma conversa em que lamenta a inoperância do Ministério do Esporte e a desconfiança dos brasileiros em relação aos Jogos de 2016. Sem poupar críticas à Seleção Brasileira e elogios à jogadora Marta, pede perdão pela modéstia para se dizer “quase um fenômeno”.

 

FUTEBOL

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Da Viação Cometa para o futebol

Administrar não é jogar futebol. A gente tem que aprender a administrar para poder ocupar os postos. Antes de chegar à FIFA, estive em uma empresa que foi a Viação Cometa. Eu fiquei nessa empresa por 62 anos. Primeiro, como advogado, por dois anos. Dois anos também, como vice-presidente e, depois, fiquei 58 anos como presidente. Ninguém fica em uma empresa por 62 anos. Muito menos nos dias de hoje. Justamente o que eu aprendi e fiz na Cometa, eu coloquei em prática no futebol. Todo mundo pensa que, para isso, é preciso entender de futebol. Não, tem que entender é de administração. O futebol tem o técnico, o supervisor, tem isso e aquilo. Hoje em dia, até formação universitária, não é verdade? Vou dar o exemplo da minha empresa. Eu não dirigia, não mexia no motor, não mexia no chassi, não trocava o pneu, mas tudo isso era feito. Em futebol, me perdoe a comparação, eu falo não de entrar em campo, porque um entra na estrada e o outro entra em campo, mas falo na maneira de administrar. A primeira coisa que eu faria, quando chegasse em um clube, seria procurar um sponsor, porque sem dinheiro não se pode fazer nada. Eu vejo o meu clube, as dívidas que tem, as obrigações que tem... está em uma posição difícil e assim estão todos, praticamente, sem exceção, porque o sujeito que está lá é torcedor e não administrador.

A primeira eleição para a FIFA

Houve um congresso da Confederação Sul-Americana aqui, eles indicaram meu nome e eu pedi a eles que procurassem outra pessoa, porque não ia concorrer. Não houve jeito, eu tive que aceitar. Como tudo no Brasil, como tudo na América do Sul, tudo é esquecido. Isso foi em setembro, deu outubro, novembro e nada. Eu pensei, “tenho que fazer alguma coisa”. Aí, fiz um plano. Fui a toda América Central e, dali, fui aos países da Ásia. Eu pousei nas Filipinas e o homem forte do país foi de uma gentileza... disse “Sr. Havelange, o meu diretor vai trabalhar para o senhor, pode ficar tranquilo”. De lá, fui ao Japão, fui à China, fui a todos os lugares. Cheguei à Austrália e fui falar com o presidente da federação. Ele era um búlgaro, eu acho, naturalizado inglês. E não quis se meter e não me recebeu. Mas o presidente da Lufthansa em Sydney, já era meu conhecido. Quando ele morava aqui e foi chamado para ir para a Austrália, me procurou e disse que não iria. Eu disse para ele, “não fala isso, reconsidere, vá para Sydney que você vai gostar. Tem uma baía fantástica, você tem um veleiro, vai gostar.” Quando eu cheguei lá, nos reunimos e ele me disse “não te preocupes, João, porque no momento da tua eleição eu volto para a Alemanha de férias e eles me dão seis passagens, ida e volta. Eu vou levar seis presidentes para votar em você”. Eu achei ótimo. Resultado: na primeira volta, eu ganhei por seis votos. Veja o que é o destino, o que é a mão de Deus. Na FIFA, até hoje, na primeira volta, tem que se ganhar por dois terços. Na segunda, por um. Acabei ganhando na segunda rodada por 16 votos. Veja só, eu trabalhei isso tudo. Fui aos países e aqui a imprensa dizia que eu estava gastando dinheiro. Nunca pedi nada, porque a CBD (Confederação Brasileira de Desporto) não tinha nada, fiz tudo do meu bolso e a Cometa é que me ajudava, me patrocinava. Só no período de João Figueiredo eu tive passaporte diplomático, porque o João era meu amigo, jogou no Fluminense, era ponta esquerda e eu sempre brincava com ele, “ali é o melhor lugar do time para você”, ele perguntava o porquê e eu respondia, “ali você fica mais perto do vestiário”.

A evolução da FIFA com Havelange

Vou dar um exemplo do que mais faz sentido na evolução e nas modificações que fizemos no setor financeiro. Quando fiz a primeira Copa do Mundo, depois de ser eleito em 1974 e já encontrando definida a Copa na Argentina para 1978, o resultado bruto dessa Copa foi de 78 milhões de dólares. Quatro anos depois, a Copa foi disputada na Espanha. O resultado foi de 82 milhões de dólares. Eu me permiti modificar tudo. De 16 times que jogavam em 25 dias, eu coloquei 32 times jogando em menos de 30 dias. Agora, na Copa da Alemanha, há oito anos, nós chegamos a 6,4 bilhões de dólares. Eu não entro em campo, não indico jogador, não tenho nada a ver com isso, mas tenho que saber administrar.

FIFA e ONU

Veja, eu presidi a FIFA e procurei ir a todos os lugares. A FIFA tinha 169 países associados. E eu fui a 168. Só não fui ao Afeganistão, porque lá, até hoje, a gente não desce. Fui a todos os outros e o país em que fui menos, eu fui três vezes. O presidente das Nações Unidas nunca foi a lugar nenhum. E, aqui entre nós, o último era de origem africana e o de hoje é da Coreia do Sul, mas quem manda? Os Estados Unidos. Não adianta nada. Na FIFA, não. É diferente. Eu lhe digo, que o esporte mexe mais com a juventude do que a ONU. Quando tiver um filho, leve para os Jogos Olímpicos. Ele muda. Primeiro, ali tem todos os países do mundo, praticamente. Então você sente o que cada um é, como ele reage, como ele fala, como ele trata... Vá um dia ver a Vila Olímpica, ver os lugares... Nunca faltei a uma edição dos Jogos e fui também à China. Precisava ver que coisa. Que disciplina. Os estádios, tudo. O que mais comemoro da minha gestão na FIFA foi o desenvolvimento que o futebol deu ao mundo, me perdoe a falta de modéstia. Sabe quantas pessoas trabalham com futebol no mundo? 200 milhões. Se for uma família de cinco pessoas, temos um bilhão de pessoas que jantam todos os dias graças ao futebol. É isso que a ONU não sabe fazer. Quanta gente morre de fome... Naturalmente o futebol é uma paixão, mas vamos utilizá-la corretamente. Foi o que a FIFA fez. Tem o campeonato Mundial de Mulheres, tem o Campeonato Mundial Juvenil, tem o Campeonato Mundial de Futebol de Praia, já vai começar o de futebol de salão, que eu pedi ao Blatter, presidente da FIFA. A gente mexe com a juventude. A ONU não faz isso.

Ideologias políticas

Sabe o que a ONU me lembra? Houve a revolução (1964) e assumiu o general Castelo Branco. Um homem extraordinário, de correção, cearense, criou o Banco Nacional de Habitação, que era para dar um sistema social ao povo. Fizeram na Avenida Chile um prédio de 30 andares, encheram de funcionários, mas nada fizeram. Um dia, esses funcionários todos foram para a Caixa Econômica e acabaram com o BNH. Não se fez um plano, não se fez absolutamente nada. Uma vez eu fui a Londres. Eles construíam prédios que nem uma bomba colocava no chão. E tem uma coisa: quem ganha 100 libras, paga 10 libras, quem ganha 1000, paga 100 libras. E tem uma organização no prédio... ninguém pode mexer em nada. Na parte elétrica, parte de água, nada. Aqui, sabe o que a população fazia? Arrancavam a privada e iam vender. Olha, vou lhe dar um exemplo. O deputado Armando da Fonseca foi à Rocinha naquela época inaugurar uma caixa d’água. E agora veja como estão as coisas. Isso, porque ninguém fez nada. Meu pai tinha uma fazenda em Itaguaí (RJ). Eu era menino, ele me levava. Eram duas horas e meia de “maria fumaça”, daqui da (estação da) Central até Itaguaí. Saltava, pegava os animais e ia para a fazenda. Um dia eu pensei: por que o governo não faz do Rio até Mangaratiba (RJ) um trem elétrico para se chegar lá em 40 minutos, costeando o mar? Porque não fazer ali bairros com prédios de quatro andares, sem elevador? Se a gente consegue subir morro, a gente sobe quatro andares. Por que não botar tudo da prefeitura que for necessário para o sujeito poder viver ali? Não custava fazer um plano desses. Quando se fez Copacabana, eu já era mais rapaz, o operário que terminava saía às 17h e chegava em casa às 22h ou 23h. No dia seguinte, ele tinha que acordar às 4h para chegar na obra às 7h. Então, quando terminava a obra, ele começava a pegar as coisas e fazia um casebre por alí. Morava ali durante a semana e ia ver a família. Veja só, o principal não é bem a casa, o principal é o transporte. Lá fora, na França, tem o TGV, que encanta qualquer um. Você pega e ele anda a quanto? 250km/h. Em meia-hora você chega a qualquer lugar. Então por que em um país grande como o nosso não botar um trem? Isso me dói.

 RAZÕES DO FUTEBOL

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O estádio João Havelange e o Fluminense

No primeiro mandato do (prefeito do Rio de Janeiro) Cesar Maia, eu fui ao gabinete, porque me dava com o pai dele, e ele me disse: “eu sei porque você está aqui, por causa do Fluminense”. O clube do Fluminense está ilhado. Não pode crescer, porque tem o Palácio Guanabara do lado, atrás tem o morro, tem uma ruazinha, a Álvaro Chaves, e, em frente, tem uma pista de velocidade. Então ele me disse: “eu dou ao Fluminense 100 mil metros quadrados e faço um estádio para 45mil pessoas. Depois você faz a sede, piscinas e ginásio”. O Fluminense não quis. A gente tem que analisar que o Rio de Janeiro mudou. No meu tempo de menino, a população do Rio era de um milhão de pessoas. Nas Laranjeiras, eram terrenos grandes, com uma casa e uma família. Hoje em dia, nesses terrenos há vários edifícios que jogam crianças dentro do Fluminense e que muitas vezes são Vasco, Flamengo ou Botafogo. Aí o Cesar Maia acabou fazendo um estádio e colocou o meu nome, uma gentileza, que seria aquele estádio para o Fluminense. Quando ele me disse que ia fazer o estádio e colocar o nome, eu disse: “só te peço duas coisas, acesso e estacionamento”. Veja o problema que nós temos. Veio a Copa do Mundo e queriam implodir o Maracanã. Eu falei que podiam botar abaixo, porque o Maracanã só tem uma chegada e não tem onde estacionar. Na Copa do Mundo da Alemanha, eu estava lá e, na hora do jogo, todos os sinais no caminho do estádio estavam verdes. Os ônibus chegavam, descarregavam, davam a volta e iam embora. O táxi descarregava e ia embora. Para carros particulares tinham seis ou sete mil vagas. É isso, ou a gente evolui ou...

A razão pela qual não foi jogador de futebol

No Fluminense eu joguei voleibol, joguei basquete... fui campeão juvenil de futebol pelo Fluminense aos 15 anos, em 1931. Aí, me convidaram para ser profissional, mas meu pai não deixou, porque naquela época a gente tomava tudo de maneira diferente de hoje. Você vê esse rapaz Ronaldo, que era do São Cristóvão, eu me lembro quando ele embarcou para a Holanda, antes de ir para o Barcelona... não tinha nada, era magrinho. Isso foi um dos grandes problemas dele. Botou uma massa muscular que não era adaptada para a estrutura óssea dele. No joelho, você vê o que aconteceu. Está rico, mas amanhã pode ser que tenha que andar de cadeira de rodas. Está bem? Não, está mal. Enfim, depois eu fui para São Paulo, fui a campeonatos sul-americanos na Argentina, Chile e Peru. Fui aos Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim e também em 1952, como jogador de pólo aquático. Depois, em 1960, não pude ir, porque tinha muito trabalho na Cometa, mas em 1956 fui chefiando a delegação em Melbourne. 

A decisão

Quando fiz 80 anos e ainda estava na FIFA, fiz uma carta a todos os membros do executivo, comunicando que não me reapresentaria. Isso eu fiz por uma razão muito simples: meu mandato terminava quando eu fizesse 82, mas com 80 anos, a gente começa a descer a escada da vida. Se não tiver cuidado, ao invés de darem projeção ao que se fez, passam a dizer “coitado, como ele está velho”. Então, a gente já deve estar em casa. Por isso, eu, aos 82 anos, não aceitei mais uma reeleição. E, aliás, me perdoe, mas eleição foi apenas uma vez. Nas outras, houve aclamação. Eu não tive adversários. Isso é quase raro e difícil, não é? Estou bem, mas não teria mais condições de estar dirigindo a FIFA como fiz quando cheguei. Veja como o tempo vai acabando com a gente, é uma lei da vida. E eu ainda sou, me perdoe a falta de modéstia, quase um fenômeno.

Talvez, a última viagem à FIFA

Ainda há pouco, eu vim de uma longa viagem, para a eleição do presidente Blatter, que me convidou. Fui, porque sou o presidente de honra da FIFA, mas, na próxima, tenho que pensar bem porque terei 99 anos. Será a última viagem, se não foi esta. Felizmente, Blatter foi reeleito. E eu digo felizmente, porque ele seguiu uma política de desenvolvimento.

O tricampeonato de futebol como presidente da CBD

Eu morava em São Paulo, vim para o Rio e fui eleito presidente da Federação de Natação. Veio a CBD e queriam que eu fosse presidente. Disse que sim, mas com uma condição, que meu vice-presidente fosse o Paulo Machado de Carvalho, que era meu amigo, dono da Record e era do São Paulo. Ele aceitou, fomos eleitos. Dei a ele a chefia da delegação. Nós estudamos as pessoas que estariam com a gente: o Nascimento, um homem formidável, o Zé de Almeida, formidável... aí, eu escolhi o Vicente Feola e fui atacado. Eu lhe digo o porquê. O Feola era administrador, mas, a cada vez que um técnico ia embora, quem assumia era o Feola. Por duas vezes, ele assumiu faltando cinco ou seis jogos e, assim, deu o Campeonato Paulista ao São Paulo, fazendo as modificações que queria. Eu disse, “não deve ser burro”. E não era. E coloquei ele. Um dia, um jornalista disse que ao invés de ele assistir o treino e ver as coisas, ele estava dormindo. Ele me disse: “é presidente, porque assim eles não me fazem perguntas”... risos... Ele dava a impressão de que estava dormindo, mas estava vendo o jogo. E eu fui campeão do mundo três vezes, mas a terceira deveria ter sido, em 1966, na Inglaterra, quando o Stanley Rous era presidente da FIFA. A Inglaterra, que criou o futebol, nunca tinha sediado uma Copa do Mundo e nunca tinha sido campeã. Eu fui com o time, já tinha alugado hotel e avisei a eles, mas, quando chegamos a Southampton, que era minha sede, me deixaram esperando no aeroporto com toda a delegação, 32 pessoas, por duas horas. Foi a primeira gentileza. Eu fui para o hotel, formidável, e perguntei onde era o campo de treinamento, ninguém soube dizer. Depois, chegou o Machado e fui com ele. Quando chegamos, tinha capim alto. Tivemos que esperar cortarem tudo... Foi o que o Stanley Rous deu ao Brasil. Tive que treinar no hotel e, quando eu cheguei, faltava uma semana. Tinha que jogar contra Bulgária, Portugal e também com a Hungria. Para esses três jogos, das nove autoridades – três árbitros e seis bandeirinhas –, ele me botou sete ingleses e um alemão e só um peruano. A senhora sabe para onde eu fui? Para o vinagre... E vim embora. Antigamente, antes de eu acabar com isso tudo na FIFA, a prefeitura dava uma despedida, um coquetel, e eu fui. Quando entrei, lá estava o Stanley Rous. Ele me estendeu a mão e eu não o cumprimentei, ele perguntou “o que é que você tem?”, eu respondi, “faz um exame de consciência que você tem a resposta” e entrei. O que ele fez, não se faz a ninguém.

Auxílio eletrônico à arbitragem

Tem uma outra coisa, nunca se esqueça, se gosta de futebol, nunca deixe que a televisão interfira nas decisões. Porque se assiste ao jogo e seu time perdeu ou ganhou por um lance duvidoso, é esse fato que vão discutir. Então, veja o erro do árbitro como uma necessidade para que você tenha o que falar. Vou lhe dar dois exemplos: em 1966, na Inglaterra, na final entre Inglaterra e Alemanha, até hoje se discute se um gol da Inglaterra entrou ou não entrou. 1986, Copa do Mundo no México. Até hoje dizem que o Maradona fez um gol com a mão. Só se discute o erro.

POR FALAR EM COPAS...

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Copa de 1950

Em 1950, nós perdemos, mas o árbitro não teve nada a ver. Foi erro nosso. Não soubemos vencer. Naquela época, pelo regulamento, o Brasil, tendo o empate, já era campeão. Entrou campeão. Fez 1x0, mais campeão. Empatou, ainda era campeão. Faltavam 10 minutos e o Uruguai fez 2 a 1... Eu estava no estádio. Quando saí, um amigo foi me buscar e eu disse a ele, quando peguei o avião de volta para São Paulo: “se um dia eu chegar à CBD, eu dou a Copa do Mundo ao Brasil”. Fui-me embora. Oito anos depois, fomos campeões.

Cuiabá e Manaus na Copa

Em 1984, eu estava em Zurique, o Jacques Chirac era prefeito de Paris e me telefonou, “Você poderia vir almoçar comigo amanhã?”, eu disse que voltaria a ligar quando checasse na minha agenda. Assim o fiz e disse a ele “daqui a dois dias estarei aí”. Fomos, almoçamos com outras pessoas e ele me disse, “Paris vai se apresentar para os Jogos Olímpicos de 1992”. Disse a ele que nada poderia fazer, porque já havia me comprometido com Barcelona, e pedi para que não apresentasse Paris. Em compensação – e eu digo sempre que Deus está com a mão no meu ombro – em 1984, eu disse “em 1998 a Copa do Mundo vai ser na França e a decisão é em 1992. A FIFA dará à França a Copa do Mundo e, nesse momento, o presidente da república será você”. O tempo passou, fomos para Lausanne, para a votação, ele veio com o avião dele, fez tudo e um dia me convidou para tomar um café. Começamos a conversar e ele disse, “quem te falar mal de Paris...” disse alguma coisa assim. Eu disse pra ele “pediria a você para não repetir isso, senão eu me levanto.” Ele repetiu e eu o deixei sentado na sala. Três dias depois, houve a eleição. Sabe qual foi o resultado? Barcelona 47 e Paris 23. Levou um baile tremendo. Eu não mando em nada, mas tenho um sentido, uma coisa... Depois, ele teve a Copa, foi eleito Presidente e foi quem abriu a Copa e quem recebeu a taça. Agora, vamos ao que interessa. A França recebia, antes da Copa, 60 milhões de turistas por ano, daqueles turistas A e B, que gastam mais de mil dólares, ou seja, são 60 bilhões de dólares. Depois da Copa, passou para 70 milhões de turistas, rendendo 70 bilhões de dólares. Esse foi o presente da FIFA: 10 bilhões de dólares. É isso que a minha gente tem que compreender. Nesse sentido, eu não me meti em nada. Tenho o título de presidente de honra, não tenho mais poderes para administrar, mas telefonei para o presidente Blatter e pedi: “O Brasil vai apresentar 15 cidades, eu só lhe pediria para que você pusesse duas: Cuiabá e Manaus.” Porque quem for a Manaus vai ver o que é e respeitar. Cuiabá tem o pantanal, que é monumental e isso interessa ao turista. Se ele voltar, entra dinheiro. É isso que tem que ver. Criticar que todo mundo está roubando... por que só se fala nisso?

2014

Eu acho que essa Seleção que está aí ainda tem que amadurecer. Jogam bem, mas fazem muita firula. Estão preocupados com o cabelo. Cada um quer se exibir. Antes quem tinha um contrato de 10 mil dólares, hoje em dia serão 100 mil dólares e não sei o quanto mais. Então, o sujeito quer se exibir, aparecer na televisão. Mudou um pouco a mentalidade. Veja no time do Brasil, o jogador Lúcio. Ele já tem 33 anos e é diferente dos outros. Ele joga. Os outros se exibem. Está certo?

Futebol feminino

Essa menina Marta tem que colocar calças. É um fenômeno. Tem uma coisa, nem os homens a que eu assisto, nem eles, se ela tivesse calças e entrasse, poderiam enfrentá-la. Ela ia ser o maior expoente do futebol. E tem mais, ela já está há dez anos jogando e, há dez anos, é nota 10. Já foi cinco vezes a melhor jogadora do mundo da FIFA. Ela é única. Quando pega na bola, é show. E depois ainda acaba em gol. Seja quem for, ela passa. Imagina essa mulher nascida homem? Olha, ia ser nota 10, com louvor, acima de tudo.

JOGOS OLÍMPICOS

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O Brasil que desonra os Jogos Olímpicos

Em 2016, nos Jogos Olímpicos, vão chegar e sair no mesmo dia praticamente 50 mil pessoas, durante 40 dias. Esses são da responsabilidade do poder municipal, do poder estadual e também do poder federal... Posso lhe mostrar uma coisa: para sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018, foi votada agora e saiu uma cidade na Coreia do Sul. Tinha mais Munique (Alemanha) e Annecy (França). Eu lhe mostro uma carta da (Angela) Merkel, chanceler alemã. Recebi outra carta de Annecy, de uma ministra da França, e também recebi uma carta belíssima do presidente da Coreia pedindo que os Jogos fossem para lá. Então, veja a importância... Todos os presidentes da república articulando, todo mundo interessado. Aqui, parece que é uma desonra ter os Jogos Olímpicos. Todo mundo fala mal, diz isso, fala aquilo. Isso me dá uma pena. Na Câmara, sempre é “ladrão”, “vai fazer isso, vai fazer aquilo”... Eu estive por 24 anos na FIFA, estou no COI há 48. Pode mandar levantar a minha vida, nunca me meti em nada e presidi muitas coisas.

Havelange, o nadador

Meu pai me levou para o Fluminense aos cinco ou seis anos. Aprendi a nadar e acabei sendo campeão carioca e, depois, brasileiro. Depois, fui morar em São Paulo, fui campeão paulista e ganhei por três vezes a Travessia de São Paulo, que era uma coisa fantástica. A gente saía da ponte da Vila Maria e ia até embaixo, por mais ou menos 6km, descendo o rio Tietê. Eu fiz um estudo do rio. Subi de barco e levei um saco com pedaços de rolhas. À medida que descia, com um mapa na mão e um lápis, ia anotando, para não entrar no remanso, porque dali não se sai. Nunca tinha visto o rio, mas, com isso, ganhei a prova. No ano seguinte, em 1936, voltei a ganhar. Em 1937, o que aconteceu foi que eu era do Clube Floresta e o pessoal do Clube Tietê me bloqueou. Acabei chegando em quinto, mas não disse nada. Deixei passar alguns anos. Em 1943, voltei, nadei e ganhei. Mas só tive um problema, peguei um tifo negro e o médico disse à minha mãe, “de mil, só um sobrevive”. Estou aqui. Eu digo sempre que Deus coloca a mão no meu ombro.

Berlim 1936

Levamos 21 dias de navio do Rio de Janeiro até San Martin, onde era o outro porto. Não tinha nada. Fizeram uma piscina de lona, de 4x4 metros. O que a gente podia fazer? Nada. Chegamos uma semana antes, mas a forma toda foi embora. Procurei me preparar, mas saí na segunda prova. O governo alemão naquela época permitia aos atletas e às delegações olímpicas, o direito de ter 75% de desconto nos trens de primeira classe para visitar 25 cidades. Eu visitei 16 e guardei uma lembrança da Alemanha fantástica. Tinha 20 anos, estava na faculdade, voltei, saí doutor e me especializei em leis trabalhistas que começavam naquela época. Foi nessa condição que eu fui para a Cometa, como advogado trabalhista. Eu não entro em política, nunca me meti em política ,mas vendo as cidades, é como um leque que se abre. Não esqueço do meu pai. Ele dizia que, quando o senado e câmara entrassem em recesso, o presidente deveria dar para cada deputado e senador passagens de ida e volta, para eles e suas senhoras, e mais 100 mil dólares para cada um, para eles irem a alguma região do mundo e ver como é. O que aconteceria? A cultura os modificaria. O alemão é um, o francês é outro, o inglês é outro, o dinamarquês é outro, o sueco também. É diferente. É isso que a gente tem que dar ao jovem. Esta possibilidade. Só de ele ter viajado, ele nunca mais vai perder essa imagem. Com isso, ele começa a querer estudar e mudar a vida, porque vai querer fazer uma outra viagem.

Helsinque 1952

Helsinque tinha sofrido terrivelmente porque teve uma guerra com a Rússia na época e eles perderam muitos homens. Eu nunca me esqueço quando o avião da Pan Air desceu. Quem trabalhava na pista do aeroporto botando asfalto e tudo, era só mulher. Aquilo me deu um choque, porque aí percebi que tinha morrido muita gente. É um país que ficou 50 anos sob o domínio da Suécia. Ainda naquela época, todas as placas de rua eram em finlandês e sueco... Mas é uma beleza. Tem lagos e mais lagos. O povo é simpático. Ele é diferente dos suecos e dinamarqueses.

Do COB para a FIFA

Para o COI eu fui eleito como membro em 1963. O presidente era ainda o Avery Brundage e o congresso foi o de Baden-Baden, na Alemanha. Em 1964, fui à minha primeira sessão, em Innsbruck, durante os Jogos Olímpicos de Inverno. Quando eu fui para essa reunião, cheguei com a minha senhora e estavam todos sentados, os europeus, ingleses e tudo. Eu fui delicadamente e disse que havia sido eleito e queria apresentar minha senhora. Ninguém se levantou, como se eu fosse um lixo. Olha, eu sei o que passei. Hoje mudou muito, mas já não se sabe o que era ser brasileiro há 50 anos. E eu nunca disse nada. Estou no comitê há 48 anos por eleição. E, em 48 anos, só faltei a seis reuniões do comitê, da assembleia geral. Não fui agora a Durban, por exemplo. Estou com um problema e minha saúde tinha baixado um pouco. Por mais que se faça não se é reconhecido. Fui a todas essas reuniões e nunca o Comitê Olímpico Brasileiro ou Internacional pagou uma passagem para mim. A passagem era por minha conta e eu me hospedava por minha conta. Quando eu cheguei à FIFA, tendo passado por isso, sabe o que fiz? Alguém que morasse na Indonésia, conhecesse futebol a fundo e tivesse uma missão na FIFA, não poderia ir pra lá porque não tinha condição de se deslocar. Quando eu cheguei, no Comitê Executivo, dos 15 membros, 12 eram europeus. Sobreviver não foi fácil. Quando cheguei à FIFA, tendo passado o que passei no COI, eu modifiquei tudo para que todos os países tivessem um membro em uma comissão da FIFA. Ninguém pode ir por sua conta. A FIFA, por decisão, paga a passagem em classe executiva, hotel de 5 estrelas, carro esperando no aeroporto e uma diária de 250 dólares, porque ninguém é obrigado a ser rico. Mas tem que ter cabeça, ter experiência e ter que usar o conhecimento. Como a maioria das sedes está na Europa, eles pegam um TGV e em meia-hora estão lá. Então eu lhe digo, pode ter certeza, eu sei o que representou para mim e para o Brasil ter 2016. Porque para ir para Madri que perdeu de 66 a 32, saindo de Zurique, leva-se uma hora. Daqui, são 12 horas. Então com uma hora, teve um problema na sua casa, seu escritório, você vai e volta. Aqui, se você vier, não volta mais. Então, ninguém quer votar. Por que? Na Assembleia do Comitê, que é quem vota, são 108 membros e 54 são europeus. Então, não se ganha nunca. Por isso ou aquilo, eu tive uma habilidade no meu discurso, porque o Lula falou, o governador do Rio falou e no final eu disse que, como eu ia completar 100 anos em 2016, todos estariam convidados para essa festividade no Rio de Janeiro. A Assembleia toda se levantou e aplaudiu. Eu me sentei e falei comigo, “penso que ganhei”. Ganhei por 66 a 32 contra o Samaranch (ex-presidente do COI, falecido em 2010) que apoiava Madri. É isso que eu gostaria que meu país visse. Nós temos dois monumentos de manifestação, a Copa do Mundo e as Olimpíadas, mas só falam que está roubando, isso ou aquilo... Isso dói. Vamos pensar um pouco diferente.

Seleção olímpica

O Brasil não consegue ganhar no futebol em olimpíadas porque ninguém tem interesse. Os Jogos acontecem durante os campeonatos do Brasil. Então, o Corinthians, o São Paulo, o Palmeiras e os clubes do Rio, todo mundo impõe dificuldade para os jogadores. Então, vai sempre um time mais ou menos secundário.

Jogos de 2016 e Nuzman

Temos que reconhecer que com a chegada do Nuzman, houve uma mudança administrativa, esportiva e também internacional. Ele é trabalhador, é inteligente e melhor ou pior, ele é um apaixonado. Faz isso com gosto e com uma vontade total. Acho que esse é o primeiro ponto. O segundo ponto é que o Comitê Olímpico, hoje, tem uma outra personalidade. Acho que a responsabilidade que eles assumiram realizando 2016 vai ser realizada e vai mostrar ao mundo o nosso valor.

ESPORTE NA SOCIEDADE

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Esporte como oportunidade de ascensão

Eu gostaria que toda criança fizesse um esporte, seja qual for. Para o futuro da vida dela, isso ia se transformar em um grande valor, porque ela vai viajar e o que abre o espírito, a mente e tudo, é a viagem. Isso é o básico e é o que eu faria para todas as crianças, se eu pudesse. Vou dar um exemplo, saindo daqui e indo ao Chile, tudo é diferente, porque eles têm um clima que se parece mais com a Europa do que conosco. Como acontece no sul do Brasil, lá a maioria é de alemães. Se você pega Petrópolis, Teresópolis e Friburgo (cidades da região serrana do Rio de Janeiro), Petrópolis e Teresópolis estão invadidas por favelas, Friburgo não. Friburgo é alemão... Interessante, não é? A senhora veja a importância do sujeito ver as coisas para não reproduzir aquilo que não é bom.

A realidade escolar

O que está faltando nos colégios do governo é disciplina. A moça quer ser professora, mas não conhece nada. Não tem biblioteca, não tem nada. É aquele bê-a-bá. Nos bons colégios particulares, quem não anda, fica para trás. Isso toca na sua sensibilidade. É isso que eu acho. Aí é que está a formação. É no clube, na escola e na família. Meu pai nunca se separou da minha mãe. Eu fiz 65 anos de casado. Isso já não existe mais. Pode procurar em qualquer lugar. Se encontrar um, me avise.

Esporte de base

Quem deveria ter consciência sobre a profissionalização de quem está na base é o governo, através do Ministério dos Esportes. Quem pode ajudar são os sponsors. Eu vou dar um dado: a Copa do Mundo tem 15 sponsors e tem mais a televisão e o valor do estádio. Sabe quanto paga à FIFA cada sponsor? 100 milhões de dólares. São 1,5 bilhão de dólares. Com isso, o Comitê estaria feliz, não? Nos Jogos Olímpicos, vamos sensibilizar mais os sponsors, mas a responsabilidade sobre os aeroportos, todos claudicantes, é do governo. E, com isso, o atendimento na chegada. Se você sai do aeroporto e não tiver uma pista livre, não chega no hotel. Isso pode acontecer no dia da competição. Outra coisa: tem que reservar na cidade um ou dois hospitais da melhor qualidade. Se o atleta tem alguma coisa, tem que levar para lá. Então, tem que alugar, tem que pagar para ficar a sua disposição. Isso é o que eu chamo de administrar. Depois, as instalações têm que ser feitas de acordo com os regulamentos para não faltar nada. Uma piscina em que faltou 0,001cm não pode ser usada para se registrar um recorde. Mas o Ministério não tem força nenhuma. E dói. Palavra de honra. As obrigações para 2016 já estão em cima. Já viu renovar todos os aeroportos? Se tivesse um trem de alta velocidade, não estaria feliz? Iria daqui a Cuiabá em duas horas e meia, três, em vez de ir pro aeroporto e levar uma hora, mais outra esperando e mais uma ou duas viajando. Então, é tudo uma questão administrativa.

Doping

Eu volto à minha época, quando isso não existia. O que aconteceu é que o grande atleta olímpico, hoje, não é amador. Cada um quer se apresentar e chegar e, para poder ganhar mais dinheiro, muitas vezes faz aquilo que a lei não lhe permite. Mais uma vez, é o dinheiro. É a loucura pelo dinheiro. A gente, às vezes, tem choque ao ver aqueles que foram pegos neste problema que é grave... Todo mundo quer aparecer. No final, vai ser propaganda de A, B ou C, ou vai ganhar um contrato. Eu compreendo, porque o sujeito é jovem e eu fui jovem. Na minha época, isso não existia. Será que eu não faria? É o tal negócio, a gente só faz imputar. O que a gente tem que ver é o porquê essa gente chega lá. Porque quer um contrato, quer isso e quer aquilo. Em uma Copa do Mundo, são 32 times, cada time tem 23 jogadores e quantos dopings se encontra? Isso, porque os atletas já se conscientizaram na base o respeito. É isso que tem que fazer. E o atleta tem que se conscientizar.


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