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Esporte que constrói o Brasil.

ENTREVISTAS

Jens Andersen (diretor internacional do Play the Game)

17/12/2012
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A democracia no âmbito esportivo no Brasil

Por Fabiana Bentes, com colaboração de Katryn Dias

jens_sejer_andersen-texto_580O Play the Game é hoje uma entidade reconhecida quando o assunto é esporte. Uma iniciativa sem fins lucrativos e independente, que tem o apoio do Ministério da Cultura da Dinamarca e de instituições esportivas do país, além do apoio do Comitê Olímpico da Dinamarca em projetos específicos. Há mais de 15 anos, o Play the Game procura fortalecer os valores éticos básicos do esporte e promover a democracia, a transparência e a liberdade de expressão no mundo esportivo.

Jens Sejer Andersen, diretor internacional da entidade, esteve recentemente no Brasil para participar do 15ª IACC - International Anti Corruption Conference -  Conferência Internacional Anti-Corrupção que, além de outras áreas, abordava a corrupção e a transparência no âmbito esportivo. Mesmo com uma visão ainda superficial do país, Jens percebeu que o sentimento dos brasileiros, como anfitriões dos megaeventos, é claro: um misto de orgulho por sediar eventos de tamanha magnitude e medo de que a organização possa manchar a imagem do país, com escândalos de corrupção ou falta de estrutura para as competições.

EE: Você poderia explicar, detalhadamente, a proposta do Play the Game?

Jens Andersen: Há 15 anos, o Play the Game é uma iniciativa que pretende estimular e organizar o debate sobre a vida esportiva e, acima de tudo, o debate sobre todos os assuntos que antes estavam fora da atenção geral. Podemos dizer que andamos sobre duas pernas: a primeira, positiva, é a capacidade do esporte para contribuir no desenvolvimento individual, das comunidades e global, que muitas vezes os meios de comunicação não falam; e a outra é tudo aquilo que destrói os valores do esporte, desde a sua comercialização a uma queda no nível moral das relações esportivas, à corrupção, ao doping, a partidas e competições compradas. E depois de muitos anos, o Play the Game adquiriu certa reputação internacionalmente, porque há um interesse muito grande das federações internacionais e do Comitê Olímpico Internacional (COI) de não deixar o debate muito aberto e não entender a crítica como uma ajuda e sim como um perigo. É evidente que, para muita gente, seria preferível que nós não falássemos sobre esses problemas, já que, se não falamos, é como se não existissem. Além disso, profissionais que os denunciam, como jornalistas, acadêmicos, esportistas, que chamamos para nossas conferências, sofrem consequências como marginalização e isolamento. Isso quer dizer que a cultura do silêncio é muito forte ainda no esporte. Contudo, com os poucos recursos que temos, tentamos romper o silêncio.  

"Temos que reconhecer os megaeventos por sua capacidade de criar fascínio e não porque estão fazendo milagres econômicos, de emprego, de turismo e de participação no esporte. Não há nada que prove que isso aconteça"

EE: Você esteve no Brasil, qual foi a sua impressão positiva sobre o esporte no país?

JA: Não tenho uma visão ampla e profunda do esporte no país, mas posso destacar algumas impressões. O que eu notei, do meu ponto de vista de estrangeiro, é que o Brasil com certeza tem muito a oferecer aos que vão visitá-lo na ocasião dos megaeventos, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Existe uma atmosfera muita acolhedora, um ritmo de vida dinâmico e expectativas de criar as melhores condições para uma festa popular. Além disso, é evidente que o Brasil está num processo de democratização contínuo e positivo e muitas organizações trabalham com toda a sua energia para que os megaeventos funcionem como um estímulo à democracia, para que fortaleçam as instituições públicas e a vida social, cultural e comum dos brasileiros. Essa determinação, em condições que não são muito favoráveis, é uma das coisas que eu valorizo muito.

EE: E qual foi a impressão negativa que ficou para você?

JA: Há certa resistência a essas forças democráticas. Está bem evidente que há um sentimento de grande ceticismo quanto aos motivos por parte dos que estão envolvidos nos negócios entorno desses eventos. Há um medo de que muito dinheiro público seja destinado a outros propósitos, que não seja criar um bom evento. Quando as pessoas lutam por uma democracia cada vez mais forte, é porque querem mudar alguma coisa e o que querem mudar são as estruturas que são, em certas instâncias, corruptas na sociedade brasileira.

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Ilustração do projeto do Parque Olímpico do Rio, que está orçado em R$1,4 bilhão

EE: E esta corrupção a que você se refere é uma corrupção pública relacionada à gestão do esporte, à gestão das confederações de esporte ou os dois? 

JA: Tenho ouvido falar de suspeitas muito grandes de que há corrupção por todos os lados. Mas documentos que provam a corrupção, não há muito, mas há indicações que nutrem, significativamente, as suspeitas. Um dos exemplos é a decisão de construir 12 estádios para a Copa do Mundo com o pretexto de ser uma Copa para todos, sabendo que pelo menos quatro ou até mais desses estádios vão custar fortunas do caixa público sem atrair muita audiência. Em Brasília, a capital, se todas as partidas dos clubes de futebol acontecessem em um mesmo dia, nem assim seria possível juntar o público necessário para encher o estádio. Custa muito construir, custa muito manter e vai ficar difícil justificar, mesmo que Madonna e Metallica venham a passar por lá, ocasionalmente. É impossível que seja um bom negócio, então quem vai pagar o déficit?

"A FIFA tem exigências muito claras e bem definidas. Para ela, é perfeitamente possível delimitar o país no uso público de dinheiro [na Copa do Mundo], basta que isso seja colocado no contrato"

EE: Na sua experiência com megaeventos, houve outros países em situações como essa?

JA: Sim, nesse sentido o Brasil não está numa situação muito pior do que, por exemplo, a África do Sul. Lá os problemas são muito maiores, porque eles têm problemas com quase todos os estádios construídos para a Copa.

EE: E havia alguma promessa de legado na África do Sul?

JA: Sim, todas as promessas normais de legado: que agora vai haver uma abundância na economia, que os turistas vão invadir o país, que haverá empregos para todos. Ou seja, todas essas promessas vazias.

EE: A FIFA, como entidade organizadora da Copa do Mundo, não pode intervir no processo da construção dos estádios para que se tornem sustentáveis e na delimitação do uso do dinheiro público? Ou isso é de responsabilidade total do país-sede?

JA: A FIFA tem exigências muito claras e bem definidas. Para ela, é perfeitamente possível delimitar o país no uso público de dinheiro, basta que isso seja colocado no contrato. A notícia mais ridícula que eu li ultimamente, na página web da FIFA, elogiava a sustentabilidade dos estádios. Não duvido que se use muita tecnologia avançada para beneficiar o meio ambiente, mas logicamente um estádio que se constrói em Manaus, por exemplo, que nunca vai ter público, com exceção de poucas partidas durante a Copa, não pode ser uma iniciativa sustentável. Assim, pretender ajudar o meio ambiente construindo estádios é um absurdo. Isso é culpa não só da FIFA, mas de todos os governos ao redor do mundo. Quando acontecem esses megaeventos, o idioma perde a importância, pode se dizer qualquer coisa para vender. Em Londres, os Jogos Olímpicos disseram que iriam mobilizar dois milhões de pessoas novas para iniciar a vida esportiva, principalmente jovens. Porém, uma das primeiras consequências foi cortar os recursos públicos para esporte massivo e, agora, vemos que nada foi feito nesses sete anos de preparação. Quem sabe a participação aumentou com poucas mil pessoas, mas não sabemos se isso foi por conta das Olimpíadas ou outras razões. O pior é que não existe nem a intenção de cumprir as promessas e isso se vê na Inglaterra, na África do Sul e na Grécia. Para mim, isso explica porque não entrar em um diálogo verdadeiro.

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A Arena da Amazônia, que está sendo construída em Manaus, terá capacidade para aproximadamente 44 mil pessoas

EE: Para resumir, não são os Jogos Olímpicos ou a Copa do Mundo que vão fazer com que os jovens pratiquem esportes, e sim uma política pública de organização para um trabalho de base efetivo. Então, o que houve em Londres foi que o legado social foi esquecido?

JA: Bom, todos os megaeventos deixaram uma lição muito clara: se um país quer mobilizar a população para praticar esportes, precisa investir diretamente nas comunidades, na prática de esporte, nas instalações esportivas e no desenvolvimento urbano que possibilite o exercício físico, como ciclovias e pistas para correr. Todos sabemos agora que o esporte de elite pode ter muito valor, mas que não vai atrair nenhuma pessoa para a atividade física. Se verdadeiramente o esporte na televisão servisse como incentivo, todos estaríamos correndo como loucos, porque a televisão está cheia de esporte. 

Eu visitei São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília e não é muito fácil andar de bicicleta nessas cidades, é uma coisa suicida. Nem é fácil correr ou fazer cooper, porque os carros dominam tudo. É preciso criar espaços públicos para a prática de esportes, em vez de construir um centro olímpico. Eu não digo que as grandes competições olímpicas não têm valor. Temos que reconhecer os megaeventos por sua capacidade de criar fascínio e não porque estão fazendo milagres econômicos, de emprego, de turismo e de participação no esporte. Não há nada que prove que isso aconteça.

"O Rio de Janeiro está dando uma oportunidade para os Jogos Olímpicos, mais que os Jogos Olímpicos estão dando uma oportunidade para o país ou para a cidade"

EE: Qual foi a sua impressão, durante o seminário, sobre o Brasil na questão da corrupção no esporte?

JA: Tive o prazer de falar com pessoas da Controladoria da União. No Brasil há coisas  positivas e menos positivas. O que é muito positivo é que, em nível federal, há uma vontade de transparência e de controle com os recursos públicos. Sinto que esta vontade cresceu com o novo governo da Presidenta Dilma. Ela mesma estava presente e deu um discurso bastante claro e convencedor sobre porque a transparência é muito importante na democracia e até citou a Sócrates, o jogador, em seu discurso de abertura. Mencionou diretamente que ele introduziu a palavra democracia no âmbito esportivo. Para mim, ela ressaltar isso é muito importante. Porém, claro que existem desafios enormes. A iniciativa “Jogos Limpos” do Instituto Ethos tem o objetivo de que haja uma transparência nos contratos de construção dos estádios da Copa do Mundo... Há cidades que nem sequer respondem as pesquisas. Curiosamente, três das cidades que não respondem as pesquisas são as mesmas que tem os “elefantes brancos” da Copa: Manaus, Brasília, Cuiabá e Natal. 

EE: Para finalizar, então ao mesmo tempo que a população é acolhedora para os megaeventos, há uma sensação de desconfiança sobre o que vão fazer, quanto vai custar e o que vai ficar para depois?

JA: Exatamente. É um dilema que o jornalista Juca Kfouri expressou claramente na Conferência. Ele dizia que está muito preocupado com toda a corrupção e as más decisões relacionadas aos megaeventos e, por outro lado, estava emocionado quando terminou os Jogos de Londres e o prefeito do Rio recebeu a bandeira dos Jogos Olímpicos. Há uma emoção muito bem justificada, de orgulho nacional  e, francamente, creio que o Rio de Janeiro está dando uma oportunidade para os Jogos Olímpicos, mais que os Jogos Olímpicos estão dando uma oportunidade para o país ou para a cidade.

Fotos: Divulgação


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