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Jaqueline Mourão (Esqui Cross Country e Mountain Bike)

12/04/2012
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A prova de que é possível sonhar e lutar pelos sonhos

Por Thiago Lima e Thyago Mathias

“Foi paixão à primeira deslizada. O esqui cross country me ajudou muito na preparação física e mental do mountain bike. São modalidades totalmente compatíveis”.

A partir de uma grave lesão na perna esquerda, que lhe rendeu uma placa de metal e nove parafusos na canela, Jaqueline Mourão, praticante de ciclismo desde os 15 anos, resolveu mudar de categoria no mountain bike. A escolha pela modalidade cross country, feita logo após sua cirurgia, representou o início de sua trajetória como atleta olímpica, pois, na nova categoria, conseguiu classificação para os Jogos de Atenas, na Grécia, em 2004: “Foi uma experiência incrível, que começou ainda no hospital e se realizou alguns anos depois”.

Jaqueline se tornou a primeira representante feminina do mountain bike brasileiro a competir nos Jogos Olímpicos. Um ano depois, porém, após uma inesperada tempestade de neve em Quebec, Canadá, onde mora, Jaqueline conheceu outra modalidade pela qual também se tornaria atleta olímpica. Desta vez, nos Jogos de Turim 2006, na Itália: o esqui cross country.

Com 35 anos, a atleta já participou de quatro edições dos Jogos Olímpicos, sendo duas de Verão e duas de Inverno. Em 2008, após os Jogos de Pequim, encerrou a carreira de ciclista e passou a se dedicar exclusivamente ao esqui, mas já visa a outro desafio para os próximos anos: “É possível sonhar e lutar pelos seus sonhos. Espero me classificar para o Mundial de Biatlo (modalidade que associa esqui e tiro), em 2012, conseguir bons resultados e, quem sabe, participar nas duas modalidades nos Jogos de Sóchi 2014, na Rússia”.

MEMÓRIA OLÍMPICA: Você começou a praticar o ciclismo aos 15 anos, mas antes chegou a experimentar outros esportes, como natação, ginástica olímpica e atletismo, por exemplo. O que a levou a escolher o ciclismo para se tornar atleta profissional?

JAQUELINE MOURÃO: Eu sempre adorei praticar esportes e estar em contato com a natureza. Quando conheci o mountain bike, logo vi que era a modalidade perfeita para mim, pois associa estes dois aspectos.

MO: Em 1997, com 21 anos, representou pela primeira vez o Brasil no Campeonato Mundial de Mountain Bike, realizado em Château D’Oex (Suíça). Como foi ter essa responsabilidade ainda tão jovem?

JM: Foi uma experiência difícil, pois esta foi minha primeira viagem internacional, não sabia falar outro idioma e ainda estava aprendendo as regras da modalidade. Nessa época, não havia programas de desenvolvimento para atletas jovens no Brasil e, como não existia categoria sub23, competíamos na elite do esporte. Mas foi uma experiência muito válida, na qual aprendi muito.

MO: Você competia na modalidade down hill (descidas em velocidade em percursos montanhosos) quando lesionou gravemente sua perna esquerda durante um treinamento, em 1998. Como foi essa lesão, o tempo de recuperação e de que maneira afetou sua vida profissional?

JM: Fraturei a tíbia e a fíbula (ossos que formam a parte de baixo da perna, popularmente conhecida como “canela”) e tive que fazer uma cirurgia, na qual foram colocados nove parafusos e uma placa de metal. Precisei ficar mês imobilizada e não pude competir na última etapa do campeonato brasileiro. Mas, apesar disso, foi um marco muito importante na minha carreira, pois foi quando decidi me concentrar na categoria cross country e tentar ser a primeira mulher a representar o Brasil nos Jogos Olímpicos pelo mountain bike.

MO: Nos anos seguintes você se formou em Educação Física pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), completou mestrado em treinamento esportivo e se tornou pesquisadora de fisiologia do exercício. O que representa o conhecimento teórico na sua qualificação profissional?

JM: O conhecimento na área de fisiologia do exercício e treinamento esportivo me ajudou muito, com conceitos para me recuperar e programar minha temporada melhor. Além disso, a concentração nos estudos também me ajudou mentalmente e me deu mais segurança porque, caso não conseguisse um bom desempenho no esporte, poderia contar com minha carreira de educadora física. Confesso que foi difícil conciliar trabalho, estudo e treinamento, mas me orgulho de ter conseguido completar minha formação acadêmica e ter mais opções de vida quando encerrar a carreira de atleta. Não aconselho nenhum esportista a parar de estudar, pois o conhecimento teórico me ajudou muito na minha vida de atleta.

MO: Em 2002, você foi convidada para um estágio como assistente técnica no Centro Mundial de Ciclismo em Aigle, na Suíça, onde se formou treinadora de ciclismo. Como foi essa experiência e de que modo ela influenciou e ajudou na sua preparação e na construção de sua trajetória como esportista?

JM: Essa foi a oportunidade que precisava para conseguir viver na Europa e participar das grandes provas. Por incrível que pareça, foi a minha formação em Educação Física que me aproximou mais do sonho de disputar uma edição dos Jogos Olímpicos. Claro que não era fácil, pois precisava trabalhar e cuidar dos atletas antes de pensar no meu próprio desempenho. Mesmo assim consegui ótimos resultados que me classificaram para os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.

MO: No ano seguinte, ao ficar em 9º lugar no ranking da União Ciclística Internacional (UCI), você se classificou para os Jogos Olímpicos de Atenas 2004 e se tornou a primeira brasileira a representar o mountain bike feminino do país numa edição dos Jogos, quando terminou em 18º lugar na modalidade cross country. Como recebeu a notícia na época e como avalia sua estreia na competição?

JM: Eu estava muito bem preparada. A temporada de 2003 foi fantástica, conseguimos evoluir muito. E, logo antes dos Jogos, fiz uma preparação em altitude, em Sierra Nevada (Espanha), que me deixou pronta para a estreia olímpica. Essa foi uma experiência incrível, que começou ainda no hospital, após a lesão na perna e a opção pela categoria cross country, e se realizou alguns anos depois.

MO: Em 2005, morando no Canadá, você aderiu a um novo tipo de modalidade: o esqui cross country. Por que a escolheu?

JM: O interesse pelo esqui cross country surgiu por puro “acidente da natureza”: uma inesperada tempestade de neve em Quebec, no Canadá, em maio de 2005. Eu já havia começado a temporada de mountain bike nos EUA e, quando chegamos a Quebec, estava tudo branco. Fiquei sem poder treinar durante 3 dias! Por conta disso, Guido, meu marido e ex-atleta olímpico de esqui cross country, convidou-me para esquiar. Como não tinha outra opção, resolvi "encarar a neve". Foi paixão à primeira deslizada. O contato direto com a natureza, o silêncio, a possibilidade de visitar trilhas inéditas e a sensação de deslizar são ótimas características. E essa modalidade ainda é um excelente meio de socialização, já que pode ser praticada por qualquer um e toda a família pode esquiar junta.

MO: Com menos de um ano de prática, você conquistou vaga para disputar os Jogos Olímpicos de Inverno em Turim 2006, nos quais terminou na 67ª colocação. Como você avalia essa nova estreia, dessa vez nos Jogos de Inverno?

JM: Eu comecei a competir no esqui cross country em dezembro de 2005 e minha primeira prova foi na Áustria. Naquele mês, competi em cinco provas do calendário internacional da Federação Internacional de Esqui (FIS), realizadas na Áustria, Suíça e Itália. Confesso que não foi nada fácil, pois era novata na modalidade e precisei enfrentar circuitos bastante técnicos, de nível internacional, para buscar pontos rumo à classificação para os Jogos Olímpicos. Meus 6 anos de prática de ginástica olímpica quando criança, mais o preparo físico do mountain bike e, principalmente, a ajuda de meu marido e treinador, Guido Visser, foram essenciais para conquistar a melhor média de pontos nessas competições e me tornar a primeira mulher brasileira a participar tanto dos Jogos Olímpicos de Verão como dos de Inverno. Considerando o pouco tempo na modalidade, acredito que fiz uma ótima prova: conseguimos vencer alguns países e não tivemos problemas de queda.

MO: Apesar da nova descoberta profissional, você não abandonou o mountain bike. Como fez para continuar treinando em dois tipos de modalidades tão distintas?

JM: Posso dizer que nesse caso “não há rosas sem espinhos”. O esqui cross country é uma das modalidades mais exigentes fisicamente, com um índice de consumo de calorias muito alto e envolve praticamente todos os grandes grupos musculares do corpo. Ele me ajudou muito na preparação física geral, e até mesmo mental, do mountain bike. Sempre quando voltava a pedalar estava “com fome de pedal”, com saudades da minha bike e recuperada para enfrentar mais uma temporada. Se os períodos de descanso e transição entre as duas modalidades esportivas forem respeitados, evitando lesões e preparando a musculatura específica, elas se tornam totalmente compatíveis. Em muitos países onde há neve é comum atletas de modalidades de verão utilizarem o esqui para manter a preparação física geral durante o inverno, trabalhando a mente e os diferentes grupos musculares. Isso serve como “férias” da modalidade principal, especialmente no mountain bike, em que vários nomes internacionais, como, por exemplo, Gunn Rita Dahle (campeã dos Jogos de Atenas 2004), Marie Helene Premont (campeã geral da Copa do Mundo de 2008) e Catherine Pendrel (campeã pan-americana e 4ª colocada nos Jogos de Pequim 2008) utilizam o esqui cross country no inverno associado aos treinamentos indoor na bike. No Brasil, essa prática não é muito conhecida e, às vezes, fui muito criticada por estar esquiando nos meses de inverno (aí estão os espinhos). Esse conflito foi muito penoso porque, se não tivesse o desempenho esperado, a culpa recairia sobre o esqui. Por outro lado, nunca me senti tão forte e bem condicionada depois que incorporamos os treinamentos nessa modalidade do esqui dentro da nossa programação.

MO: Quais as maiores dificuldades de cada modalidade? Dá para dizer qual é mais complicada de se praticar e qual te dá mais prazer?

JM: Boa pergunta! Não sei dizer de qual gosto mais. Digamos que no verão prefiro o mountain bike e, no inverno, o esqui cross country. As duas modalidades me levam a lugares lindos, a sensação de liberdade é incrível, mas são bastante técnicas e exigem bastante da parte física.

MO: Em 2008, você voltou aos Jogos de Verão em Pequim, mas enfrentou problemas durante a prova, teve o pneu furado, e terminou em 19º lugar na classificação geral. Logo após, decidiu encerrar sua carreira de ciclista. O que a levou a tomar essa decisão?

JM: Decidi naquele ano que em Pequim seria minha última prova no mountain bike. Sou uma pessoa realizada nessa modalidade, pois conquistei vários títulos inéditos, espaço no cenário internacional e a participação em duas edições dos Jogos Olímpicos. E queria me dedicar 100% ao esqui cross country, pois descobri essa modalidade tarde e gostaria de aprender o máximo possível para ver até onde posso chegar.

MO: Após a aposentadoria no ciclismo, você se dedicou exclusivamente ao esqui cross country e conseguiu se classificar para mais uma edição dos Jogos Olímpicos de Inverno, dessa vez os de Vancouver (Canadá) em 2010, em que terminou na 67ª posição, mesma colocação alcançada em Turim 2006. Como você só começou a praticar esse tipo de modalidade com quase 30 anos, sente alguma desvantagem em relação aos atletas que começaram a praticá-la mais cedo?

JM: Sim, com certeza. As atletas dos países nórdicos praticamente nasceram com os esquis nos pés. Mas meu preparo físico do mountain bike ajuda e acredito que, quanto mais nos dedicarmos à melhora da parte técnica, poderemos chegar mais próximos de bons resultados. Um reflexo disso foi que conseguimos vencer 11 delegações nos Jogos de Vancouver, inclusive de países tradicionais como a Inglaterra!

MO: No encerramento dos Jogos Olímpicos de Vancouver 2010 você foi escolhida pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) para carregar a bandeira do país na cerimônia de encerramento. Como foi essa sensação?

JM: Foi uma experiência inesquecível e uma honra muito grande poder carregar a bandeira do meu país na cerimônia de encerramento. Considero essa confiança depositada em mim como um reconhecimento à minha carreira dedicada ao esporte.

MO: Ao todo você participou de quatro edições dos Jogos Olímpicos, sendo duas de verão (Atenas 2004 e Pequim 2008) e duas de inverno (Turim 2006 e Vancouver 2010). Seria possível comparar uma com a outra?

JM: Atenas foi minha estreia, após 4 anos de muito trabalho para estar lá. Foi muito especial, pois nessa edição os Jogos retornaram ao Olimpo e trouxeram muitas histórias e emoção. Turim foi a surpresa, porque não imaginava disputar os Jogos de Inverno somente 2 anos após minha estreia no esqui cross country. Estava muito feliz por descobrir uma nova modalidade. Para os Jogos de Pequim me dediquei muito para me classificar, quando passamos por momentos difíceis, como, por exemplo, os problemas mecânicos e a classificatória interna que tivemos de enfrentar no mesmo ano dos Jogos. E Vancouver foi a mais especial, pois estávamos no Canadá, país do meu marido, e, além dos brasileiros, tinha muitos canucks (expressão canadense utilizada para se referir ao povo do país) torcendo por mim.

MO: Em mais de 10 anos como atleta profissional, qual momento foi mais especial para você?

JM: A classificação para disputar os Jogos de Atenas e ter vencido uma etapa da Copa do Mundo de Mountain Bike Maratona, quando escutei o hino nacional do meu país em um evento mundial!

MO: Os esquiadores geralmente chegam à sua melhor forma com 35 anos. Em 2014, você vai estar com quase 40 anos. Ainda pretende competir nos Jogos de Sóchi, na Rússia? Dá para fazer um prognóstico de desempenho para os próximos anos?

JM: Sim, com certeza. Vale lembrar que a vencedora da minha prova de 10 km clássico em Turim 2006 foi uma atleta de 42 anos. Espero me classificar para o mundial de biatlo (modalidade que associa esqui e tiro), em 2012, e continuar competindo em provas da Federação Internacional de Esqui (FIS) para conseguir bons resultados e, quem sabe, participar de duas modalidades nos Jogos de 2014, em Sóchi.

MO: O que pretende fazer quando parar de competir?

JM: Continuar com nossos projetos de desenvolvimento do mountain bike e do esqui no Brasil. Temos um projeto de mountain bike feminino adolescente chamado “MTeenB” , que funciona em Minas Gerais. Foi criado há 2 anos e tem crescido bastante, ajudando as categorias de base da modalidade (infantojuvenil, juvenil e júnior) a se desenvolverem. A iniciativa tem duas ações anuais distintas: uma clínica para 24 adolescentes do sexo feminino, com realização de palestras esportivas, e um estágio internacional com participação em provas do calendário canadense. Já no esqui, participamos de uma clínica de roller ski em São Paulo e temos planos de ajudar a iniciação nessa modalidade.

MO: Você fez história no país ao ser a primeira representante do mountain bike brasileiro feminino nos Jogos Olímpicos de Verão (2004), a primeira e única brasileira a vencer uma etapa da Copa do Mundo de mountain bike maratona (2005) e se tornou a primeira e única mulher brasileira a participar das duas versões olímpicas — de verão e de inverno. Além disso, foi eleita cinco vezes como melhor atleta do mountain bike pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Como é o reconhecimento por essas conquistas?

JM: É muito bom ser reconhecida, fazer história no meu país, mas quando competia não pensava nisso. Em minha trajetória enfrentei muito preconceito e ser pioneira não foi fácil, mas poder, principalmente, mostrar que é possível sonhar e lutar pelos seus sonhos vale a pena. Isso me motiva muito. Gostaria de poder inspirar mais e mais pessoas a lutarem e mostrar que, com dedicação e força de vontade, é possível conquistar seus objetivos.

MO: Como jovens atletas brasileiros podem ser incentivados tanto à prática de ciclismo quanto à prática de esqui?

JM: Por meio de programas de iniciação e desenvolvimento do esporte. Acredito que, com os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, em 2016, as pessoas vão se interessar ainda mais pelas modalidades olímpicas e espero que muitos programas apareçam para incentivar os jovens atletas.

MO: Como você avalia o problema do doping no esporte e que mensagem poderia dirigir aos jovens?
JM: É muito triste saber que existem pessoas que se servem de métodos ilegais para vencer. Meu conselho aos esportistas é para se concentrarem em fazer o seu melhor e, assim, estarão bem com suas consciências. É possível ter bom desempenho sem doping, concentre-se em você: treinar bem, alimentar-se bem, recuperar-se bem, evoluir em todos os aspectos e jogar limpo.


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