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Jacqueline Terto (Ultramaratona)

27/04/2016
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27-04-capa-interna_jacqueline_680Arte: Paula Sattamini

Por Fernando Hawad

Quando você estiver passando por alguma dificuldade na vida, lembre-se deste nome: Jacqueline Terto. Nascida em Natal e radicada há mais de 30 anos no Rio de Janeiro, Jacqueline é um exemplo notório de que nunca se deve deixar os sonhos de lado. Foi com muita força de vontade que ela entrou para a história ao completar as ultramaratonas nos quatro desertos mais extremos do mundo: Saara, Gobi, Atacama e Antártica.

Mais do que o orgulho de ser a primeira brasileira a conseguir esta façanha, Jacqueline leva consigo o desejo de transformar vidas através do esporte. Sempre engajada em causas sociais, a atleta e professora de Educação Física está há 12 anos desenvolvendo um belo projeto no Complexo da Maré, com foco em pessoas que têm algum tipo de deficiência. Mesmo após tanto tempo na batalha, Jacqueline não perde a alegria e está sempre renovando suas energias. 

Esporte Essencial: Fale um pouco sobre o seu início no esporte.

Jacqueline Terto: Comecei a correr com 12 anos de idade, no meu primeiro dia de aula de Educação Física. Já tive um destaque logo no primeiro dia. O professor olhou e disse: “Como você corre! Um dia você vai ser uma grande atleta.” olhos_1_1_200_01Dali para frente ele investiu muito no meu treinamento. Eu tinha uma aula de Educação Física que era mais direcionada à corrida. Foi assim que tudo começou. Pouco tempo depois, em 1980, eu fui campeã brasileira pela primeira vez. Já competia com adultos, comecei a bater recordes. Fui nessa jornada até os 17 anos, quando eu tive um problema na família, os meus pais se separaram. Foi uma situação bem complicada. Eu, minha mãe e meu irmão saímos de Natal e viemos para o Rio. Chegando ao Rio, tivemos que trabalhar porque nossa família era bem humilde. Então, eu continuei correndo, mas não competindo. Depois de um tempo, comecei a fazer provas de rua. Quando eu fui campeã brasileira, lá atrás, era nos 1500m e nos 3000m. Depois eu corri um pouco nos 5000m também. Mas aqui no Rio, já mais velha, comecei nas corridas de rua, primeiro com 5 quilômetros, depois com 10, meia-maratona, maratona, até chegar à ultramaratona, que iniciei há 12 anos.   

EE: Como surgiu o interesse pela ultramaratona? Foi inspirado em alguém?

JT: Não. Na verdade, eu sempre fui aumentando as distâncias. Em um desses momentos, eu descobri uma prova deolhos_2_1_200_02 24 horas, em São Paulo, e resolvi fazer. Fiz a inscrição e me preparei para participar da prova. Fiquei em terceiro lugar na minha categoria. Passei mal, tive um monte de problemas, mas conheci o terapeuta corporal Luiz Lacerda, que foi muito importante para mim. Vem fazendo parte da minha trajetória desde então. Quando a gente se conheceu, inclusive, ele falou para mim: “Em dez anos eu vou te colocar no topo das ultramaratonistas.” A gente fez uma parceria e exatamente dez anos depois eu me tornei a primeira mulher da América Latina a percorrer os quatro desertos mais extremos do planeta. Mas nesse meio tempo eu fiquei buscando um motivo para correr. Comecei com 24 horas, depois fui para 48, depois 80 quilômetros, 100, mas nada tinha um sentido, um objetivo. Era só pelo prazer de concluir as provas. Como a minha vida sempre foi pautada em projetos sociais, com destaque para a pessoa com deficiência, eu comecei a ligar uma coisa com a outra. Percebi que não tinha sentido correr apenas por correr. Eu tinha que correr por uma causa social. Então, pensei no projeto Ultramaratona com Responsabilidade Social, de forma que eu pudesse, com as minhas participações, meus resultados, ter a oportunidade de falar do segmento da pessoa com deficiência. Foi aí que eu comecei a correr com essa bandeira. Em todas as oportunidades que eu tenho, eu falo da pessoa com deficiência, do quanto ela é importante. Meu grande objetivo é ter o Instituto Jacqueline Terto. Como olhos_3_1_200eu já trabalhei em tudo o que é ação social, trabalhei com menores infratores, com abrigos e população de rua, passei a idealizar o meu próprio instituto e a caminhar nesse sentido. A minha formação é toda voltada para essa causa. Fiz Educação Física e depois especialização em Educação Física Adaptada. Aí eu fiz Psicologia, depois uma especialização em Psicologia dos Desportos e, por último, fiz um mestrado em Psicologia Social. Às vezes as pessoas falam: “Nossa, com toda essa formação você trabalha em favela.” E eu respondo que é isso que eu gosto. Eu nunca ficaria dentro de um consultório. 

EE: Quando que você começou a trabalhar com causas sociais?

JT: Desde que eu me entendo por gente. Minha mãe conta que quando eu era pequena, tinha sete, oito anos, eu achava um mendigo na rua e levava para casa para tomar banho, cortar a unha e comer. Então, desde aquela época, eu já estou envolvida. Mas, tecnicamente falando, a partir dos 17, 18 anos eu já estava plenamente envolvida no contexto. Não fazia mais nada tão solto, como catar mendigo na rua. Já comecei um direcionamento mais técnico. Já se vão uns 30 anos disso. Hoje eu estou com 48. Trabalhei em vários projetos sociais de todas as comunidades do Rio de Janeiro. Não tem uma que eu não tenha passado, sempre com alguma ação.

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EE: Como é o seu projeto na Maré?

JT: Comecei na Maré há 12 anos e nunca mais saí. É um projeto com objetivo social e não com objetivo de altoolhos_5_1_200_01 rendimento. Se acontecer de a gente descobrir algum talento, a gente trata de fazer o encaminhamento para o local adequado. Mas o objetivo mesmo é a qualidade de vida. A gente trabalha de terça à sexta com várias modalidades. A cada dois meses nós fazemos saídas pedagógicas. De seis em seis meses eu faço uma avaliação com os alunos. De diferente, nós temos a yogaterapia e a terapia corporal. São duas atividades em que a gente atende pessoas com deficiência e pessoas sem deficiência. A Vila Olímpica da Maré é a única que tem esse trabalho. 

EE: A estrutura da Vila Olímpica da Maré é adequada para você executar o seu trabalho?

JT: Até novembro do ano passado, eu era contratada da Prefeitura do Rio. Só que o contrato encerrou e, com isso, teve um corte enorme no orçamento da Vila. Por conta disso, houve muitas mudanças, muitas demissões. No meu caso, houve um corte enorme porque a equipe que trabalhava comigo já era pequena. Se a equipe é pequena e você corta a metade, não sobra praticamente nada. O projeto maior da Vila é para olhos_6_1_200_01pessoas sem deficiência. Eu sempre briguei muito para manter esse meu projeto de pessoas com deficiência, mas dessa vez a coisa ficou um pouco complicada. Já estava procurando outras comunidades para tocar o projeto. Fui comunicar à diretoria que eu estava saindo e os diretores não me deixaram ir embora. Falaram que a minha permanência era fundamental para continuar com o projeto e que eles iam buscar o recurso financeiro para que eu ficasse. Moral da história: continuei aqui na Maré. Estou dando nó em pingo d’água para buscar novos apoios. Pelo menos há recurso para manter a equipe e para as coisinhas básicas do mês. Mas, fora isso, é bem difícil. Antigamente, não. Como fazia parte do projeto da Prefeitura, a gente conseguia mais coisas. 


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EE: Durante esses anos todos trabalhando em causas sociais, tem alguma história que te marcou muito?

JT: Tem sim, mas infelizmente ela morreu. Eu recebi uma aluna aqui que tinha câncer. É uma história que me emociona muito. Ela chegou com câncer, já tinha perdido tudo e veio chorando porque disse que em todos os lugares que ela foi ninguém a aceitava. Eu perguntei o que ela queria fazer e ela respondeu: “O que você oferecer.” Então, eu falei para a gente fazer uma yoga. Ela, surpresa, disse: “Você vai me querer?” E eu respondi: “Como não? Eu vivo disso, essa é a minha alegria.” Ela me abraçou, chorou bastante e nós começamos as atividades. Nos seis, sete olhos_7_1_200_01meses em que ficou com a gente, ela teve uma melhora absurda. Ficou bem mais alegre. Infelizmente, a doença já estava bem avançada, mas nós conseguimos melhorar a qualidade de vida dela. Ela partiu em paz. Essa é uma história que me marca muito. Tem várias outras também. Uma vez eu me machuquei em uma ultramaratona. Com dez quilômetros eu caí no buraco e torci o pé. Pensei que a prova tinha acabado. Sentei e chorei. De repente, me veio a imagem dos meus alunos: um cadeirante, um cego e um intelectual. Foi aí que eu pensei o que eles iriam fazer se estivessem no meu lugar. Com certeza eles não desistiriam, porque são muito guerreiros. Então, levantei e continuei correndo. Consegui completar os 100 quilômetros. São histórias assim que marcam. Também já teve situação triste. Eu trabalhei muito com menores infratores. Um dia, muito tempo depois, eu encontrei um deles assaltando um ônibus. Ele entrou para assaltar e eu, que estava sentada lá atrás, o reconheci. Quando ele chegou lá atrás eu olhei para ele e disse: “Poxa, meu filho, eu não servi para você. Não consegui te ajudar.” Ele pediu desculpa e desceu do ônibus. Um tempo depois, procurei notícias dele e soube que tinha morrido. 

EE: Como foi a transição entre maratonas e ultramaratonas?

JT: O certo é você ir aumentando aos poucos. Eu saí da maratona, 42 quilômetros, e fui para os 50 quilômetros.olhos_8_1_200_01 Depois, para provas de 80. Assim o corpo vai se acostumando. Cheguei nos 100 e depois, finalmente, no meu objetivo, que era completar as provas dos quatro desertos mais extremos do planeta. Queria me tornar a primeira brasileira a conseguir isso e corri atrás. Busquei patrocínio, que é a minha maior dificuldade. Cada vez que tem uma prova, eu tenho que sair batendo de porta em porta. Um dá passagem, outro dá alimentação, outro dá material e a gente vai se virando. Essa é a minha maior dificuldade. 

EE: Conte um pouco dessa aventura de cruzar os quatro desertos.

JT: Primeiro foi o Saara, que deveria ser a minha melhor prova. Se o Saara tivesse sido a última, eu teria ganhado porque é a minha característica. É o lugar mais quente do mundo e eu não tenho nenhum problema quanto a isso. Aguento facilmente 40, 50 graus. E como era a primeira, eu acabei errando a mão. Levei quase 15 quilos na mochila, com tapioca, raparadura e outras comidas. Quando eu cheguei lá, vi que todo mundo estava com mochilas bem menores que a minha. Sofri bastante nas subidas, com aquelas dunas gigantes. Eu subia um pouco e a mochila virava para trás. Depois fiz Gobi, na China, e Atacama, no Chile. Mas onde eu tive mais problema foi no último, na Antártica. Eu só não morri porque Deus achava que não estava na hora. Eu não aguento um vento frio aqui no Brasil, já coloco agasalho. E fui encarar a Antártica. Foi, realmente, o meu maior desafio. Sofri muito mesmo, foi bem difícil. Mas consegui concluir. 

foto_1_380_01EE: Depois que você terminou essa aventura pelos desertos, ainda há motivação para continuar correndo?

JT: Sim. Agora eu estou em uma fase boa de ultra por conta da idade. Eu não recomendo ultramaratona para pessoas muito jovens, que estão começando agora. Tem que fazer uma trajetória até chegar lá. Foi o que eu fiz, desde os 12 anos correndo. Mas atualmente eu estou muito focada no meu projeto com pessoas com deficiência. Então, para programar uma competição agora vai ser difícil achar tempo. Se alguém chegar aqui agora e falar que vai me dar todo suporte para eu fazer uma prova, eu aceito na hora. Vou me programar para isso. Hoje eu corro, mas não estou treinando visando ao alto rendimento. Faço minhas corridinhas para manter a forma e também nado. 

EE: Você já realizou muitos sonhos. Mas ainda tem algum que gostaria de realizar?

JT: Incentivar o Instituto Jacqueline Terto. Está na prática, mas não está legal. Estou indo atrás dessa burocracia. Espero que o Instituto vença porque foi o que eu fiz a minha vida inteira. Meu grande desejo é esse. Não nasci para ficar parada. Gosto de agir e agir nas comunidades, com ações sociais. 

EE: Jacque, queria que você falasse um pouco a respeito de doping no esporte. Você chega a abordar esse temaolhos_10_1_200 com os seus alunos?

JT: Sim, a gente bate muito nessa tecla, até porque eu nunca fiz uso, mas sempre soube de atletas de alto rendimento que faziam uso. É grave. Sempre debato este tema com o meu grupo, apesar de não ser um grupo treinado para o alto rendimento. Aqui nem tem tanto a questão de doping, mas tem um pessoal que usa drogas como cocaína e maconha. A gente combate fortemente isso.

EE: O esporte é essencial para você?

JT: O esporte é essencial na minha vida. Ele é essencial em todos os segmentos da minha vida. Na minha vida familiar, na minha vida estudantil e nas minhas formações acadêmicas. Não tem nenhum momento na minha vida em que o esporte não tenha sido essencial para eu ser a pessoa que sou hoje. Eu me emociono muito quando falo disso, até faltam palavras. 

Fotos: Arquivo Pessoal


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