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ENTREVISTAS

Ítalo Gonçalves Jr. (professor de Educação Física)

05/12/2011
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A gratificação de incentivar e ensinar o esporte

Por Nayara Barreto e Thyago Mathias

“Em outros países, a atividade esportiva começa na escola. Aqui, a atividade esportiva é praticada com mais intensidade nos clubes, mas ao invés dos colégios irem buscar atletas nos clubes, os clubes é que deveriam buscar os atletas nos colégios.”

Um dos brasileiros que teve a honra de carregar a tocha olímpica, no revezamento que antecedeu os jogos de Atenas, em 2004, o professor Ítalo Gonçalves Júnior dá continuidade à série de entrevistas com educadores físicos para compartilhar sua experiência no treinamento de estudantes e apontar caminhos ao desenvolvimento da educação física nas escolas brasileiras.

Memória Olímpica: O esporte ajudou a você escolher a sua profissão?

Ítalo Gonçalves: Comecei no esporte quando estava com onze anos e um amigo me chamou para jogar basquete pelo Mackenzie. Eram cinco amigos que moravam na mesma rua e o esporte era uma ferramenta que unia mais ainda a turma. Assim, o basquete me escolheu mais do que eu o escolhi. Fui me envolvendo mais com o esporte, fui aprendendo muito e passei a tomar gosto. Alguns anos depois, comecei a competir pelo Mackenzie mesmo e essa história durou até os meus vinte anos. Nesse meio tempo, me tornei atleta profissional, federado, disputando grandes campeonatos e pude ter experiências incríveis. Uma delas foi ganhar o campeonato carioca duas vezes. Aos vinte anos, comecei a pensar em prestar o vestibular e precisava pensar qual profissão seguir, como estava muito envolvido com o esporte, a escolha foi bem fácil e rápida: a educação física.

MO: A partir dessa experiência, qual você diria que é idade a ideal para se iniciar em uma atividade física?

IG: O esporte na vida de uma criança é tudo. Atualmente, trabalho com pré escola e posso dizer que o esporte é a base de tudo. Desde que a criança aprende a conhecer seu corpo e a trabalhar suas funções motoras vitais, o esporte precisa ser inserido em sua vida. Nesse período da vida de uma criança, basicamente, o trabalho é feito em cima do desenvolvimento psicomotor da criança. Por isso que se o esporte e seus elementos forem trabalhos desde o início, o resultado é muito proveitoso. A criança vai ter um desenvolvimento muito melhor mais tarde, quando for praticar algum esporte de forma mais séria. A criança passa a ter uma relação social mais saudável também, o esporte ajuda a fazer amigos e a manter relações, traz um retorno social muito bom. Além disso, o esporte propicia a criação de vínculos duradouros. Por isso, a idade não precisa ser tão definida, esse trabalho psicomotor deve ser feito desde o início. Depois, a criança pode ser inserida em um esporte específico. Nesse sentido, para cada modalidade esportiva, existe uma idade melhor. A literatura diz que para os esportes coletivos, por exemplo, é preciso um pouco mais de maturidade, a idade de dez anos seria ideal, porque a criança já esta criando uma maturidade social em que vai conseguir interagir com os demais colegas e obedecer às regras do esporte. Antes dos dez anos, o ideal seriam as modalidades individuais.

MO: De que forma o ensino do esporte deve entrar no currículo escolar?

IG: Na maioria das vezes, os alunos gostam da aula de educação física. Ela é muito importante no currículo e a melhor maneira de construir um bom diálogo com as outras disciplinas é valorizando a aula de educação física em si. O professor tem que ser valorizado e aquele momento que é visto como um momento de lazer precisa ser encarado como um momento de aprendizagem também. O aluno precisa saber que a educação física é tão importante quando as matérias que ele faz dentro de sala de aula. O aluno saber que tudo se complementa dentro da organização curricular. A educação física ajuda muito no aspecto educacional, pois uma criança que tem bom desempenho na parte esportiva, normalmente terá boas atitudes dentro de sala de aula e isso reflete na aprendizagem. Nós professores também temos que saber conquistar o aluno, mostrar a parte boa, fazer com que ele participe sempre, criar situações para que o aluno se destaque de alguma forma. Cabe a nós procurar caminhos para motivar aqueles que não gostam e incentivar cada vez mais aqueles que já gostam.

MO: Temos a impressão de que, quando um esporte é altamente trabalhado pela mídia e as crianças têm um grande nome em quem se projetar, é normal se interessarem mais por esse esporte. Você acha que é essencial existirem ídolos, grandes nomes em um esporte, para que as crianças se interessem? Ou o estímulo pode ser feito de outras maneiras? Como estimular aqueles que não gostam?

IG: Os ídolos são importantes, sim. Por exemplo, na minha careira, peguei uma fase muito boa do basquete brasileiro, logo depois de quando o Brasil tinha conseguido títulos mundiais em 1962 e 1963, peguei o final dessa era que tinha atletas como Ubiratã, Algodão... todos grandes esportistas, atletas de expressão mundial. Eles foram bicampeões mundiais e isso inspirava muito a minha turma de jogadores. Ao mesmo tempo, tinham alguns jogadores também que estavam aparecendo como o Carioquinha e o Marquinhos. Todos eles foram exemplos para nós. Quando um jovem atleta começa a jogar, sempre se inspira em alguém. Tenho certeza de que, alguns anos atrás, muitos garotos que estavam jogando queriam ser um Oscar, ou, atualmente, querem ser um Nenê. Dessa forma, é importante, sim, que existam ícones para inspirar os jovens para que eles tenham estímulo de tentar ser o que aqueles ídolos representam. Mas claro que, independente de ídolos, existem outras maneiras de incentivar a prática do esporte dentro de uma escola. Primeiro, temos que tentar conquistar o aluno afetivamente, procurar ouvir o que ele tem a dizer e, se for o caso de um aluno que não gosta de educação física, tentar compreender porque ele não gosta. Normalmente, os que têm menos habilidade são os que menos gostam. Nós procuramos tentar identificar alguma coisa em que ele seja melhor para que se sinta valorizado e passe a gostar do esporte. Mas tem criança que não gosta da atividade física e se nega a fazer. Nessa situação, nós temos que respeitar a individualidade de cada um. A gente procurar ajudar, motivar, mas não adianta forçar.

MO: Qual o maior erro da educação no Brasil quando o assunto é o ensino do esporte?

IG: Dentro da minha experiência no ensino, o que temos de mais precário é a infraestrutura. Dentro dos colégios federais, temos uma infraestrutura muito bem equipada, bem feita e satisfatória para a prática esportiva. Nas escolas das prefeituras, isso não acontece: nem todas as escolas têm uma quadra boa, as quadras são ásperas demais ou muito pequenas, muitas vezes não têm telhado e o sol é muito quente. Falando do estado do Rio de Janeiro, precisa-se investir mais num local adequado para o profissional de educação física trabalhar. E outro fator é a valorização do esporte na escola. Em outros países, a atividade esportiva começa na escola, no Brasil isso não acontece. Aqui, a atividade esportiva é praticada com mais intensidade nos clubes e a escola acaba aproveitando esses atletas que vêm dos clubes. Em campeonatos escolares, por exemplo, os times são compostos por atletas que jogam em clubes. Dificilmente vemos atletas que aprenderam, se desenvolveram e que jogam apenas no colégio. Isso deveria mudar, deveria ser dada mais ênfase em atividades esportivas dentro da escola para fazer com que esse processo seja invertido, ao invés dos colégios irem buscar atletas nos clubes, os clubes deveriam buscar os atletas nos colégios, mas isso infelizmente não acontece no Brasil.

MO: Que medidas deveriam ser tomadas para que essa inversão pudesse acontecer?

IG: Primeiro, a consciência do profissional de educação física teria que mudar, o professor teria que investir mais em seu trabalho e o governo deveria ajudar, valorizar e estimular mais a prática esportiva. Além disso, o professor de educação física tem que buscar se aprimorar em várias modalidades e não somente em uma, buscar se aperfeiçoar sempre e diversificar as atividades. No entanto, o que acontece é que muitos professores não têm tempo e nem ganham o suficiente para dedicar uma parte do seu tempo a se aperfeiçoarem mais. A valorização do profissional tem que vir de fora também, ou seja, melhores salários, mais incentivo, valorização. O básico de tudo é proporcionar um ambiente de trabalho equipado e adequado para esse profissional. Do contrário, ele não conseguirá fazer um trabalho de excelência. Claro que nós nos esforçamos ao máximo para trabalharmos da melhor maneira com o que temos, mesmo assim poderia melhorar. A instrumentalização das escolas é essencial.

MO: Você foi escolhido pelo Comitê Olímpico Brasileiro e pela prefeitura do Rio para participar do revezamento da tocha olímpica dos jogos de Atenas, em 2004. Qual a importância desse feito para os seus projetos?

IG: Essa ocasião foi de grande importância principalmente para o trabalho que desenvolvo com as crianças portadoras de deficiência. Pois na época já desenvolvia esse trabalho e foi através do reconhecimento do meu trabalho que fui convidado a carregar a tocha. O país estava muito envolvimento com a promoção do esporte com um cunho social e como eu trabalhava já em duas instituições há muito tempo, desenvolvendo esse projeto social, fui escolhido com muita honra. E foi muita felicidade poder representar os professores de educação física na corredia da tocha olímpica. Fiquei, sem dúvida, muito satisfeito, porque mais do que ter sido atleta foi fruto do reconhecimento do meu trabalho como professor de educação física.

MO: Alguns grandes atletas acabam conciliando a carreira com a faculdade de educação física. Qual a importância dessa complementação teórica dada pelo ensino superior à vida de um atleta?

IG: A graduação ajuda de várias maneiras. Primeiro, porque quando começa a aprender determinadas coisas dentro da faculdade o atleta passa a ter outro tipo de postura dentro do próprio esporte, dentro da competição. A pessoa começa a observar não só os outros atletas, mas começa a aplicar em si, e na dinâmica de treinamento, tudo que aprendeu dentro da faculdade. Em suma, o atleta começa a ter uma visão totalmente diferenciada de quando é apenas atleta e depois passa a ser um profissional de educação física.

MO: Você trabalha com crianças com deficiência? Qual a principal fonte de inspiração desse trabalho?

IG: A experiência de trabalhar com esses alunos é maravilhosa. Eles são muito comprometidos. É uma satisfação sem tamanho, ver o seu aluno que não acreditava que podia estar ali desenvolvendo habilidades múltiplas e ganhando as competições, se superando. Além disso, normalmente o portador de deficiência está à margem da sociedade. Dificilmente, ele é o protagonista de alguma coisa, mas em um evento de competição ele é a estrela. É muito gratificante você ver a felicidade estampada no rosto de um aluno. Mesmo tendo chegado em último, ele está ali vibrando porque terminou a prova. Pra mim, não tem preço fazer com que eles possam ser a estrela, proporcionar a eles aquele momento de extrema felicidade. Além disso, eles retornam muito carinho, muita gratidão. É maravilhoso.

MO: E o que você pensa sobre a regulamentação da profissão?

IG: Eu me formei há já mais de trinta anos. No meu tempo, quando você se formava você era bacharel e licenciado, tudo na mesma faculdade. Depois da regulamentação, eles separaram o bacharelado da licenciatura. Portanto, hoje, quando você entra, precisa fazer a opção entre os dois. A alegação é de que isso foi feito para que houvesse uma especificação melhor da área e de cada modalidade. Particularmente, não acho que essa mudança tenha sido boa. A faculdade abre portas, mas você não sai de lá completamente pronto para o mercado de trabalho. Você é quem corre atrás, busca aprender mais do que é do seu interesse. Acho que essa divisão limitou algumas coisas desnecessárias. Eu, por exemplo, trabalho tanto como bacharel como professor e não vejo nenhuma diferença ao ponto de ter que separar as duas coisas. Inclusive, atualmente, há um pensamento de reunificar isso. A despeito dessa divisão, a regulamentação da profissão foi sem dúvida muito necessária e importante para melhorar a situação de todos os profissionais e para que o professor fosse mais valorizado também.   

MO: Hoje, o profissional de educação física é reconhecido no Brasil?

IG: Sem dúvida o profissional tem mais visibilidade e reconhecimento hoje se compararmos com a época em que me formei. Atualmente, com essa valorização do corpo, da boa forma e da saúde, o profissional de educação física está muito mais valorizado, mas ainda temos muito o que caminhar. No entanto, uma coisa que acontece muito e que desvaloriza a nossa profissão é o fato de ex-atletas tomarem o lugar de um profissional de educação física. Os conselhos regionais estão tomando mais conta disso, para que os profissionais formados sejam mais reconhecidos, mas ainda acontece muito. É importante saber que, para exercer as tarefas de um professor, não basta somente ter tido a experiência como atleta, é preciso estudar e se aprimorar teoricamente naquilo. A faculdade precisa ser valorizada ainda mais, para isso deve-se evitar que ex-atletas assumam postos de profissionais formados e graduados.

MO: Como o senhor avalia o problema do doping nos esportes?

IG: Doping pra mim é uma covardia. Se o atleta busca melhorar o seu rendimento através de meios ilícitos, ele está burlando a lei e usando de má fé com o próprio colega de profissão e de modalidade esportiva. Isso é horrível e não deveria existir. Mas acho que isso acontece por causa do retorno financeiro que os resultados são capazes de dar. Quanto mais o atleta ganha em competição, mais ele recebe em dinheiro. Acabam fazendo qualquer coisa para ganhar mais e para ter um retorno financeiro maior. Além de denegrir muito a imagem do atleta,  o doping acaba com a sua saúde e com o corpo.


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