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Isaquias Queiroz (Canoagem)

29/01/2013
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isaquias_divricardoramoscbca_600O primeiro campeão mundial do Brasil na canoagem

 

Por Katryn Dias

Muito antes de atingir a idade adulta, Isaquias Queiroz já se destacava em uma modalidade pouco conhecida no Brasil: a canoagem. Depois de deixar a família humilde em Ubaitaba, no interior da Bahia, o menino Isaquias, com apenas 14 anos, conquistou títulos de grande valor. Nessa época, ele já era campeão brasileiro e sul-americano, competindo na categoria C1 (canoa para uma pessoa) com crianças da sua faixa etária.

Isaquias cresceu, mas a sua dedicação ao esporte continuou. Aos 17, o adolescente se tornou o primeiro brasileiro a conquistar uma medalha de ouro internacional na canoagem, no Mundial Júnior de 2011. Desde então, ele vem sendo apontado como o principal nome da canoagem para o futuro e grande a esperança de medalha nas Olimpíadas de 2016.

"O esporte mudou bastante a minha vida. Se não estivesse na canoagem hoje, eu poderia estar até usando drogas"

Esporte Essencial: Como foi o seu primeiro contato com a canoagem?

Isaquias Queiroz: Meu primeiro contato foi em 2005, na Bahia. Foi por meio do projeto Segundo Tempo, do governo federal. Eu comecei a praticar a canoagem no início de fevereiro, quando eu tinha 11 anos, e deu certo. Eu comecei a gostar do esporte, e a passar grande parte do meu tempo na água. Assim, eu acabei chegando onde eu estou hoje.

EE: É verdade que seu sonho de infância era ser jogador de futebol? Por que você resolveu trocar a bola pela canoa?

IQ: É... Eu acho que o sonho da maioria dos brasileiros, quando jovens, é jogar futebol, para ter seu nome reconhecido. E o futebol é o esporte que mais traz esse reconhecimento no país. Mas para isso você tem que ter talento. Eu tinha um pouquinho de talento, mas nunca cheguei a me dedicar com vontade ao futebol, nunca fiz testes para entrar em nenhum time. Quando eu tinha entre sete e oito anos, eu entrei numa escolinha de futsal e logo saí. Depois só jogava na rua mesmo. Então, antes mesmo de começar a minha carreira no futebol eu já desisti e comecei na canoagem. 

EE: Você sempre teve vontade de seguir uma carreira esportiva?

IQ: Eu não tinha essa vontade toda, mas sempre tive espírito esportivo e uma grande vontade de vencer. Em qualquer joguinho que eu participava, eu sempre queria ganhar, desde videogame a futebol. Então, quando apareceu essa chance de entrar para a canoagem, eu comecei a treinar e ter ótimos resultados.

canoagem_isaquiasqueiroz-cbca-texto_400EE: Para se tornar atleta, você teve de abrir mão de muitas coisas?

IQ: Hoje em dia, se uma pessoa quer ser reconhecida, quer ser campeão mundial ou até campeão olímpico, tem que abrir mão de muitas coisas. Principalmente da família e dos amigos, porque a gente fica muito longe, a maior parte do tempo. Quando apareceu uma oportunidade de sair do meu estado, a Bahia, e ir para São Paulo por causa da seleção, eu tive que agarrar, não podia deixar passar. Uma oportunidade dessas é única na vida. Então, eu tive que abrir mão de amigos, da família, e às vezes, até da escola. Eu saí da minha casa e até hoje não voltei mais, porque para chegar aonde eu quero, ser um grande campeão, tenho que lutar bastante.

EE: Você diria que o esporte mudou a sua vida?

IQ: Sim, o esporte mudou bastante a minha vida. Se eu não estivesse na canoagem hoje, eu poderia até estar trabalhando em outra coisa, mas também poderia estar usando drogas, indo para festas, essas coisas. Com a canoagem, eu acabei conhecendo países que eu nem imaginava que um dia eu ia chegar a conhecer. E também fiz amigos por todo o Brasil, atletas de ponta de várias outras modalidades.

EE: Ainda aos 17 anos você conquistou o ouro no Mundial Júnior de Canoagem, se tornando o primeiro brasileiro a ter um título mundial na modalidade. Como foi chegar até lá? E qual foi a sensação de chegar ao lugar mais alto do pódio?

IQ: Antes, a gente já vinha fazendo uma preparação geral, já focada para esse Mundial, que aconteceu na Alemanha. Eu já tinha ido a outro Mundial, em Singapura em 2010, e tive um ótimo resultado, também cheguei na Copa do Mundo bem, obtive um resultado excelente. Aí quando eu cheguei nesse Mundial, eu já sabia que poderia trazer alguma medalha para o Brasil. Chegando lá, tinham vários países de ponta, e nós sabíamos que o Brasil não era um país bastante evoluído na canoagem. Eu remei os 200m C1 e saí achando que tinha ficado em segundo lugar. Mas quando saiu o resultado final, pelo photo finish, anunciaram ouro para o Brasil. Nesse momento, eu comecei a chorar, o treinador e o presidente [da Confedereção Brasileira de Canoagem] também. E quando eu subi no pódio, que começou a tocar o hino nacional, foi muito emocionante. Foi inesquecível! Não tem coisa melhor do que isso, estar representando o Brasil e ainda ganhando uma medalha de ouro.

isaquias-mundial_650Isaquias Queiroz durante o Mundial na Alemanha que lhe rendeu o ouro

EE: Principalmente depois desse título mundial, muitos te apontam como o principal nome da canoagem brasileira para o futuro. Como você encara essa responsabilidade? 

IQ: Como eu estou crescendo agora, eu sempre escuto que eu devo ter muita responsabilidade com o que eu faço e o que eu falo. Eu sei que eu tenho que dar exemplo, mas o meu jeito é assim: eu gosto de mostrar resultado dentro da água. Fora da água, eu não sou um atleta, sou uma pessoa normal. Então, para mim não veio muita pressão para manter o resultado. De qualquer maneira, eu vou continuar treinando, conseguindo o resultado ou não. Eu já aprendi que uma hora você ganha, e uma hora você perde, faz parte da vida. O que você tem que fazer é saber manter a tranquilidade na hora da prova e focar nos treinos ao longo do ano, para chegar ao campeonato e conseguir um bom resultado.

EE: Você nem passou dos 20 anos e já é campeão brasileiro, sul-americano, pan-americano e mundial da categoria júnior. O que falta para você conquistar?

IQ: É, eu venho mostrando resultado no campeonato brasileiro desde 2008, nas categorias menor, cadete e agora júnior. E no sul-americano também, eu venho mantendo o primeiro lugar desde 2008. Já o meu melhor resultado em Pan-Americanos foram seis medalhas de ouro no Rio de Janeiro em 2011 e, em 2012, também conquistei quatro ouros e uma prata. Sem falar no Mundial Júnior, que foi uma medalha de ouro, uma de prata e o quarto lugar nos 1000m da C1. Agora, o que falta é manter esses ótimos resultados. Ainda quero uma medalha na Copa do Mundo e no Mundial sub-23 que vai ter esse ano. E treinar bastante para chegar em 2016 e conseguir a primeira medalha olímpica do Brasil na canoagem.

EE: Então a medalha olímpica está mesmo nos seus planos para o futuro?

IQ: Com certeza. Não só eu, como os outros atletas da seleção, estamos focando bastante para chegar em 2016 e conseguir uma medalha. Eu acho que todo atleta, de qualquer modalidade, pensa nisso: uma medalha em uma Olimpíada. Esse é o topo para qualquer atleta, não tem nada que pague.

isaquias-podio-texto_583EE: Como você lida com o lado psicológico durante as competições? Isso te atrapalha?

IQ: Bom, eu acho que se eu não fico nervoso, não remo o suficiente. Para mim é assim: se eu estou nervoso, eu sei que vou conseguir fazer uma ótima prova. Todo mundo tem um pouco de medo, é normal. Mas apesar de sentir isso, eu coloco na cabeça que fiz uma ótima preparação, então eu vou com tudo porque eu sei que tenho potencial para ganhar. E eu sempre penso: “Quero fazer uma ótima prova, independente de ganhar ou não”. Medo e nervosismo fazem parte da vida de qualquer atleta, a gente só tem que aprender a lidar com isso.

EE: Para treinar, você teve que sair de Ubaitaba, sua cidade natal. É difícil ficar longe da família? Como você lida com essa distância?

IQ: Hoje eu já estou um pouco acostumado, mas no início foi duro. Foi muito difícil ver que eu não tinha apoio de nenhum patrocinador nesse começo. Eu tive que me bancar do próprio bolso, e a minha mãe tinha que me mandar dinheiro lá da Bahia. Mas depois eu comecei a fazer amigos na canoagem e a gente acabou formando uma família, não de laços de sangue, mas sim de coração. Na seleção, nós somos cinco pessoas na categoria canoa, Ronilson [Oliveira], Erlon [Silva], Wladimir [Moreno] e Nivalter [de Jesus].

EE: E a sua família te apoia para continuar na canoagem?

IQ: Sim, eles sempre me apoiaram desde o início. Quando eu era mais novo e faltava aos treinos, a minha mãe sempre me mandava ir, me acordava de manhã falando que o treinador estava me esperando. Nos primeiros campeonatos, foi ela que me ajudou, correu atrás de dinheiro e alimentação para eu não passar fome. Então, eu acabei tendo bastante apoio da minha mãe e dos amigos, que sempre me incentivaram. Até hoje, todos eles me incentivam para eu não desistir e não desanimar.

EE: E hoje, você tem patrocínio para treinar e apoio nas viagens?

IQ: Infelizmente, a gente ainda não tem o apoio todo, como por exemplo, o futebol, que vai para todos os campeonatos. Mas a canoagem está evoluindo. Antigamente, os canoístas só participavam de um ou dois campeonatos no ano. Hoje, a gente já está participando de Sul-Americano, Pan-Americano, Copa do Mundo, Mundial... O patrocínio que a Confederação dá, não é, digamos assim, dos melhores. Mas agora com a ajuda do BNDES, eles estão conseguindo trazer um pouco mais de estrutura para os atletas. E graças a Deus está melhorando, ainda não está do jeito que a gente espera, mas com o tempo vai melhorar.

EE: No ano passado, você foi a Londres pelo Projeto Vivência Olímpica. Como foi ver de perto uma Olimpíada? O que isso significou para você?

IQ: O Brasil pegou esse projeto de outros países que já tinham feito isso em Pequim 2008. Nós fomos em um grupo de 16 jovens para sentir o clima de uma Olimpíada, ver como os atletas se preparam antes da competição. Serviu muito para pegar uma experienciazinha. Mas apesar de eu ter ido a Londres, a emoção não foi tanta, porque competir é uma coisa, ver, é outra.

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EE: Que futuro você projeta ou sonha para a canoagem brasileira?

IQ: Hoje, nós da canoa e do caiaque pensamos em evoluir ao máximo. Porque se a gente ganhar hoje, vamos estar ajudando a canoagem a se desenvolver, não só para a nossa geração, mas também para os atletas que vão vir. Se o atleta de ponta não conseguir mostrar resultados, ele acaba prejudicando a nova geração também. Por isso eu espero que os nossos resultados conquistados agora ajudem a canoagem a mostrar a sua cara, a fazer com que o Brasil conheça mais dessa modalidade.

EE: Para você, o que falta para que a canoagem seja um esporte mais difundido no país?

IQ: Olha, nós atletas estamos dando o nosso melhor para divulgar o nome da canoagem. Mas eu acho que não falta dedicação dos atletas, e sim dos gestores da modalidade, da Confederação. Falta que eles chamem a mídia para conhecer melhor a os canoístas, que eles façam um trabalho para divulgar a canoagem em si, para que ela possa crescer e os atletas também.

2012_velocidadepanamericano_riodejaneiro-020-texto_400EE: E os estudos? Você conseguiu conciliar a escola e o esporte?

IQ: A gente tenta manter os estudos, mas tem vezes que tem que parar por causa das viagens, das competições. A gente sempre tenta fazer um curso, começar a faculdade, mas fica um pouco difícil. Eu pretendo me formar em Educação Física para ficar dentro da canoagem mesmo, tentar ajudar o esporte a crescer. Eu não penso só em mim como atleta, penso em outras pessoas, no futuro. Quem sabe eu não chego a técnico da seleção um dia e ajudo um atleta a ser campeão mundial, campeão olímpico... Eu pretendo seguir carreira na canoagem o máximo que der, primeiro como atleta, e depois treinador ou dirigente da Confederação.

EE: Como atleta, como você encara o problema do doping no esporte?

IQ: Qualquer atleta tem medo de ser pego no doping. Às vezes não é só pelo que você toma por conta própria, mas às vezes alguma pessoa pode te dar uma substância sem você saber. Quando a gente vai para campeonatos fora do país, o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) sempre nos orienta a nunca ingerir bebida ou comida nenhuma que já esteja aberta ou esteja parada em algum lugar e nunca aceitar nada oferecido por atletas de outros países. Porque tanto eles podem estar fazendo querendo ajudar, como podem estar fazendo de maldade. A gente também sabe que deve sempre pedir a orientação do médico para tomar qualquer tipo de suplemento ou remédio. Então, as pessoas que tomam substâncias para aumentar o desempenho tem mais é que ser punidas da forma que estão sendo agora. Para mim, não deveria existir essas punições de um ano, dois anos. Para mim, o atleta que se dopou tem que ser banido do esporte, porque se ele fez isso por vontade própria, ele não tem caráter. 

EE: Para você, o esporte é essencial?

IQ: Sim, porque o esporte mudou a minha vida. Se hoje eu sou bastante reconhecido no Brasil e o mundo todo sabe meu nome, é por causa da canoagem. Por isso eu acho que o esporte mudou radicalmente a minha vida e eu só tenho a agradecer.

Fotos: Iran Schleder/CBCa/ Divulgação


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