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Guilherme Kumasaka (Badminton)

19/03/2012
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 guilhermekuma_660_01O arquiteto que vale ouro

Por Nayara Barreto e Thyago Mathias

 “A forma com que o Brasil lida com o esporte e o atleta, muitas vezes desvincula a educação do esporte em si. Hoje, sou coordenador técnico da Confederação e, como dirigente, tenho muitos atletas que se encontram na idade de prestar vestibular, entrar em um cursinho ou até mesmo de continuar uma faculdade. Muitos se encontram no dilema de trancar os estudos para treinar fora e uma das coisas que sempre procuro incentivar, no caso do badminton, é não abandonar os estudos. Se o atleta consegue, através do esporte, fazer um pé de meia, isso é excelente. Mas para o badminton isso é difícil. É uma coisa muito mais de se jogar com o coração, com paixão de estar defendendo o país, de vestir a camisa da seleção, de ser reconhecido por todas as conquistas do que pelo dinheiro.”

Esporte que só passou a integrar os Jogos Olímpicos a partir de Barcelona (1992) e que cresce pouco a pouco no país, o badminton brasileiro deve ao atleta paulista Guilherme Kumasaka um de seus maiores feitos: a conquista da, até agora, única medalha de prata da modalidade em jogos pan-americanos, na dupla formada com Guilherme Pardo, no Rio de Janeiro, em 2007.

Formado em arquitetura e longe das competições, hoje Kumasaka permanece dentro dos ginásios, como técnico de badminton no clube Athlético Paulistano. Sem esquecer o passado de quem representou o país em quatro pan-americanos, é olhando para o futuro, a partir das escolas, que Kumasaka falou ao Memória Olímpica. Confira aqui.

Memória Olímpica: Você conheceu o badminton aos 13 anos. Três anos mais tarde, já integrava a equipe adulta da modalidade. Por favor, conte mais sobre como foi se tornar um atleta profissional ainda tão jovem?

Guilherme Kumasaka: Por ter passado a infância inteira praticando tênis, tive uma adaptação muito rápida ao badminton. Ainda bem jovem, jogando tênis, participei de alguns campeonatos brasileiros e cheguei a ser o terceiro da minha categoria. Isso fez com que desenvolvesse uma aptidão muito grande com a raquete. Com 13 anos, consegui ganhar alguns títulos juvenis e, com 16, fui convidado a jogar dupla com o atleta da época que era o Leandro Santos, o primeiro do ranking nacional, o que, pra mim, foi o mais especial e significativo. Entre nós dois havia uma distância técnica e de maturidade muito grande, mas a dupla acabou conquistando o posto de segunda melhor do país. Foi uma sintonia ótima. Com 16 anos, podia curtir a fase, não tinha tanto aquela pressão que fui sentir mais depois que passei a ficar entre os principais atletas da América.

MO: Além de atleta, você é arquiteto. Por que tomou a decisão de ter outra carreira profissional? E quais as dificuldades, à época, de conciliar estudos e esporte?

GK: A arquitetura vem de berço mesmo. Nasci em família de arquiteto e cresci sendo muito estimulado. O dia a dia e a conversa em casa foram influenciando muito. Esse fator foi o que mais contou em minha decisão de partir para uma outra carreira. Foi no período em que comecei a estudar arquitetura que passei a despontar no esporte. Na época, fiquei muito focado em não largar a faculdade, mas ao mesmo tempo não deixar a carreira esportiva. Tinha sempre o objetivo de me formar e seguir em frente. Quanto ao fato de conciliar os dois, meus pais eram arquitetos. Então, pude estagiar com eles. Além disso, ajudavam sempre que possível e necessário. Assim, consegui conciliar estudo com competição. Quando tinha competição fora, meus pais seguravam muito a onda e continuavam a me incentivar na carreira esportiva. Na faculdade, o que me ajudou muito também foi ter conhecido minha esposa. Comecei a namorá-la desde o segundo ano de faculdade e ela me ajudava e me dava muita força.

MO: Muitos atletas que se dedicam à profissionalização deixam de estudar e tentar conciliar o esporte com outra carreira. Qual a importância de se dedicar também aos estudos e a outra carreira profissional?

GK: Acredito que isso tem muito a ver com a forma com que o Brasil lida com o esporte e o atleta, muitas vezes desvinculando a educação do esporte em si. Hoje, sou coordenador técnico da Confederação e, como dirigente, tenho muitos atletas que se encontram nessa idade de prestar vestibular, entrar em um cursinho ou até mesmo de continuar uma faculdade. Muitos se encontram no dilema de trancar os estudos para treinar fora e uma das coisas que sempre procuro incentivar, no caso do badminton, é não abandonar os estudos. Conseguimos treinar meio período e estudar meio período também, até porque o badminton não dá muito dinheiro. No entanto, temos casos de outros esportes que são completamente diferentes. E se o atleta consegue, através do esporte, fazer um pé de meia, isso é excelente. Mas para o badminton isso é difícil. É uma coisa muito mais de se jogar com o coração, com paixão de estar defendendo o país, de vestir a camisa da seleção, de ser reconhecido por todas as conquistas do que pelo dinheiro mesmo.

MO: Você acredita que o badminton ainda é um esporte pouco conhecido em nosso país? Nesse sentido, quais são os principais impedimentos para o desenvolvimento aqui desta modalidade?

GK: A maior dificuldade é a falta de profissionais que tenham experiência no esporte e outra coisa é a de um ginásio ideal para a prática. Isso, porque o ginásio não pode ser muito ventilado, pois atrapalha o voo da peteca. Não pode ter muita abertura, as paredes não podem ser muito claras... do contrário não conseguimos enxergar o voo da peteca. Estas são duas coisas que enfrentamos com muita dificuldade. Acredito, também, que o esporte precisa ganhar mais nome, mais peso, mais visibilidade, apesar de já estar se desenvolvendo bem em projetos sociais, pois é um esporte muito barato para começar. A criançada tem muito interesse pelo esporte, costuma achar bem divertido por lembrar bastante o frescobol, o vôlei de praia. Com isso, tudo tem caminhado para uma conquista de um espaço maior. Mas algo muito importante que precisa ser salientado é a falta de verba para iniciar trabalhos sociais nas escolas.

MO: E de que forma, atualmente, os jovens brasileiros podem ser mais incentivados a praticar esportes e se tornarem futuros atletas olímpicos?

GK: Vejo o esporte como um grande responsável para orientar nossa juventude. O esporte molda nosso caráter, nossa personalidade. Por meio do esporte, a pessoa aprende a ceder mais, a ser competitivo positivamente, a ser mais disciplinado, humilde, aprende a trabalhar em equipe e a se socializar mais. Além disso, o jovem vai estar sempre em um ambiente mais saudável. Ele aprende a lidar com pressão psicológica, as cobranças e as situações-limite, isso faz com que a pessoa acabe desenvolvendo um controle emocional maior. Já a melhor maneira de incentivar os jovens a praticarem algum esporte é justamente levar todas essas informações a eles, instruir, informar, fazer com que eles conheçam tudo o que envolve a prática esportiva.

MO: Em 2007, nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, você e Guilherme Pardo conquistaram o bronze, um feito inédito para o badminton brasileiro. Como foi a conquista desse título?

GK: A competição do Rio teve um resultado que talvez eu mesmo não pudesse  imaginar. Meu maior sonho, sem dúvida, seria ir para uma olimpíada competindo, mas outro grande sonho era uma medalha nos Jogos Pan-Americanos. Para o badminton brasileiro, que está brigando por uma posição melhor ainda em termos de América, esse é um grande resultado, pois depois das olimpíadas, o pan-americano é a competição mais importante para a comunidade de atletas. E foi muito mais importante pelo fato de que, logo depois dos Jogos, me aposentei, então sabia que não existiria outra oportunidade, aquela seria a única e pude encerrar a carreira muito bem.

MO: Como fica o cenário no badminton no Brasil depois dessa conquista e desse reconhecimento inédito e em casa?

GK: Acho que começou a ter mais aceitação em um trabalho de base. O esporte passou a ser muito mais reconhecido. Começou a ter mais aceitação em trabalhos sociais a partir de 2007, fez com que o número de praticantes crescesse muito. Hoje, temos muitos atletas juvenis e as meninas da seleção brasileira também estão despontando bastante. Foi isso, o esporte ganhou um pouco mais de nome e começaram a surgir mais profissionais interessados em atuar na modalidade e também em desenvolver o esporte nas escolas e ampliar a área de atuação.

MO: Ainda no ano de 2007, você foi eleito o atleta do ano no badminton pelo COB. Avaliando seu retrospecto, o que esse fato representou para sua carreira?

GK: O que me deixou mais feliz foi a medalha no pan. Tudo, depois da medalha, foi consequência de um trabalho de muitos anos, muito esforço e muita dedicação, por isso curti bastante aquela fase da conquista da medalha e toda a repercussão. Ser eleito o melhor atleta do ano foi muito gratificante e foi uma consequência da conquista dessa medalha inédita. Logicamente, foi um reconhecimento da confederação, fiquei muito feliz, mas nada especial. O mais importante foi levar o nome do Brasil e ter conquistado a medalha.

MO: Além disso, você já participou de quatro edições dos Jogos Pan-Americanos: Mar del Plata 1995, Winnipeg 1999, Santo Domingo 2003 e Rio de Janeiro 2007. Com uma vasta experiência nos Jogos, o que fica de mais forte na memória em relação a cada participação?

GK: Cada participação em pan-americano é muito marcante, mas a expectativa para os Jogos, as noites que você não dorme muito bem, a ansiedade de uma competição tão importante, aquela responsabilidade de abraçar aquele como o momento mais importante da sua vida... isso te deixa alguns dias com muita tensão e ansiedade. Isso é o que mais marca. A lembrança da cerimônia de abertura também é algo muito forte para mim. Em minha opinião, é o que mais marca... aquela chegada, aquela expectativa, toda a esperança e a preparação, a emoção que nos envolve. Traz toda uma energia, uma magia, que só quem esta lá sabe como é. E não é fácil controlar a tensão na hora do jogo. Isso marca bastante também, mas é algo que o atleta vai acostumando a vai sabendo lidar com a prática

MO: Qual foi sua conquista mais marcante? Por quê?

GK: Na minha carreira, cheguei a ser medalhista de uma competição pan-americana somente de badminton, em 2001, essa foi uma conquista bem emocionante. Em 1996 também ganhei um titulo de pan-americano juvenil muito marcante. São momentos de uma maturidade menor, em que você passa por muito mais barreiras e dificuldades. Por isso a conquista acaba se tornando mais importante.

MO: Apesar de as origens do badminton remeterem ao século XIV, o esporte não fez parte do programa olímpico até a edição de 1992, em Barcelona. Pode nos falar um pouco sobre a conquista desse espaço nos jogos olímpicos?

GK: Acho que o esporte, sendo olímpico, ganha uma grande vantagem, em termos de visibilidade, em comparação aos demais, por isso é tão importante que uma modalidade entre no quadro olímpico. Fica muito difícil conseguir verbas e ajudas no cenário brasileiro se o esporte não for olímpico. Por isso, esse feito, foi o pontapé inicial para o badminton se popularizar no mundo inteiro.

MO: Como avalia o problema do doping nos esportes? E que mensagem deixaria para os jovens atletas?

GK: O doping é como qualquer outra droga que a garotada acaba se envolvendo, por isso é necessário tomar muito cuidado. Se um atleta está em um ambiente propício, é muito fácil se envolver e prejudicar bastante sua carreira e sua saúde. É claro que não vale à pena deixar essa cicatriz invisível no seu corpo. É mais importante conseguir praticar esporte com saúde para o resto da vida. Quem foi atleta vai querer ser atleta para o resto da vida, então é importante pensar no longo prazo também. É preciso se cuidar e o doping sói vai atrapalhar a saúde física de um atleta. A mensagem que posso deixar para os jovens atletas é de que pratiquem esporte com consciência, curtam bastante a energia que ele proporciona, sem muitas pretensões para não se frustrarem. Mas, se surgir oportunidade de entrar em equipes profissionais, que invistam nessa oportunidade sempre com o pé no chão, com objetivo e com muito amor, pois o Brasil precisa de atletas que tenham objetivo, foco e amor ao esporte.


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