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Gabriel Sidney (Tênis)

07/05/2015
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Por Fabiana Bentes, com colaboração de Katryn Dias

Gabriel Sidney começou a brincar no tênis aos três anos, com a vontade de ganhar troféus como os do primo mais velho. Conforme foi crescendo, o objetivo não mudou, só a dificuldade das partidas. Quatro vezes campeão da Copa Guga Kuerten de tênis, Gabriel inicia este ano a transição para o adulto/ profissional.

Apesar de seguir os grandes ídolos brasileiros do tênis, Gabriel não tem um caminho fácil. Nesta entrevista exclusiva, ele conta a dificuldade de conseguir patrocínio na modalidade, ressalta que o Brasil perde, todos os anos, uma safra maravilhosa de novos tenistas que não têm condições financeiras para continuar o caminho profissional,  e o que é preciso fazer para receber atenção dos órgãos públicos responsáveis.

Gabriel é atleta do TIME Sou do Esporte, para patrociná-lo, clique no perfil: 

http://www.soudoesporte.com.br/atleta/gabriel-roveri-sidney/

 

Esporte Essencial: Gabriel, conta um pouquinho do seu início no tênis. 

Gabriel Sidney: Eu comecei com três anos por causa do meu pai e do meu primo que já jogava tênis. Hoje, ele tem 21 anos e está nos EUA estudando e jogando tênis pela universidade. Quando eu era pequenininho e ia passar férias com meus primos em Londrina, ficava vendo os troféus dele e queria ter alguns também. Por isso, comecei a treinar quando voltei para Curitiba, na escolinha do clube Curitibano, e também jogava com o meu pai aos finais de semana. A professora na época, Ana, falou que eu tinha talento e devia seguir. Daí em diante passei a me dedicar. Treino no clube desde os seis anos, hoje estou com 18. Lá tem uma estrutura muito boa e técnicos muito bons. Já trocaram algumas vezes de técnico, mas são sempre bons profissionais, muito capacitados. O Curitibano faz um trabalho desde a base, que foi a escolinha que eu comecei, até o alto rendimento, onde estou treinando há uns seis anos. Temos preparador físico, nutricionista e muitos técnicos. Para minha carreira, essa estrutura foi excepcional.

01_200_26EE: Você acredita que o tênis hoje ainda é um esporte de elite ou já está  massificado depois das conquistas do Guga e do Fernando Meligeni?

GS: O tênis ainda é um esporte de elite, sim. É um esporte muito caro, o tenista sempre precisa viajar muito. Por isso não dá para ficar só no “paitrocínio”. Isso também influencia muito na hora do tenista se tornar profissional, porque os custos dobram. Muitas famílias não têm como bancar tudo isso, mas também não conseguem encontrar um incentivo, alguém para ajudar. Então é um esporte de elite sim, mesmo com o Guga incentivando. É duro bancar todas as viagens, tirando do próprio bolso.

EE: Mas na questão da base, o tênis está sendo muito praticado pelos jovens? 

02_200_27GS: Isso. Quando você é juvenil, os torneios são mais no Brasil, então o atleta consegue pagar. Além disso, nós temos vários ídolos aqui, que aumentam o interesse pelo esporte, como Guga, Meligeni, Saretta e agora o Bellucci – que para mim é um ídolo. Nós que estamos no circuito sabemos o quanto um cara desses trabalha, então não dá para desmerecer ninguém. 

A situação fica difícil quando o nível aumenta. Na hora que começam a acontecer mais viagens internacionais, o atleta vai precisar de mais materiais e o incentivo não vem, acaba restringindo muitas carreiras. Muitos atletas talentosos poderiam ter chegado longe, mas não tiveram como bancar.

EE: Como é essa avaliação para sair de um atleta de base para o alto rendimento? Como entra a CBT ( Conf. Brasileira de Tênis) e o Ministério do Esporte para auxiliar nesse processo?

GS: Para entrar no alto rendimento, é preciso começar a viajar mais e ter resultados. Se o atleta tiver resultados, a Confederação dá um incentivo, às vezes paga as viagens. Eu, por exemplo, estou num grupo que a CBT está apoiando com passagens aéreas, uniformes, etc. Por exemplo, quando vim aqui para a Europa, a CBT pagou as passagens. Mas eu só consigo isso se tiver alguns resultados. Agora estou em 70º do mundo ITF, então eles abriram os olhos para mim. Mas é preciso ter resultados para se sobressair um pouco e te verem.

04_200_26EE: Então, não é uma construção em conjunto. Você que precisa correr atrás de resultados para conseguir apoio.

GS: É isso. Tem que vir de você. O atleta precisa correr atrás da estrutura e treinar. A princípio é o atleta que tem que querer o alto rendimento. Tem muita gente que pratica o tênis por lazer. No clube Curitibano, por exemplo, muitos sócios só estão ali para passar o tempo, não vão para torneios. Para ser atleta, a primeira coisa é querer ser um jogador profissional. Aí você começa a ter resultados e, depois, a ganhar alguns incentivos, da CBT, do governo estadual ou de uma empresa de materiais esportivos. Hoje eu recebo o Bolsa-Atleta.

EE: Como você vê suas chances para 2016?

05_200_22GS: Eu acho que agora em 2016 é muito difícil me classificar para a Olimpíada. Eu ainda vou estar com 19 anos, não vou estar no meu auge. Além disso, ainda não estou ranqueado no ATP, que é o ranking profissional. E a equipe brasileira para a Olimpíada está muito forte, com Feijão, Bellucci, Marcelo Mello e Bruno Soares. São nomes muito bons... Então, para essa edição as minhas chances são pequenas.

EE: Nessa trajetória de mudança da base para o profissional, entram as competições na Europa. Qual a importância dessas viagens?

GS: Na Europa é onde o jogador consegue ver o real nível de tênis que precisa ter para conseguir “vingar”. A América do Sul é forte também, mas a Europa é diferente, a coisa é bem mais dura. Não vou dizer que é um pré-requisito jogar aqui, mas se o atleta vem para cá ele consegue ver seu real nível, porque a maioria dos jogadores top 06_200_18é europeu. A Europa é muito fácil, você consegue viajar para vários países, então facilita o intercâmbio de conhecimento. Além disso, a Europa tem muitos profissionais e os já juvenis convivem com eles. Às vezes um juvenil está batendo bola e, na quadra ao lado, está o Federer treinando. Eles já vão assimilando o que precisam fazer para ser um grande nome no tênis. Aqui no Brasil nós não temos isso, só conseguimos ver um profissional jogando em grandes torneios, como o Rio Open. E aí para chegar lá tem todo um processo de deslocamento...

EE: Quem são seus adversários hoje no Brasil e como é a sua relação com eles?

GS: Meus principais adversários são: o Orlandinho, que está bem no ranking e agora conseguiu bons resultados no profissional; o Igor Marcondes, que fez a final do Banana Bowl com o Orlando; o Lucas Koelle, que está viajando comigo; e o Felipe Meligeni. Estão todos aqui comigo na Europa. São todos possíveis adversários, mas nós mantemos uma relação boa por conta das viagens.

 

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Jovens tenistas na Europa: Alexandre Girotto, Gabriel Sidney, Igor Marcondes, os técnicos Leandro Afini e Henrique Silva, Lucas Koelle e Felipe Meligeni

 

 EE: Essa viagem de todos vocês está sendo bancada pelos pais?

GS: Sim. A CBT deu a passagem de ida e volta para mim e mais dois. Mas o deslocamento do hotel para o treino e tudo o mais, é pago do nosso bolso. Os torneios que estamos jogando aqui têm um nível bem alto, então é obrigatório que forneçam hospedagem, alimentação e transporte para todos os competidores. Mas se você perde, tem que passar a bancar do seu bolso. Por exemplo, se eu perder eu preciso pagar meus custos até a final, se quiser ficar lá. 

EE: Como é a classificação para esses torneios?

GS: A classificação de todos os torneios é por ranking. Dependendo do grau e da localização do torneio, o atleta precisa de uma posição boa para entrar. Mas para conseguir essa posição, precisa jogar torneios menores antes, fazer pontos e subir, para só então poder participar de  grandes torneios. Em setembro do ano passado, eu estava no número 700 do mundo e fui jogar alguns torneios pela América do Sul, todos de nível um pouco mais baixo. Como consegui me sair muito bem, dei um salto no ranking para o 98º lugar. 

Até pouco tempo, os jogadores da chave principal dos torneios brasileiros não conseguiam entrar no qualifying dos torneios internacionais. Aqui na Europa, para entrar na chave principal, é preciso estar entre os 250 do mundo. Por isso, falamos que é preciso ter um ranking muito bom para poder jogar. Tem muitos atletas que ficam de fora porque não conseguem nem entrar no quali.

EE: Ano passado, você passou quase dois meses longe de casa focado no objetivo, que era alcançar o Top100 mundial. Como é passar tanto tempo longe de casa, da família?

GS: A minha mãe é a que mais sofre. Às vezes, nem me leva no aeroporto porque fica muito triste. Mas ela tem que acostumar, porque estou ficando mais fora do que dentro de casa (risos). Eu já estou acostumado, viajo sozinho desde os 12 anos. A maior gira que já fiz foi essa do ano passado, para torneios no Chile e no Brasil. Foram sete semanas seguidas. 

07_200_23Agora estou na Europa, me sentindo bem e bastante empolgado. O último torneio da programação vai ser um Grand Slam em Roland Garros, que é o sonho de todo atleta, principalmente brasileiro, por causa do Guga*. Dá saudade de casa, claro, mas eu sei que vai valer a pena, que a experiência vai ser muito boa. Eu não estou fazendo faculdade ainda, pretendo começar o curso de Administração em agosto. Então, não tenho que recuperar matéria de colégio, o que às vezes me preocupava. Voltar de uma viagem grande sabendo que teria que recuperar 10 provas... Nem dá vontade de voltar (risos)!

 

*Gustavo Kuerten tornou-se, em 1997, o primeiro tenista masculino brasileiro a vencer um torneio em simples do Grand Slam, em Roland-Garros, o mais importante do mundo em quadras de saibro. Depois ainda vieram mais dois títulos, em 2000 e 2001.

 

EE: Mas isso aconteceu bastante ao longo da sua carreira. Como você gerenciou essa situação até concluir o ensino médio?

GS: Até o segundo ano, fiz estudo normal, indo ao colégio. Mas comecei a perceber que estava ficando um pouco para trás, comparado aos outros meninos da minha idade, que estavam estudando à distância e treinando em dois períodos (de manhã e à tarde). Então, conversei com a minha família e decidi fazer o terceiro ano à distância, pelo Anglo-Americano, que é um colégio superbom e aprovado pelo MEC. Eu acho o estudo muito importante e conciliava bem, porque ia sempre bem no colégio. Por incrível que pareça, conseguia tirar notas boas em colégios fortes do Paraná, como o Dom Bosco e o Bom Jesus, mesmo com as viagens. Nunca tive muito problema com colégio e isso dava uma tranquilidade para treinar e viajar, porque eu sabia que nunca estava sufocado de nota.

EE: Fala um pouquinho da sua história na Copa Guga Kuerten de tênis. 

GS: A Copa Guga é muito especial para mim, porque jogo desde a primeira edição, em 2009. Na estreia, aos 12 anos, fui campeão. Cheguei com o pé direito no torneio, que ainda não era tão grande, era só brasileiro. Todo ano eu participo e, às vezes, consigo ir muito bem. 

Porque no tênis é assim, tem o ano bom e o ruim de cada categoria. Na categoria 14, quando você joga com 13 anos, dizemos que é um ano ruim, porque você pega gente mais velha. Em todos os anos bons eu consegui resultados muito legais. Isso ajudou bastante porque ganhei reconhecimento. Além disso, na premiação é o Guga que entrega o troféu e aí eu conseguia falar com ele. E o Guga é um cara fora de série, muito simpático e humilde com todo mundo. 

 

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EE: Como foi a sua participação na edição deste ano?

GS: Depois de tanto tempo competindo, esse ano, quando ganhei, o Guga falou pra mim que eu já sou até da família (risos). Eu fiz a gira de sete semanas, que acabaria na Copa Guga. Como já tinha conseguido resultados muito bons, meu técnico até cogitou não jogar a Copa Guga, porque o objetivo já tinha sido alcançado. Mas eu falei que queria jogar porque tinha um sonho. O Guga tem um troféu bem grande na galeria do Instituto, onde são registrados os nomes dos campeões da categoria 18 anos. Eu fui jogar com esse objetivo: deixar meu nome para sempre no troféu. 

No início do torneio, quando fui chamado para fazer o juramento do atleta, falei para o Guga que ia colocar meu nome no troféu. E quando fui campeão e ele estava lá vendo, eu apontei para ele. Foi um momento bem legal. Depois, o Guga falou que eu até o fiz chorar.  Fechei minha participação com chave de ouro, já que ano que vem, com 19 anos, 09_200_10não posso mais jogar. Esse era um título que eu queria fazia tempo...

EE: Para você, qual a importância do Guga para o tênis?

GS: O Guga revolucionou o tênis, mostrou que é possível um brasileiro chegar ao topo trabalhando duro. Eu conheço várias histórias de quadra dele, porque meu técnico já trabalhou com o Larri [técnico do Guga]. Algumas até me arrepiam, pelas atitudes que o Guga tinha. Ele mostrou que dá para chegar lá, que é trabalhando duro que se chega. E mesmo com tudo que conquistou, ele se mantém humilde, respeitando todo mundo. Até por isso ele conquistou todos os franceses, que idolatram o Guga sempre que vai a Roland-Garros. O cara é fora de série mesmo. Acho que ele mostrou que é possível.

 

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Levantando o troféu da última categoria, 18 anos, da Copa Guga Kuerten

 

EE: Você recebe orientação a respeito do doping? Qual sua posição sobre essa prática?

GS: Eu acho o antidoping muito importante, porque deixa o jogo justo. Se não existissem os exames, os jogadores não entrariam com o que eles têm em quadra, teriam uma arma a mais. Isso é injusto com quem está ralando todo dia para melhorar. Quando um atleta se dopa, fica em vantagem e perde toda a ética do esporte. Agora a LDF [confirmar essa sigla!!] está valorizando bastante o antidoping. Todo torneio eles distribuem panfletos sobre doping e sobre a politicagem da venda de jogos. Então está havendo uma preocupação maior com a ética, o que eu acho imprescindível.

EE: Hoje você está cadastrado no Time Sou do Esporte. Como você vê essa iniciativa de expor os atletas para as empresas interessadas em patrocinar?

GS: É uma iniciativa muito boa, eu só tenho a agradecer. Essa divulgação é ótima, porque o atleta precisa de incentivos. É duro uma família pagar a carreira de um atleta, mesmo que ele tenha talento e seja dedicado. Acaba faltando verba para poder viajar e planejar a carreira. Por isso, essa divulgação está sendo muito boa para mim.

Tem muitos empresários que gostam de esporte e, às vezes, jogam tênis. Lá no clube têm vários. Mas eles não entendem, ficam perdidos na hora de investir, de incentivar um atleta. Se tiver uma base, como essa rede, vai ajudar muito.

10_200_10EE: O esporte é essencial para você?

GS: Nossa, com certeza. Eu nem penso a minha vida sem o esporte. Às vezes vejo meus amigos que só estudam e voltam para casa... Eu não consigo entender como eles não saem para praticar algum esporte. Desde pequeno eu treino todo dia, seja o tênis ou o futsal, esporte que pratiquei mais novo. O esporte gera uma maturidade muito grande na pessoa. Eu, que viajei bastante, tive que aprender a resolver vários problemas sozinho. No Peru, por exemplo, perdi minha mala, fiquei dias procurando... Na hora que voltei, me senti bem mais maduro por ter conseguido resolver tudo sozinho, sem a ajuda dos meus pais. Então, vejo o esporte como fundamental nessa questão fazer você "se virar."

 

Gabriel Sidney também é atleta do Time Sou do Esporte. Clique aqui para patrociná-lo. 

Fotos: Arquivo pessoal de Gabriel Sidney


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