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Fofão (Vôlei)

08/07/2015
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Por Fernando Hawad, com edição de Katryn Dias

Hélia Souza nasceu em São Paulo, em 1970. Mas pouca gente deve saber quem é a Hélia. Talvez apenas os familiares e amigos mais próximos. Para o mundo, ela será sempre a Fofão, apelido que recebeu ainda criança, quando começou a jogar vôlei. Uma usina de talento, Fofão brindou os amantes do esporte com grandes jogadas e conquistas memoráveis.  

A carreira da levantadora anda de mãos dadas com a ascensão do vôlei feminino brasileiro. Considerada uma das melhores jogadoras da história do país, Fofão marcou época na seleção. Em quase duas décadas, participou de cinco Jogos Olímpicos. Viveu momentos inesquecíveis. Sofreu algumas derrotas doloridas, mas conseguiu o que tanto merecia em seu último ato com camisa amarela: o ouro em Pequim 2008. Aos 45 anos, seu corpo pediu descanso. Fofão deixa as quadras em alto nível, conquistando pela quinta vez a Superliga, o terceiro título pela equipe do Rio de Janeiro.

 

EE: Fofão, como foi o seu primeiro contato com o vôlei?

F: Foi na escola mesmo, na aula de Educação Física. Não era um esporte tão conhecido, o momento era mais do basquete, do handebol. Mas o vôlei apareceu um pouquinho naquela época e eu comecei a praticar e gostei. Com isso, uma professora me levou para fazer um teste em um centro olímpico de treinamento e eu passei. Aos 13 anos, comecei a treinar de verdade para jogar voleibol.

EE: Muitos jogadores que começaram nos anos 80 falam que a “Geração de Prata” (seleção masculina que conquistou a prata nos Jogos de Los Angeles 1984) teve grande influência para a carreira deles. Para você também?

F: Eles passaram a ser uma referência no voleibol. Não tínhamos tanto acompanhamento como hoje, transmissão de jogo o tempo todo. Havia pouco envolvimento. Quando o masculino ganhou aquela medalha de prata foi um fato muito importante. Foi daí que aumentou a visibilidade, o interesse pelo vôlei, tanto meu, como das pessoas que acompanhavam. Acho que eles deram a alavancada nesse movimento de praticar e de apreciar o voleibol.


O início da carreira


EE: Você chegou à seleção brasileira com 19 anos, com o técnico Wadson Lima. Como foi ter a responsabilidade de servir à seleção tão nova?

F: Foi maravilhoso. Quando fui convocada, era o meu primeiro ano na categoria adulto. Vi o meu nome na lista e fiquei muito feliz. Era um sonho que queria muito, mas achava que ainda estava um pouco distante de se realizar. Foi uma felicidade muito grande porque eu já tinha visto algumas meninas jogarem, acompanhava os jogos. De repente estava junto com as melhores do Brasil! Além da realização de um sonho, foi o começo da minha história dentro do voleibol e da seleção. Logo em seguida fui para uma Olimpíada (Barcelona 1992), que é um sonho maior ainda. 

03_200_30EE: Durante vários anos você conviveu com a Fernanda Venturini na seleção. Como era a relação entre vocês, que são consideradas, por muitos, as duas melhores levantadoras da história do Brasil? 

F: Quando fui para a seleção com 19 anos, a Fernanda já era da equipe juvenil, tinha uma bagagem muito maior que a minha. Eu via a Fernanda jogando e isso foi muito bom para o meu amadurecimento, porque eu tinha como referência uma levantadora muito técnica, muito exigente com ela mesma e que gostava de treinar. Isso me levava junto. Eu gostava de ver esse jeito dela, essa coisa de estar sempre querendo a perfeição. Então, aprendi muito com ela. Apesar de sermos da mesma idade, fui amadurecendo aos poucos. Ela já era mais experiente e eu fui aprendendo a amadurecer. Tive sorte de ter uma pessoa que já foi considerada a melhor do mundo como referência. Foi um privilégio muito grande e sempre trabalhamos muito bem juntas. Quando uma estava bem, a outra ia atrás. Isso ajudava a não se acomodar. 

01_200_32EE: Quando se fala no vôlei brasileiro, há duas referências: Bernardinho e Zé Roberto. Você trabalhou muito tempo com os dois. O que eles têm em comum e qual a diferença entre os dois maiores técnicos do país?

F: Os dois são diferentes, tanto na personalidade, como no trabalho. A única coisa que eles têm em comum é que são vitoriosos, mas no resto eles são totalmente opostos. O Bernardinho é muito agitado o tempo todo, está sempre exigindo do atleta. Ele tem um jeito de comandar meio bravo, que assusta um pouquinho quem está assistindo e quem está jogando também. É um trabalho forte o tempo todo, com exigência máxima. O Zé Roberto é um pouco mais tranquilo. Também dá bronca, dá puxão de orelha, mas é um método mais tranquilo. Ele não gesticula tanto, é mais comedido nas palavras. São estilos diferentes. Para quem teve a oportunidade de treinar com os dois, acho que são os melhores, talvez até do mundo. 

EE: Para a sua carreira, qual dos dois foi mais importante?

fofao_ze_roberto_arquivocbv620_400_01F: Cada um esteve em um momento da minha vida. Se for colocar o nível de importância para mim, acho que o Zé foi mais. Se me tornei uma grande levantadora, foi porque ele me ensinou, treinou comigo o tempo todo, me fez ser uma grande levantadora. Com o Bernardo eu trabalhei em outro momento, talvez já mais pronta, mais formada como levantadora, mas ele também me ajudou bastante a lapidar, me ajudou a ter outra visão de jogo. Então, os dois são muito importantes. Mas pelo começo da minha carreira, eu acho que o Zé tem uma importância maior.

EE: Sob o comando de Bernardinho, você fez parte de uma grande geração do vôlei feminino brasileiro, vice-campeã mundial em 1994 e bronze na Olimpíada de Atlanta, em 1996. Aquele foi o melhor time em que você já atuou?

F: Eu digo que era um dos mais fortes. Individualmente eram jogadoras diferenciadas. Acho que o nível técnico delas é diferente do que é hoje. Eram jogadoras completas. Víamos isso dentro da quadra, nos treinamentos também. Víamos a qualidade de cada. Acho que foi uma geração muito forte, que eu tive o prazer de trabalhar. Eu sempre falo que aquele time merecia ter conseguido outro lugar em competições importantes porque foi uma geração que batalhou muito e eu acompanhei de perto todo esse processo.

 

Cuba: a eterna rival

 

EE: Havia uma rivalidade muito acirrada entre Brasil e Cuba naquela época. Os jogos eram cercados de provocações e, às vezes, as jogadoras quase chegavam “às vias de fato”, como na semifinal dos Jogos de Atlanta. Por que existia esse clima entre as duas equipes?

F: No princípio nós éramos amigas das cubanas, ajudávamos muito elas. Só que sempre perdíamos para o time delas. Elas nos dominavam porque eram mais fortes. O Bernardo foi o responsável por uma mudança de treinamento para vencermos as cubanas e nós começamos a igualar o jogo com elas. A partir do momento que viram que éramos um rival forte, elas começaram a não gostar. Ali é que começaram as confusões. As cubanas perceberam que o modo para desestabilizar as brasileiras era a provocação, o xingamento. Então, faziam isso direto nos jogos. Foi assim que a amizade acabou. Viramos inimigas dentro e fora da quadra. Antes nós perdíamos muito para elas. Quando conseguimos igualar isso e vencer algumas partidas, elas começaram a apelar para o lado psicológico e aconteceram aquelas confusões. Todo jogo era isso. A expectativa de que seria uma guerra. Sabíamos que enfrentá-las era difícil, porque iriam nos provocar o tempo todo.         

EE: Aquela semifinal dos Jogos de Atlanta, que Cuba venceu por 3 a 2, com confusão no final, foi a derrota mais dolorosa da sua carreira?

fofo_finais_alexandre_arruda_cbv_texto_398F: Foi doída porque vínhamos trabalhando muito forte. E quando você está fazendo as coisas corretamente, vê que o time tem condições de chegar a uma final e isso não acontece, você fica decepcionado. Aquele jogo era para ter sido a final da Olimpíada. Infelizmente, foi na semifinal porque elas perderam um jogo inesperado na primeira fase. Nos preparamos o campeonato inteiro para que aquela fosse a nossa final. Qualquer um dos times poderia ter vencido aquele jogo, mas acho que atrapalhou o nosso planejamento o fato de elas terem perdido na primeira fase. Antecipou o cruzamento. Ficamos tristes com aquela derrota. Trabalhamos muito. Era um momento em que aquela seleção estava preparada para uma medalha, talvez não a de bronze, que a gente conseguiu, mas uma de ouro. O trabalho foi feito da melhor forma. 

EE: Aquele time de Cuba, tricampeão olímpico e bicampeão mundial, foi o melhor que você já enfrentou?

F: Aquela seleção de Cuba era uma das melhores, mas a nível técnico acho que o Brasil era muito superior. Só que Cuba tinha uma força que, por mais que a gente malhasse todos os dias, a gente não conseguia igualar. Elas eram muito fortes, tinham muita disposição no bloqueio, um saque muito bom. O fator força fazia muita diferença no feminino. Era complicado enfrentar um time que tinha seis jogadoras com a mesma força. Tecnicamente não foi uma das equipes mais fortes, mas jogar contra elas era muito difícil. Em alguns momentos, a força prevalecia.

EE: Muito tempo depois, em 2010, a Regla Bell, um dos grandes nomes daquela geração cubana, veio jogar no Brasil, em São Caetano, na equipe que contava com você. Como foi esse período de convivência com ela? Vocês conversavam sobre aqueles jogos entre Brasil e Cuba?

F: Falávamos sim. Mas elas dão risada, porque apesar de existir aquela rivalidade, elas gostavam muito da gente. Elas sempre dão risada, acham engraçado. Eu joguei com duas cubanas também na Itália, que falavam a mesma coisa. Gostavam muito da gente, mas dentro da quadra elas queriam vencer e tinham que usar as armas que podiam. Mas nós somos amigas sim, conversamos sempre. Com todas as cubanas, aliás, sempre damos risada. Era mais dentro de quadra. Ali o problema era sério.

 

Transformações no vôlei

 

04_200_31EE: Ao longo da carreira, você viu o vôlei passar por inúmeras mudanças, como o fim da vantagem, por exemplo. Como você caracterizaria o vôlei da época que você começou e o vôlei que é praticado atualmente?

F: O voleibol mudou muito. Evoluiu muito. Antes a partida tinha duração muito longa, quase quatro horas, e isso era muito cansativo. As regras foram mudando e voleibol se adaptou para se tornar um jogo mais interessante. Não que antes não fosse interessante, mas por ser muito longo, com a vantagem, ficava meio cansativo para quem assistia. Hoje ficou mais dinâmico pela maneira como é a pontuação. A entrada do líbero também foi importante para dar um volume maior, mais velocidade ao jogo.

EE: Bernardinho deixou o comando do time feminino em 2001, para assumir a seleção masculina. No lugar dele entrou Marco Aurélio Motta e ali se iniciou um período conturbado na equipe, com várias jogadoras, incluindo você, pedindo dispensa. O que aconteceu naquele momento? Vocês discordavam dos métodos de trabalho de Marco Aurélio?

EE: No meu caso, tinha motivo. O meu pai estava doente na época e veio a falecer. Então, independente de qualquer coisa, eu pediria dispensa, porque precisava estar próxima a ele. Mas ocorreram muitas mudanças e quando você está em um grupo, precisa estar bem. Se você não está feliz, não está se sentindo bem, não vale a pena ficar no lugar. O seu trabalho não rende e você não vai contribuir nada ao trabalho do técnico. Eu não me sentia muito à vontade ali, da maneira com que as coisas estavam sendo encaminhadas. Já era uma jogadora que vinha de três Olimpíadas, estava em uma crescente, e não queria voltar. Queria dar continuidade. Então, não me identifiquei com aquele trabalho e preferi não fazer parte. Mas deixei isso bem claro e, independente de qualquer coisa, foi mais uma questão de respeito mesmo. Era melhor sair do que ficar ali sem vontade de fazer parte daquele trabalho.

 

As experiências olímpicas

 

EE: Marco Aurélio saiu e veio o Zé Roberto. Atenas 2004. Havia muita expectativa em torno da seleção. Aí chega a fatídica semifinal contra a Rússia. Brasil vencendo por 2 sets a 1, com 24/19 no quarto set, e as russas conseguem uma virada incrível. Dá para traçar um paralelo dessa derrota com o que aconteceu em Atlanta? O Brasil estava tão perto da final olímpica e acabou fora...

05_200_27F: Eram expectativas diferentes. Em Atenas estava muito próximo. Era um ponto que nos levaria a uma final olímpica. Em Atlanta, não. Em Atlanta era um jogo. A distância de um para o outro era grande, mas ficamos tristes do mesmo jeito. Em qualquer situação, perder em uma Olimpíada é doído, é difícil. Mas a de Atenas é mais doído ainda porque é difícil de entender. Difícil para quem jogou e quem assistiu. Ninguém consegue explicar o porquê daquela derrota. Você fica com isso na cabeça, fica carregando e tentando achar explicação para uma coisa que, de verdade, ninguém consegue explicar. Estava tudo tão próximo e fugiu do nosso alcance. É uma dor, mas na proporção diferente da que houve em Atlanta.

EE: Como você falou que o time de Atlanta merecia coisa melhor, dá para dizer o mesmo dessa equipe de Atenas? Merecia o ouro?

F: Acho que estava tudo encaminhado. Estávamos em um caminho certo, uma campanha sem nenhuma derrota. Tudo ia bem. De repente, em um segundo ali, o jogo virou. Mas acho que tanto em Atlanta, como em Atenas, o Brasil deveria ter disputado a final olímpica. 

fofao-levanta-silvioalvia-cbv-texto_453EE: A derrota em Atenas, daquele jeito sofrido, foi determinante para que você anunciasse a sua retirada da seleção após os Jogos?

F: Não. Atenas foi a minha quarta Olimpíada. Normalmente, quando acaba uma Olimpíada, existe uma renovação. Então, achei que já não existia mais a possibilidade de estar no grupo, até mesmo por conta da idade. Já estava com 34 anos e automaticamente me descartei. Mas ainda tinha muita vontade de estar na seleção. Ao mesmo tempo falava que jamais ia virar para o técnico e pedir uma convocação. Tem que ser da vontade do treinador. Se existisse o interesse, eu estaria disposta. Foi o que aconteceu. Chegou o momento em que o Zé Roberto me ligou e me chamou para voltar. Mas eu não queria que partisse de mim nenhum tipo de pressão. Esperei a situação se acalmar. Quando fui chamada, aceitei porque queria muito continuar.

EE: Então, quando o Zé Roberto foi falar com você, em 2006, ele nem precisou argumentar muito? Foi só pedir o seu retorno que você aceitou na hora?

F: Disse que ia mudar algumas peças na seleção, mas que ele gostaria de contar com algumas jogadoras com mais experiência, que pudessem contribuir para o grupo. Não precisou de muita coisa, não, porque eu já conhecia as meninas que iam continuar. E também queríamos um resultado melhor na próxima Olimpíada. Ele falou que ia fechar o grupo. Tudo isso me interessou. Era o que eu queria para poder tentar chegar a Pequim. Acho que a minha vontade de voltar era tão grande, que ele não precisou de muito argumento não.

EE: Você via potencial naquele time, um pouco renovado, para chegar ao ouro olímpico em Pequim?

F: No meu coração eu queria muito o ouro e sabia que seria a minha última chance. Com certeza não teria condições de ir para mais uma. Muitas jogadoras de 2004 não continuaram, mudou bastante. Mas eu conhecia as que estavam vindo. Sabia que muita coisa ia depender das atletas mais experientes. Então, resolvi apostar nisso. Apostar na minha vontade de querer um resultado melhor e de fazer um grupo que tivesse o pensamento de treinar para ser campeão. Isso foi o que me motivou bastante.

06_200_23EE: No momento histórico que foi a conquista do ouro, o Zé Roberto e algumas jogadoras desabafaram por tudo que vinham passando desde Atenas. O time era rotulado como “amarelão”, mas calou os críticos conseguindo o primeiro título olímpico do vôlei feminino brasileiro. O que passou na cabeça de vocês naquele momento?

F: Passamos quatro anos tentando esquecer o rótulo que as pessoas deram ao vôlei feminino. Apesar de algumas jogadoras não estarem presentes em 2004, mesmo assim tiveram que pagar o preço da cobrança. Todo campeonato que disputávamos, não podíamos pensar em ser vice. Tinha que ser sempre campeão. Então, carregamos um peso muito grande e, com certeza, quando você consegue uma vitória dessa importância, tudo isso vem na cabeça. Você desabafa mesmo, coloca para fora tudo que ficou entalado nesses anos todos. É uma forma de alívio. Uma demonstração de que finalmente conseguimos! É um momento em que temos que extravasar mesmo porque só nós sabemos o quanto foi difícil chegar até ali.   

EE: Durante os Jogos de Pequim existia algum trabalho, feito pela comissão técnica, direcionado à parte emocional do grupo para que as derrotas dos anos anteriores não atrapalhassem o time naquela campanha?

F: Sempre nos lembravam disso. Seja nas reportagens ou entrevistas, sempre tocavam nesse assunto. Mas quando o Zé fechou esse grupo, deu uma liga muito boa. E apesar de termos sido vice no Mundial de 2006, o time jogou bem o tempo todo. Como a nossa equipe estava bem, tínhamos a confiança de que alguma coisa boa estava para acontecer. No Grand Prix, antes da Olimpíada, todo mundo estava no máximo da forma física e técnica. Mesmo quando nós perdíamos, olhávamos uma na cara da outra e sentíamos que era apenas uma derrota, nosso time estava bem. Era como se alguma coisa boa estivesse nos esperando, porque nós fazíamos tudo direitinho. Quando chegamos a Pequim e começamos a jogar, eu falei: “Nossa, não vamos perder essa Olimpíada nunca!”  

 

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A capitã é ergida pelas companheiras de equipe após a conquista do ouro em Pequim 2008

 

EE: Você se sentiu uma representante daquela geração dos anos 90 no time de 2008? Era como se o time de Atlanta tivesse chegado ao ouro, que tanto merecia, por você, a única remanescente daquela época?

F: Como eu era a jogadora que já tinha passado por todas as gerações, muita coisa veio na minha cabeça naquele momento. Tantas amigas, tantas jogadoras que conheci, o tanto que elas batalharam por aquele momento e o tanto que aprendi com elas. Foi o aprendizado de todos esses anos que eu usei naquela Olimpíada. Muitas jogadoras lutaram para chegar naquele momento e não conseguiram, mas elas fizeram muita coisa pelo voleibol. A dedicação, o esforço, a reivindicação delas para o voleibol melhorar a cada dia, estamos colhendo tudo isso. Eu, como passei por tudo isso, não tenho como esquecê-las. Eu vi o quanto elas lutaram para que o vôlei brasileiro chegasse à situação que se encontra hoje, bem estruturado. É o que eu sempre falo: aquela medalha é de todas as meninas do vôlei brasileiro porque elas se dedicaram muito.

 

O adeus às quadras

 

EE: Depois dos Jogos de Pequim, quando você se retirou em definitivo da seleção, o Zé Roberto chegou a te procurar novamente para que você retornasse?

F: Ele falou algumas vezes comigo. Pediu para que eu descansasse um ano e depois voltasse. Chegou a comentar algumas vezes. Mas eu não tinha a menor vontade, não voltaria. Estava bem decidido na minha cabeça que depois de Pequim eu não jogaria mais pela seleção. Continuaria só nos clubes. O ritmo estava muito puxado, clube e seleção. 

08_200_26EE: A posição de levantadora da seleção, atualmente, está bem servida?

F: Acho que finalmente o Brasil achou a titular. A Dani Lins agora está mais confiante, mais segura e tem muita coisa boa para oferecer à seleção. Espero que ela dê continuidade, pegue firme mesmo. Sabemos o quanto é difícil ser jogadora de seleção, mas ela está em um momento muito bom de amadurecimento. Torço para que ela consiga manter a seleção sempre no mais alto nível.

EE: Por falar nisso, você parou agora, aos 45 anos, jogando em alto nível. Qual o segredo para essa sua longevidade?

F: São vários fatores. Tem o lado da experiência, que você acaba se adaptando às situações. Algumas situações acabam ficando mais fáceis porque você usa um pouquinho do que aprendeu ao longo da carreira. Também há o fato de que eu sempre me cuidei. Nesse último ano, não tive nenhum problema de lesão. Isso me deixava mais tranquila. Eu conseguia fazer as coisas sem me preocupar, sem me poupar. 
Colhi os frutos, no último ano, de sempre ter me cuidado e me preservado como atleta.

 

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Fofão em ação pela equipe do Rio de Janeiro durante a última edição da Superliga

 

 

10_200_17EE: Fisicamente você teria condições de continuar jogando por mais alguns anos?

F: Eu não sei se conseguiria jogar mais um ano. Talvez sim, talvez não. Mas acho que nesse último ano eu fui ao meu limite em termos de esforço, de capacidade. Para continuar mais um ano, eu teria que voltar a fazer esse esforço, que é o dia-a-dia, o treinamento. Por mais que eu tenha sido poupada em alguns momentos nesse último ano, tem o pós-jogo, que para mim é o mais difícil. A cada jogo, a recuperação estava ficando mais complicada. Vários fatores contribuíram para a minha decisão de parar. Mas o maior de todos é o corpo mesmo. Meu corpo estava muito desgastado. Ele mesmo estava pedindo um tempo, porque se eu continuasse, acho que correria risco até de ter uma lesão mais séria. Parei no momento certo. Fui até onde podia e estou super tranquila quanto a isso.

15_200_02EE: Fofão, um tema debatido constantemente é o pós-carreira de um atleta. O que fazer após a aposentadoria. Você já tem algum projeto ou ainda não pensou nisso?

F: Já pensei algumas coisas sim. Só que às vezes eu penso demais. Tenho muita coisa no papel, mas ainda não consegui definir. O que mais pesa, quando paramos de jogar, é ter que descobrir o que vai nos dar motivação de fazer dali em diante. A gente fica na dúvida. Mas tenho feito muita coisa. Tenho feito algumas clínicas que estão me ajudando a descobrir um caminho. São coisas que quero me orientar para dar continuidade. Vou tentar realizar alguns projetos que estão surgindo na minha cabeça. É uma forma de não ficar pensando tanto no voleibol, que já passou, e seguir a vida. Tem muita coisa que eu quero fazer, mas ainda estou em ritmo de férias (risos). Acho que, em breve, estarei fazendo algumas coisas boas.

 

O vôlei brasileiro hoje

 

11_200_08EE: O vôlei brasileiro virou uma referência no mundo por conta das conquistas que teve. Só que a modalidade sofreu um golpe no ano passado, com o escândalo da CBV. Qual foi a sua reação ao receber a notícia do escândalo? É um abalo na credibilidade do vôlei brasileiro?

F: Foi uma coisa que não esperávamos. Nunca imaginamos que isso vai acontecer no nosso esporte. Nós ficamos muito tristes, muito chateados. Não tem como. Isso afeta o voleibol, afeta os atletas, a imagem do voleibol. Ficamos um pouco decepcionados. A gente trabalha, se dedica todos os dias, faz o nosso melhor nos treinamentos para que as pessoas vejam que o voleibol é feito com trabalho e dedicação. Então, esperamos dedicação também das pessoas que comandam o voleibol. Quando acontece um escândalo desses é uma decepção geral. Ficamos muito tristes, mas, ao mesmo tempo, é o momento em que as pessoas se unem para tentar mudar a imagem, devolver a credibilidade ao voleibol, que é vencedor dentro de quadra. Esperamos que seja vencedor dentro e fora. 

12_200_05EE: O Nalbert afirmou recentemente que está muito preocupado com o futuro do vôlei brasileiro porque, de acordo com ele, a CBV se concentrou muito nas seleções principais e deixou as categorias de base de lado. Ele citou inclusive os últimos Campeonatos Mundiais de base, competições em que Brasil não obteve os resultados que costumava ter. Você concorda com ele?

F: Concordo, com certeza. A base é o começo de tudo. Não podemos pensar apenas nos resultados das competições adultas. Temos que pensar no que vem depois, na renovação, nos novos talentos. E tudo isso vem da base. Neste ano, acompanhei alguns resultados e vi que o Brasil não foi tão bem em muitas competições, o que não acontecia há muito tempo. Então, temos que tomar um cuidado muito grande. Temos que nos preparar e nos organizar em relação a isso para ver o que está acontecendo. Ver se os outros países melhoraram ou se é a gente que está regredindo. Isso é uma preocupação muito grande. Já que as nossas seleções principais, tanto a masculina, como a feminina, sempre têm resultados bons, precisamos pensar na base. É o futuro. Se a gente não cuidar do futuro, o voleibol, daqui a um tempo, vai acabar. Não podemos deixar que isso aconteça.

 

As Olimpíadas do Rio

 

13_200_07EE: Qual a sua expectativa para os Jogos do Rio, em 2016? Acredita que o Brasil vai conseguir fazer uma grande Olimpíada em termos de organização e estrutura?

F: A expectativa nossa é essa. Sabemos que brasileiro deixa tudo para última hora. É aquela coisa: vai sair. Esperamos que seja feito da melhor forma possível. Algumas coisas, estamos vendo que serão feitas em cima da hora mesmo. Isso é muito triste. Já tínhamos que estar com mais organização porque houve tempo para isso. É a imagem do Brasil que está em jogo, a imagem do esporte. Uma Olimpíada é vista pelo mundo inteiro. Muita gente vem de fora, então, eles querem ver a coisa organizada, tudo bonito. Eu, como brasileira, torço para que dê tudo certo, que as coisas corram da melhor maneira possível e que todo mundo que for ao Rio de Janeiro tenha tranquilidade para acompanhar o esporte que quiser assistir. Que a gente não passe nenhum vexame porque seria muito triste. Ninguém ia gostar de ver o Brasil mal falado pelos outros países.  

EE: Das cinco edições de Jogos Olímpicos que você participou, qual foi a mais organizada?

F: A de Atlanta foi muito organizada. A primeira também, em Barcelona. As coisas correram muito bem. Essas duas, para mim, foram as mais organizadas. Tudo estava bem feito, certinho, organizado. Essa foi a impressão que eu tive.

EE: Dentro da quadra, o que você projeta para o Brasil nos Jogos do Rio? As duas seleções estão fortes. Você acredita que podemos ter uma dobradinha, com ouro no masculino e no feminino?

EE: Temos condição para isso. O Brasil vai vir muito forte. Acho que temos jogadores, no caso do masculino, que estão entalados para essa medalha de ouro que escapou em Londres. Isso é um estímulo para eles também. E o feminino vem com jogadoras que são bicampeãs olímpicas, outras que foram campeãs na última Olimpíada. O time tem uma bagagem, uma experiência muito grande. A minha preocupação, apenas, é a pressão de jogar em casa, o fator psicológico. Mas, fora isso, acredito que vamos conseguir fazer bonito porque as duas seleções estão muito bem preparadas. 

14_200_08EE: Você acha que o fator casa pode ser negativo, como vimos na Copa do Mundo de Futebol, no ano passado, por conta da pressão?

EE: Tem a parte boa que é estar ao lado da sua torcida. Mas as pessoas querem o ouro. Ninguém vai admitir menos que isso. Então, acho que os atletas têm que preparar muito a cabeça para que nada de fora interfira dentro da quadra. Condições de ganhar o ouro as duas seleções têm, mas eu fico imaginando o lado psicológico. Jogar em casa tem o lado bom e o ruim. Torço para que a pressão não interfira. Quem sabe não conseguimos duas medalhas de ouro no voleibol? Vai ser incrível!  

EE: Qual a melhor jogadora do vôlei brasileiro na atualidade?

F: Há muitas jogadoras boas. A Sheila é uma grande jogadora. A Fabiana e a Thaísa, também. Essas três estão acima da média. Se elas estiverem bem, fazem diferença em qualquer time.

EE: O que acha a respeito do doping no esporte?

F: O exame antidoping é necessário. Acho que deveria ser mais eficiente, de ficar em cima mesmo, porque sabemos que há muitas pessoas que trabalham e outras que tentam chegar aos resultados de uma maneira que não é o que o esporte prega. O antidoping é necessário e precisa ser mais eficiente, até mesmo para o atleta saber que ele tem que se responsabilizar pelos seus atos. Uma vez que você é pego no doping, você praticamente acaba com a sua carreira. 

EE: Para você, o esporte é essencial?

F: Para mim, o esporte é mais que essencial. Ele é necessário. O esporte modifica as pessoas, dá mais fibra, mais motivação na vida. Eu me tornei a pessoa que sou hoje devido ao esporte. Então, para mim, ele é necessário até demais.  

Fotos: Divulgação/CBV e Rexona


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