Últimas Notícias

Homem é preso após ameaça de bomba e tenta levar avião a Soshi...
Esporte que constrói o Brasil.

ENTREVISTAS

Flávio Canto (Judô)

23/06/2012
Esportes relacionados:

flavio_canto_afp_texto1_680

Determinação e cidadania, dentro e fora dos tatames


Por Manoela Telles e Thyago Mathias

“Saí praticamente carregado dos Jogos do Rio. Mas o judô ensina algo: que sua grande missão não é aprender a derrubar os outros, nem aprender a cair – porque ninguém gosta de cair –, é aprender a levantar. A pessoa que sou hoje tem muito mais a ver com os tombos dos quais tive que me levantar, do que com as vezes em que derrubei...

Eu queria fazer a diferença e resolvi dar aulas de judô para tentar mudar a vida das pessoas por meio do esporte.  Logo no início do projeto, perdemos um aluno assassinado e lembro de ir ao enterro. Ele foi enterrado com a camisa do Reação. De uma maneira triste, eu percebi que o Reação tinha uma força muito relevante na vida da garotada. Continuei com as aulas por mais alguns anos e senti que aquilo tudo precisava crescer”.

Durante a vida como judoca, Flávio Canto enfrentou vários desafios. Talvez o maior deles tenha sido a lesão que sofreu durante os Jogos Pan-Americanos do Rio, em 2007, e o deixou de fora da competição. Apesar de ter pais brasileiros, ele nasceu em Oxford (Reino Unido), veio para o Brasil aos dois anos e só começou a lutar judô na adolescência.

Canto participou de três Olimpíadas, conquistou medalha de bronze em Atenas 2004, é pentacampeão Pan-Americano e participou de dez Copas do Mundo. Longe do esporte competitivo, ao qual dedicou 22 anos, dirige hoje o Instituto Reação, ONG que promove o desenvolvimento humano de crianças e jovens por meio do esporte.

Memória Olímpica: Você começou a lutar judô aos 14 anos, idade considerada tardia para um esportista iniciar nessa modalidade. Apesar disso, dedicou-se, aprimorou a técnica e, cinco anos depois, já estava na Seleção Brasileira. Fale um pouco sobre essa trajetória.

Flávio Canto: Eu comecei a treinar tarde. A maioria das pessoas começa aos quatro, cindo anos, a idade em que meus amigos e adversários iniciaram. Meu irmão fazia judô, eu acompanhava as competições, fazia natação e tentava seguir os passos de alguns atletas olímpicos, como o Joaquim Cruz (campeão olímpico no atletismo), de quem gostava muito. Também tentei ser surfista, mas ainda não era o esporte com que eu me sentia mais à vontade. Acompanhei as Olimpíadas de 1988, na qual o Aurélio Miguel foi campeão. Meu irmão já era judoca e fiquei mais interessado a conhecer o esporte. O técnico do Aurélio, Geraldo Bernardes, era o professor do meu irmão e eu o via gritando para o Aurélio, durante as lutas, fiquei impressionado com isso. Ainda demorei mais um tempo e, no ano seguinte, resolvi começar também. Minha mãe dava a maior força, porque o judô acalmou meu irmão, uma criança muito agitada. Como eu estava na fase da “aborrecência”, dava um pouco de trabalho na escola, tive incentivo... e foi assim comecei a treinar. Já no primeiro dia, comecei tentando seguir os passos do Aurélio, empenhado em seguir o sonho olímpico. Embora fosse muito precoce pensar nisso – eu era faixa branca, com 14 anos –, comecei pensando grande.

MO: Entre as muitas competições medalhas que conquistou, encontra-se o ouro em Santo Domingo 2003, seu terceiro pódio em Jogos Pan-Americanos. No ano seguinte, foi medalhista de bronze em Atenas. Afinal, qual foi o momento mais importante de sua carreira?

FC: O período em que eu estive melhor técnica e fisicamente, foram nos anos de 2006 e de 2007. Ganhei praticamente tudo o que lutei e fiquei em primeiro lugar no ranking mundial... Até então, um ranking extraoficial, pois ainda não era o ranking olímpico, mas tinha os mesmos moldes, logo era um parâmetro de avaliação. Agora, os Jogos Olímpicos marcam muito a vida de um atleta. E as Olimpíadas de Atenas (2004), em que fiquei com a medalha de bronze, foram um momento que marcou muito. Dois meses antes, quase perdi meu pai, por causa de um infarto. Ele precisou colocar pontes de safena, fiquei muito preocupado. Por causa disso, perdi um pouco o foco nos Jogos. Apesar disso, mesmo debilitado, em recuperação, ele foi para a Grécia. Por tudo isso, essa foi uma conquista muito importante. Quando eu olho para minha trajetória, talvez um dos momentos mais marcantes que vivi seja o jantar de comemoração em Atenas, com minha família inteira reunida, meu pai, a medalha na mesa e a gente comemorando, todos bem, vivos e felizes. A Olimpíada de Atenas me proporcionou esse momento, o mais marcante da minha vida.

MO: Você foi eleito melhor atleta de judô pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) em 2004 e em 2006. Como encarou essa responsabilidade?

FC: Estar na seleção brasileira implica em responsabilidade.  Sou avesso a homenagens, a títulos. Não faz muito o meu perfil. O judô é um esporte de muita tradição no Brasil. Então, ganhar um prêmio do Comitê Olímpico é sinal de estar passando por uma fase muito boa. É um prêmio, no qual se é escolhido para representar o sucesso do judô brasileiro. Para ser considerado o melhor do Brasil no judô, diferentemente de outros esportes, é preciso ter prestígio internacional.

MO: Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou durante a carreira e como as driblou?

FC: A primeira delas foi ter começado tarde no esporte. Sempre tive na cabeça, que era necessário correr atrás do prejuízo. Pensei assim até o fim de minha carreira. Sempre tive a disciplina de treinar muito. Tinha uma fórmula matemática simplista: era preciso treinar o dobro de todo mundo para recuperar o tempo perdido. Isso se tornou um mantra pessoal. Também é preciso ter coragem e ousadia para sonhar grande. Mesmo começando tarde, contra o padrão, acreditei no que poucas pessoas acreditavam. Não diria que isso foi uma dificuldade, mas um desafio gostoso, o de acreditar em algo que poucos percebiam. Outra dificuldade é a lesão, que acaba sendo nossa grande adversária ao longo da carreira e eu tive algumas que me atrapalharam em momentos importantes.

flavio_canto_afp_texto2_416MO: Durante os Jogos Pan-americanos do Rio, em 2007, você disputava a semifinal quando lesionou o cotovelo, perdeu a luta e o sonho do ouro. Como você reagiu diante dessa perda?

FC: Esse foi um dos momentos mais emocionalmente intensos em minha trajetória. Fui medalhista nos Jogos Pan-Americanos anteriores. Tratavam-se dos Jogos Pan-Americanos do Rio. Eu era, teoricamente, um dos favoritos e, na primeira luta, caí com o cubano, meu grande adversário, e ganhei dele. Achei que o pior já tinha passado. Na semifinal, fui lutar com um norte-americano, Travis Stevens, que, na época, estava começando, e me lesionei violentamente. Tive uma luxação bem séria do cotovelo. Ainda tentei voltar a lutar, mas não consegui. Não conseguia nem mexer o braço, ele estava fora do lugar. Eu saí praticamente carregado dos Jogos do Rio. Mas o judô ensina algo: que sua grande missão não é aprender a derrubar os outros, nem aprender a cair – porque ninguém gosta de cair –, é aprender a levantar. A pessoa que sou hoje tem muito mais a ver com os tombos dos quais tive que me levantar, do que com as vezes em que derrubei. Então, o Pan do Rio, certamente, me ajudou a ser uma pessoa mais forte.

MO: Em 2008, você se preparava para as Olimpíadas de Pequim quando perdeu a disputa interna com o Tiago Camilo e ficou fora dos Jogos. Na época, a imprensa considerou vocês dois como rivais. De fato, havia rivalidade entre vocês?

FC: Eu e Tiago participamos de uma seletiva direta, em 2004, super equilibrada.  Ganhei duas lutas em melhores de três. A última delas foi decidida no final do combate e o Tiago reclamou muito, na época. Nossa relação ficou estremecida. Em 2008, não tivemos disputa direta e o Tiago teve um ano maravilhoso. Logo depois do Pan do Rio, eu faria uma seletiva com o Tiago para ver quem iria para o mundial, mas acabei não fazendo porque me machuquei. Ele foi para o mundial e ganhou tudo de ponto. Tornou-se campeão mundial de forma brilhante. A vaga olímpica foi ficando mais longe de mim e o Tiago, merecidamente, foi aos Jogos de Pequim 2008.  Na verdade, a paulada que tomei no Pan do Rio me atrapalhou muito nesse período e eu não pude nem tentar disputar em igualdade com o Tiago. Nessa época, quando estávamos disputando a vaga para Pequim, começamos a estar juntos mais vezes, treinando e tudo foi melhorando entre nós. A pedido dele, eu escrevi uma mensagem para o site que ele estava criando. Aproveitei para agradecer por tudo que aprendi com ele, de sua importância na minha carreira, por ter sido meu maior adversário, o que me levou a evoluir. Para competir com ele, eu precisei superar limites que não conhecia. E ele respondeu de um jeito muito bacana. Hoje, temos uma relação de respeito e carinho. Tenho uma gratidão muito grande pelo Tiago, somos grandes amigos. 

MO: Você é idealizador e presidente do Instituto Reação, uma ONG que atua em comunidades de baixa renda no Rio de Janeiro e torna o judô acessível a crianças e jovens. Como surgiu a ideia de trabalhar com causas sociais? Como funciona o projeto?

FC: O Reação começou com um sonho antigo. Morei muito tempo no exterior e comecei a viajar, pela Seleção Brasileira, e passar bastante tempo em países diferentes e, na maioria das vezes, mais desenvolvidos do que o nosso. Esse fato me ajudou a desenvolver um sentimento de indignação pelas diferenças que eu via aqui no Rio. Desde cedo, eu pensava numa maneira de mudar, de melhorar as coisas. Nunca me conformei com as distâncias sociais aqui no Rio de Janeiro e nunca soube muito bem como trabalhar isso. No início, durante muitos anos, fiz ações isoladas de filantropia. Junto com amigos, ia distribuir roupas e alimentos nas ruas. No Natal, um grupo grande saía para distribuir quentinhas. Chegou um tempo em que percebi que aquilo não estava mudando a vida das pessoas e nem a minha.  Então, em 2000, eu perdi minha primeira seletiva desde que entrara na seleção principal e vi o sonho olímpico de Sidney ir embora. Por outro lado, sempre acreditei que a gente, em vez de procurar o sentido, tem que dar sentido às coisas. Resolvi voltar ao Rio e dar asas a um sonho, o Reação. Sem saber como, eu queria fazer a diferença e resolvi dar aulas de judô para tentar mudar a vida das pessoas por meio do esporte, especialmente pelos valores que o esporte me ensinava. Comecei a dar aula num projeto na Rocinha, de um grande incentivador, o Pedro Gama Filho. Em pouco tempo, descobri uma ferramenta poderosa, percebi que o esporte fazia diferença.  Logo no início do projeto, perdemos um aluno assassinado e lembro de ir ao enterro. Ele foi enterrado com a camisa do Reação. De uma maneira triste, eu percebi que o Reação tinha uma força muito relevante na vida da garotada. Continuei com as aulas por mais alguns anos e senti que aquilo tudo precisava crescer. Chamei um grupo de amigos e a gente montou o Instituto Reação. Na época, eu estava me formando em direito. Hoje, o projeto atende mil e duzentos jovens, em cinco polos. Temos um programa de educação, um de judô e um cultural, além do programa Reação Olímpico, que vem revelando grandes talentos em todas as categorias, desde a molecada até a Seleção principal. Veio de lá a Rafaela Silva (da Seleção Brasileira de Judô), campeã mundial júnior e vice-campeã mundial adulta, que está indo para sua primeira Olimpíada. Por isso tudo, hoje posso falar, sem me considerar exagerado, que estamos conseguindo mudar uma boa quantidade de mundos.

MO: No início do ano você anunciou sua aposentadoria como atleta profissional. Quando você percebeu o momento de parar?

FC: Em 2010, comecei a ver que eu não tinha mais motivação para competir e me dedicar ao judô como deveria.  Comecei a fazer projetos paralelos, tinha várias vidas: o judô, o Reação, a televisão (ele é apresentador de um programa em rede nacional), a coordenação de uma rede de academias. As coisas foram crescendo e comecei a ter dificuldade para conciliar todas as atividades com o treino. Refleti, conversei com minha família, namorada... e acabei achando que o melhor a fazer era encerrar. Claro que fica uma ponta de tristeza, mas precisamos fazer escolhas.

MO: Qual é o lugar do judô na sua vida hoje?

FC: Continuo de quimono sempre, com meus alunos do Reação e na posição de assistente técnico na Seleção principal brasileira. E tenho os valores que o judô me passou e que tento repassar aos alunos. O esporte foi o maior parceiro dos meus pais na minha educação. E eu devo tanto a ele que acho que toda a minha vida hoje é pautada pelo que aconteceu na minha história no judô.

MO: Então, podemos dizer que o judô contribuiu para a formação de sua cidadania?

FC: Claro, sem dúvida. O judô tem essa característica. Por ter divisão de categorias de pesos, o magrinho e o gordinho, o baixinho e o altinho, todo mundo tem espaço. Todos têm uma categoria para se inserir, algo muito bacana. Também não é um esporte que depende de muitas coisas, não é caro. Eu mesmo conheci pessoas de todos os padrões sociais e culturais por meio dele. Pude desenvolver muito o lado da cidadania, porque o judô me deu a oportunidade de conhecer muitos mundos diferentes e isso me fez ser uma pessoa mais tolerante.

MO: O que você pensa sobre doping?

FC: Doping é trapacear. Não faz sentido, sou absolutamente contra. Ele tira o sentido mais bacana do esporte que é a conquista pela dor, pelo sofrimento. Fazer esporte não significa vencer a qualquer custo. Nunca fez muito sentido, para mim, uma pessoa aceitar se dopar pelo resultado, porque a graça é exatamente o sofrimento que você tem para chegar a algum lugar. Quando você burla esse sofrimento, perde todo o valor, todo o sentido da conquista. 

Fotos: AFP


Fatal error: Call to a member function getLink() on a non-object in /home/storage/a/b4/92/memoriaolimpicabrasi/public_html/incs/coluna_direita_noticias.codigo.php on line 27