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Felipe Gomes (Atletismo Paralímpico)

22/01/2016
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Arte: Amanda Parmegiani

Por Fernando Hawad

Quando era uma criança de seis anos de idade, Felipe Gomes sofreu um duro baque. Um glaucoma congênito, seguido de catarata e deslocamento da retina, tirou a visão do garoto natural de Campos dos Goytacazes, interior do Rio de Janeiro. Mas o esporte apareceu para transformar a vida de Felipe.

Praticou algumas modalidades, até iniciar no atletismo. Dentro da pista, sentiu que tinha duas coisas fundamentais para chegar ao sucesso: talento e paixão. E como Felipe chegou longe! Seleção brasileira, Campeonatos Mundiais, e o momento mais glorioso de sua trajetória, o ouro nos Jogos Paralímpicos de Londres. Atualmente, é um dos melhores velocistas cegos do mundo. Líder no ranking mundial dos 400m na sua classe, Felipe Gomes se prepara para a terceira participação em Jogos Paralímpicos. Desta vez será ainda mais especial. Felipe vai competir em casa, na cidade onde vive e treina.

 

Esporte Essencial: Começo no atletismo, Felipe. Como foi?

Felipe Gomes: Comecei no atletismo com 17 anos. Foi no Instituto Benjamin Constant, onde eu estudava. Um colega me chamou e falou: “Bom, Felipe, já que você gosta de correr, semana que vem tem uma competição em Ribeirão Preto que é classificatória para o Campeonato Brasileiro. A gente tem um revezamento e está precisando de um cego.” Eu falei: “Gostaria de ir, mas como faz?” Então, fui com ele até a professora de Educação Física, que me inscreveu na competição. Com uma semana de treino, eu fui competir. Lá, fiquei com a medalha de bronze nos 100m e a de prata no revezamento 4x100m. Isso foi em 2003. Foi ali que eu comecei a treinar para o atletismo. Em 2005 eu já entrei na seleção. De lá para cá, participei de quatro Mundiais, três Parapan-Americanos, dois Jogos Paralímpicos e outros campeonatos pelo mundo.

olho1_200_09EE: Fazia outros esportes antes de começar para valer com o atletismo?

FG: Gostava de fazer futebol. Também fiz goalball, remo. O esporte sempre esteve na minha vida e eu sempre estava fazendo três modalidades ao mesmo tempo. Foi um período bem legal.

EE: Quando você entrou no atletismo, percebeu que era a modalidade que tinha a ver com você?

FG: Na verdade, eu sempre quis ir a um treino de atletismo para ver como era. Só que eu tinha vergonha e não sabia chegar. Era um grupo diferente, de escola. Um pessoal totalmente diferente do meu costume de ser e de brincar. Mas quando pintou essa primeira oportunidade, em 2003, eu agarrei. 

 

Estrutura e Apoios


EE: Em 2005 você entrou na seleção brasileira de atletismo. Já são mais de dez anos. O que mudou daquela época para agora em termos de estrutura?

olho2_200_06FG: Naquela época não havia incentivo. Hoje em dia, nós contamos com a Bolsa Atleta, do governo federal, que permite com que o atleta invista em si mesmo. Suplemento alimentar é uma coisa cara. Um tênis apropriado para a prática do esporte também é caro, não custa menos que 300 reais. Uma sapatilha, que é um tênis específico para a hora da prova, está mais de 500 reais. Agora você consegue pagar um tratamento de fisioterapia, que também não é fácil. Se o esporte está evoluindo, os atletas também estão evoluindo muito. 

EE: Como é o suporte que o CPB dá para vocês? 

FG: O Comitê Paralímpico entra com alimentação, translado, hotel, viagens internacionais. Também há outros projetos em que a gente participa que passam pelo CPB. O patrocínio do Time Rio, que é da Prefeitura do Rio de Janeiro, tem o aval do Comitê Paralímpico e o patrocínio da Caixa Econômica Federal também.

EE: Onde você treina aqui no Rio?

FG: Na Vila Olímpica de Mato Alto e em uma academia no Méier. olho3_1_200_01

EE: Esses locais são bem estruturados? 

FG: Tem o mínimo que eu preciso que é uma pista e uma sala de musculação. O resto é por minha conta. Os patrocínios da Prefeitura do Rio de Janeiro e da Caixa me ajudam muito também. Quando chego bem preparado na competição, é porque tive todo esse apoio por trás. Fisioterapia, suplemento alimentar, nutricionista, psicologia, tudo isso está por trás de um bom resultado.


felipe_1_563Felipe durante o Parapan de Toronto, em 2015

 

Jogos Paralímpicos Rio 2016: a grande expectativa


EE: Está chegando a hora! O que você tem pensado sobre isso? 

olho4_200_05FG: Vai ser um evento muito bom. Vai ser a hora de mostrar o nosso valor. O esporte paralímpico está evoluindo e nós estamos bem ranqueados no mundo. Competir entre os amigos, com a família, todo mundo falando a nossa língua, será um grande momento! A gente tem que dar o máximo para que seja uma festa bem maravilhosa dentro de casa. E o resultado é conseqüência do trabalho que foi feito antes. Eu estou treinando duro, firme e forte. Espero conquistar medalhas para o Brasil.

EE: A realização dos Jogos Paralímpicos aqui pode contribuir para que os deficientes físicos sejam mais respeitados no Brasil?

 FG: As pessoas vão conhecer mais o potencial dos deficientes. Vão entenderolho5_200_05 que os deficientes não pedem mais esmola. O deficiente procura um lugar ao sol, procura trabalhar, viver, procura fazer um esporte. Acho que não vai mudar na questão dos direitos, mas a sociedade vai conhecer mais o deficiente e a sua capacidade. Isso é importante porque, por exemplo, quando eu dou entrevistas, é um ótimo momento para esclarecer algumas coisas para as pessoas. Mas os Jogos Paralímpicos serão o ápice! Até para aquelas famílias em que a mãe não sabe do que o filho é capaz, o protege demais. Será o momento para essas pessoas abrirem os olhos, abrirem a mente. É isso! Jogos Paralímpicos Rio 2016!

EE: O atletismo paralímpico brasileiro tem conseguido grandes resultados nos últimos anos. Quando você participa de competições no exterior, percebe que os outros países já encaram o Brasil como uma potência?

FG: O Brasil domina a parte de velocidade. Então, os adversários respeitam muito, porque sabem dos nossos resultados. O Brasil vem evoluindo no esporte paralímpico em geral, não apenas no atletismo. O objetivo do CPB é chegar em quinto neste ano. A gente vai trabalhar para isso. 

felipe_3_-_ouro_200m_doha_690Depois da vitória, o sorriso: Felipe comemora, com abraço do guia, o ouro nos 200m no Mundial de Doha, em 2015

EE: O Brasil foi sétimo em Londres, melhor participação da história. Você acha possível esse quinto lugar no Rio?

FG: Acho possível, sim. A gente vai competir em casa. Muita coisa vai estar ao nosso favor: torcida, alimentação, clima.olho6_200_06 Essa é a hora, o momento. Uma coisa é você participar de Parapan, Mundial. Outra coisa é estar nos Jogos Paralímpicos. É um momento mágico, um momento único! A hora de você se realizar!

EE: Vai disputar quantas provas nos Jogos do Rio?

FG: Quatro: 100m, 200m, 400m e revezamento 4x100m. 

EE: Tem algum foco maior, ou a importância é igual para todas?

olho8_200_05FG: Minha especialidade é a prova de 400m. Comecei a fazer essa prova no ano passado e é nela que estou com maiores possibilidades no cenário internacional. No Parapan de Toronto, eu ganhei os 400 e fiquei em segundo nos 200. No Mundial, eu ganhei os 200 e fiquei em segundo nos 100. Até ganhei também os 400, mas o guia pisou na linha e acabou me desclassificando. O bom é que eu não perdi os 400 por insuficiência, ou falha minha. Eu continuei na frente no cenário mundial. Agora é trabalhar firme para chegar bem aos Jogos Paralímpicos.

 

Momento mágico em Londres 2012

 

felipe_2_500EE: Em Londres, você conquistou um ouro, nos 200m, e um bronze nos 100m. Conte sobre o momento de ser campeão paralímpico e ouvir o hino nacional tocando.

FG: Eu cheguei naquela Paralimpíada e não era nem o quinto colocado no ranking dos 200m. Na primeira eliminatória, já tinha o ex-recordista mundial e campeão paralímpico na minha bateria, o angolano José Sayovo. Aí eu ganhei dele logo na eliminatória. Não imaginava que fosse conseguir isso. Veio a semifinal e eu novamente ganhei. Cheguei à final com o pior tempo entre os que estavam lá. Meu pensamento era: todo mundo tem o tempo melhor que o meu. Então, teoricamente, eu seria o quarto. Mas já que me deixaram chegar aqui, não tenho mais nada para pensar, só correr. Comecei a prova, corri, corri, corri, e todo mundo me passou. Fiquei em último. Quando entrou na reta, eu vim lá de trás e passei todo mundo. Ali foi a primeira emoção, medalha de ouro nos Jogos Paralímpicos. Quando eu comecei, queria chegar à seleção. Depois, queria chegar aos Jogos Paralímpicos. Conseguir o ouro em uma competição como essa foi espetacular. Pulei, gritei, dei cambalhota. Depois veio o pódio. Eram 80 mil pessoas em pé no estádio e o hino nacional sendo tocado. Foi uma emoção inenarrável. A vontade que dava era de sair correndo para o Brasil, para abraçar toda a família, todo mundo que estava torcendo por mim. Queria conversar com as pessoas que estavam vendo aqui no Brasil, vibrar com as pessoas que realmente me acompanharam até ali. Aqui no Rio, eu espero repetir da mesma forma. Ou até melhor.

olho7_200_10EE: É sempre uma curiosidade saber como é a relação entre os corredores e seus guias. Como é a sua?

FG: Eu mudei de guia. Estou com um guia novo nesse ano. É um risco, mas eu decidi assumir esse risco. É um rapaz muito bom, muito veloz, acho que ele tem muito a acrescentar aos meus resultados. A gente está começando a treinar junto nesse ano. Já tem uma relação de amizade, muita zoeira, muita brincadeira, mas no momento sério a gente sabe qual é o nosso papel, o nosso objetivo. O meu resultado depende do guia e o do guia também depende de mim. Então a gente pega firme junto. 

EE: Quem é o seu novo guia?

FG: É o Jonas Alexandre.


Ídolos e Sonhos


EE: Você tem algum ídolo no esporte, alguém que seja referência para você?

FG: Eu adoro futebol. Tem algumas pessoas que eu admiro. Gosto muito do time do Barcelona. Então, eu gosto muito do Messi, gosto do Neymar. Gosto muito do Ronaldinho Gaúcho, principalmente na época em que ele jogava no Barcelona. Depois fiquei muito feliz que ele veio para o Flamengo, mas não teve um bom desempenho, não saiu bem do Flamengo. Eu gosto do comportamento do Kaká. Acho o Kaká uma pessoa admirável.

EE: E dentro do movimento paralímpico? Tem alguém que se destaque para você?

FG: O Odair Santos (corredor de longas distâncias) é um espelho para mim. O acho muito bom atleta. Eu queria ter o potencial dele.

olho9_200_04EE: Na sua carreira de atleta, você já realizou alguns sonhos. Mas ainda falta algum?

FG: O sonho que eu quero realizar é ser campeão nas Paralimpíadas do Rio de Janeiro. Realizando esse sonho, para qualquer outro sonho que eu queira, já vou ter dado um passo. 

EE: Felipe, você completa 30 anos em 2016. Já pensa na vida pós-esporte ou pretende continuar nas pistas por muito tempo?

FG: Eu penso na vida pós-esporte e tenho medo porque vida de atleta é curta.olho10_200_04 Daqui a pouco vem um aí correndo mais, a idade vai chegando, e nós vamos ficando saturados porque é uma vida cansativa. Treino de manhã, de tarde, dor o tempo inteiro, fisioterapia. Mas penso, sim, em como fazer depois de parar. Ainda não tenho ideia do que fazer depois de parar. Só que eu preciso dar um rumo diferente na vida depois dos Jogos Paralímpicos. Até de forma paralela ao esporte, para depois não ficar na mão.

EE: Sei que o momento é de foco total nos Jogos Paralímpicos do Rio, mas você se imagina competindo em Tóquio, daqui a quatro anos?

olho11_200_04FG: Sim. Eu quero competir em Tóquio, quero competir até quando me permitirem. 

EE: O que tem a dizer sobre doping no esporte?

FG: Sou inteiramente contra a qualquer uso de substância que te leve a ter vontade. Estou sempre à disposição para fazer os exames. Tenho a minha consciência tranquila, certeza que eu não uso nada.

felipe_e_daniel_600Felipe Gomes, à esquerda, e Daniel Mendes, à direita: dobradinha brasileira no Mundial de Doha

EE: Para você, o esporte é essencial?

FG: O esporte é o meu meio de viver. Eu tenho dois filhos, família, e é do esporte que eu tiro o meu sustento. E esporteolho12_200_02 também é saúde. Estar bem fisicamente, ter um corpo saudável. O esporte também abre a cabeça. Hoje, é muito fácil você perder a juventude para o tráfico e o esporte tem o papel de reverter essa situação. Então, o esporte é essencial, não só para a minha vida, mas para a vida de muitas pessoas que têm a oportunidade de praticar.

EE: Deixe um recado para a torcida brasileira que vai estar ligada nos Jogos Paralímpicos.

FG: Dizer para a torcida brasileira que nós já estamos treinando forte desde quando saímos de Londres. Não vai faltar empenho. Contamos com a torcida de todo mundo, ou em casa, ou nas arquibancadas. Vamos fazer aquela festa bonita no Rio de Janeiro, como fizemos em 2014, na Copa. Teve protesto para lá, para cá, mas na hora da Copa do Mundo o brasileiro entrou em campo, só a seleção que não entrou, mas estava todo mundo lá gritando e foi aquele sucesso. Festa brasileira! Até em um momento de crise a gente mostra para o mundo que não perde na capacidade de ser feliz. Então, os Jogos Paralímpicos serão um momento de festejar e elevar o nome do Brasil o mais alto possível. 

Fotos: CPB


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