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Fabiana Murer (Salto com vara)

12/04/2012
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Um salto para o ouro!

Por Fabiana Bentes e Thyago Mathias

“Ainda precisamos de mais empresas investindo no esporte, mas é preciso também que essas empresas tenham consciência de investir no trabalho de base e paciência para conseguir resultados, pois para fazer um atleta é preciso anos de trabalho.” 

Leia ao final da entrevista a opinião do MemoriaOlimpica.com

Primeira medalhista de ouro do Brasil em um Mundial de Atletismo, Fabiana Murer é uma das referências do esporte feminino no país. A atleta do salto com vara já conquistou o lugar mais alto do pódio no Pan-Americano do Rio de Janeiro, em 2007, e no Campeonato Mundial de Doha, em 2010. Nesse mesmo ano, venceu a Liga Diamante, realizada em Zurique, na Suíça. 

Em 2008, Murer chegou em ascensão aos Jogos Olímpicos de Pequim, mas enfrentou a situação mais difícil de sua trajetória, após uma situação de nervosismo gerada pelo sumiço de uma de suas dez varas de competição. Com vistas ao Pan de Guadalajara, com a promessa de ser bicampeã, e visando Londres 2012, ela agora se prepara para levar as cores do Brasil novamente ao topo do atletismo olímpico.

Memória Olímpica: Quando criança, você começou com a prática da ginástica artística. O que a levou a escolher o salto com vara para se profissionalizar?

Fabiana Murer: Comecei a praticar ginástica artística com sete anos. Quando eu estava com 16, em 1997, comecei a pensar em parar. Era muito alta para a ginástica, que exige atletas menores, e com 16 anos já estava velha para o esporte, quase uma ‘aposentada’. Nos exercícios nas barras assimétricas, por exemplo, meus pés encostavam no colchão e o jeito era ir tirando colchão atrás de colchão para dar certo. Mas queria continuar fazendo esporte. Então, meu pai viu um anúncio em um jornal em Campinas sobre um teste em uma escolinha de atletismo e sugeriu que eu fosse lá fazer. Fiz o teste, que era corrida de 50m, 1.000m e salto em distância e fui superbem. Meu atual técnico, Elson Miranda, era um dos que estavam selecionando os atletas e me perguntou se eu fazia algum outro esporte. Quando ele soube que eu fazia ginástica, já me encaminhou para o salto com vara. Eu tinha visto uma prova deste esporte pela primeira vez na TV, na Olimpíada de Atlanta, em 1996. Lembro que pensei que deveria ser gostoso cair lá de cima. Com um ano de treino, fiz o índice para o mundial juvenil. Achei que levava jeito para o salto com vara e resolvi me dedicar só a isso. Era uma prova nova. O esporte estava começando no Brasil e era uma porta que se abria na minha vida. Tive sorte de começar numa grande equipe, a BM&FBOVESPA, o que me deu a oportunidade de alcançar todos os meus objetivos.

MO: Você teve um período de treinos com Yelena Isinbayeva. Foi importante este contato para aperfeiçoar ou melhorar seu desempenho?

FM: Cada uma sempre teve o seu trabalho. Acho que o importante mesmo foi desenvolver a minha técnica com o técnico ucraniano Vitaly Petrov, que treinou Yelena Isinbayeva e Sergei Bubka, ambos recordistas mundiais do salto com vara. Conheci a Yelena em 2005, mas esse intercâmbio que o Elson (o técnico Elson Miranda) procurou, desde 2001, é que foi fundamental. Nosso trabalho com o Petrov é que foi fundamental. Ele nos ensinou o que era salto com vara. Precisamos até de um tempo para nos adaptarmos à técnica dele. No início, tivemos de aprender ‘no vazio’, sem a visualização. Ele mostrava os movimentos, eu via a técnica do Bubka. O Vitaly ensinou o que é salto com vara. E ele acha que ainda posso corrigir detalhes. Ele e o Elson acham que posso melhorar, graças a Deus.

MO: No Brasil, o salto com vara não tem muita tradição. Você acha que os seus resultados e a sua visibilidade no esporte pode mudar esse cenário?

FM: Espero que sim. Quando eu comecei, ninguém sabia direito como era essa prova. Eu falava salto com vara e o pessoal achava que eu estava falando do salto em distância ou em altura ou nem isso. Mas acho que, no esporte feminino olímpico, tivemos também outras atletas importantes que abriram as portas, como a Daiane (Daiane dos Santos, da ginástica artística) e a Maurren (Maurren Maggi, campeã olímpica no salto em distância), e mostraram que chegar lá era possível em diferentes modalidades. Mas fico feliz. As pessoas assistiram à minha conquista no Mundial, vêm me dizer que se emocionaram. Espero que isso estimule gente mais nova a fazer salto com vara.

MO: Nos Jogos Pan-Americanos de 2007, você quebrou o recorde da competição com a marca de 4,60m, levando assim a medalha de ouro. Qual a importância desse feito na sua carreira?

FM: Foi maravilhoso competir no Brasil em 2007. É uma competição importante, com muita visibilidade no País. Foi bem legal ganhar o salto com vara em casa, no Engenhão. Eu decidi que queria participar de novo. Em Guadalajara, quero defender meu título. Tivemos de escolher. Eu decidi que seria melhor fazer o Pan do que a temporada indoor. Optei por atrasar as férias, após o Mundial, e retomar os treinos justamente por causa do Pan. Eu tinha de escolher porque no início de 2012 tem Mundial Indoor na Turquia, em março. Optei pelo Pan e, por causa disso, não vou defender o meu título mundial (conquistado em Doha, em 2010).

MO: Nesse mesmo ano você foi indicada como a Melhor Atleta de 2007 pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB), por meio do Prêmio Brasil Olímpico.  O que isso pode ter significado para o esporte que você pratica, já que você foi a primeira atleta do salto com vara a ser indicada para atleta do ano?

FM: Foi muito bom ser a melhor do ano em 2007 e ser a primeira na minha prova. Mas voltei a ganhar esse prêmio em 2010 e foi mais legal ainda, até o meu técnico, o Elson Miranda, foi eleito o melhor em esporte individual do Brasil (ao lado de Bernardinho, nos esportes coletivos), um reconhecimento inesquecível, que fechou um ano incrível, em que o meu trabalho e do Elson rendeu ao Brasil e ao Clube BM&FBOVESPA o título da Diamond League, o circuito nobre da IAAF, e também o Mundial Indoor de Doha.

MO: Em 2008, você chegou aos Jogos Olímpicos em ascensão, sendo atleta destaque na modalidade, no entanto durante a competição, você passou por um dos momentos mais difíceis. Horas antes da competição, a vara que você iria utilizar havia desaparecido. Como você lidou com esse momento e qual a lição que esse fato lhe trouxe?

FM: Foi uma situação totalmente inesperada e muito estressante, mas hoje eu sei que aquilo me fortaleceu. Ao longo dos anos, passei por experiências ruins e boas e todas elas foram me ajudando. A ginástica me ajudou. Pequim foi uma experiência ruim, mas me ajudou. Mas acho que sempre tive a concentração que mostrei no Mundial. O Elson sempre me disse o que eu iria encontrar – gente correndo, gente lançando, saltando, tudo ao mesmo tempo, estádio cheio, reações do público. Mas tudo se resume ao fato de que você tem de querer muito. Se quiser só um pouquinho não consegue. Tem de trabalhar muito e acreditar muito.

MO: No Campeonato Mundial de Atletismo em Pista Coberta de 2010, em Doha, você realizou uma excelente campanha, se tornando campeã mundial indoor do salto com vara, saltando 4,80m na final. Também em 2010, venceu a prova no Meeting de Atletismo de Zurique, na Suíça, com 4,81m, e conquistou o título da Liga Diamante. Você considera que essa tenha sido a melhor fase de sua carreira?

FM: Realmente, foi uma fase maravilhosa, 2010 foi um ano muito especial. Mas 2011 não fica atrás. O início foi mais complicado: eu acertava a técnica nas competições, mas mostrava certa inconstância nos saltos. Mas cheguei muito bem ao Mundial, tanto física quanto mentalmente, e fui novamente campeã, agora ao ar livre, unificando os títulos indoor e outdoor. E o ano ainda não acabou. Vou para Guadalajara para ser bicampeã no salto com vara.

MO: Qual é o seu sentimento após ter escrito seu nome mais uma vez na história do esporte, ganhando a medalha de ouro inédita para o Brasil no Mundial de Atletismo?

FM: De muita felicidade. Sabia que tinha de saltar bem, buscar os 4,80m ou mais para ganhar. Queria saltar logo, estava superagitada. Ainda bem que consegui fazer uma boa técnica. O início do ano foi difícil, não tive bons resultados. Acho que estava me poupando psicologicamente para o Mundial. Sabia que poderia fazer um bom resultado e estava determinada a isso. A pista era superboa, o público ajudou bastante e eu consegui saltar muito bem. Tive de esperar dois dias para receber a minha medalha – o salto com vara é daquelas provas que demoram a acabar e a premiação ficou para depois. Mas foi muito legal, uma sensação bem bacana, poder voltar ao estádio e subir ao pódio. E na hora em que ganhei o título, pensei em várias pessoas que me ajudaram, no Elson e no Petrov, no Sérgio Coutinho Nogueira, do Clube BM&FBOVESPA, em toda a equipe do Clube, na Nike, no Pão de Açúcar, no pessoal de São Caetano... Em minha família, que sempre me apoiou e me iniciou no esporte... Graças a Deus, tive ajuda de muita gente.

MO: Você declarou que teve um ano difícil, que não foi como esperava por conta dos seus resultados no começo do ano. Como foi a preparação física e psicológica para o Mundial?

FM: A preparação foi normal. Fiquei em Fórmia, na Itália, no centro de treinamento do Petrov, como nos outros anos. Gosto de lá: a comida é boa, apesar de ter macarrão todo dia, as instalações e as condições de treino também. Ainda tive a companhia dos saltadores brasileiros, do Thiago (Braz), do Fábio (Gomes da Silva), da Karla Rosa, do fisioterapeuta Rodrigo (Iglesias) o que diminuiu um pouco a dificuldade de ficar tanto tempo fora. É sempre difícil ficar três meses fora. Sinto falta de tudo, da comida, da cama, das roupas. Uma mulher ter de carregar roupas e sapatos para três meses numa mala de 20 quilos... não é fácil. Mas fui me acostumando aos poucos, ao longo das temporadas. A internet ajuda a matar as saudades da família. O Clube BM&FBOVESPA me liberou do Troféu Brasil, eu pude ficar na Europa, não tive de voltar para competir. Pude fazer tudo direitinho para o Mundial. O problema é que os saltos, nas competições da Diamond League, não saíram. Mas acho que acabou me ajudando, porque eu sabia que poderia fazer bons saltos no Mundial e isso aconteceu.

MO: O que falta ao nosso país para que tenhamos outras Fabianas Murer ou Beltrame? Quer dizer, campeões que não despontem como casos isolados.

FM: Acredito que estamos indo por um bom caminho. Como vamos ter os Jogos Olímpicos no Brasil em 2016, o apoio está sendo maior. Precisamos de mais intercâmbios com técnicos estrangeiros para termos mais conhecimento. Os atletas precisam competir fora do País para ganharem mais experiência e não ficarem assustados ou deslumbrados quando disputarem grandes competições como Mundiais e Jogos Olímpicos. E, o mais importante, acreditar que é possível conquistar bons resultados, pois não somos diferentes dos atletas estrangeiros: todos nós passamos por dificuldades, problemas e lesões.

MO: Como muitos atletas ressaltam, os patrocinadores só chegam quando o resultado já é super positivo. Neste caminho, muitos atletas desistem pela falta de apoio. Você concorda? Acha que o nosso país investe pouco no esporte? Quais as dificuldades que você encontrou e ainda encontra como esportista?

FM: Eu sempre tive apoio, desde quando comecei. Tive a sorte de começar em uma grande equipe. Lógico que tudo depende dos resultados: quanto melhores, mais reconhecido é o seu trabalho. Ainda precisamos de mais empresas investindo no esporte, mas é preciso também que essas empresas tenham consciência de investir no trabalho de base e paciência para conseguir resultados, pois para fazer um atleta é preciso anos de trabalho, como é feito no Clube de Atletismo BM&FBOVESPA, em que todos têm a tranquilidade de poder treinar e desenvolver-se no tempo certo. Tive dificuldades em relação ao material, pois varas e colchões apropriados para a minha prova são importados e era muito difícil consegui-los aqui no Brasil. Mas aos poucos, com a ajuda de meus patrocinadores, fui conseguindo o necessário para poder treinar e me desenvolver. Hoje, tenho patrocínio de varas e um bom colchão para treinar. A pista em que treino está desgastada, mas logo terei um lugar ideal para treinar, quando o Centro de Treinamento que a  BM&FBOVESPA está construindo ficar pronto. O novo CT do Clube terá até ginásio indoor, para eu poder fazer os treinos der salto mesmo em dias de chuva.

MO: Você passou uma etapa de sua carreira treinando na Itália. Qual a sua opinião sobre a infraestrutura e qualidade de treinamento no Brasil? O que falta para que o país dê o apoio necessário a esse esporte?

FM: No Clube BM&FBOVESPA faltava o centro de treinamento indoor, que já está sendo construído. Ter a nossa própria sede, com infraestrutura de primeiro mundo, vai ser bem importante para eu chegar ao sonho de saltar 5m e também para os meninos que estão vindo agora, como o Thiago Braz (medalha de prata nos Jogos Olímpicos da Juventude).

MO: Para o Pan de Guadalajara e as Olimpíadas de 2012 você iniciou algum treinamento especifico? Quais são suas expectativas para essas competições?

FM: Para o Pan, eu treinei pouco depois do Mundial de Daegu. O meu grande objetivo é a medalha olímpica em Londres. Depois do Pan, tiro férias e aí vou começar tudo de novo. Entrar em forma, aprimorar a minha técnica, me dedicar ainda mais para conquistar uma medalha. Não vai mudar nada no treino. Continua o mesmo. Vou apenas tentar acertar detalhes para saltar mais alto. Eu sempre enfrentei pressões, minhas, da família, do clube, do técnico, da imprensa e, a partir do momento em que vim crescendo, do público também. Eu sempre busco a vitória, mas sei que não sou uma atleta que vai ganhar todas as competições no salto com vara, uma prova técnica, com muitas variáveis, em que se tem de acertar tudo. São muitos os detalhes e todos têm de dar certo. Mas vou cuidar de tudo para tentar ganhar uma medalha olímpica. A temporada de 2012 será de administrar objetivos, como alcançar os 5m e ir ao pódio na Olimpíada. Em grandes competições é difícil obter marcas. É preciso pensar em resultado para medalha.

MO: Qual a sua opinião a respeito do doping nos esportes?

FM: Não entendo a necessidade de tentar obter vantagens por meios ilícitos, quando a preparação e o treinamento são a melhor combinação para conquistar bons resultados. Acho que o sucesso pode ser alcançado com trabalho duro e uma mente forte. Também é importante buscar informações sobre doping, sobre substâncias proibidas, tomar muito cuidado com o que entra no nosso corpo. Eu, por exemplo, estou sempre atenta a tudo que como e bebo e também aos medicamentos. Faço parte de um programa antidoping e tenho de informar sempre o local de treinamento, onde passo a noite, um horário em que eu possa ser encontrada para exames de surpresa, fora de competição.

 

Opinião MemoriaOlimpica.com:

Se Fabiana Murer chegou aonde chegou foi porque além da sua capacidade extraordinária houve um clube como o BM&FBOVESPA que acreditou. O MemoriaOlimpica.com tem absoluta certeza que destacar patrocinadores não diminui o rendimento comercial da mídia e, ao contrário disso, impulsiona o desejo das empresas em patrocinarem os atletas. Em nossas mais de 20 entrevistas, em apenas seis meses, com dirigentes, atletas do futuro, heróis do passado e atletas atuantes, a reclamação é a mesma. Por um lado as empresas precisam acreditar na base, veja Juliana Domingues, do Pentatlo Moderno, a mais jovem atleta da América do Sul que precisa de equipamento novo, armas e muito pouco dinheiro para não sobrecarregar sua família, mas ela não tem um patrocínio sequer. Se não for a mãe dela, Juliana desiste.  Por outro lado está a mídia, que cada vez enquadra mais o atleta para não aparecer nenhum patrocinador. As empresas e a mídia do Brasil devem mudar com urgência, estamos falando de futuros atletas que serão, estes sim, o maior plano comercial que as empresas poderão ter. Sem os atletas não há anúncios, não há programas de esporte, não há medalhas. Portanto, empresas e clubes sérios que acreditam na essência do esporte como é o caso do BM&FBOVESPA devem incentivar o trabalho de base pois este é o verdadeiro legado que o país tanto almeja para os Jogos de 2016. No caso da mídia, está na hora de compartilhar um pouco,  se garantir pela qualidade de sua programação e ressaltar patrocinadores pelo bem do esporte do país.

Vale lembrar que há muito mais esportes que o futebol.


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