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Evelyn Moreira (Taekwondo)

07/08/2014
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Atletas que o Brasil precisa valorizar

 

Por Fabiana Bentes

Atual líder do ranking paulista na categoria até 46kg, Evelyn Moreira conheceu o taekwondo por meio de um projeto social na periferia de Campinas, apaixonou-se e agora quer chegar às Olimpíadas. Apesar do sonho, a estrutura ainda é precária para que ela atinja o topo.

Medalha de bronze na seletiva olímpica deste ano, Evelyn está fora da seleção brasileira e busca condições de competir em torneios internacionais, que contam pontos no ranking olímpico e podem fazer dela uma das grandes promessas da modalidade nos Jogos Olímpicos de 2016.

Esporte Essencial: Evelyn, conta um pouquinho da sua trajetória no esporte.

evelyn-tkd-3-texto_388_02Evelyn Moreira: Tenho 26 anos e sou atleta de taekwondo desde os 15. Comecei a treinar em um projeto social, do professor Luiz Evangelista, perto da minha casa, na periferia de Campinas, São Paulo. Aos 17, parei um tempo para poder trabalhar, porque não tinha como me manter só treinando. Aos 19 anos, teve uma seletiva na academia do mestre Tilico, que treinou o Diogo Silva e a Natália Falavigna. Então, consegui entrar para a academia dele e comecei a competir em nível nacional, já na faixa preta. Não tive base de lutar na categoria juvenil, então comecei a competir direto no adulto. Depois de um tempo, fui convidada por outra equipe de Rio Claro, e representando esta cidade, treinei um ano lá, morava no alojamento com outras cinco atletas. Assim, fui me mantendo entre as três primeiras no ranking do Brasil. Já participei de seletiva para Pan-Americano e Mundial. A última agora foi para o Mundial, que eu fiquei em terceiro.

EE: Você, que foi inserida no esporte por meio de uma ONG, como vê a situação do esporte nas categorias de base hoje?

EM: A base não existe no Brasil, em qualquer modalidade. Como atleta, que já compete há anos, vejo que se eu tivesse tido um trabalho de base, eu poderia ter chegado muito mais longe.

EE: O que seria esse trabalho de base para você?

EM: É você ter incentivo desde criança. Eu não tive oportunidade, não tive contato com o esporte quando era criança. Na escola pública que eu estudava, o professor dava uma bola e aí os meninos jogavam futebol e as meninas ficavam olhando. Eu só fui ter contato com o esporte com 15 anos. Vejo, então,  que muitos atletas também não tiveram essa base. Hoje, os atletas que são ponta no meu esporte, o taekwondo, são aqueles que tiveram um trabalho de base. São atletas que tiveram treinamento desde o infantil ou juvenil, tiveram acompanhamento com preparação física, treinador, uma equipe. Então eles já têm uma cabeça diferente do que um atleta que sai de um projeto social sem nada.

EE: Interessante que você começou a praticar o esporte em uma idade em que muitos já estão desistindo do alto rendimento...

01_200_01EM: Pois é, comecei a competir aos 19. Eu não era nem faixa preta, mas cheguei na academia e disse que era. E aí fui para o campeonato, já faixa preta, e fui campeã paulista e depois brasileira. E assim foi indo... Eu me senti muito discriminada por ser mulher. Na verdade, eu fiquei algum tempo sendo a única menina nos treinos. Enquanto os meninos faziam 20 rounds, me mandavam fazer só um. Isso eu sentia muito.

EE: Você acha que essa é uma realidade da mulher no esporte ou só nas artes marciais?

EM: Eu acho que a mulher é discriminada mesmo. Eu senti muita diferença de treinamento, do treinador focar mais nos meninos... Diziam que mulher era mais fácil chegar, talvez por isso tenham dado tanto atenção aos homens. E tem um número menor de praticantes mulheres...

EE: Claro, você tem menos concorrência, mas isso não quer dizer que seja mais fácil.

evelyn-tkd-texto_374EM: É... Mas eu sofria bastante com isso. E eu era a que mais treinava. Eu corria, fazia treino extra, ficava na frente do espelho me corrigindo. Isso tudo porque não entendia como as pessoas me viam tão horrível. Eu não me via tão mal para sempre receber menos atenção.

EE: Hoje como é a sua categoria, Evelyn?

EM: Estou entre as três melhores no meu peso,  me mantendo assim desde 2010.

02_200_01EE: O que falta para você ir para seleção?

EM: Eu preciso de apoio financeiro para competir fora do país e pontuar no ranking olímpico. Os atletas só pontuam no ranking em competições da América Latina que tem outros países. E ter um treinamento melhor. Hoje eu estou com um preparador físico, Ruan Ferreira, que está me treinando de graça, porque eu não tenho como pagar. Ele me ajuda desde o ano passado, quando eu fiquei em terceiro lugar na seletiva olímpica, gosto muito do trabalho dele.

EE: Para você ir para um Campeonato Mundial com as despesas pagas pela Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTkd), você teria que estar em primeiro lugar no ranking nacional?

03_200_01EM: Para ir para o Mundial, eu teria que estar na seleção brasileira e ser a titular. Os reservas da seleção brasileira praticamente não existem, porque a verba que é investida no taekwondo dá somente para alguns atletas titulares. Alguns têm o apoio da Petrobrás, alguns têm outros apoios. Então, o que compensa hoje é ser o primeiro, o campeão nacional.

EE: O que a primeira colocada do ranking na sua categoria tem a mais que você? Ela tem um centro de treinamento, uma estrutura maior?

EM: Ela tem apoio para poder viajar, luta em todas as competições, faz intercambio de treinamento em outros países... Ela tem vários apoios, como a Petrobrás, é da equipe militar e agora foi contemplada com o Bolsa-Pódio, que é um projeto do Ministério do Esporte. Então, isso tudo está ajudando.

EE: Você acha que isso deveria se estender até que nível de atleta?

EM: Pelo menos até os seis primeiros no Brasil. São os que estão sempre ali, brigando de igual para igual com quem já está há anos na seleção.

04_200_02EE: Você almeja, obviamente, ir para a Olimpíada de 2016?

EM: Sim, é o meu sonho. Mas da forma como estou trabalhando hoje não dá para chegar. É desanimador. Às vezes eu acho que estou dando murro em ponta de faca. Às vezes eu faço treinos sozinha e fico pensando se não estou perdendo tempo. Penso em desistir, trabalhar com outra coisa, porque é difícil.

EE: Por que você continua?

EM: Ah, eu não sei... Eu tenho esperança de que vai mudar, de que vai aparecer uma oportunidade melhor. A gente que sonha sempre tem esperança de que vai mudar.

07_200_01EE: Entendendo melhor sua realidade, você precisaria de uma equipe multidisciplinar, um preparador físico remunerado, mas, principalmente, ter oportunidade de competir fora do país, para você poder se ranquear internacionalmente.

EM: É, porque eu tenho condições. Eu fui para o Open da Argentina ano passado e perdi nas quartas de final para os Estados Unidos, mas foi no finalzinho mesmo. Então, eu vi que dá, a gente só não tem oportunidade de lutar fora, com pessoas boas, para saber até onde eu posso chegar. Ficar só no Brasil é difícil, aqui às vezes se faz tudo de qualquer jeito, porque não tem estrutura.

EE: As competições no Brasil são bem organizadas?

EM: Não, apesar que algumas até melhoram, mas a maioria não, porque depende de verba também para ter ginásio, para ter ajuda de prefeituras, porque isso é demorado. Os campeonatos nacionais são organizados pela CBTkd, que entra em contato com os Estados e eles se disponibilizam a ser sedes. Esse ano, as competições aconteceram bastante no Nordeste.

 

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Evelyn treina com seu noivo Rodolfo Veronezi, os dois se conheceram por meio do taekwondo

 

05_200_03EE: Uma situação bastante crítica no esporte é o doping. Você que não tem muita orientação está fadada a estar consumindo substâncias proibidas em medicamentos sem nem saber. Como você encara o doping sem essa estrutura de educação?

EM: No taekwondo, os atletas são pouco orientados sobre o doping, cada um procura se informar da maneira que pode. É arriscado. Eu procuro nem tomar nada, nem remédio, nem suplemento, com medo disso. Depois que você entra na seleção brasileira, pode ser escolhido a qualquer momento.

EE: Mesmo assim não existe nenhum trabalho de educação da Federação?

EM: Nós somos federados, mas nem a Federação Estadual e nem a Confederação fazem alguma coisa. Uma amiga minha entrou na seleção brasileira e quando ia para o Pan-Americano, foi pega no antidoping porque tomou um remédio de dor de cabeça. Ela teve que enfrentar processo na Justiça, teve audiência. É complicado.

06_200_02EE: Para você, o esporte é essencial? Por quê?

EM: O esporte é essencial sim. O esporte mudou a minha visão da vida, eu aprendi muita coisa. Aprendi a ser uma pessoa melhor, cada vez que eu participo de uma competição é um crescimento para mim. Eu queria que isso também estivesse sendo realidade para outras pessoas onde eu moro que ainda não tem a oportunidade que eu tive. Quem sabe assim mudar a realidade do esporte... Porque a oportunidade demora muito para chegar para quem não tem condição. Tem tantos talentos aonde eu moro que eu vejo desperdiçados. A gente sabe que essa é a realidade.

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Fotos: Arquivo pessoal da atleta


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