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Érica Matos (Boxe)

30/04/2013
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A primeira brasileira a lutar em Olimpíadas é cortada da seleção

 

Por Katryn Dias
Nota da CBBoxe ao final da entrevista

 

O dia 5 de agosto de 2012 vai ficar marcado para o boxe mundial como a estreia da categoria feminina na disputa olímpica. Em Londres, Érica Matos se tornou a primeira mulher brasileira a subir ao ringue em uma Olimpíada e escreveu seu nome na história esportiva do país. A luta, contra a venezuelana Karlha Magliocco, foi bastante equilibrada, decidida por um único ponto de diferença. Apesar de derrotada, a boxeadora baiana saiu sorrindo, com a certeza de ter feito o seu trabalho.

Oito meses depois e com mais um título brasileiro na bagagem, a atleta recebeu uma notícia surpreendente. No início de um novo ciclo olímpico, Érica Matos foi cortada da seleção brasileira feminina de boxe, junto com a campeã mundial em 2010 Roseli Feitosa e a medalhista em Londres Adriana Araújo. Sem perder as esperanças de voltar a representar o Brasil, as três seguem treinando forte e sonhando com os Jogos do Rio, em 2016.

Esporte Essencial: Como foi o seu primeiro contato com o boxe? O que mais te atraiu na modalidade?

"É chocante. Eu não preciso nem ficar falando, porque meus resultados falam por mim. Indiscutivelmente, eu sou a melhor do país na categoria 51kg"

Erica Matos: Primeiro, eu fazia futsal no clube. Nessa época, tinha um colega que praticava boxe e sempre me convidava para fazer uma aula experimental. Eu não aceitava porque faltava coragem, eu tinha medo de tomar soco no rosto, essas coisas. Até que um dia ele me convenceu. Eu fui fazer a aula experimental e gostei. Continuei no boxe por estética mesmo, para dar uma modelada no corpo. Depois de três meses, comecei a fazer o treino de contato físico com outras alunas. Eu treinei por cerca de quatro meses e aí fui convidada para completar uma equipe que ia participar do Campeonato Brasileiro aqui na Bahia, em 2005. Eu fui escolhida só para completar a equipe, sem qualquer compromisso, mas acabei conseguindo ser campeã brasileira. A partir desse título, não parei mais de treinar e competir no boxe.

EE: O que mais te atraiu na modalidade?

EM: No boxe, eu construí uma nova família, me senti acolhida. O meu treinador se tornou um pai para mim. E isso aconteceu num período delicado da minha vida, então foi muito importante ter o boxe.

EE: Você teve que enfrentar muitos obstáculos para se destacar em um esporte popularmente masculino? Você sofreu algum tipo de preconceito?

EM: Quando eu comecei, muitas pessoas tinham essa visão de que boxe era só para homem. Mas com os meus resultados eu fui conseguindo superar isso, mudar essa visão. Preconceito nós mulheres sempre sofremos, acontece muita gozação também. Sempre tem um gaiato para falar uma gracinha.

 

De luta em luta, sonhando com a vaga olímpica

 

EE: Como foi o seu caminho até chegar a Londres e poder representar o Brasil em uma Olimpíada? Foi fácil conseguir a vaga?

erica-matos-londres2-texto_450EM: Para chegar a Londres, nós fizemos uma preparação de quatro anos. Durante esse ciclo olímpico, nós participamos de diversas competições, que fazem o ranqueamento das atletas, como Pan-Americanos, Sul-Americanos, Mundiais. Nesse tempo, eu fui obtendo bons resultados que me beneficiaram: fui campeã sul-americana em 2010 e três vezes campeã pan-americana. Apesar disso, para conquistar a vaga de Londres, eu só tive uma chance, no único pré-olímpico feminino, o Campeonato Mundial.

O Mundial é o campeonato mais difícil de todos, porque um número grande de boxeadoras participa. Na minha categoria, eram 38 atletas. Para me classificar, eu teria que ficar entre as três melhores da América, que eram 18 no total. Eu fui lutando e lutando, mas perdi, infelizmente, nas oitavas de final. Estados Unidos e Venezuela se classificaram primeiro e eu consegui depois a vaga quando recebi a carta-convite.

Esse convite me foi feito, não porque eu era a mais bonita da América ou algo assim, mas porque tive o melhor desempenho no Mundial. Então, eu recebi essa carta devido aos meus próprios resultados de 2011 e 2012. Não foi fácil.

EE: Quando você foi eliminada do Campeonato Mundial feminino da China, nas oitavas de final, passou pela sua cabeça que tinha perdido sua única chance de classificação para os Jogos de Londres?

EM: Na verdade, eu perdi a principal luta, que era a que me classificava automaticamente para as Olimpíadas. Naquele momento, eu fiquei muito triste, pensando que tinha jogava fora quatro anos da minha vida na preparação. Eu chorei tanto!

Depois da minha eliminação, o representando brasileiro na AIBA me chamou e disse “Érica, tenha fé, porque eu vou fazer de tudo para que eles usem o Mundial como critério”. Até então, a entidade estava querendo dar as duas cartas-convite para países em desenvolvimento, que não tiveram condições de ir para o Mundial. Mas os dirigentes acharam injusta essa forma.

Quando a reunião da Aiba finalmente decidiu o critério para entregar as cartas-convite, meses depois, meu treinador, Luiz Dorea, ligou às 5h da manhã para me dar a notícia de que eu tinha conseguido me classificar. Nossa, eu fiquei tão feliz que acordei todas as pessoas da casa, correndo, gritando e chorando.

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EE: Em Londres, você se tornou a primeira mulher brasileira a subir no ringue em Jogos Olímpicos. Como encarou responsabilidade? 

EM: Uma Olimpíada não é um campeonato qualquer, tem muitas coisas que pesam ali na hora. Eu sabia da minha responsabilidade. Por isso, além de ser a primeira mulher a subir no ringue, eu queria ser a primeira a ter um bom resultado. Infelizmente, não tive. Mas por outro lado, entrei para a história olímpica do Brasil. Isso já foi muito gratificante, se for levar em consideração a estrutura de treinamento que eu tenho, as coisas que eu abdiquei ao longo da minha carreira e a distância que vivo da minha família.

EE: Você acha que essa primeira participação motivou outras pugilistas brasileiras a lutarem pelo sonho olímpico?

EM: Com certeza essa participação motivou muitas outras atletas. Mesmo antes de nós irmos para as Olimpíadas, muitas meninas já se espelhavam em nós. Nós escutávamos as meninas que praticam o boxe falando “Eu quero ser igual a Érica”, “Eu quero ser igual a Adriana”, pensando em viajar para competir, em ser campeãs.

Depois de Londres, veio a repercussão. Agora, a maioria das academias já disponibiliza o boxe. Não só masculino, o feminino também. Mesmo que não seja para competição e sim para estética, o boxe feminino está crescendo muito no Brasil.

erica-matos-londres-cbboxe-texto_450EE: Na categoria 51kg, você perdeu por apenas um ponto de diferença para a venezuelana Karlha Magliocco. Acredita que a luta foi decidida por um detalhe?

EM: Infelizmente, perdi essa minha primeira luta. Tive duas punições que considero injustas, porque não era eu quem estava cometendo as faltas na luta. Mas no boxe não depende só da gente, também tem que ver a decisão dos juízes. Pelo menos eu consegui participar, mas meu sonho é, além disso, ser uma medalhista olímpica. E eu ainda tenho fé de que esse sonho vai ser realizado em 2016.

EE: Apesar da derrota, você deixou a arena sorrindo. Por quê?

EM: Eu saí do ringue com a consciência de que tinha feito tudo que podia. Saí triste porque perdi, mas feliz por ter dado o meu máximo, por ter enfrentado tantas dificuldades para chegar àquela luta. É claro que eu queria muito a vitória, mas nem sempre as coisas são como nós queremos. Eu aprendi dessa forma: se não foi naquele dia, eu espero a minha próxima oportunidade.

EE: Depois da participação feminina nas Olimpíadas e das medalhas conquistadas pelos homens, ficou mais fácil conseguir patrocínio no boxe?

EM: Ficou mais fácil sim, mas os patrocínios não vêm diretamente para o atleta. Infelizmente, o dinheiro tem que passar pela Confederação [Brasileira de Boxe], e ela indica o atleta que quiser. Assim fica mais difícil chegar até nós, até porque às vezes a Confederação não faz chegar até os atletas que merecem, ela veta. Por exemplo, eu, a Roseli e a Adriana tínhamos o patrocínio da Petrobras, mas como fomos cortadas da seleção, já perdemos. Além disso, nós três temos direito ao Bolsa-Pódio por estarmos bem ranqueadas mundialmente, mas a Confederação não deve nos indicar. 

 

No início de um novo ciclo olímpico, o corte da seleção

 

EE: Na última semana, você, Roseli Feitosa e Adriana Araújo, as três primeiras representantes olímpicas do país, foram cortadas da seleção brasileira permanente. Como foi receber essa notícia? Qual o motivo real do corte?

erica-matos-treinamento-cbboxe-texto_450EM: Nós não recebemos nenhuma carta de desligamento da seleção, nenhum email, nada. Em janeiro, fomos convocadas, nos apresentamos e fizemos todos os exames médicos para o início dos treinamentos. No dia 13, retornamos para a Bahia. Depois, eu procurei o coordenador técnico, Otílio Toledo, para saber quando nós iríamos voltar para São Paulo. Ele me disse que tinham novas meninas treinando na seleção e que nós deveríamos esperar pela próxima convocação. Enquanto isso, as novas meninas já estavam treinando e viajando para competições no nosso lugar. Foi nesse momento que eu vi uma matéria na televisão aqui em Salvador e entrei em contato com a Confederação. Só aí eles informaram que nós tínhamos sido cortadas.

Pelo que me informaram, eu e a Roseli fomos cortadas porque não temos nível técnico para estar na seleção. Já a Adriana, eles alegam que não tem comprometimento com o peso. Para quem nos conhece, isso é chocante. Eu voltei de Londres e fui campeã brasileira. A Adriana está há 12 anos na categoria 70kg e nunca foi a um campeonato em que fosse desclassificada pela balança. Será que ela não tem comprometimento mesmo? 

Eu não preciso nem ficar falando, porque meus resultados falam por mim. Indiscutivelmente, eu sou a melhor do país na categoria 51kg. Fiquei oito anos invicta na América. Essa é atleta que não tem nível técnico? O presidente não sabe o que fala, não sei nem porque ele ainda está lá. Porque o problema todo é com o presidente. A equipe técnica conhece o nosso trabalho, sabe muito bem nosso potencial, já está com a gente há oito anos.

EE: A CBBoxe alega que está investindo em novos talentos, pensando em 2016. Vocês três não teriam condições de chegar competitivas aos Jogos do Rio?

"Tanto eu, quanto Roseli e Adriana temos chances reais em 2016. Seria até vergonhoso não levar a gente, nós somos as melhores do país na modalidade"

EM: Esses “novos talentos” que eles pegaram são meninas que não estão bem nem no ranking nacional. Particularmente, não tenho nada contra eles investirem em novos talentos. Nós mesmas pedíamos mais meninas para treinar com a gente, sempre pedimos. Mas eles não podem esquecer de nós, muito menos nos prejudicar.

Tanto eu, quanto Roseli e Adriana temos chances reais em 2016. Seria até vergonhoso não levar a gente, nós somos as melhores do país na modalidade. Eu garanto que em 2016 estaria pronta. Agora, não acho que essas meninas tenham capacidade de chegar a uma Olimpíada em quatro anos. Elas são muito novas, não sabem dar um golpe sequer. O exemplo disso foi um campeonato na Polônia na semana passada [torneio Feliks Stamm]. A CBBoxe levou três atletas e todas elas perderam ainda na primeira luta. 

EE: Agora, cortada, o que você pretende fazer? Já parou para pensar nisso?

EM: Eu continuo treinando. Graças a Deus ainda tenho o benefício do governo, o Bolsa-Atleta, que dá para me manter minimamente. Vou continuar o meu trabalho porque tenho fé que nós vamos conseguir reparar essa injustiça. Nós estamos pedindo ajuda a instâncias superiores, como o ministro Aldo Rebelo, porque com a CBBoxe está difícil, eles querem mesmo destruir o nosso sonho. Estamos fazendo de tudo para que isso chegue até pessoas competentes, ou até a presidente Dilma se for preciso (risos).

Foram muitos anos, muitas experiências, muitas conquistas para chegar até o que somos hoje, atletas olímpicas. Então, é muito frustrante ver o nosso sonho ser jogado fora. Eu tenho outros sonhos, outros planos para a minha vida, mas só para depois de 2016. Quero construir a minha família, ter o meu filhinho, viver a vida sossegada. Mas antes, quero ser uma medalhista olímpica. 

EE: Na seleção, você treinava lado a lado com o seu noivo, agora esposo, o boxeador Robson Conceição. O apoio dele foi importante na sua carreira?

EM: Graças a Deus, eu tenho o meu esposo. Robson me apoia muito em todas as minhas decisões. Se não fosse ele, acho que eu estaria pior psicologicamente. Pelo fato dele também viver o boxe e passar pelas mesmas coisas que eu, o meu apoio maior vem dele.

EE: Como você avalia o trabalho feito pela Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe)?

erica_480EM: No tempo que eu passei lá, pude ver que existem pessoas interessadas em trabalhar e conseguir resultados, mas outras não. O centro de treinamento não tem nível de atletas de alto rendimento, mas a gente se vira com o que tem. Os aparelhos de musculação estão velhos e o material não é suficiente.

As medalhas que vieram agora em Londres foram por esforço, dedicação, raça e coração dos atletas. Porque se for depender do trabalho feito pela Confederação, fica difícil. Esquiva e Yamaguchi [Falcão], por exemplo, passaram por muitas dificuldades na seleção. Antes de embarcar para Londres, o Yamaguchi chorava, se perguntando o que ia fazer lá se não estava tendo o treinamento adequado aqui. 

Os resultados vieram pelo esforço individual. O treinador da seleção está lá há 20 anos e nunca formou um campeão. Apesar disso, eles acreditam que quando um atleta perde, não é porque o treinador não fez um bom trabalho. E sim porque o próprio atleta é ruim, e o descartam. Assim, muitos acabam desistindo do boxe.

EE: Para você, o esporte é essencial?

EM: Sim. Para mim, o esporte deveria ser mais usado como ferramenta para inclusão social. Digo isso até pela minha própria experiência. No boxe, eu encontrei uma nova vida, uma nova família, mudei a minha forma de pensar e agir, me tornei uma outra mulher. Por isso, eu acredito que o esporte deveria ser incluído na vida de todas as pessoas.

EE: Como você encara a questão do doping no esporte?

EM: Eu acho um absurdo, uma falta de respeito com os outros atletas. Usar substâncias para ter mais desempenho é errado. Sem falar que essas drogas destroem o corpo e trazem muitos efeitos colaterais. Com certeza, eu não apoio.

 

Nota da Confederação Brasileira de Boxe sobre o corte das atletas Adriana, Erika e Roseli

Um atleta para pertencer à Seleção Brasileira de Boxe tem que ter comprometimento com o trabalho desenvolvido, disciplina e ética de trabalho, rendimento esportivo e respeito para com os companheiros de trabalho. Aqueles que não se encaixam nessas premissas básicas do esporte de alto rendimento, consequentemente não pertencem aos planos da CBBoxe.

Érica Matos, Roseli Feitosa e Adriana Araújo foram cortadas para que pudéssemos dar chances a outras atletas, neste início de um novo ciclo olímpico.

Ao reapresentar-se em SP, em janeiro deste ano, Adriana estava 14 Kg acima do seu peso de competição. Assim, falta de comprometimento, respeito e valorização ao trabalho realizado aqui são as razões para a sua não reconvocação. Tecnicamente, é exaltada por todos como de alto nível.

Érica e Roseli simplesmente abriram espaço para novos talentos. Ambas não se classificaram para os Jogos Olímpicos, e foram à Londres devido ao bom relacionamento da CBBoxe com a AIBA, e do COB com o COI. Potencialmente, são boas atletas também, mas acreditamos que estamos tomando a decisão técnica correta. Contudo, não está descartada a volta das atletas. Desde que demonstrem os pré-requisitos citados acima.

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Fotos: CBBoxe/ Arquivo pessoal da atleta


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