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Esporte que constrói o Brasil.

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Eric Maleson (presidente da CBDG)

12/04/2012
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ericmaleson_660O Brasil abaixo de zero

Por João Rabello e Thyago Mathias

“Eu sempre achei que o Brasil era um gigante adormecido, temos que despertar para o treinamento de alto nível.”

Eric Maleson, três vezes medalhista de bronze em Copas América no bobsled, é o grande precursor do desenvolvimento de esportes de gelo no Brasil. Além de ser o presidente e fundador da Confederação Brasileira de Desportos de Gelo (CBDG), entrou para história ao ser o primeiro brasileiro a participar do revezamento da Tocha Olímpica, durante os Jogos Olímpicos de Inverno de 2002, em Salt Lake City, nos Estados Unidos. Entre os atuais objetivos que tem perseguido à frente da Confederação, está a criação de um centro de treinamento de esportes de gelo no Brasil. Outra meta, conjunta com a Confederação Brasileira de Desportos de Neve (CBDN), é levar um número recorde de atletas para os Jogos Olímpicos de Inverno que acontecerá em 2014 na cidade russa de Sóchi.

Para os próximos anos, o presidente da CBDG acredita no desenvolvimento do hóquei ne gelo e no curling – esporte que se tornou sucesso de audiência na televisão brasileira durante a transmissão dos Jogos de Vancouver 2010 (Canadá).

Memória Olímpica: Você foi o primeiro piloto brasileiro de bobsled. Quando e como você passou a se interessar por esse esporte? Você morava fora do Brasil?

Eric Maleson: Eu estudava em curso de inglês como segunda língua, em Massachusetts (EUA) e me interessei pelo esporte. Tirei a licença que é necessária para pilotar o trenó e comecei a treinar visando a Copa América de 1995. Mas, na hora da inscrição, descobri que não poderia competir porque o Brasil não tinha uma confederação. Tentei me inscrever pela confederação de esqui, mas não foi possível. Então, visitei a Federação Internacional (de bobsled) em busca de informações do que era necessário e parti para montar a Confederação Brasileira dentro do regulamento internacional. O que me levou a isso foi o fato de ter treinado por dois anos e, na hora “H” de competir numa Copa América, não poder fazer isso, pela falta de uma organização como esta no país.

MO: Você teve uma experiência esportiva profissional anterior ao bobsled? Em que modalidade e quais foram suas principais competições e resultados nesta etapa?

EM: Durante toda minha vida, eu fiz esporte. Desde o colégio, joguei futebol, futebol de salão... fiz remo no (clube) Botafogo, na Lagoa (Rio de Janeiro). O esporte sempre esteve presente na minha vida.

MO: O bobsled é justamente a modalidade que aparece no filme Jamaica abaixo de zero (EUA, 1993), baseado na história real de uma equipe que vai para os jogos olímpicos de inverno sem jamais ter visto gelo e neve nas ruas. Que tipo de desafios a prática do bobsled e de outros esportes de inverno impõe a atletas de um país tropical como o Brasil? Existe algum tipo de estranhamento à presença brasileira por parte de atletas ou do público de países frios?

EM: É um filme legal que retrata a história real de uma equipe que competiu em 1988 e isso exemplifica uma coisa que eu sempre falo: nós vivemos no século XXI e condições climáticas não são mais obstáculos para um país participar ou não de um esporte de inverno. Para a Jamaica ou para o Brasil, impor obstáculos para praticar um esporte de inverno é a mesma coisa que, para um suíço, dizer que ele não pode fazer vôlei de praia ou iatismo. É um país que não tem praia ou mar, mas que se destaca nessas modalidades de verão. A Áustria é outro país que não tem mar, mas faz iatismo e já teve medalhistas olímpicos, assim como a Noruega, que, embora tenha mar, não tem condições climáticas para o vôlei de praia, mas já conquistou medalhas em Jogos Olímpicos. É isso que eu tento fazer, mostrar o outro lado da moeda.

MO: Quais foram as principais competições de que participou até o momento e seus respectivos melhores resultados?

EM: Eu comecei a competir em 1996 e parei de competir após os Jogos Olímpicos de Salt Lake City (2002). Meus melhores resultados são três medalhas de bronze em Copas América no bobsled em equipes (compostas por quatro atletas).

MO: Você foi o primeiro atleta brasileiro a carregar a Tocha Olímpica de inverno durante o revezamento da tocha de Salt Lake City, em Cambridge (EUA), em dezembro de 2002. Qual a importância e como foi a emoção de participar desse momento histórico para o Brasil?

EM: O divisor de águas para o Brasil em desportos de inverno foi o ano de 2002 em Salt Lake City. Nosso país, que normalmente contava com poucos atletas, levou para estes Jogos Olímpicos 12 competidores. A nossa confederação qualificou sete atletas, quatro do Bobsled, mais um reserva e dois do luge. Foi um marco para o Brasil. Foi quando entramos para o mapa dos Jogos de Inverno. Pouca gente sabe, mas a nossa delegação tinha mais membros do que a da Espanha, que é um país com centro de treinamento de inverno e com medalhas em Jogos Olímpicos.

MO: Desde que parou de atuar profissionalmente, você ainda pratica esporte por lazer?

EM: Eu continuo envolvido no esporte. Às vezes, dou uma descida no trenó para testar a pista. Não participo mais de competição, até porque fui eleito o vice-presidente da federação nacional além de ser o presidente da entidade brasileira. Quando desço, é para fazer uma avaliação técnica e dar uma olhada se está tudo certo com a pista, mas não mais para competir.

MO: Quais são as suas expectativas para os Jogos de Sóchi 2014, na Rússia? E, os planos até lá?

EM: Obviamente, a gente quer classificar atletas. Vamos tentar na patinação artística, no luge e no bobsled. Mas o nosso foco para os próximos quatro anos é a construção do nosso centro de treinamento nacional. A prática desses esportes em solo brasileiro é o que vai propiciar, realmente, o desenvolvimento desses esportes no país. Daí, a gente vai pegar os talentos para que possam vir a serem futuros atletas olímpicos e, quem sabe, dar ao Brasil as primeiras medalhas olímpicas de inverno.

MO: Em que ano esse projeto será concluído?

EM: O nosso planejamento é que o equipamento esteja funcionando até o fim do ano ou, no máximo, no início de 2012.

MO: A sede já foi escolhida?

EM: Nós temos várias cidades interessadas, mas Campo do Jordão (SP) saiu na frente e nossas conversações estão bem mais desenvolvidas, mas há outras cidades interessadas em receber a estrutura, como Gramado (RS).

MO: Como é possível financiar o esporte de gelo no Brasil a ponto de ousar um projeto como estes?

EM: Nosso principal orçamento vem da Lei Piva... da Loteria Federal, da Caixa Econômica Federal, através da Lei Piva. O dinheiro vem para o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e ele repassa para as confederações. Nós, da CBDG, recebemos o mesmo valor que a CBDN (Confederação Brasileira de Desportos na Neve): 800 mil reais. Já é um grande avanço termos esse orçamento. Além disso, nós conseguimos aprovar dois projetos pela Lei de Incentivo ao Esporte, lá no Ministério dos Esportes, em que as empresas podem, ao invés de pagar o imposto de renda devido, investir nos nossos esportes. O primeiro projeto é no bobsled e o segundo deles, na patinação artística. Ainda estamos captando. Fora isso, estamos tentando conseguir patrocínio. Já conseguimos o de uma multinacional coreana no ano passado e vamos tentar renovar para o ano que vem.

MO: Como você vê, de um modo geral, o desenvolvimento do esporte de inverno no Brasil?

EM: Desde que comecei a vir para os Estados Unidos, na década de 1980, e comecei a ver como os norte-americanos treinam, eu achei que o Brasil era um gigante adormecido. Temos que despertar para o treinamento de alto nível. Só faltava investir nisso. Com a aprovação da Lei Piva, as coisas melhoraram muito. Essa lei passa para o COB uma quantia muito boa. É claro que, se você comparar com as grandes potências olímpicas, é uma quantia pequena ainda. Até porque ela tem que ser dividida entre 29 confederações e, para um país do tamanho do Brasil, fica complicado. Mas não podemos ser mal agradecidos. Se não fosse o dinheiro da Lei Piva, a gente estaria numa situação muito ruim.

MO: Quem você apontaria como principal promessa do esporte de gelo brasileiro?

EM: Eu apontaria a Fabiana (Santos), do bobsled feminino, que sofreu um acidente recentemente na Alemanha, no qual ela só quebrou o nariz sem nenhuma lesão grave. Ela já voltou a treinar e está se recuperando. Considero-a um achado, ela é uma dessas atletas multitalentosas. Vejo grande potencial no bobsled feminino, no curling, que quebrou todas as audiências, e também no hóquei no gelo. Estarei, inclusive, no Congresso Mundial para definir vários parâmetros para desenvolver o hóquei de gelo no Brasil.

MO: Que mensagem você deixa para os jovens a respeito do doping?

EM: Eu, como ex-atleta, posso dizer o seguinte: todo cuidado é pouco. Acho que tomar substâncias proibidas é a pior coisa que você pode fazer pro seu corpo, porque você pode conquistar um resultado agora, mas vai pagar muito caro por ele lá na frente, seja juridicamente ou, pior ainda, com a própria saúde. A minha mensagem é: não se deixe enganar pelo doping. Ele te dá um ganho físico momentâneo mas o preço que você tem que pagar é muito mais caro. Quando você faz doping, está acabando com sua integridade e integridade não se vende. Então, pense três vezes antes de fazer uma besteira dessas.


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