Últimas Notícias

Homem é preso após ameaça de bomba e tenta levar avião a Soshi...
Esporte que constrói o Brasil.

ENTREVISTAS

Emilio Fernandez (Pesquisador)

21/05/2014
Esportes relacionados:

heademiliofernandez_1_680


Rio 2016: mais para Atenas ou para Barcelona?

 

Por Fabiana Bentes ( via Skype: Rio - Barcelona)

O movimento olímpico está aí para o Rio de Janeiro aproveitar. A transformação da cidade é absolutamente possível mas, para isso acontecer, deve haver responsabilidade e vontade política. Podemos seguir o caminho de Atenas, que não é um bom exemplo, ou o de Barcelona, que ainda colhe os frutos por ter organizado os Jogos Olímpicos em 1992. E lá se vão mais de 20 anos...

Emílio Fernandez, um profissional renomado nos campos olímpicos, ilustra, define e mostra, com exemplos, o caminho para que os Jogos  no Brasil sejam um sucesso. Resta saber para que lado as autoridades responsáveis por Rio 2016 querem seguir e aonde querem chegar. A boa notícia é que, segundo Emilio, mesmo atrasados, ainda dá tempo.

 

Esporte Essencial: Qual é a sua percepção, sendo de fora do país, sobre a organização dos Jogos Olímpicos no 1_200_11Rio de Janeiro?

Emilio Fernandez: Se temos um pouco de memória histórica, qualquer pressão sobre o país que organiza os Jogos Olímpicos por parte do Comitê Olímpico Internacional (COI), como dizer que tudo está atrasado e que precisa melhorar, já aconteceu em outros Jogos. Nos Jogos de 2004, em Atenas, um ano e meio ou dois anos antes, ou seja, o mesmo período de tempo, o COI disse: “Cuidado, está tudo muito atrasado nas infraestruturas, vila olímpica e em diversos aspectos organizacionais”. Estava tudo claro que seria um desastre. Atenas, então, mudou muita coisa e, ao final, os Jogos Olímpicos de Atenas foram um sucesso.

EE: Um sucesso em parte: início, meio e fim. Houve corrupção e o legado foi bastante duvidoso...

EF: O problema dos Jogos Olímpicos de Atenas é que a fase pós-olímpica coincidiu, 4 anos depois, com o início da crise econômica da Grécia, em 2008. Além disso, algumas das zonas olímpicas e uma parte importante das instalações não estão conservadas como deveriam. Honestamente, não estão bem conservadas... É correto. Mas como Jogos Olímpicos, como organização, foram um sucesso.

 

jogos_olmpicos_atenas_-_arquivo_pessoal_emilio_660

Local de competição da natação cheio nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004

 

EE: Deixe-me enfatizar.  Nos Jogos de Atenas houve um gasto público importante.

2_200_08EF: Sim, e, claro, aumentou a dívida pública... Mas também há outro modelo, que é o europeu, de Barcelona e de Londres, este último de certa forma, mas que diz que os Jogos Olímpicos são fundamentalmente um investimento que, com uma boa gestão, transformam positivamente a cidade. Essa é a tese que defendemos no Centro de Estudos Olímpicos da Universidade de Barcelona, e isso foi o que aconteceu em 1992 nesta cidade. Aqui, por exemplo, menos de 20% do investimento público total foi em instalações olímpicas, celebração e na organização durante as duas semanas; o restante, 80%, foi para melhorar a cidade.

EE: Creio que Barcelona é um case de sucesso pela gestão, pelo gasto público e privado, mas, principalmente, por um legado sustentado até hoje. Quando você fala sobre Atenas e Barcelona, tenho uma visão clara que o modelo que queremos é o de Barcelona e não de Atenas. Como garantir esse modelo para o Rio?

EF: Essa é uma pergunta de um milhão de dólares (risos). O modelo  de Barcelona é baseado numa combinação de investimento público e privado, mas que o investimento público fica centralizado na melhoria da infraestrutura da cidade para que fique como legado, como por exemplo e principalmente, a rede de transporte.  O pouco que conheço do Rio, quando visitei em 2011, vi que a cidade não conta com um sistema de transporte permanente e de qualidade como um metrô para toda a sua extensão. Isso seria um grande investimento e legado, isso é uma oportunidade maravilhosa. E para o modelo europeu, isso não constitui como um gasto e sim como um investimento com resultado a longo prazo. Em Barcelona, várias linhas de metrô, de ônibus, foram criadas. Além disso, fizeram muitas obras de saneamento. A cidade estava de costas para o mar. Depois da industrialização no século XIX, foram criadas indústrias justamente nas áreas de praias. Os Jogos deram o impulso para recuperar algumas praias que estavam destruídas do ponto de vista ambiental pela construção destas fábricas. Se no Rio de Janeiro, independente do custo – o investimento é alto porque as necessidades são grandes – fazem obras que melhorem a qualidade de vida da comunidade, como transporte e saneamento, isso será bom em longo prazo. Por exemplo, os grande anéis viários foram construídos em Barcelona, em 1992, rodeando a montanha e o litoral, e são hoje as vias que abraçam Barcelona e deram para a cidade uma excelente qualidade de trânsito.

 

barcelona_1992_reformulada_620.

Barcelona reentruturada para os Jogos Olímpicos de 1992 (Foto: Centro Oficial de Turismo Espanhol/Divulgação)

 

EE: Quando a Espanha recebeu os Jogos de 1992, os Jogos eram bem-vindos no país. A Espanha já tinha um estrutura mínima de saúde, transporte e educação absolutamente aceitáveis. Quando o Rio de Janeiro ganhou, um de seus concorrentes era Madrid e, de certa forma, já havia uma crise na Europa. Interessante que, mesmo com uma experiência positiva, os espanhóis não estavam tão de acordo em receber os Jogos novamente. E o Brasil, por exemplo, que nunca teve a estrutura da Espanha, ganhou o direito de realizar os Jogos. Ou seja, me parece estranho que os cidadãos de Madrid não tenham visto os Jogos como um investimento, já o Brasil, mesmo com toda a infraestrutura básica limitada, fez com que a população acreditasse que os Jogos mudariam muita coisa. Estranho este raciocínio que para o Rio seria importante e para Madrid não. 

lula_e_rogge_-_beth_santos_-_divulgao_2-texto_460EF: Você tem razão. Mas vou te responder contando uma história. Uma reunião de quatro pessoas, entre 2005 e 2006, na Europa, sendo uma destas pessoas que me contou como foi. Um jantar com o ex-presidente Lula e o presidente Rogge [ex-presidente do COI]. Rogge questionou Lula sobre o porquê de querer organizar os Jogos Olímpicos. E Lula, com uma resposta surpreendente, falou com força, segurança e capacidade de convencimento da seguinte forma: “Olha, presidente Rogge, diante dos Jogos no Rio, eu pretendo duas coisas principalmente: a primeira é colocar o meu país, o Brasil, no mapa do mundo, e o Rio de Janeiro no mapa das cidades globais, competitivas, modernas e que atraem investimento e o desenvolvimento econômico do país. A segunda coisa é aproveitar os Jogos Olímpicos para desenvolver programas de educação e melhorias gerais para a sociedade. Tirar milhares de jovens que vivem nas ruas, nas favelas e nas comunidades menos favorecidas. Sem estes programas educativos, de melhoria social, vamos perder estes jovens”. A pessoa que me contou e que estava presente neste jantar disse que Rogge ficou bastante surpreso e de forma positiva, o deixando bastante convencido. Não era a chave da vitória de Rio 2016, mas foi algo muito importante para a candidatura da cidade. 

4_200_07EE: Então, Jacques Rogge viu em Lula a oportunidade dos Jogos Olímpicos favorecerem um desenvolvimento social. Mas creio que Rogge, no momento, não tinha amadurecido o que poderia causar uma má gestão pública dos recursos e que ainda precisava desenvolver as condições de saúde, transporte, educação e segurança. Vieram os protestos e o que preocupa muito aos cidadãos brasileiros é o que vai acontecer com estes gastos 
públicos daqui pra frente.

EF: A única coisa que o COI pode fazer neste sentido é pressão para que as coisas tenham resultado. Nada se cria em quatro, cinco, seis ou sete anos, mesmo tendo os Jogos. E as mudanças necessárias para o Brasil são a médio e longo prazo. Porém, se aproveitarem bem os Jogos Olímpicos, é um 10_200_06impulso para a qualidade de vida dos cidadãos. O Governo brasileiro precisa aproveitar este empurrão. É a capacidade transformadora do olimpismo.

EE: Realmente acredito que a decisão foi esse argumento de que os Jogos Olímpicos transformam. Lembro que havia uma enorme quantidade de pessoas em Copacabana festejando esta conquista. Mas agora, com a Copa do Mundo, tudo mudou porque as promessas não foram cumpridas... Como é a sua percepção?

EF: Na Copa, o legado principal são os estádios, porque as melhorias são limitadas por serem muitas sedes. Nos Jogos, é diferente. Tudo acontece em apenas uma cidade, com atletas de 204 países competindo ao mesmo tempo, em 17 dias. Isto é, desde que se organize bem, existe a construção de uma imagem internacional positiva, se for respeitada a capacidade transformadora dos Jogos com um legado sustentável.

5_200_08EE: E sobre a formação do Brasil como potencia olímpica?

EF: O Brasil não é uma potência olímpica. Espanha também não era e agora também não é uma potência. Mas para que serviram os Jogos Olímpicos do ponto de vista de formação de atletas de alto rendimento? Criaram-se dois centros de alto rendimento, um em Barcelona e outro em Madrid, e também um sistema de financiamento de bolsas para esportistas, o plano ADO, financiado por empresas privadas com parceria do Comitê Olímpico Internacional. Esse plano permitia que os atletas que fossem competir nos Jogos, até mesmo vários anos antes, vivessem da prática exclusiva do esporte, sem precisa trabalhar enquanto treinavam e, claro, vivessem de forma digna, sem luxo, mas digna. Esse legado continua e é um legado que pode acontecer nos Jogos de 2016.

EE: Como é o papel da mídia para os Jogos Olímpicos?

EF: A crítica da imprensa aos Jogos Olímpicos aconteceu em todas as edições, inclusive em Barcelona e não será diferente com o Brasil. Há muitos elementos críticos como organização, se as obras vão terminar a tempo, se o transporte público vai falhar, se o orçamento vai ser respeitado, enfim, uma série de críticas. Sempre, dois anos antes, há uma enorme quantidade de elementos para criticar a organização e isso aconteceu em todos os Jogos. 6_200_08Mas há também um elemento comum quando começam os Jogos Olímpicos: quando a chama olímpica acende, as críticas cessam. Os Jogos têm tanta força, do ponto de vista midiático como também do ponto de vista social, que os elementos de críticas se apagam, e todos ficam com atenção para o esporte. Quando acabam os Jogos, se não são um desastre, e quero ser otimista e pensar que não vão ser um desastre no caso do Brasil, só vão recordar a parte boa. Isso aconteceu nos anos anteriores, em outras edições.

EE: Você poderia me dar um exemplo recente?

EF: Por exemplo os Jogos Olímpicos na China, em 2008. Havia uma grande crítica internacional, porque até mesmo crítica interna neste país não existe pela falta de liberdade de comunicação e de informação. O partido comunista controla tudo e não há essa liberdade formal da imprensa. Uma das críticas, muito potentes, foi a de como o próprio COI permitiu os Jogos Olímpicos num país aonde não há liberdade pública, e sim uma ditadura comunista. Essa crítica se alastrou por países europeus, Austrália e Estados Unidos, até a véspera dos Jogos. E a crítica ainda se agravou com a questão da violação dos direitos humanos. Mas quando começaram os Jogos, as críticas, como citei, cessaram.

EE: Qual a razão disso acontecer?

EF: A primeira é que as cadeias de televisão pagam muito dinheiro pelos direitos audiovisuais de transmissão dos Jogos e, assim, o esporte volta a ser o protagonista. Além disso, os meios audiovisuais do país sede, que tem direito exclusivo sobre esta transmissão, obviamente também focam no esporte. Mesmo que outros meios que não dispõem da transmissão queiram criticar, o efeito é bloqueado pelo esporte durante 17 dias. 

EE: Penso que o importante é este movimento olímpico para o esporte, para o evento, até mesmo porque, como você citou, não houve, mesmo depois dos Jogos de 2008 e das críticas, mudança alguma sobre a questão dos direitos humanos na China. O que vai acontecer aqui é que os Jogos vão dar certo, mas a estrutura básica como saúde, segurança, educação e transporte, sendo este último o que mais está apresentando mudanças, talvez não sofram transformação efetiva se não houver um planejamento real, vontade política e investimento público 7_200_09responsável.

EF: Sim. É isso. E respeito a opinião pública brasileira. Mas há uma coisa importante: o discurso oficial do Comitê Olímpico Internacional é que haja sustentabilidade, do ponto de vista ambiental e orçamentário. Os Jogos Olímpicos não precisam ser tão caros, precisam ser justos. Então há uma responsabilidade também das Federações internacionais, que querem olhar para os seus próprios interesses e acabam ditando regras que beneficiam seus esportes sem o mesmo discurso do COI. Há então uma contradição do discurso sincero do COI e depois o das federações internacionais olhando para seus interesses e não tendo critérios de sustentabilidade.

9_200_06EE: Alguma mensagem sobre os Jogos Olímpicos do Rio? 

EF: Estou convencido sobre o que pensa o COI sobre o olimpismo: a grande capacidade transformadora dos Jogos Olímpicos. E que no Rio de Janeiro esta  capacidade é infinitamente maior do que a de qualquer outra cidade que tenha sido candidata. A comunicação da candidatura do Rio chegou ao coração das pessoas, fazendo a mim mesmo ficar muito emocionado. Logicamente, minha cidade favorita era Madrid, mas reconheço que emocionou, até mesmo eu chorei. No terreno das emoções, Brasil é campeão, fazendo chorar de emoção, mas fazendo sorrir principalmente.

 

* Emilio Fernández Peña é professor no Departamento de Comunicação Audiovisual e Publicidade da Universidade Autônoma de Barcelona e diretor do Centro de Estudos Olímpicos e Esportes CEO-UAB (Website: ceo.uab.cat). Como diretor do CEO-UAB é diretor da Cátedra Internacional de Olimpismo e do Comité Olímpico CEO-UAB. Doutor em Ciências Sociais, 2002 da Universidade do País Basco e autor de mais de 40 publicações acadêmicas (livros, capítulos e artigos). Como consultor, ele tem sido responsável pela seção de design e roteiro da exposição permanente na mídia e na produção dos Jogos Olímpicos do Museu Comitê Olímpico Olímpico Internacional, em Lausanne, na Suíça. Emilio também é responsável pelo curso MOOC: Jogos Olímpicos e a mídia,  que começará em junho próximo na plataforma Coursera, que tem milhares de alunos matriculados ao redor do mundo. Seus interesses de pesquisa atuais são Redes Sociais e esporte global; Cultura da Internet; direitos esportivos e de TV por assinatura na Europa e nos Estados Unidos. Também é o líder do módulo de mídia e Comercialização dos Jogos Olímpicos do Master of Arts Estudos Olímpicos Internacionais sobre a organização da Universidade Alemã do Esporte (Colónia); Loughborough University, Universidade de Lion e a UAB. Emilio tem sido um professor e palestrante convidado em mais de 10 universidades, incluindo a Universidade de Sourthern Califórnia (Annemberg School for Communication), Universidade de Bologna, da Universidade de Pequim, Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, a Pontifícia Universidade de Rio Grande do Sul em Porto Alegre ou o Kapodistrian Universidade Nacional de Atenas.

 

Curso Jogos Olímpicos e Mídia:

O curso Mooc dos Jogos Olímpicos e do campo da mídia é grátis e livre. Explora a forma como a mídia cria a imagem dos Jogos como um evento global, que ajudam a financiar o movimento olímpico, ou pela televisão criar estrelas do esporte mundial. O curso também explora como o movimento olímpico interage com o público, através de mídias sociais, e como a marca olímpica, entre muitos outros assuntos. O curso começa em 02 de junho de 2014 e é totalmente gratuito. Os alunos que concluírem o curso receberão um certificado oficial assinado pelo instrutor. O curso conta com 4.000 alunos matriculados em cinco continentes. O curso os Jogos Olímpicos e a mídia também apresentará as entrevistas mais importantes no mundo da comunicação, tais como do Diretor de Marketing do COI, Timo Lume; o CEO de serviços de radiodifusão do COI, Yiannis Exarchos; além de conhecidos atores como o jornalista sobre temas Olímpicos, Alan Abrahamson.

Para fazer inscrição, clique aqui.


Fatal error: Call to a member function getLink() on a non-object in /home/storage/a/b4/92/memoriaolimpicabrasi/public_html/incs/coluna_direita_noticias.codigo.php on line 27