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Eduardo de Rose (referência em Doping)

27/05/2012
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derose_peq_431Por Patrícia Osandón

"Os Jogos Olímpicos exigirão muito do Brasil, pois serão efetuados em duas semanas cerca de 6.000 controles de urina e sangue, usando uma tecnologia que ainda não se tem aqui, como a detecção de doping em sangue e algumas técnicas de detecção em urina".

O professor e pesquisador Eduardo de Rose é referência máxima quando o assunto é doping. Médico, especialista em educação física, saúde e medicina do esporte e doutor em medicina do esporte, de Rose acumula um currículo extenso, com muitas experiências e prêmios. É professor titular de medicina do esporte da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e, também, membro fundador da Agência Mundial Antidoping (WADA), onde integra o seu Conselho de Fundação e a Comissão de Saúde, Ciência e Medicina, desde 1999.

Além disso, é membro da Comissão Médica do Comitê Olímpico Internacional (COI) desde 1984, do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) desde 1987, e presidente da Comissão de Combate ao Doping do Ministério da Saúde desde sua criação, em 2004. Preside a Comissão Médica da Organização Esportiva Pan-Americana (ODEPA) desde 1979 e a Comissão Médica da Organização Desportiva Sul-americana (ODESUR), desde 2002.

Com todos os anos de dedicação ao esporte, de Rose acumula experiência de sobra sobre o universo esportivo brasileiro e mundial. Em entrevista exclusiva ao Portal Memória Olímpica, de Rose contou sobre doping, papel dos atletas e das confederações diante do problema, e cenário do doping diante da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 e como o doping deveria ser tratado no Brasil.

Memória Olímpica: O que caracteriza um doping?

Eduardo de Rose: Segundo a definição da Agencia Mundial Antidoping, existem três fatores que devem ser considerados em relação ao assunto: o aumento artificial de desempenho físico, o prejuízo para a saúde do atleta, e o fato de ser contrário aos valores do esporte. Quando dois destes três elementos estão presentes, a substância ou o método pode ser incluído na lista proibida. Na prática, entretanto, doping é o que consta da lista proibida da WADA.

MO: Os métodos do antidoping atuais estão evoluindo na mesma proporção que os avanços da dopagem?

ER: Devemos considerar que, para colocarmos na lista algo, este algo deve primeiro existir. Não se pode ser contra algo que ainda não existe. O que é vital para o sistema de controle é que, uma vez que uma nova substância ou um novo método para dopar seja criado, ele seja imediatamente conhecido e que exista uma forma eficaz de fazer sua detecção.

MO: Você acha que os atletas estão mais conscientes sobre as questões de doping? Eles estão mais preocupados com as substâncias que ingerem?

ER: Existem dois tipos básicos de doping: o acidental e o voluntário. O acidental pode ser combatido por meio da informação (vertical) e da educação (horizontal), e este tipo de doping tem diminuído em virtude de uma consciência maior dos atletas. O doping intencional, mais difícil de detectar, é definido pelo entorno do atleta, que, muitas vezes, é obrigado a aceitá-lo por treinadores, dirigentes, preparadores físicos ou mesmo médicos. Este permanece sempre presente, em uma proporção difícil de ser estimada.

MO: Qual é o papel das equipes técnicas e das confederações diante desse problema? Há orientação suficiente? Por outro lado, não há quem invista justamente no estudo de substâncias que possam ser usadas sem serem detectadas nos exames? Há um interesse genuíno em se banir o doping dos esportes?

ER: Os governos e as autoridades esportivas buscam realmente combater o doping no esporte. Mas o grande volume de dinheiro presente atrai muito segmentos, como, por exemplo, o crime organizado, que busca conseguir estas substâncias nas indústrias farmacêuticas, nos laboratórios, nos hospitais ou, mesmo, nas farmácias para traficá-las e revendê-las aos atletas. A Interpol considera este mercado mais rentável que o trafico de drogas, pois é muito pouco combatido.

MO: Como é trabalhar com a luta contra o doping e atender a uma rede social com atores com interesses divergentes? Qual é o interesse dos grandes laboratórios nessa história?

ER: Hoje, os grandes laboratórios apoiam a luta antidoping e informam para a Agência Mundial Antidopagem todas as suas drogas que possam ser eventualmente usadas para o aumento artificial do desempenho físico. O problema maior, no entanto, são laboratórios informais e subterrâneos que produzem apenas produtos como anabólicos esteroides e hormônios para serem exclusivamente usados como agentes ou métodos dopantes.

MO: Quais as expectativas para o cenário do doping diante da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016? Como fica o Brasil, dada a situação do Ladetec?

ER: Não creio que a Copa de 2014 seja um problema para o Brasil, em virtude do baixo numero de controles que serão feitos. Já os Jogos Olímpicos exigirão muito mais, pois serão efetuados em duas semanas cerca de 6.000 controles de urina e sangue, usando uma tecnologia que ainda o Ladetec não possui, como a detecção de doping em sangue e algumas técnicas de detecção em urina. Entretanto, se houver uma ajuda do Governo Federal, em especial por meio do Ministério do Esporte, o Ladetec poderá chegar ao nível técnico necessário, pois conta com excelentes profissionais. Deveremos, obrigatoriamente, pensar em um prédio novo, com um espaço muito maior que o atual, como novos equipamentos, e domínio de novas técnicas através de treinamento de pessoal no Brasil e no exterior. Ademais, as leis que regulam a circulação de reagentes e amostras de urina e sangue por nossas fronteiras devem ser modificadas, pois, hoje em dia, está muito complicado receber ou enviar amostras ou importar reagentes e equipamentos.

MO: Quais são os grandes perigos do doping em relação aos atletas que utilizam substâncias dopantes, a curto e longo prazos?

ER: Existem dois problemas que devem ser considerados: uma desvantagem ilegal em comparação com os outros atletas, que é o aspecto ético de uma competição, onde se valoriza prioritariamente o treinamento e a genética, e o problema de saúde do atleta que, mais cedo ou mais tarde, será prejudicada por este uso indevido.

MO: Qual a melhor forma de disseminar uma cultura antidoping? Qual a importância dessa informação desde o início da vida do atleta?

ER: No aspecto preventivo, devemos considerar importante um nível adequado de informação para o atleta de elite, mas também um nível de educação antidopagem que se inicia no momento que o menino começa a dedicar-se a um esporte, em torno de sete anos. Em muitos países, a informação sobre o problema faz parte do currículo escolar, em uma disciplina chamada de Educação ao Olimpismo, que discorre sobre a filosofia do Movimento Olímpico Internacional que originou os Jogos Olímpicos.

MO: Como combater o doping no Brasil e na América Latina? Há algum diferencial na cultura brasileira e latina em relação ao doping?

ER: O latino tem uma tendência muito grande para a automedicação, o que pode ser a causa de um doping acidental, que é o principal problema em nossos países. O combate ao doping deve ser feito através de NADOs (Agências Nacionais Antidopagem), que podem pertencer ao Governo ou ao Comite Olímpico. Na América Latina, estas agências são basicamente governamentais. O Brasil criou sua agência no fim do ano passado, mas ela ainda não está regulamentada em termos de pessoal e de orçamento, e o Ministério do Esporte acredita que ela possa estar operacional até o fim do corrente ano.

MO: O que você pensa sobre o chamado “doping social” (uso de maconha, etc.) por atletas?

ER: O Comitê Olímpico Internacional claramente se opõe a este uso, considerando que o mesmo constitui uma porta aberta a drogas mais lesivas à saúde e que, sobretudo, é algo que não é compatível com os valores do esporte.

MO: Além dos efeitos físicos, quais são efeitos psicológicos comuns em quem faz uso do doping?

ER: Ademais de fraudarem a parte ética da competição, o uso do doping prejudica, mais cedo ou mais tarde a saúde dos atletas, razão pela qual estas substâncias não devem ser permitidas por quem, em última instância, zela pela integridade do atleta, seja ela física, mental ou social.

MO: Doping é – ou será, em um futuro próximo – caso de polícia? Qual a previsão pelas legislações civis, ao redor do mundo, sobre as substâncias que o esporte já proíbe?

ER: O doping já é caso de policia na maioria dos países da Europa, na Austrália e Nova Zelândia, e mesmo em alguns países da América Latina, como a Argentina. No Brasil, embora o doping não seja prescrito no Código Penal, deveria receber maior atenção da Polícia Federal ou do Ministério Publico Federal, uma vez que muitas vezes encontramos por trás dele o crime organizado, assim como o roubo e o tráfico de substancias. A Interpol tem em Lion um escritório que se dedica integralmente ao doping no esporte e que fornece informações para todas as Policias Federais.

Acesse o site do professor Eduardo de Rose: www.controlededoping.com.br


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