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Douglas Brose (Caratê)

18/08/2015
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Por Katryn Dias, com colaboração de Fernando Hawad

World Games, Premier League, Jogos Sul-Americanos e Campeonatos Mundial, Pan-Americano e Sul-Americano. Todos esses títulos fazem parte da coleção de Douglas Brose. Mas dia 23 do mês passado, o carateca adicionou uma nova linha ao currículo, cobiçada desde 2007: campeão dos Jogos-Pan-Americanos.

Mesmo completando a lista de desejos, Douglas ainda pode sonhar com outra medalha: a olímpica. Isso porque o caratê está concorrendo para entrar no programa dos Jogos de 2020. E tem chances reais de ser incluído, já que cumpre as exigências do Comitê Olímpico Internacional (COI) e é um esporte popular. 

Entenda o caratê

 

douglas-brose-mundial-facebook-texto_432Esporte Essencial: Como você conheceu o caratê e como começou a se envolver com a modalidade?

Douglas Brose: Sempre gostei muito de luta, de esporte. Então, aos sete anos me matriculei em uma academia próxima à minha casa, em Florianópolis, e comecei no caratê. Uns dois meses depois, chegou um professor de São Paulo oferecendo a modalidade na escola em que eu estudava. Quem era aluno podia fazer aulas de graça. Eu aproveitei, saí da academia para praticar na escola mesmo. Esse foi o meu primeiro contato com a modalidade e, depois dali, comecei a participar de competições regionais e estaduais. Fui pegando o gosto pela coisa até chegar à seleção brasileira, em 2001. Consegui a vaga para a seleção e estou até hoje defendendo o país.

EE: Você chegou a praticar outros esportes?

DB: Pratiquei sim. Fiz escolinha de futebol, fiz muitos outros esportes, mas não levei nada tão a sério. Não cheguei a ser tão profissional em outros esportes como sou com o caratê. Mas tive vivência de outros esportes, como skate, kitesurfe, surfe. 

olho1_200EE: Como foi a decisão pelo alto rendimento e por começar a competir fora do país?

DB: Eu sempre me dediquei cem por cento ao que propunha fazer. No caso do caratê, após começar a competir, a ter bons resultados estaduais, em 1999 fui campeão brasileiro pela primeira vez, com cerca de 13 anos. A partir desse título, vi que podia ter um futuro dentro da modalidade e logo em seguida fui convocado para a seleção brasileira. Então, aos 14 anos, passei a me dedicar totalmente ao caratê. Sempre tive muita visão no sentido de saber onde estavam os melhores do mundo, quais eram os países com mais representatividade no caratê. Sabia que os melhores estavam na Europa. Então, comecei a me dedicar para treinar e competir com eles. Assim, tomei gosto e não parei mais.

olho2_200EE: Algumas pessoas envolvidas com a modalidade consideram você o maior carateca brasileiro de todos os tempos. O que você acha do título?

DB: Muita gente fala isso. Nós tivemos excelentes caratecas no Brasil inteiro. Mas, por conta dos meus resultados, as pessoas dizem que marquei a história do caratê, que sou uma das maiores referências. Isso, logicamente, é devido aos títulos. Nenhum brasileiro tem duas medalhas em Campeonatos Mundiais, por exemplo. Eu tenho quatro: duas de ouro, uma de prata e uma de bronze. É legal ver que as pessoas valorizam o seu trabalho, os seus resultados. Eu sempre procurei fazer coisas para tentar ser reconhecido dentro do esporte.

EE: Dentro da sua coleção de medalhas, há alguma com significado especial para você?

DB: A do primeiro título mundial. Essa foi especial. Foi em 2010. Eu já tinha sido bronze no Campeonato Mundial de 2008. Aí em 2010 fui campeão. Foi um fato inédito. Nós não tínhamos ainda um homem campeão mundial. Realmente aquela conquista mexeu comigo.

 

Os Jogos Pan-Americanos

 

EE: Antes da edição de Toronto, você já tinha conquistado dois bronzes em Jogos Pan-Americanos. Na época, você ficou satisfeito?

DB: Olha, na verdade, nunca saí satisfeito. Eu acho que estava no mesmo nível dos outros atletas e talvez por falta de experiência, ou por não saber dominar tão bem a luta, acabei perdendo nas semifinais e ficando com a medalha de bronze nas duas últimas edições dos Jogos. Mas não me contentei em nenhum momento porque sabia que poderia ter conseguido mais. 

 

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Ao ouvir o hino nacional, Douglas se emociona no alto do pódio no Pan de Toronto 

 

 

olho3_200EE: Isso serviu de experiência? 

DB: Com certeza. Acredito que, por já ter passado por tudo isso, consegui chegar de uma forma diferente aos Jogos de Toronto. Faltava esse ouro nos Jogos Pan-Americanos. Era uma medalha muito desejada e batalhei muito para conseguir.

EE: Tem alguém em especial que você gostaria de dedicar essa medalha de ouro?

DB: São tantas pessoas envolvidas no processo... Mas tem uma especial, que está sempre comigo, me ajuda a treinar, é uma inspiração: a minha esposa, que também é a técnica da seleção brasileira. Ela certamente foi uma das grandes responsáveis por eu ter conseguido atingir meu objetivo.

EE: Sua esposa, Lucélia Ribeiro, já ganhou o ouro pan-americano, inclusive, não é? 

DB: Ela ganhou em 1999, 2003, 2007 e 2011. Foram quatro ouros consecutivos. 

 

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 Ao lado da esposa Lucélia Ribeiro no Pan do Rio, em 2007


EE: Como que foi assistir isso ao lado dela?

DB: É uma história engraçada... Em 1999, eu assisti pela televisão. Em 2003, acompanhei pela internet. Já em 2007 e 2011, pude ver ao vivo. Foi uma emoção muito grande. No México, na última vez, foi muito emocionante. Eu tinha acabado de fazer a minha semifinal e tinha perdido. Ela ia lutar logo depois de mim. Ela ficou abalada com a minha derrota, mas conseguiu reverter e ganhou a luta dela. Foi campeã pan-americana pela quarta vez.

 

 

2014: o ano perfeito

 


douglas-brose-premier-league-texto_450EE: No ano passado, você foi campeão sul-americano e mundial. Dá para dizer que foi um ano perfeito?

DB: Ah, foi! Eu não posso reclamar (risos). O ano de 2014 foi muito bom. Tive a conquista dos Jogos Sul-Americanos, do Campeonato Pan-Americano e do Campeonato Mundial. Foi um ano perfeito. Ganhei as duas principais competições continentais e ainda o Campeonato Mundial. 

EE: Como superar isso neste ano? É possível?

DB: Superar o resultado do ano passado neste ano é mais complicado por conta do nível das competições. Mas esse ano também está muito bom. Fui campeão pan-americano de novo, dos Jogos Pan-Americanos de Toronto, da etapa do Brasil da Liga Mundial e do US Open... Só não participei do Sul-Americano porque foi uma semana depois da Liga Mundial. Esse ano, por incrível que pareça, está muito bom também. Não tenho do que reclamar. Agora com o Pan, fechei esse semestre com chave de ouro. No segundo semestre, temos mais três ou quatro etapas que são importantes para o ranking mundial. 

olho4_200EE: Então, nesse ano é só Liga Mundial para você pela frente?

DB: Isso. A competição mais importante nesse final de semestre era o Pan. Quando saí do Mundial, já estava focando nos Jogos Pan-Americanos. No segundo semestre tem mais quatro etapas da Liga Mundial, que são importantes, por conta do ranking. Mas aqui para o continente, os Jogos Pan-Americanos foram como as nossas Olimpíadas. 

 

 

 

Pequenas dificuldades

 

olho6_200EE: Geralmente, quando entrevistamos atletas de modalidades que não são olímpicas, eles costumam falar sobre as dificuldades para se manter no esporte. Falta de apoio, falta de estrutura. Você sente isso sempre foi bom?

DB: Sempre, não. Para uma modalidade que não tem a visibilidade de uma Olimpíada, é difícil ter mais apoio, mais patrocinadores. Mas, de qualquer forma, temos que tentar reverter isso. Temos que mostrar sempre um trabalho profissional para que os patrocinadores, ou o governo mesmo, estejam sempre motivados a apoiar. Eu sempre batalhei para mostrar um trabalho bem profissional e conseguir esses apoios. Claro que no início da minha carreira tive que deixar de ir a muitas competições por falta de recursos. Mas, hoje, depois de muito trabalho, tenho grandes apoiadores que me suportam para que eu consiga dar sequência à minha carreira. 

olho12_200EE: Então, você acha que a perspectiva é melhorar o apoio ao caratê?

DB: Sim. Até por outro motivo... O caratê está numa campanha muito forte para entrar nos Jogos Olímpicos de 2020. Agora em setembro vai sair a decisão do Comitê Olímpico Japonês, dizendo se eles vão indicar o caratê para entrar no programa. Em agosto de 2016, após os Jogos do Rio, vai ter a decisão final do COI. Então, estamos numa briga grande – no bom sentido (risos) – para que o caratê se torne esporte olímpico. Com isso, nós vamos conseguir difundir cada vez mais a modalidade. Seria muito bom para todos os caratecas do mundo (risos)!

EE: Com certeza! Mas hoje você tem patrocínio individual?

DB: Na verdade tenho apoios, tanto do Governo Estadual, como do Federal e do Municipal, que suportam todas as minhas viagens. Paralelo a isso, também tenho uma empresa, dentro do ramo dos esportes, que é uma das mais grandiosas dentro do caratê, que é a Aralazo. Por ser patrocinado por ela, há dois anos faço a representação dessa marca aqui no Brasil. Então, hoje também sou empresário nessa parte esportiva, porque facilita muito para manter a vida, tanto de atleta, como a vida pessoal.

 

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Douglas em campanha pelo caratê nas Olimpíadas, como é possível ler em sua camisa

 

 

EE: Então você já tem um plano para o pós-carreira, não é?

DB: Já. Tenho a minha empresa constituída. Eu trabalho nesse ramo de importações  de materiais esportivos dentro do caratê. Foi uma porta que a modalidade me abriu e abracei. Vai ser um ponto que vou atacar, ainda mais, após a minha carreira como atleta.   

 

O caratê brasileiro

 

olho7_200_01EE: Como você vê a geração brasileira atual da modalidade? Nós temos outros representantes fortes? E a futura? 

DB: Temos sim. Nós tivemos sempre um caratê muito forte na América. Durante um período de tempo, os outros países evoluíram muito, então o Brasil acabou ficando um pouco atrás. Mas o país se reestruturou e é uma das maiores potências do caratê pan-americano. A nível mundial, ainda não somos tão fortes como no pan-americano. Mas é uma geração nova que está se estruturando bem e vem com uma cabeça bem mais aberta, disposta a mudar para melhorar, competir, viajar. Isso faz com que a nossa seleção brasileira esteja evoluindo mais a cada ano.

olho8_200EE: Nós temos renovação nessa equipe, gente nova começando na base com bons resultados?

DB: Tem muita gente na seleção de base fazendo um bom trabalho. Mas precisamos que os atletas continuem se dedicando e essa é uma questão difícil, às vezes muitos param por questão de apoio. Temos uma geração boa, que se for trabalhada da maneira correta, tem tudo para manter o nível pan-americano que a seleção atual já tem. E se trabalhar mais forte ainda, o que exige muita dedicação e investimento do atleta e da Confederação, podemos chegar ao nível mundial. Ainda não estamos tão bem em relação ao resto do mundo, temos poucos representantes que conseguem trazer medalhas em Campeonatos Mundiais. Durante praticamente oito anos eu era o único atleta que tinha resultado a nível mundial. Na última edição do Mundial, nós tivemos outro atleta que conquistou medalha, o Vinicius [Figueira]. Isso mostra que o caratê brasileiro está evoluindo, mas nós ainda precisamos continuar batalhando para chegar ao Top 5 do mundo.

 

 

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Exemplos

 

olho9_200EE: Você participou do Pan do Rio, em 2007. Como avaliou a organização do Brasil numa competição esportiva de grande porte? 

DB: Olha, nós ficamos até espantados porque foi uma organização muito legal. Acredito que em todas as modalidades, na Vila Olímpica... Claro que sempre acontecem falhas, mas de modo geral foi bom, principalmente no caratê, onde tudo foi bem estruturado. Eu acredito que a tendência é o Brasil começar a evoluir na organização eventos, principalmente por conta da Copa do Mundo de Futebol que nós já tivemos. Para ano que vem, acredito que temos tudo para conseguir fazer um bom trabalho para os Jogos Olímpicos.

EE: O que acha que pode ser melhorado para as Olimpíadas do ano que vem? E no que o Pan pode ser um bom exemplo?

DB: É uma questão logística complicada. O Rio de Janeiro tinha a condição de trânsito bem difícil. Ao mesmo tempo, nós tínhamos sempre dois ou três batedores que abriam o caminho e não deixavam os atletas se atrasarem, nem para treino nem para competição. Isso foi uma iniciativa muito legal. Eu lembro que nos Jogos de Guadalajara não se teve isso. Acredito que aconteceram algumas outras falhas, é difícil agradar todo mundo, mas de modo geral acho que os Jogos Pan-Americanos do Rio foram muito bem organizados. A probabilidade dessa estrutura melhorar ainda mais agora para os Jogos Olímpicos é grande. O Brasil vai surpreender. 

EE: Para finalizar, qual sua posição sobre o doping no esporte?

DB: É um artifício inaceitável para qualquer atleta. Usar doping é como roubar para conseguir um resultado. Hoje sou membro da comissão de atletas da Federação Internacional e sou um cara que faz todas as campanhas. Sou totalmente contra o doping. Os atletas precisam tentar ser o mais limpos possível para que realmente possam se sentir vencedores de uma competição ou de uma modalidade.  

olho11_200EE: Para você, o esporte é essencial?

DB: Independente de você ser atleta ou não, o esporte e a competição criam e despertam alguns sentimentos importantes no ser humano, como superação. Independente do resultado, o fato de você ter superado seus limites faz com que esteja mais preparado para o dia a dia da sua vida. Então, acredito que realmente seja essencial por conta disso.

 

Entenda melhor o caratê


Fotos: Arquivo pessoal de Douglas Brose


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